CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARIEL REIS – RIO DE JANEIRO-RJ

Casa-cadáver

É uma casa que respira. Desde a minha infância, ela está diante do garoto que parece indeciso para entrar em seu quintal. Há árvores frutíferas intactas. Os pássaros e os morcegos a desprezam. Nenhum garoto sobe em seus galhos para recolhê-las, apesar de toda a disponibilidade. Sempre estou diante dela, arfante, sincronizando a nossa respiração, recusando os frutos, atraído pelo odor leve e familiar. Às vezes, tenho a impressão de ver em uma das janelas alguém com quem convivi. Se estou acompanhado, peço ao companheiro que verifique, sem resultado. Ele não vê o imóvel, nem a janela, nem a paisagem em que tudo está reunido, achando que a minha imaginação é responsável pelas visões.

Tenho cinquenta anos, mudei de bairro muitas vezes e, sempre que ponho os pés na rua, a casa está lá. Aumentada, com mais cômodos, novas portas e janelas. Como se estivesse recebendo novos moradores ao longo do tempo, projetando em sua arquitetura eclética os gostos que, em vez de a tornarem bizarra, lhe conferem uma beleza pitoresca. O cheiro mudou. Os materiais também. É perceptível a diferença de texturas sem contradição. No quintal, há um pequeno cão, agora. Dependendo de nossa proximidade do muro, ele parece maior ou menor, feroz ou inofensivo. As árvores estão cuidadas. Alguém colheu seus frutos. Porém, tinha um aspecto mais assustador que na primeira vez em que as vi. E há uma bolha na nova pintura, parecendo um olho que se move por ela quase sem parar.

No nosso último encontro, não resisti e entrei. A ordem do local não importa. Logo estava diante da porta. A bolha parou acima do batente. Era um olho. E havia roupas nas paredes. Colaram, sem método, vários trajes nas paredes, como numa instalação. Descobri um vestido entre as peças e o olho correu até lá, adquiriu aspecto feminino e uma pequena voz cortou o ar como um silvo agudo, começando uma conversa agradável. Procurei uma fresta ou alguém escondido em uma travessura, mas não encontrei ninguém. Deslizei as mãos novamente e parei em um macacão de jardineiro. Em velocidade surpreendente, o olho se deslocou e assumiu a característica equivalente à vestimenta, não sem antes a outra voz se enfraquecer até sumir. Tomou outra forma e o silvo encorpou-se rústico e a conversa cresceu.

Não lembro de nada que ouvi. A minha retirada foi lenta, porque meus sentidos custavam a compreender tudo e podia ser um delírio perigoso. Casa-cadáver? Mas por que suas peculiaridades estão fundidas? Por que todo o resto das particularidades desapareceu? Quando terá começado o monstro? Como fez suas vítimas? Dificilmente surgiria uma resposta. Olhei para o terreno ao lado: havia uma moça também estudando uma residência semelhante, perplexa, entretida em uma conversa mais longa e respeitosa com uma indumentária nobre. Não parecia assustada. Ela saiu do transe, percebendo que estava sendo notada, acenou e sorriu. Simpática. Retribuí o gesto. Quando caminhei para a rua, deixando o lugar, resolvi esperá-la. Pode ser que a convide para um café.

ALEXANDRE GARCIA

EMPRESÁRIO AMIGO DE VORCARO MOSTRA QUE APRENDEU COM OS “ANÕES DO ORÇAMENTO”

empresario loteria banco master daniel vorcaro

MP-SP suspeita que empresário ligado ao Banco Master usava loterias para lavagem de dinheiro

Vocês ainda se lembram dos “anões do Orçamento”? Tinham esse nome porque eram todos baixinhos. O deputado João Alves era o líder desse grupo, que metia a mão nos milhões do orçamento, do dinheiro dos seus impostos. Para justificar a fortuna que ele tinha amealhado, dizia que havia ganho na loteria umas 200 vezes. O também deputado Miro Teixeira denunciou que, segundo a Caixa, Alves tinha ganho 24 mil vezes em cinco anos. Ele acabou renunciando ao mandato para não ser cassado e ficar inelegível. Isso aconteceu há mais de 30 anos.

