ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Essoutro dia estava em casa, deitado na minha rede de imbira e vendo alguns vídeos do Youtube, com aquela preguiça proverbial de todo caeté que se preza e faz jus ao seu cocar. Ao passear por esses vídeos, acompanhei a história de um estudante pindoramense na gringolândia. Ele é estudante lá nos Zistados Zunidos, terra adotada do nosso conterrâneo Ñambiquara, Magnovaldo.

O curumim estudando lá, disse que estava meio que “atoleimado” (essa é uma homenagem à querida Violante Pimentel), como se usa cartão de crédito para pagar contas. Segundo ele, o garçom não leva a máquina até o cliente para ele passar o cartão e digitar a senha. De acordo com o depoimento dele, até a palavra senha é algo estapafúrdio nessas transações comerciais.

O moço relatou que não entendia como o garçom podia pegar o cartão do cliente, levar até o caixa, realizar o pagamento e retornar com o objeto e entregar ao cliente. Falou aos seus amigos gringos que no Brasil, jamais se faria isso, pois cartão possui senha, e o cliente precisa digitar essa para que o pagamento seja autorizado. A surpresa foi de ambos os lados: do brazuca que não entendia essa prática e dos gringos que não entendiam como cartão pode ter senha autorizativa para se pagar por um serviço prestado.

Nessa altura, meu espírito caeté já estava armando a trempe e esfregando o cavaco para acender a fogueira irracional que nos atiça cada vez mais depressa rumo à barbárie total. O pobre rapaz ainda não compreendeu que os de lá, diferentemente dos daqui, vivem em uma sociedade cujo contrato social é baseado na confiança e na boa-fé.

Essa característica marcante dos americanos é fruto da gênese de sua própria construção como nação, cujo lema é pacta suma servanda, ou seja, “Cumpram-se os contratos”. A base na boa-fé e na confiança com que aquela nação se estabeleceu como a maior potência do mundo é fruto de diversos fatores, mas acima de tudo, de uma ética de trabalho e de tratamento que dispensa intermediários, dispensa despachantes, dispensa burocracia e papelório, tornando os negócios mais fáceis, mais baratos e as relações sociais mais diretas.

Aquele contrato social baseado na confiança e na boa-fé, que funda os Estados Unidos da América, possivelmente é o elemento coesivo e mais firme daquela nação, isto porque todos tem como princípio de que o outro, sempre vai cumprir aquilo que foi contratado, independente de papel, carimbo, ou firma reconhecida. Como se dizia nos tempos do meu avô: um fio de bigode era mais que suficiente para que as partes cumprissem o que foi contratado.

Por isso mesmo, qualquer pessoa, país, organização, empresa, quando o mundo recebe um solavanco financeiro, correm para os títulos da dívida americana, pois sabem que, pode um meteoro cair no planeta, mas os Estados Unidos não vão deixar de cumprir e honrar os seus contratos. Esse é o diferencial da moeda americana e do próprio país. Podem árabes, russos, chineses, e mesmo os países cucarachas da América Latina espernearem contra o dólar como moeda transnacional. Enquanto o pilar da confiança e da boa-fé norte-americana estiver em pé, a moeda americana não será substituída nas transações internacionais.

Diferentemente de lá, em certo país abaixo do paralelo zero, gigante e bonito por natureza, vive-se o seu exato oposto. A sociedade pindoramense é baseada, essencialmente na desconfiança e na má-fé, partindo do pressuposto de que o outro sempre vai dar o golpe, vai passar a perna, e dar um passa-moleque no outro.

Nossa sociedade é baseada, no que eu chamo de sociedade cartorial, isto é, tudo, basicamente tudo o que fazemos é baseado na burocracia, na interferência de terceiros, nas toneladas de papel que precisamos apresentar quando vamos fazer qualquer negócio. Chegamos ao paroxismo de, para vender um carro, ação que só interesse às partes (comprador e vendedor), é necessário a interferência de um cartório que, para dizer que a minha assinatura é minha assinatura, cobra um valor alto, sem ter gerência alguma no negócio, mas leva a sua parte. Noves fora a safadeza dessa ação, o Estado brasileiro está dizendo nas fuças do cidadão: eu não confio em você e nem no seu nome, preciso de alguém que ateste isso, mas quero o seu dinheiro.

A sociedade cartorial de Pindorama, cheia de vias, de reconhecimento cartorial, de reconhecimento de firma, de selos de autenticidade de guias, não somente cria um emaranhado burocrático que encarece tudo à nossa volta, cria uma fauna que ganha muito dinheiro e não produz uma agulha de tricô, se sustenta dessa desconfiança inata do brasileiro e cria uma rede de privilégios para poucos.

