Arquivo diários:9 de outubro de 2026
DEU NO JORNAL
VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO
TEM GENTE!
Era dia de eleições municipais. Nas cidades do interior, os caminhões começavam a transportar, ainda pela madrugada, os eleitores da zona rural, que votariam nas zonas eleitorais da cidade.
Nesse tempo, as cabines de votação eram verdadeiros quartinhos fechados, e o voto era mesmo secreto. O eleitor ficava mais à vontade, para votar.
Muitos eleitores da zona rural só sabiam assinar o nome. Eram semianalfabetos e os votos eram de cabresto, fiscalizados pelos políticos e donos de propriedades rurais, onde eles trabalhavam. Era fácil votar, pois bastava colocar um “X” no quadrinho ao lado do nome do candidato escolhido e depois colocar na urna eleitoral. A apuração dos votos era manual e demorada. O resultado das eleições somente era divulgado, no mínimo, dois ou três dias depois.
Para votar, a matutada vinha para a cidade, vestida com a melhor roupa que tivesse. Os homens que tinham paletó, iam votar todos enfatiotados. O dia da eleição era um dia de festa, nas cidades do interior.
Em Nova-Cruz (RN), a prefeita em exercício abria as portas de sua enorme casa, oferecendo ao eleitorado de cabresto, comida farta, ponches e água para beber, à vontade.
Da mesma forma, acontecia na casa do candidato da oposição. Era o dia em que a pobreza aproveitava para se empanturrar de comida, tirando, literalmente, a barriga da miséria.
Havia eleitores inescrupulosos, que aproveitavam o dia da fartura e enchiam a barriga, exageradamente, com tudo o que havia de comida boa, nas casas dos candidatos dos partidos da situação e da oposição. O PSD e a UDN eram os partidos principais. Os eleitores chegavam a se empanzinar com tanta comida. Essa fartura durava até o fim do dia. Ainda havia almoço farto, em algumas casas de outros cabras eleitorais dos dois partidos.
Havia, nesse tempo, as fraudes de se entregar a chapa ao eleitor já marcada, como também de se trocar a chapa que o eleitor levava para lhe servir de modelo, por outra do outro partido, com o nome do outro candidato. Essas fraudes eram feitas por pessoas que faziam “boca de urna”.
Fora isso, ainda havia as famosas “BREJEIRAS”, nome que se dava ao “roubo” de urnas, depois do encerramento das eleições. Essas “brejeiras”, onde os votos eram trocados, eram chefiadas por verdadeiras quadrilhas, especializadas em fraudes eleitorais, compostas por “gente grossa”, incluindo políticos e advogados.
Conta-se que em uma conhecida cidade do interior nordestino, um matuto entrou na cabine para sufragar o seu voto, sentindo cólicas intestinais. Não deu tempo de olhar para a chapa, e só lhe restou se acocorar e evacuar ali mesmo. Para se higienizar, fez uso da chapa eleitoral onde teria que marcar seu candidato com um X e de santinhos de diversos candidatos, que trazia no bolso.
Quando o mesário bateu na porta da cabine, avisando que seu tempo de votação havia se esgotado, o eleitor gritou:
– TEM GENTE!!!
Assustados, os mesários aguardaram alguns segundos e o jeito foi usarem a força para abrirem a porta da cabine.
O eleitor saiu feito uma flecha, atropelando tudo o que estava pela frente.
Imaginem como ficou a cabine de votação!!!
DEU NO JORNAL
BRIGUEM MUITO!
DEU NO JORNAL
PACIFICAÇÃO NACIONAL NÃO VIRÁ COM “ACORDÕES”
Editorial Gazeta do Povo
Coincidência ou não, logo depois da vitória da direita no primeiro turno, especialmente na eleição para o Senado, o sistema persecutório que tanto abusou das liberdades e garantias individuais nos últimos anos “virou a chave”: Alexandre de Moraes arquivou processos contra os jornalistas Oswaldo Eustáquio e Allan dos Santos, e concedeu regime semiaberto à cabeleireira Débora; e o procurador-geral Paulo Gonet deu parecer favorável ao pedido de Jair Bolsonaro para que receba a visita do filho Flávio. São medidas que, muito provavelmente, não passam do mero cumprimento da lei, mas que destoam completamente da prática recente do ministro e da PGR.
