VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

DESTRUÍDO PELO TRUSTE

Trustes e Carteis são os mais conhecidos tipos de organizações monopolistas. Não admitem concorrência. Também são conhecidos como “multinacionais”. Começaram a aparecer na segunda metade do Século XIX, nos Estados Unidos, como frutos da necessidade de expansão dos modelos econômicos, que tem como objetivo principal proporcionar lucros cada vez maiores.

Os carteis – um acordo entre grandes empresas que, mantendo-se independentes, dividem a exploração do mercado, cada uma ficando com a sua fatia – e os trustes – a fusão de grandes empresas numa só, para melhor controlar o mercado – existem em toda parte do mundo, chegando a extrapolar as fronteiras dos seus países de origem.

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia foi perseguido, em vida, pelo truste internacional, numa dessas brigas desiguais, onde o mais forte sempre sai ganhando.

Filho do cearense Delmiro Porfírio de Farias e da pernambucana Leonila Flora da Cruz Gouveia, Delmiro Gouveia nasceu em 5 de junho de 1863, na Fazenda Boa Vista, localizada no município de Ipú, no Ceará. Com o falecimento de seu pai na Guerra do Paraguai, mudou-se com a mãe para Pernambuco, em 1868.

Em 1883, Delmiro Gouveia resolveu ingressar no comércio de couros de cabra e bode.

Logo obteve sucesso com a nova profissão, passando a incomodar os seus concorrentes com a prática de preços baixos e com uma forte influência no mercado, sendo, inclusive, intermediador de negociações entre comerciantes locais e empresas de exportação.

Em 1898, tendo como referência a Feira Internacional de Chicago realizada em 1893, Delmiro Gouveia inaugurou o Mercado do Derby, no centro de Recife, que era um moderno centro de comércio, serviços e lazer, edificado em uma área de 129 metros de comprimento, com hotel, velódromo, pavilhão de diversões e 264 boxes para a comercialização de produtos.

No dia 2 de janeiro de 1900, o Mercado do Derby foi criminosamente incendiado.

Por volta de 1899, Delmiro Gouveia envolveu-se em desavenças políticas com o então governador de Pernambuco, Sigismundo Gonçalves, e passou a sofrer perseguições do Fisco, o que provocou a falência da sua mais importante firma comercial – a Silva, Cordeiro & Cia.

Em 1902, decidiu abandonar o Recife e comprou uma fazenda na localidade da Pedra, Alagoas, a 24 quilômetros da cachoeira de Paulo Afonso (rio São Francisco), onde centralizou seu comércio de couros. Depois de refazer a fortuna e livrar-se das encrencas com os políticos pernambucanos, começou a ampliar seus negócios. Adquiriu as terras de uma das margens da cachoeira de Paulo Afonso, importou maquinaria da Inglaterra e, em 1910, iniciou ali a construção de uma pequena hidrelétrica.

Diante do potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso, Delmiro Gouveia iniciou a construção da primeira usina hidrelétrica do Brasil. Em 1913, após dois anos de trabalho, a Usina de Angiquinho foi inaugurada.

Também viabilizou a construção de uma vila operária, escolas, estradas e o fornecimento gratuito de água e energia para a região do Povoado da Pedra.

Com a usina de Paulo Afonso fornecendo energia elétrica para a agora Vila da Pedra, Delmiro Gouveia instalou, em 1914, também com máquinas importadas da Inglaterra, a Cia. Agro Fabril Mercantil – Fábrica de Pedra (uma fábrica de fios para malharia e linhas para costura) e passou a concorrer com a Machine Cotton (grupo inglês produtor das linhas “Corrente”), que detinha o monopólio do mercado brasileiro.

Em 1914, Delmiro Gouveia construiu uma fábrica – a Fábrica da Pedra – para a produção de fios e linhas de costura, que utilizava a energia da Usina de Angiquinho e empregava dois mil operários brasileiros. A fábrica tornou-se referência, na época, passando a comercializar seus produtos no Brasil e a exportar para o Peru e o Chile.

Inaugurada em seis de junho de 1914, a Cia. Agro Fabril Mercantil – Fábrica da Pedra tinha produção inicial de 1.500 grosas de carretéis de linha para costura (marca “Estrela”) por dia. Fabricando ainda fios para malharia, cordões brancos e coloridos, a fábrica da Pedra foi o primeiro estabelecimento do gênero a ser implantado na América do Sul. Empregava 1.000 funcionários (homens e mulheres) na maquinaria e dispunha ainda de uma vila operária e uma creche. A matéria-prima utilizada pela indústria era o algodão “Seridó”, vindo de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Com as linhas para costura, bordado e croché, e as diversas espécies de fios da Fábrica de Pedra, Delmiro Gouveia conquistou o mercado nacional e levou seus produtos às regiões do Prata e dos Andes.

