Glosas deste colunista com o mote do poeta Du Leal:
Só quem é sertanejo tem noção Da riqueza no tempo d’invernada.
O assobio do vento me chamou D’entre as varas tiradas de um pereiro Separando os limites do terreiro Que papai, como cerca, amarrou. Lá pr’as bandas da serra clareou Uma tira de luz muito afilada Precedeu ao senhor “pai da coalhada” Expulsando no grito a aflição Só quem é sertanejo tem noção Da riqueza no tempo d’invernada.
Se o clima seguiu muito abafado Num instante o calor senti passar No segundo seguinte ouvi cantar O encanto da chuva no telhado. Todo ancho, bastante animado, Me postei sob a lata arreganhada Pelos anos já muito enferrujada E que o tempo mudou-lhe a profissão Só quem é sertanejo tem noção Da riqueza no tempo d’invernada.
Eu e tu numa redinha Num vai e vem compassado Ouvindo o canto de um torno Em um gemido arrastado Enquanto pela janela Vem beijar tua face bela Um ventinho assoprado.
Assoprado do nascente Depois de lamber o mar Trazendo na brisa fria Um quê de “te quero amar” E o meu pé na parede Empurra a nossa rede Fazendo um torno cantar.
Cantar de pura alegria Por nós dois ali deitados Tu dormindo no meu peito Eu com meus olhos fechados Cheirando os teus cabelos E todo ancho por tê-los Sobre o meu peito assanhados.
Assanhados pelo vento Entrando pela janela Refrescando o fim da tarde Enquanto o torno à capela Vai seu lamento cantando Gemendo e nos balançando Numa cantiga singela.
Singela feito teu rosto Tão belo sobre meu peito Descansando do amor Há pouco na rede feito Invejado pelo vento Que o torno sem movimento Até chamou de perfeito.
Perfeito feito o quadro Dos dois pares de calçados Esquecidos sob a rede Uns sobre outros deixados Largados sobre o tapete Ouvindo o torno em falsete Como dois apaixonados.
Toda mata festeja quando pinga Uma gota de chuva no Sertão.
Num começo de noite abafada Um clarão se acende sobre a serra E dos céus, almejando essa terra, Caem pingos descendo em disparada. É o começo de uma invernada Orquestrada no ronco do trovão Alegrando com o som da explosão Tudo quanto respira na caatinga Toda mata festeja quando pinga Uma gota de chuva no Sertão.
Qual seria o conceito mais exato para “negacionismo”?
Negar a verdade contida naquele discurso contrário ao nosso, ou não aceitar o nosso próprio discurso estando caolho no debate?
Desde quando passamos a dar mais crédito à Ciência da Conveniência, e abortamos de fato a razão da verdadeira razão?
Por que as nossas meias verdades devem ser promovidas sobre a verdade factual?
Desde quando nos perdemos na necessidade de expormos nossos conceitos observando apenas um sentido do trânsito na avenida das informações?
De quem partirá a quebra do egoísmo e do infame propósito em se mostrar certo nessa tétrica queda de braços entre duas mãos agarradas sobre uma mesa de disputa se sustentando na força de meias verdades?
Como pode alguém ser presunçoso, de tal forma, a se achar verdadeiro quando segue movido pela emoção do fanatismo e na leitura incompletas?
Oh! Como é paradoxal se sentir verdadeiro, quando amparado e alocado também em meias mentiras.
Quem será humilde bastante para reconhecer que sua mão deve largar a outra nessa briga, esquecer e abandonar seus discursos quebrados e juntar a sua meia verdade à meia verdade da outra mão na construção de uma verdade completa?
Já não nos importa os velhos conselhos. A união deixou de fazer a força. O povo desunido está sendo facilmente vencido.
Cada um, no fundo, negando a si mesmo o direito à razão e ao debate pleno de conhecimento.
Eis o mais completo conceito de negacionismo.
Entretanto, uma coisa não poderemos negar no futuro: todos seremos cobrados por nossas falas, atos e, até, por nossas omissões.
Porque Deus não pode Se negar em cumprir Sua palavra. E quem O nega, no fundo se nega e sonega a Verdade.
Eu digo a vocês: quando todos estivermos amordaçados, será tarde demais para ouvirmos uma gargalhada ou, até, o som de um grito.
A beleza do canto será abafada e, talvez, vejamos todas as flores cinzas.
O alvorecer e o pôr do sol terão cores opacas. Ambos serão vistos por olhos tristes – quiçá esbugalhados – através de um quadrado enferrujado e sem sentido.
O vento não assobiará sobre os telhados. Mas, será calado por trás do mofo de algumas paredes; as dos quartos mal lavados.
O mar se transformará apenas em uma tênue lembrança, e o céu… Ah, o céu! O céu estará ainda mais distante. Tanto quanto o mar. Porque ambos, mar e céu, serão ferramentas inalcançáveis no desejo de fuga e na esperança da oração, sem que adiante sequer a tentativa da reza, ou algum lamento por nossos mortos; pois, as nossas vozes terão se perdido antes, barradas no tecido da mordaça.
E a liberdade sonhada para todos nós – para todos nós – será um benefício apenas para eles. Apenas para eles…
Os mesmos que deram os nós no tecido da mordaça, por trás das nossas nucas, transformando nossos gritos em inaudíveis sussurros cansados das nossas dores e os nossos risos em lágrimas.
As mesmas lágrimas salgando as nossas mordaças.
Mas eles não saberão do que sabemos nós: enquanto há lágrima, há também esperança.