Há alguns anos eu dizia que, em Pindorama, o melhor negócio era abrir uma igreja. Falsa lógica a minha. No Brasil, o melhor negócio é ter um cartório para chamar de seu, ou mesmo um detran. São os dois órgãos que mais arrecadam e ganham dinheiro na sociedade brasileira. Se tivermos curiosidade e fizermos uma análise paralela, poderemos ver que um cartório, ou uma agência de detran arrecada mais dinheiro que uma rede de supermercado, em um único dia de funcionamento, mesmo essa rede de mercado gerando mais riqueza, empregando mais gente e gerando mais prosperidade.

Assim, voltado àquele curumim curiboca que estuda nos zisteites, fico a pensar quando ele irá compreender que viver em uma sociedade baseada em contrato de confiança e boa-fé é bastante difícil para quem está acostumado à barbárie e a desconfiança mútua de Pindorama.

19 pensou em “CONTRATO SOCIAL

  1. Caro caeté Roque Nunes, isso que o senhor comentou é uma das maiores chagas de nossa sociedade. Como advogado sofro como poucos o peso da burocracia.
    Para uma simples petição de alvará judicial temos que enfrentar um aparato Kafkiano de burocracia e autenticações cartoriais de fazer arrepiar os cabelos do Kojak (esse é das antigas..). Resultado de uma sociedade de safados e metidos a espertos.

    • Isso que o nobre causídico Pablo Lopes está confirmando é a mais pura e cruel verdade.

      Deixei de ser Corretor de Imóvel para não ter um terceiro infarto e ficar inamovível, dependendo de outrem para se-me locomover, tamanha era, e é a burrocracia cartorial para se registrar um imóvel.

      Na lei a prática é cruel!

    • Meu caro doutor. Vivi isso quando fui pedir minha elevação de nível no serviço. Mesmo o Código Civil dizendo que órgão público não pode negar fé a documento expedido por outro órgão público, sofri com autenticação “por verdade”, carimbos e selos. Uma selva de safadeza e burocracia.

  2. Excelente ponto !
    Não bastasse ainda toda essa papelada cartorial , ainda temos que conviver com “ aquela caixinha “ especial para fazer o processo andar mais rápido . Nunca sairemos disso , infelizmente.

    • Aí meu caro Marcelo, quando digo que a fogueira anticivilizatória dos caetés ainda arde em nossa alma, alguns bugres desta terra me chamam de atrasado e entreguista.

  3. Eita caeté porreta. A única rede que entro, atualmente, é saporra da Net e ainda assim pra trabalhar, com essas breves exceções de fuxicar nesse espaço escroto. Rapaz, a gente precisa aprender muito. Esse negócio de “cumprir contrato” é “felomenal” e as pessoas não entendem que as cláusulas são escritas, inicialmente, na consciência de cada um..
    O futuro prefeito, Neto Feitosa, contou certa feita o “causo” de um caboclo que ia pagar US$ 33 mil num carro pra um galego dos zistados zunidos e o cabra comentou que ia pagar imposto porque a venda ultrapassava a faixa tributária dele, mas o caboclo foi logo oferecendo a alternativa: eu te pago X por fora. E o galego arrespondeu: e por que eu faria isso?
    Lá, o cabra entrega o cartão e algumas vezes o vendedor chega e diz “seu cartão não autorizou. O Sr tem outro?”…..aqui, com esse negócio de aproximação, rapaz o que de cabloco desesperado com compras que não fez….
    Dia desses, eu recebi uma ligação de cartão porque tinha uma compra de R$ 1.800,00 feira noutro estado. Bloquearam o cartão e mandaram outro. Aí eu fui pagar uma revisão no carro e não passou. Tentei de novo não passou e usei outro e passou. Depois recebi um comunicado que meu cartão tinha sido bloqueado por uma compra que não está no meu perfil..
    Depois a operadora pediu desculpas e disse que eles trabalham muito na questão de segurança porque os caras são muito criativos. Qual o problema disso?
    Impunidade: lá, se o cabra passar um cheque sem fundo, usar o cartão de outro, vai pra cadeia e não tem essa de STF pra soltar. Aqui, você rouba milhões e não acontece nada. Pode até virar presidente. Aqui, ladrão que rouba pouco, se for funcionário público é demitido. Um PRF recebeu uma propina de R$ 30,00 e foi demitido. A sentença explicava que ele tinha aumentado o patrimônio em R$ 30,00..

    • É meu caro Potiguara, Maurício Assuero, mago das finanças e dos dinheiros. E ainda sonhamos em ser um país de primeiro mundo. Não dá. Não tem como. São essas cracas encrustradas em nosso espírito o grande freio de mão puxado. Se não somos fieis a essas cláusulas morais inscritas na mente e na alma, em que mais seremos…..

  4. Roque, há muito eu digo que o Brasil se organiza sob o martelo do Judiciário. É o segmento social mais bem planejado e coletivista que existe em nosso país.
    De um simples cartório na mais humilde cidade, ao castelo de mármore do STF em BSB.