Pois agora surgiu uma cópia de João Alves: um empresário ligado a Daniel Vorcaro, Antônio Carlos Freixo Júnior, diz que ganhou 570 vezes na loteria, e que isso lhe rendeu R$ 176 milhões, segundo o Ministério Público de São Paulo. Vocês notaram que, desde que o Supremo “lavou” a Lava Jato e fez Lula virar ficha limpa, todos entenderam que a corte deu luz verde para a corrupção? Nesses últimos quatro anos, a corrupção subiu em todos os lugares. Venda de almas e de favores, corrupção de funcionários do público fazendo advocacia administrativa, se omitindo, fingindo que não veem, e isso em toda parte.

* * *

PT vai inventar interferência americana para tentar melar a eleição

Muita gente está preocupada e lançando suposições, porque Lula sentiu que a brisa da mudança está virando vento. As pesquisas mostram que a campanha dele vai mal. Um amigo argentino que acompanha a disputa aqui me disse que Lula está desatualizado, fora de moda, que essa campanha parece que não ser feita para jovens, porque repete as mesmas lenga-lengas de sempre e os jovens que trabalham com redes sociais querem coisas mais rápidas. Lula não admite que possa perder para um candidato jovem, e por isso começou a espalhar que Trump está interferindo. Como assim? O que Trump pode fazer? Não pode fazer nada. Eu não vi nas redes sociais nada de diferente, que me convencesse a mudar voto.

Muita gente acredita que isso é uma preparação, em conluio com os amiguinhos do Supremo, que sabemos quem são, para atrapalhar a eleição se houver a percepção de que Lula vai perder, talvez até no primeiro turno. Deixo o aviso para nos acautelarmos contra as invenções desses últimos dias, porque agora faltam menos de duas semanas para a eleição.

* * *

Brasil se retira antes de discurso de Netanyahu na ONU e passa vergonha

Que vergonha passamos na ONU! A delegação brasileira se retirou do plenário porque o chefe de governo de Israel ocuparia a tribuna. E Netanyahu, quando viu essa retirada, ainda questionou: “Algum covarde ainda não se retirou? Por favor, se retire”. A delegação brasileira foi uma das que se retiraram, como já tinha feito no ano passado e em 2024, por ordens do governo Lula. No discurso, o presidente fala em multilateralidade, em paz com todo mundo, mas faz uma coisa dessas. Nenhuma novidade: com Lula, a fala é sempre diferente da prática.

* * *

Milei disse verdades na tribuna da ONU

O que teve muita repercussão nos jornais brasileiros foi o discurso de Javier Milei. Ele disse umas verdades: que a ONU é inútil, que não tem evitado guerras, que é um bando (e isso eu vi lá, quando estive na sede da ONU) de burocratas de nariz em pé. Cada vez que muda um secretário-geral, ele traz o seu trem da alegria, o pessoal do seu país de origem, apaniguados políticos que ficam lá o resto da vida sendo sustentados pelos países filiados da ONU, sem efetividade, eficácia ou eficiência. Estão lá para aplaudir e fazer reuniões.

Foi um discurso efetivo. Milei falou das Malvinas, falou da atração de investimentos para a Argentina, mostrou o que a Argentina tem, e aproveitou para fazer a crítica correta, porque a ONU estava cheia de boas intenções, quando de sua criação dela. Mas depois… Eu cobri guerras no Oriente Médio, e em alguns lugares – não era o caso das tropas brasileiras, mas de militares de países europeus – eu só vi os boinas azuis, ou capacetes azuis, em barzinho tomando cerveja.

DEU NO JORNAL

BOTARAM NO FURICO DOS CUMPANHÊROS

Candidatos à reeleição pelo Psol em São Paulo, a deputada federal Luciene Cavalcante e o estadual Carlos Giannazi esconderam Lula, Haddad, Tebet e Marina.

Foram 700 mil panfletos sem a cara da turma.

* * *

Botaram pra lascar.

Bem no olho do furico dos comparsas.

Nem os parlamentares esquerdóides estão aguentando mais as cagadas lulo-petralhas.

Que notícia boa!!!

É pena que não tenham vergonha na cara suficiente pra deixar a quadrilha.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A FESTA DA NATUREZA – Patativa do Assaré

Chegando o tempo do inverno ,
Tudo é amoroso e terno ,
Sentindo o Pai Eterno
Sua Bondade sem fim .
O nosso sertão amado ,
Estrumicado e pelado ,
Fica logo transformado
No mais bonito jardim .

Neste quadro de beleza
A gente vê com certeza
Que a musga da natureza
Tem riqueza de incantá .
Do campo até na floresta
As ave se manifesta
Compondo a sagrada orquestra
Desta festa naturá .