A linha “Estrela” cada dia ganhava mais fregueses e a fábrica de Delmiro começou a incomodar à Machine Cotton, poderoso grupo inglês que dominava o mercado do produto, através de uma subsidiária – a Cia. Brasileira de Linhas para Coser, sediada em São Paulo, distribuidora da marca “Corrente”.

A Machine Cotton deu seu primeiro golpe: Lançou o seu produto abaixo do custo.

Diversas propostas foram feitas a Delmiro Gouveia para compra de sua fábrica, mas ele as recusou. Isso originou uma luta desigual entre o truste inglês e ele.

A linha da Fábrica da Pedra era de qualidade inferior à etiqueta concorrente, mas seu preço era menor. Para sair do cerco, Delmiro teve a ideia de apelar para o sentimento de religiosidade do sertanejo nordestino e lançou a sua linha de costura com a etiqueta “Padrinho Padre Cícero”. A Machine Cotton contra-atacou com a etiqueta “Bispo”, mas perdeu essa disputa: os consumidores do Nordeste continuaram comprando a linha da Fábrica da Pedra, o que garantiu a permanência do sucesso das vendas.

Em 1916, o truste inglês novamente investiu contra a Fábrica da Pedra e registrou, no Chile e na Argentina, a marca “Estrela” (de propriedade, no Brasil, da Cia. Agro Fabril Mercantil) como sua. Essa manobra impediu que as exportações de Delmiro Gouveia fossem expostas à venda, tendo que voltar ao porto de origem. Mas Delmiro não desistiu.Registrou novo rótulo com a marca “Barrilejo”, e continuou exportando seu produto.

Ainda em 1916, a Machine Cotton tentou comprar a Fábrica da Pedra, mas Delmiro Gouveia recusou a proposta e continuou com a sua indústria.

No dia 10 de outubro de 1917, às 20h30, em frente ao seu chalé, perto da Fábrica da Pedra, Delmiro Gouveia foi assassinado, misteriosamente, com três tiros de rifle, aos 54 anos de idade.

Após o assassinato de Delmiro Gouveia, o truste baixou o preço do produto no Brasil e conseguiu baixar as tarifas do fio fino para tecer linhas. Seus herdeiros continuaram lutando contra a Machine Cotton, para não deixar extinguir-se a Fábrica da Pedra. E essa briga pareceu entrar agora num período favorável à indústria nacional. Em 19 de junho de 1926, o presidente da República, Artur Bernardes, assinou o Decreto nº 17.383, elevando a taxa de importação sobre as linhas de costura. O Decreto, depois de informar que a indústria estrangeira estava oferecendo vantagens especiais a comerciantes que se comprometessem a não vender os produtos da Fábrica da Pedra, atribuía ao truste inglês Machine Cotton, o propósito de extinguir a concorrência nacional, para depois de dominar o mercado, estabelecer preços exorbitantes.

Dois anos depois, para decepção dos herdeiros de Delmiro Gouveia, o governo de Washington Luís, empenhado num programa de estabilização monetária, revogou o Decreto do Presidente Artur Bernardes, atendendo a uma solicitação do embaixador da Inglaterra, Henry Linch, que considerava o aumento da tarifa sobre as importações de linhas de costura um ato de hostilidade comercial.

Esse fato acarretou o fim da fábrica de linhas construída por Delmiro Gouveia.

Em 1929, 12 anos após a morte de Delmiro Gouveia, a MACHINE COTTONS realizou seu sonho, adquirindo a Fábrica da Pedra dos irmãos Menezes, seus novos proprietários. Já nas mãos da empresa inglesa, todas as máquinas da fábrica foram jogadas no Rio São Francisco, após serem destruídas com golpes de picareta.