Mesmo com uma mordaça apertada, longe do mar, distante do céu.
E já ninguém cita mais Bertolt Brecht (1898-1956), tampouco seus escritos.
É diante de tantas ações questionáveis ao direito da liberdade de sorrir e de pensar, de sentir e de falar, que eu invoco Brecht em seu poema sobre liberdade.
Ei-lo:
Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável Depois agarraram uns desempregados Também não me importei Agora estão me levando Mas já é tarde Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo.
Dedicado ao meu amigo de infância Marcos de Totinha, patrimônio humano da nossa terra
Foto enviada por @luciaspeedwoman
Tua guitarra não tem braço, não faz solo, Não tem casas, não tem trastes, nem pestana, É sem corpo, sem escudo, mas se flana Escorada no teu peito, em teu colo. Se tu dizes “este som eu desenrolo” Com certeza tua mente em melodia Faz um solo de perfeita harmonia Sonho acorde musical, de som divino Dedilhado desde os tempos de menino Na guitarra da inocência e da alegria.
Se há quem ouça nesse som uma heresia Paradoxo da inocência contra fatos E preferem te julgar por certos atos Eu escolho te ouvir na apostasia. Tua guitarra imaginária apenas guia Os teus passos e compassos inocentes Se teus solos não se fazem tão presentes Certamente os teus sons contêm pureza Da tua alma recheada de beleza E das dores que eu sei ainda sentes.
Aos poucos a gente vai percebendo que o muito importante é estar bem.
Que a verdadeira alegria traz sorrisos ao coração, e refrigera o espírito.
Que simples gestos são sofisticados demais para a compreensão de quem só acha a vida não seguindo além do último suspiro.
Que cheiros, sabores e lugares são elevados pelo poder de encantamento da pessoa nos acompanhando.
Aos poucos a gente vai percebendo que a vitória do time – ou do partido – não é nada diante do choro de muitos perdidos na possibilidade e na falta de esperança.
Que não é a cor da pele, ou a deidade adorada, a tradução da bondade e do caráter de alguém. Tampouco com quem ele deita à noite para sentir prazer.
Que não importa o bairro, o valor, ou o tamanho do apartamento. Mas se é um lar harmônico.
Que o valor de um carro pode ser medido pelas mentiras ocultadas em seu interior. Custa exatamente o valor moral do seu dono.
Que a dignidade é algo da alma, nunca da sala de estar atapetada, com móveis em madeira de lei, belas cortinas e quadros caros em suas paredes.
Que não importa o valor da mesa, da porcelana, do preço do prato, se a comida servida é fruto do desespero de alguém sem mesa, ou sem louça.
Que o lamento antecede o sorriso, mas que uma gargalhada pode vir antes de uma lágrima, e o tempo cura ambos: sorriso e lágrima.
Que o sobrenome importante não vale mais, se as atitudes praticadas exigem esconder o nome.
Que a embriaguez é tão saudável quanto a sobriedade, quando ambas nascem arrumadas na felicidade.
Que o tecido fino é a mesma coisa que o algodão trançado em grosso fio. Ambos encobrem intimidades.
Que uma légua andada por pés descalços, não tem a mesma distância se for vencida por pés em sapatos. Porém, ensina muito mais.
Que a loucura – ah, a loucura! – empresta à vida o que a lucidez dá de graça à arte, e a sanidade não pode ser contada maior que a loucura.
Que o perfume não é mais saudável que o banho.
Que o sonho não é produto do sono.
Que a paixão e o amor não vivem para a compreensão.
Que a vaidade é como uma armadilha projetada para quebrar a perna de quem a arma, ou como um fogo que só pode sair pela culatra.
Que a doçura não se perde por mais que possa ser desprezada por alguém.
Aos poucos…
Aos poucos a gente vai percebendo.
Aos poucos a gente vai percebendo que o muito importante é estar bem.
És maravilha de encanto Em canto, versos e prosa Bebida maravilhosa Para o meu paladar santo. Quero cobrir-me com o manto Do teu cheiro, teu sabor Aquecer-me em teu calor, Ao acaso fumaçando E caso o caos ajudando Quero te chamar de amor.
Quero sentir teu olor Despertalar teu segredo Um a um, logo!, bem cedo Quero cheirar tua flor. E se abençoado eu for Tua pétala mais discreta Guardarei na mais completa E perfeita discrição Pondo cor no coração Deste teu pobre poeta.
Quando se apagou a chama E o nosso amor fracassou Você sem pensar jogou Meu sobrenome na lama. A paixão ficou na cama Acabrunhada e doente Nos travesseiros da gente Um sobre o outro colados Respirando apaixonados Desentendendo o presente.
Não entendem o presente Porque são acostumados A nos verem agarrados Em um abraço envolvente. Se de nós jorrava enchente De suor, gozo em volume Quando surgiu o ciúme Restaram aos travesseiros A presença de dois cheiros Odorando um só perfume.
Se um único perfume Perfumava a nossa cama Nosso amor virou um drama E o cheiro virou chorume. Travesseiros sem queixume Desconhecem nosso enredo Não sabem que era cedo Para eu chorando ceder Se eu temia lhe perder Te perdi perdendo o medo.
Enquanto solto os meus ais Sua chegada aguardando Sinto o meu peito apertar Sinto meus olhos chorando Sinto que eu estou perdido Porque não tenho sentido Que você está chegando.
Enquanto fico esperando Chegam dores abissais Chegam tantos pesadelos Chegam lágrimas brutais Pois, dentro desse enredo A saudade chega cedo E você não chega mais.