Tudo é paz , tudo é carinho ,
Na construção de seus ninho ,
Canta alegre os passarinho
As mais sonora canção .
E o camponês prazenteiro
Vai prantá fejão ligero ,
Pois é o que vinga premero
Nas terra do meu sertão .

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

DEU NO X

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM DOUTOR DE PRINCÍPIOS

Na juventude, Petrúcio encantava às jovens. Ainda hoje, esbanja charme. As mulheres suspiram admirando o porte de homem atlético. Vendo-o jogar no Jaraguá Tênis Clube.

Em sua carreira de médico tem comportamento exemplar, nunca correspondeu aos assédios das clientes, é respeitador, ético em sua profissão, jamais se envolveu com alguma paciente.

Certa tarde em seu consultório, apareceu nova cliente, Caterine. Ao entrar, a bela mulher passou o olhar em volta, ambiente limpo e bem decorado. Sorriso nos lábios cumprimentou o doutor.

– Já nos vimos, jogando tênis, não é? Qual o problema? – Perguntou o Doutor.

– Uma dor por aqui. – apontou a área do ventre.

Petrúcio fez uma série de perguntas preenchendo a ficha médica, surpreendeu-se com a idade da mulher, 45 anos, nacionalidade francesa, falava bem o português, parecia ter 30, bem conservada, loura de pele rosada, olhos azuis. Ao terminar pediu para descalçar os sapatos e subir na balança. Petrúcio continuou a escrever, ao levantar a vista, o coração bateu forte. Caterine estava em cima da balança apenas de calcinha de renda vermelha. Seu corpo bem delineado e a sensualidade exuberante deixou o doutor com o sangue fervendo. Petrúcio aproximou-se, nervoso, mediu o peso e altura daquela mulher extraordinariamente bela, deu-lhe vontade imensa de abraçar-lhe. Controlou-se, pediu para ela vestir-se e retornar à cadeira.

O Doutor prescreveu exames, tomografia e radiografia do ventre. Ela recebeu a requisição, olhou nos olhos do doutor, perguntou:

– Não vai fazer o toque vaginal?

O médico controlou-se, afirmou não ser preciso, com o resultado dos exames ele avaliaria com precisão o que estava de anormal com ela.

Caterine sorriu olhando para o doutor, segurou sua mão, confessou.

– Doutor, falando bem claro, eu tenho uma fantasia. Desde que lhe vi jogando no Jaraguá Tênis Clube, tive uma atração imediata. O senhor chegou de jaleco, deu-me uma imensa vontade de fazer amor em seu consultório. Sou casada, não tenho problemas com o marido, hoje provoquei essa oportunidade única, quero você apenas uma vez, satisfazer minha fantasia, penso nós dois nos abraçando, rolando no chão de seu consultório.

– Dona Caterine, por favor, a senhora é uma belíssima mulher, provocou-me uma atração enorme, se a senhora quiser, no Rio, no Recife, no Japão, na Alemanha, no motel de Jacarecica, podemos nos encontrar. Eu invento uma viagem. Vamos passar uma lua-de-mel em Fortaleza? Só não posso no meu consultório, tenho um profundo respeito por minha profissão, meu consultório é um lugar sacro santo, onde exerço a medicina, a ética me proíbe qualquer relacionamento com paciente. Por favor, não torne difícil para mim, você é bela, sensualíssima, gostosa. Compreenda, Se eu quebrar os princípios da medicina ficarei profundamente magoado comigo mesmo, por favor.

– Minha fantasia é lhe amar no consultório, é ser abraçada pelo Doutor de jaleco, fora disso, não quero.

Levantou-se, deu meia volta, ao se aproximar da porta trancou-a a chave, virou-se, num átimo deixou o vestido cair, puxou e segurou a calcinha vermelha de renda pelos dedos. Petrúcio partiu rápido, chamou-a de louca, ajudou apressadamente a vesti-la, pediu não retornar ao consultório. A cliente saiu pisando forte, aborrecida. O Doutor fechou a porta, respirou fundo, deu quatro murros na parede, sangrou a mão.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DEUS ESTÁ NOS DETALHES

Lisboa. O título é só uma citação de Flaubert (Correspondência), fundador do realismo, “Le bon Dieu est dans le détail”. Poderia também citar o romântico Prosper Mérimée (Mentira), “Toda grande mentira precisa de um detalhe”. Ou mesmo Pessoa (Espírito), direto e duro, “O detalhe é sempre mau”.