No auge da prosperidade dos empreendimentos de Delmiro Gouveia, seus adversários políticos, em Recife, chegaram a duvidar da sua honestidade. Mas ele deu-lhes a seguinte resposta:

“Se eles tivessem no sangue, nos nervos, nas faces, vergonha e no organismo alguma coisa de energia e sentimento, deviam orgulhar-se de haver um homem do povo, pobre porém trabalhador, capaz de mostrar-lhes com exemplos que quem luta pela vida com honradez, atividade e perseverança, pode conseguir uma posição na sociedade, e em vez de andarem pelas ruas, cafés, trens e esquinas empregando-se na maledicência, podiam dedicar-se ao trabalho proveitoso, que nobilita o homem e dá-lhe sempre o direito de confundir seus inimigos gratuitos”.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O SUPREMO COMO ESPELHO

Lisboa. Nesta segunda, estávamos no JNcQUOI Fish, Avenida da Liberdade. No cardápio, Polvo à Lagareiro (por conta da abundância no azeite, que vem dos lagares em que são trituradas as azeitonas) e um peixe que não nada em nossas águas tropicais, o Pregado. Recomendamos, fortemente, para quem vier por estas bandas.

À espera dos pratos nosso filho Serginho, que vive nas tecnologias, pediu ao ChatGPT “por favor escreva texto, no estilo de José Paulo Cavalcanti, sobre essa confusão do Supremo”. O ChatGPT explicou que então faria um com frases curtas e sempre com citações. Feito isso ele apareceu, na tela, em dois segundos. Com citação que dei, no último artigo, de um ministro da Suprema Corte americana. Sem reparos. Para uma ideia, segue breve resumo:

“O Supremo vai julgar o Supremo. Ou quase. Talvez esta seja a melhor maneira de compreender o que acontecerá em Brasília. O ponto é saber se há razões para investigar a possível relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Vorcaro. Questão jurídica, sim, mas também algo maior.

“Instituições vivem da confiança, Tribunais, ainda mais. Juízes não têm exércitos nem votos. Têm decisões e o respeito que nós lhe concedemos. O pior caminho seria uma proteção corporativa. O Supremo não é sindicato de ministros.

“Louis Brandeis dizia que ‘a luz do sol é o melhor desinfetante’. Que os fatos sejam conhecidos; que alegações sejam provadas ou descartadas; e que cada ministro, ao votar, lembre-se menos do colega ao lado e mais da cadeira que ocupa. Porque aquelas onze cadeiras pertencem à República, não a quem as ocupa. Há horas de olhar para fora. E há horas de olhar para dentro. Amanhã é dia de espelho”.

Texto exato. Preciso. E o que vimos nesta terça?, eis a questão. O que, de alguma forma, já esperávamos. Nada de importante foi decidido. Nem será, que o ministro Nunes Marques preferiu ir embora. Em Brasília se diz que por conta de ameaças feitas pelo ministro Gilmar. Era o voto decisivo. E a expectativa, pena, é que ninguém seja punido. Tapete, viva o tapete.

O sistema é mesmo forte. O presidente do Senado não põe, em julgamento, os 109 pedidos de impeachment do ministro Moraes que tem na sua mesa. O Diretor-chefe da Polícia Federal cumpre ordens que vem de cima, e nada fará contrariar seus chefes. O Presidente da República diz ser a favor de não haver mais nenhum sigilo, no caso Master. Só que seu ministro da Justiça mantém o sigilo que decretou, por 100 anos, dos que visitaram Vorcaro na prisão. O candidato diz ser contra qualquer sigilo mas o mantém, só mesmo rindo.

O Procurador Geral da República é suspeito. Apareceu nas gravações. E, em vez de se declarar impedido, já requereu a nulidade de todos os atos do caso. É coragem muita. E ficamos, todos, a sonhar com outros tempos.

Bem visto, o ChatGPT é apenas otimista. O espelho, que imagina, reflete uma verdade torta. É como O Retrato de Dorian Gray, de Wilde. O quadro muda, o homem não. O que deveria ser e o que é. Aparência e realidade. Sonho e ilusões perdidas. O homem jovem, que vemos nas ruas, é falso; enquanto o velho, carcomido, gasto, e já quase sem esperanças, somos nós. E nada parece sugerir que o clamor das ruas seja ouvido, naquele plenário. Pena.

Para encerrar lembro Manuel Bandeira, o poeta do Recife, em poema bem conhecido, Pneumotorax, (resumo): “Tosse, tosse, tosse/ – Diga 33/ – 33… 33… 33…/ – Então, doutor, não é possível tratar o pneumotórax?/ – Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”.

Nosso caso. Um tango argentino é o que nos espera. Podem apostar.