Antes das eleições, um “grande acordo nacional” (nas imortais palavras de Romero Jucá e Sérgio Machado) tinha sido costurado entre STF, Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre para garantir a proteção mútua, e o Supremo entrou em “modo sobrevivência” dobrando a aposta nos abusos e na blindagem, como demonstrou a pavorosa sessão de 15 de setembro e as decisões de ministros da corte, especialmente Flávio Dino e Gilmar Mendes, que interferiram diretamente na campanha eleitoral. Mas ninguém contava com o que saiu das urnas em 4 de outubro. Estaria o abusivo sistema persecutório instalado na PGR e no Supremo testando uma nova versão do “modo sobrevivência”, entregando anéis para não perder os dedos, em busca de refazer o “grande acordo nacional”, desta vez com os prováveis futuros vencedores de outubro?
O velho cacique do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou que o partido, agora com uma inédita bancada de 29 senadores, lançará Rogério Marinho para a presidência do Senado, mas evitou uma posição mais enfática sobre o impeachment de Alexandre de Moraes, afirmando em entrevista à CNN Brasil na segunda-feira que “isso tem de ser discutido”. O próprio Marinho, no entanto, felizmente foi menos escorregadio. Após uma reunião com o presidente do Supremo, Edson Fachin, na terça-feira, o senador disse a jornalistas que “não haverá vingança dos bolsonaristas contra os ministros, mas também não haverá omissão”.
Impeachment, ao contrário do que dizem os defensores de Moraes e outros ministros, não é vingança, nem golpe, nem autoritarismo: é instrumento previsto na Constituição para membros do Supremo Tribunal Federal que cometem crimes de responsabilidade, abusando da importante posição que ocupam. E crimes de responsabilidade não faltam no conjunto da obra dos supremos ministros, não apenas de Moraes: as relações indecentes com o banqueiro Daniel Vorcaro e as tentativas de escondê-las do resto do país; o estabelecimento de um Estado policialesco e perseguidor; as violações da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e do devido processo legal; os processos políticos e as condenações por crimes inexistentes ou que, mesmo planejados, não chegaram a ser tentados. Moraes está longe de ser o único a ser enquadrado em ao menos um dos itens do artigo 39 da Lei do Impeachment.
Mas impeachment sem a exposição de todos os abusos cometidos corre o risco de se tornar uma empreitada no mínimo mal compreendida, e no máximo frustrada pela pressão de partes da opinião pública contra o que pode, sim, ser entendido como vingança. A Gazeta do Povo tem insistido que muitos democratas sinceros, por razões as mais diversas, mesmo criticando os ministros pelos desdobramentos do caso Master e pelo esforço de autoblindagem, continuam sem perceber a enorme gravidade de tudo o que foi feito ao longo dos últimos sete anos e meio (se tomarmos como ponto de partida a abertura do inquérito das fake news). E por isso seguiremos reforçando a necessidade de outro instrumento parlamentar fundamental para a pacificação do país: a CPI do Abuso de Autoridade na Câmara, que só não foi instaurada porque Motta seguiu Alcolumbre na covardia. Ainda que o principal incentivador da CPI, o deputado Marcel van Hattem, já não esteja na Câmara a partir de 2027 por ter sido eleito para o Senado, não faltarão deputados capazes de assumir o bastão, e oxalá tenhamos também um novo presidente da Câmara com a coragem de fazer o que precisa ser feito.
Que fique muito claro: o brasileiro não elegeu senadores e deputados para vinganças irracionais, mas também não os elegeu para fazerem “acordões” que preservem ministros indignos de seus cargos em troca de algumas concessões, como a saída (por impeachment ou renúncia) apenas de Moraes e a libertação de alguns dos brasileiros injustamente presos. A promessa feita por Marinho, de não se omitir, inclui o dever moral de não deixar impune quem precisa ser punido. Qualquer “acordão” enviará ao país a mensagem de que o abuso compensa, e não a mensagem de que o país não deseja nunca mais retornar aos dias de juristocracia, dias em que o império da lei foi substituído pela vontade de alguns poucos magistrados. Isso não trará nem pacificação, nem normalização democrática; que os novos senadores tenham consciência disso e não se acovardem quando chegar o momento para o qual foram eleitos.
PENINHA - DICA MUSICAL