Arquivo diários:19 de setembro de 2026
LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA
SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO
NA CATAÇÃO
PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA
A VIDA
Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;
No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
— A vida universal palpita e canta!
Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta
Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, Rio de Janeiro (1865-1918)
CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA
ENCONTRO COM O “REI DO BRASIL”
Dr. Chateaubriand. Foto em 1957
Anadiplose pode até se assemelhar a algum nome de doença ou medicamento, mas não é. Pouco conhecida como figura de literatura, é uma forma de linguagem escrita que consiste na repetição da última palavra ou frase, logo no início ou mesmo no final da matéria.
Esta palavra ouvi numa das entrevistas do Dr. Assis Chateaubriand, homem de muita cultura e empresário criador do maior grupo de mídia brasileiro: os Diários e Emissoras Associados.
Através de vínculos com o jornalismo e literatura aprendi a apreciar aquele cidadão paraibano que se fez gigante na terra pernambucana, mostrando ao mundo o que é começar como repórter de jornal e se tornar o maior empresário do ramo.
Referindo-me a vários perfis biográficos anotei fatos interessantes: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, Paraíba, em 1892. Em 1904 veio residir o Recife e estudou no Ginásio Pernambucano. Aos 14 anos teve sua primeira experiência jornalística. Em 1908 ingressou na Faculdade de Direito e passou a colaborar no jornalismo, colaborando no Jornal Pequeno, Jornal do Recife e no Diário de Pernambuco.
Em 1913 bacharelou-se em Direito e já ocupava posição de destaque no jornalismo, chegando a Editor e Redator-chefe do Diário de Pernambuco. De 1915 a 1917 foi professor de Direito Romano e Filosofia do Direito na Faculdade de Direito do Recife.
Em 1917 deixou definitivamente o Recife e transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde continuou sua carreira jornalística e jurídica.
Minha admiração por Dr. Chateaubriand se agigantou pelo que ouvi em diálogos esparsos, de gente como Muro Mota, Gilberto Freyre, Nelson Saldanha e Aníbal Fernandes; alguns desses, durante breves viagens no pequeno elevador do edifício-sede do Diário de Pernambuco.
Ele tinha como características pessoais, além da virtude do reconhecimento aos seus funcionários, a nacionalidade brasileira. E para demonstrá-la titulou todos os seus jornais, revistas, rádios e televisões com nomes baseados na língua tupi, excetuando-se aqueles adquiridos já com seus títulos fundamentados.
Tornaram-se marcas indeléveis: Rádio Tamoio, Rádio e Tv Tupi do Rio e São Paulo, Rádio Tamandaré e muitos outros órgãos de Comunicação Social, sedimentando as origens indígenas do País através do idioma originário brasileiro. A escolha de nomes indígenas ampliou seu Plano de Integração Nacional promovido pelos jornais, rádios e emissoras de televisão, criando um definitivo elo com os setores da nacionalidade brasileira.
Segundo notas de Fernando Moraes: “Em 21 de setembro de 1959, Chateaubriand instituiu o chamado Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados e transferiu 49% das ações de suas empresas para 22 auxiliares principais e seus dois filhos. Depois, em 1962, ele doou aos 51% restantes para o mesmo grupo, completando a estrutura do Condomínio.
A intenção de Chateaubriand era impedir que o enorme patrimônio dos Diários Associados fosse simplesmente herdado e eventualmente desmembrado pelos familiares. As participações receberam cláusulas de inalienabilidade, incomunicabilidade. Assim, o funcionário escolhido não podia simplesmente vender sua participação nem deixá-la como herança.
Venho seguindo nestas crônicas o estilo de David Nasser, notável jornalista e escritor, que publicava crônicas e reportagens nas páginas da revista O Cruzeiro e costumava concluí-las citando o título. E isto se chama: anadiplose.
Até poucos dias, quando fiz reportagens para o Departamento de Projetos Especiais do “Diário”, sob a orientação de Arijaldo Carvalho, comentei com meus colegas um episódio interessante, que ora descrevo.
Fui cobrir um banquete de gente importante, no Restaurante Leite, em 27 de abril de 1957, acompanhado do fotógrafo Diógenes Montenegro. Nós nos “plantamos” lá até que chegaram os comensais.
Esperamos o término do almoço para colher as fotos. Ao final, o chefe dos garçons veio com a nota e o Dr. Chateaubriand tomou a frente. Nem leu, assinou a conta e datou. Minha surpresa foi quando ele deu boa gargalhada e disse:
– Este é meu cheque. Mande para o Diário!
Cheguei a ficar bem perto do homem que era considerado conforme o título do livro de Fernando Morais, que depois virou filme. No dia seguinte, nossa reportagem foi publicada na primeira página:
Assis Chateaubriand, de passagem pelo Recife, oferece banquete às Classes Produtoras de Pernambuco.
Entretanto, sabedor que o magnata dos Diários Associados dominava bem o vernáculo, fiquei ansioso para perguntar a ele como se concluir bem uma crônica.