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

EGRÉGIO, COLENDA E ÍNCLITOS. NÃO MAIS

Egrégio Supremo Tribunal Federal;

Colenda Turma;

Ínclitos Julgadores

(…)

Assim, com estas homenagens quase de joelhos, os advogados iniciam seus recursos no STF. Sempre escrevi, embora jamais gostasse dessas sabujices, mas após a inacreditável sessão do dia 15, acho que não dará mais. Penso que tais termos não se aplicam mais àquele lugar. Vejamos o dicionário (Michaelis)

Egrégio: Muito distinto; notável por suas obras ou feitos; emérito, insigne, ilustre. 2 De grande vulto; digno de apreço, admiração; admirável, estupendo, surpreendente. 3 Diz-se de juízes e tribunais de justiça; eminente, notável, superior.

Será que alguém consegue enxergar naquele tribunal alguma razão para atribuir-lhe qualquer uma dessas qualidades? Não, não dá! Ultimamente só conseguimos ver ali obras, feitos e indivíduos notavelmente destrutivos; dignos do maior desapreço e surpreendentes em sua imoralidade superior. Melhor esquecer o “Egrégio”.

Colenda: Digno de respeito e veneração; augusto, precolendo, venerando, venerável.

Este termo é usado para se referir à turma de ministros. Na boa, qualquer turma que tenha entre seus membros Gilmares; Zanins, Dinos etc. pode ser tudo, menos venerável; augusta ou digna de respeito. O mergulho na lama dourada do banco Master; o jogo de acobertamento; a ética mafiosa (foi Gilmar que disse) e o silêncio de omertà impedem o uso de “colenda”. Lamento, mas não dá, não consigo venerar aqueles magistrados…

Ínclito: Que se distingue por méritos e qualidades excepcionais; celebrado, egrégio, famoso, ilustre.

Há muito tais qualidades deixaram de ser requisito necessário para pertencer àquele lugar. Por ali as únicas qualidades excepcionais demonstradas são a hipocrisia, a mentira, a desfaçatez, a crueldade e a covardia. Ínclitos? Me poupem!!!!

Dito isso, resta decidir com quais termos iniciarei meus recursos, caso tenha que fazer algum. Pensei em acrescentar um “ex” antes de cada elogio. Será que terei problemas? Aceito sugestões de meus parcos leitores.

Por fim, resta lamentar profundamente que a mais alta corte do poder judiciário tenha deixado de merecer os termos elogiosos com os quais nos dirigimos a ela; seus membros, com pouquíssimas exceções, cobriram o tribunal de vergonha. Poucas coisas podem ser piores a um operador do direito do que a perda da confiança e respeito pelos juízes.

A obra canhota está completa: executivo, legislativo e judiciário; todos juntos no mergulho. Parabéns, ex-egrégio tribunal, ex-colenda turma e ex-ínclitos julgadores, vocês conseguiram.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VEADINHA

Antigamente todos conheciam os homossexuais da cidade, lembro do Ramona, Vicentão, Porreta, contavam-se nos dedos, hoje a fauna se espalhou, assumiram de uma vez, poucos ainda escondem a homossexualidade. Eu acho certo, esconder sua sexualidade é hipocrisia.

O mais autêntico de todos durante minha juventude, foi meu querido amigo, Luizinho. Na adolescência despertou sua atração pelo sexo masculino. Aos 18 anos chamado para o Exército, sentiu-se no paraíso arrodeado de homens viris. Ao descobrirem sua preferência, deram sua baixa do Exército

Luizinho causou escândalo em Maceió, assim que saiu do Exército seu pai o colocou para trabalhar numa grande loja da família na Rua do Comércio, função de comprador, reposição de estoque. Certa vez apareceu um carioca, alto, bonito, olhos azuis, bem falante, vendia todo tipo de relógio, despertador, relógio de ponto, de braço. Luizinho teve uma emoção ao ver o representante, fez o pedido costumeiro da loja. Puxou conversa com o vendedor. O simpático carioca, malandro, percebeu a queda de Luizinho, aceitou o convite para jantar. No restaurante da Fênix pediram melhor vinho, melhor comida, comeram, beberam, Luizinho apelidou o vendedor. Era “Blue Eyes” para lá, “Blue Eyes” para cá. Terminaram dormindo no Hotel Califórnia, onde o representante estava hospedado. Um mês depois ele retornou, Luizinho ficou eufórico quando o viu entrar na loja, dizia aos amigos estar apaixonado. O cara voltou nos meses seguintes. Cinco meses de retorno, o carioca, lamuriou-se, a firma ia colocá-lo na rua, talvez fosse última viagem, não havia conseguido fechar o número mínimo de pedidos exigido pela empresa. Luizinho emocionado mandou o carioca preencher o pedido de quantos relógios quisesse para a loja. O malandro, não se fez de rogado, fez um pedido substancioso. Luizinho assinou, o amante feliz, viajou com o gordo pedido e o bolso cheio de cruzeiros, presente de seu amor, prometendo voltar o mais breve possível. Na outra semana chegou uma encomenda na loja, um caminhão, carga inteira de relógios, um bom dinheiro a ser pago à vista, conforme contrato. Seu Luizão, o pai, ficou desesperado, teve que cumprir o compromisso, mudou a função do filho na loja. Passaram-se cinco anos para vender todos os relógios. O carioca nunca mais pisou em Maceió.