    • Arranjo bem ajustado para funcionar à perfeição e condenar o país ao atraso, ao jeitinho, à malandragem e à falta de ética contratual. Pensemos no século 22, porque este já está perdido.

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  6. Pois é, Roque, meu querido conterrâneo.
    Realmente aqui nos Zisteites – e em vários países de respeito, como o Canadá e a Inglaterra – a palavra vale tanto quanto um documento escrito. Não existe cartório, essa excrescência abominável. Quando muito, em alguns documentos muito importantes, como uma escritura de um imóvel, por exemplo, existe uma “notarização”, que é uma espécie de reconhecimento da validade do papel. Notários são cidadãos que não nunca tiveram nenhum entrevero com a Lei e que têm autorização para “notarizar” um documento. Ou seja, garantem, com um carimbo e uma assinatura, que você é você mesmo. Para se “notarizar” um documento você tem que apresentar uma identidade e assinar o documento na frente do Notário. Em praticamente todas as agências bancárias há pelo menos um funcionário habilitado para tal. Essa licença é renovada a cada período, de dois ou de quatro anos, dependendo do Estado. Se você é cliente do Banco essa “notarização” não lhe custa nada. Mas existem notários avulsos em todas as cidades, que cobram normalmente 10 dólares pelo serviço.
    Para a venda de um veículo basta você rabiscar sua assinatura no verso do certificado de propriedade. Nada mais!
    Para você medir o nível da burocracia aqui, lembro-me de quando requeri minha aposentadoria americana: entrei no “site” da Social Service Administration e recebi a confirmação da minha aposentadoria após exatos 8 minutos no computador, já informando o valor e os dias de pagamento – no meu caso, todas as terças quartas-feiras dos meses! Para me inscrever no Medicare (o INSS daqui), não levei metade desse tempo. Não precisei da ajuda de ninguém para tal – apenas tive que responder algumas perguntas.
    Cartões de crédito não têm senha. Os cartões de débito, com os quais você acessa sua conta-corrente no Banco, somente têm senha para sacar dinheiro em Caixas eletrônicos ou no balcão do Banco – em quase todos os supermercados, na hora de pagar, você pode solicitar algum dinheiro de “troco”, normalmente de 20 a 100 dólares, se você pagar com cartão de débito, mas mesmo assim não é necessário nenhuma senha. E, também sem senha alguma, pode ser utilizado como cartão de crédito – a única diferença é que a despesa cai na sua conta no dia seguinte e não na data estabelecida.
    Se você tiver seu cartão roubado, dê uma ligada pro Banco e eles querem saber de sua boca as contas que você confirma que são suas. Todas as demais são imediatamente canceladas no ato. Há 8 anos atrás um funcionário do Chase, que emitiu meu MasterCard, roubou dados de Clientes, entre os quais os meus. O próprio Banco entrou em contato comigo. Desde o dia em que os dados foram roubados, todas as despesas que ocorreram foram anuladas sem que eu sequer tenha tido conhecimento delas. Quando recebi a fatura mensal verifiquei que cêrca de 5 mil dólares foram zerados de minha conta. Liguei de volta para dizer que algumas poucas daquelas despesas eram minhas de fato. Mas o Banco as assumiu, dizendo que isso era um serviço do próprio Banco para compensar o contratempo que eu tive, assumindo a culpa por ter em seu quadro funcional um funcionário desonesto.
    Há problemas com gente safada? Claro, mas são em um número bem menor que na Tupinicândia.
    Grande abraço, bom final de semana, muita saúde e paz.

      • Seja benvindo, Jesus. Aparecendo por aqui não se esqueça de entrar em contato. Tudo será feito para Vossa Mercê ser servido. Abração potiguar.

    • Que lugar chato deve ser esse iztêitiz!
      Não tem a emoção de banânia. Para Abrir uma conta no banco: identidade, CPF, CTPS, reservista, título de eleitor, comprovante das últimas cem votações, certidão de nascimento, casamento, comprovante de endereço, de renda, últimos trinta exames de sangue, fezes, urina, atestado de sanidade, dezoito formulários preenchidos e assinados com firma reconhecida, declaração do imposto de renda, cartão do SUS além, claro, de cópia autenticada de todos os documentos acima. E ai se o selo não estiver no quadradinho correto!
      Até mais pra vocês, vou pra fila da Caixa porque segunda, quando abrir a agência, tenho que cadastrar o exame de urina cujo resultado saiu semana passada senão bloqueiam a conta. Fui!

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  9. Parabéns pelo excelente texto querido amigo Roque Nunes!
    Obrigada pelo carinho da referência à minha pessoa!
    “Atoleimado” fiquei eu, ao me inteirar das diferenças entre a simples burocracia dos “Zistados Zunidos” e a burocracia do nosso País, onde reinam a barbárie e a desconfiança mútua.
    Grande abraço!

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