Indo até a mitologia grega veremos não haver, para esses “detalhes”, um deus específico. Embora estejam, alguns deles, próximos. Como Atena, dos 12 olímpicos, deusa da Estratégia. Ou Harpócrates, deus do Segredo e do Silêncio. Mas não precisaremos ir tão longe que uso, essa referência, tão só para lembrar um caso banal.

Tudo começou quando Mike Tyson estava sendo acusado de ter estuprado, em 19/07/91, uma estudante de 18 anos, Desiree Washington, no Canterbury Hotel (Indianópolis). A defesa do lutador sustentou ter sido uma “relação consensual”. Sob o fundamento de que mulher alguma se dirige ao quarto de um homem, alta madrugada, senão com o fim de seduzi-lo.

Enquanto os advogados da jovem se limitaram a exibir o pijama que usava naquela noite. Longo, fechado e com desenhos de Pluto ‒ aquele cão alesado, amigo do Pato Donald. O argumento era de que lá foi apenas para conhecer o lutador de box. Sem nenhuma outra intenção. Tanto que não usava “roupas sedutoras”, como baby-dolls. Resultado, Mike Tyson acabou condenado a 6 anos na prisão.

Agora esqueçamos escritores, deuses e esse episódio sexual para examinar o caso do Banco Master. Porque o ministro Alexandre de Moraes está sendo acusado de ter firmado em 16/01/24, com o banqueiro Daniel Vorcaro, contrato de quase 130 milhões. Afora mimos de várias naturezas como viagens internacionais; farras com whisky Macallan (segundo Google, vinte e oito mil a garrafa); sem contar cartões de crédito com limites mensais de 300 mil, para cada filho.

Sua defesa é que contratado não foi ele, mas o escritório de mulher e filhos. Não é fácil de acreditar. Porque, com esse valor astronômico, poderia o banqueiro contratar bancas bem mais experientes e com advogados já consagrados. Em vez de recorrer a senhora, pós-graduada em marketing e sem maiores qualificações jurídicas, além de jovens que se iniciavam no ramo. Sem contar que o contrato foi revisado pelo próprio ministro, prova de seu interesse pelos valores em jogo.

A questão é relevante porque, sendo mulher e jovens filhos efetivamente seus advogados, teríamos apenas uma escolha ruim por parte do banqueiro. Enquanto, seja o ministro esse advogado, mulher e filhos funcionariam como laranjas no contrato. E teríamos, então, vários crimes. A começar pelo de responsabilidade, que autoriza impeachment pelo Senado (art. 52 da Constituição) ou pelo próprio Supremo (art. 102).

Nesse ponto da conversa, volto ao caso de Mike Tyson. Porque, nele, fundamental foi o detalhe de Pluto no pijama. E no caso do ministro Moraes? O decisivo, aqui, será para quem ligava o banqueiro Vorcaro. Na fase mais crítica do caso, dois dias antes de ser preso, pensava fugir do país e deu 53 telefonemas. Para quem?, amigo leitor. Nenhum para mulher e filhos. Mas todos, repito, TODOS, para o ministro Moraes. Seu verdadeiro advogado, tudo sugere.

Não se trata de uma questão apenas ética. É também ética, sem dúvida. Mas vai além. Algo que deve ser investigado pelo próprio Supremo. Tem que ser. É inconcebível não seja. É indecente não seja. Mesmo com seus parceiros corporativos, naquele plenário, decididos a não permitir. Praticando sem vergonhas aparentes a “Lei da Máfia”, diz um deles. Irá cair tão baixo nosso Supremo?, eis a questão.

Para encerrar, creio que essa referência final permite invocar o famoso monólogo de Shakespeare, em Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão:/ Será mais nobre em nosso espírito sofrer?”. Porque, enquanto alguns enriquecem, parece que vai ser mesmo esse o destino reservado a todos nós, tristes brasileiros, o de “em nosso espírito sofrer”.

DEU NO JORNAL

BI, BI, BI

Uma semana após Lula (PT) anunciar reajuste no Bolsa Família, a equipe econômica refez as contas e elevou o rombo previsto nas contas de 2026.

Passou de R$ 52 bilhões para R$ 80,9 bilhões.

* * *

Em se tratando de um gunverno lulo-petralha, um rombo de quase 90 bilhões é muito pouco.

Um tiquinho de nada pros padrões da quadrilha.