Mas, minha missão era apenas reportar, não entrevistar. E reconhecendo a minha função de aprendiz, diante do “Rei da Imprensa Brasileira”, permaneci calado.
Se eu tivesse alguma intimidade com ele, teria perguntado qual a maneira de findar uma crônica com alguma palavra ou frase expressiva. Certamente teria ele dito que eu explicasse ao leitor o que significava a palavra anadiplose.
DEU NO JORNAL
A “ÉTICA DA MÁFIA” E O “CAPO” GILMAR
Editorial Gazeta do Povo
“Mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho, não pode estar submetido a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil. Já disse isso em outro momento: até a máfia tem ética”, afirmou um exaltado Gilmar Mendes, em um dos seus vários momentos constrangedores na sessão em que ele ajudou a proteger seu colega Alexandre de Moraes, afundado até o pescoço em indícios de uma relação mais que indevida com o banqueiro Daniel Vorcaro. Uma escolha de palavras curiosíssima: pelo uso de um grupo criminoso como padrão de comportamento, pela comparação com a realidade dos fatos, e pelas atitudes do próprio Gilmar com seus colegas de Supremo Tribunal Federal.
Gilmar acusava seu colega André Mendonça de seletividade diante da possibilidade de que outros ministros do Supremo também estivessem enroscados com Vorcaro, já que o único pedido de investigação protocolado até o momento era contra Moraes. “Como se a gravidade da notícia variasse conforme o nome do magistrado a que se refere, ou conforme o tribunal que ele integra”, disse o decano, defendendo que ninguém poderia ser investigado até que se pudesse levantar todos os magistrados, de todas as instâncias, contra os quais houvesse indício de irregularidade, e só então se prosseguisse com qualquer tipo de providência ou investigação.
É o clássico caso da conclusão que não deriva da premissa. Que todo juiz, desembargador ou ministro seja investigado se houver indícios de negócios escusos com o banqueiro; quanto a isso não há dúvida. Mas é justamente esse o caso de Moraes – e, verdade seja dita, absolutamente nada do que apareceu até o momento chega perto do que se sabe a respeito das conexões entre Vorcaro e Moraes. Nem mesmo Dias Toffoli recebeu mensagens do banqueiro pedindo proteção e aconselhamento sobre viagem ao exterior (leia-se fuga), e o contrato do Master com o escritório Barci de Moraes supera tranquilamente todos os valores divulgados até agora a respeito das negociações pelo resort Tayayá.
A “gravidade da notícia”, portanto, não depende do nome do juiz ou do seu tribunal, mas dos próprios fatos. O que já existe é mais que suficiente para justificar a investigação contra Moraes, sem prejuízo de futuras investigações contra outros magistrados, do STF ou de qualquer outra corte. Mendonça não afirmou que não há motivos para investigar outros ministros; ele apenas concluiu que o caso de Moraes já está suficientemente maduro para se chegar a essa etapa. É Gilmar quem defende um método mafioso, a omertà: o silêncio em que um membro protege os demais, “mesmo que estejam eventualmente envolvidos”, para usar as palavras do próprio ministro. Foi isso que Gilmar e Flávio Dino executaram com maestria, na terça-feira, com a ajuda de Cristiano Zanin (pela ação) e Nunes Marques (pela omissão). Isso, sim, é decência para Gilmar: esconder os podres dos parceiros. Mas aquilo que é “ética” entre bandidos tem outros nomes quando se trata de agentes públicos, e alguns deles estão no Código Penal, como prevaricação ou obstrução de Justiça.
E Gilmar Mendes parece entender tanto de máfia que incorporou o papel de capo do Supremo Tribunal Federal. O ministro é o decano da corte, mas se comporta como se fosse o dono do tribunal. Em público, exige que os demais ouçam calados suas insanidades e acusações, mas interrompe os colegas quando bem entende para insultá-los, como fez com Mendonça na terça-feira. Privadamente, pressiona-os para que aceitem seus ditames. “Assumam que estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas (…) Você tem de sair do TSE também (…) Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso na turma”, afirmou Gilmar a Nunes Marques no WhatsApp em 8 de setembro, mesmo dia em que o decano também disse a Luiz Fux que lhe faltou “postura institucional” – possivelmente em referência ao julgamento na Segunda Turma em que se formou maioria para manter o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, medida que seria revertida posteriormente.
Aos amigos, o silêncio protetor; aos adversários, a intimidação. Quando diz que “até a máfia tem ética”, Gilmar Mendes não está usando uma hipérbole para criticar um comportamento que considera mais baixo que o de bandidos; ele está considerando que o código mafioso é algo digno de ser seguido. Não irá admiti-lo abertamente, é claro, mas seu comportamento o entrega. Fachin é o presidente, mas Gilmar é o capo do Supremo Tribunal Federal.
PENINHA - DICA MUSICAL