Meu primo, Fernando, negociante de animal, toda tarde vendia cachorro, gato, tatu, enjaulados. Fazia ponto na Rua do Comércio. Certa vez ele levou uma veadinha numa gaiola, corda fina no pescoço, chamava atenção, entretanto, ninguém comprou a bichinha, ele baixou preço. Quem queria uma veadinha em casa? Foi quando um desocupado da Rua do Comércio falou no ouvido do Fernando.

– O Sr. Luizão, dono da loja São Vicente tem um veado em casa, quem sabe se ele não compra essa veadinha para juntar ao veado de sua casa?

Ideia melhor impossível, Fernando colocou a gaiola do animalzinho no ombro levou-a para loja. Depois de esperar quase uma hora, Sr. Luizão atendeu, ouviu a conversa de vendedor.

– Olha Seu Luizão, tenho bela veadinha de apenas dois meses trouxe para o senhor, bem barata.

– O que vou fazer com uma veadinha?

– Para fazer companhia ou cruzar com o veado que o senhor tem em casa.
No mesmo momento levou um murro na cara, saiu cambaleando puxando a veadinha.

Só entendeu o acontecido, quando viu os gozadores às gargalhadas na Rua do Comércio. Alguém explicou

– O veado filho de Luizão é o Luizinho, homossexual assumidíssimo.

DEU NO JORNAL

A REAÇÃO DOS BRASILEIROS AO HORROR NO SUPREMO

Editorial Gazeta do Povo

Após a sessão desta terça-feira no Supremo Tribunal Federal, que deveria decidir sobre a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes, mas terminou sem nem sequer definir uma questão de ordem levantada por Gilmar Mendes com o objetivo (alcançado) de tumultuar a análise, aqueles que sonham com um Brasil decente se questionam: e agora? A possibilidade de afastamento de Moraes e a abertura de uma investigação por iniciativa do Supremo se tornou ainda mais incerta e, no mínimo, será adiada, sem um horizonte concreto e previsível de tempo – considerando que Flávio Dino tem até três meses para segurar seu pedido de vista protelatório, é quase certo que tudo ficará para depois das eleições, ou até mesmo para 2027.

O que restava da respeitabilidade da corte derreteu-se ainda mais, quase completamente. o STF perdeu uma oportunidade – talvez a maior que lhe tenha sido oferecida nos últimos anos – para, de alguma forma, resgatar por iniciativa própria algo de sua própria dignidade, e começar o movimento de retorno à normalidade democrática. Definitivamente, não há o que celebrar diante do deprimente espetáculo oferecido por Alexandre de Moraes e sua “tropa de choque”, formada por Gilmar Mendes e Flávio Dino, com a colaboração ativa de Cristiano Zanin e a omissão de Nunes Marques, em uma sessão que Edson Fachin poderia ter conduzido de forma bastante diferente, caso tivesse usado as prerrogativas que o cargo de presidente da corte lhe confere. No entanto, por mais incrível que isso possa parecer, mesmo do mal é possível tirar algo bom, e o desfecho da sessão, embora frustrante, tem um lado positivo.

O caso Master serviu para que parte dos brasileiros – especialmente os formadores de opinião – finalmente dedicasse ao Supremo o olhar crítico que havia negado à corte ao longo dos últimos anos, enquanto ela foi expandindo seus poderes e limitando as liberdades até transformar o Brasil em uma juristocracia autoritária. Aquilo que esta Gazeta do Povo enxerga e critica há quase dez anos começou a ficar um pouco mais claro para a imprensa e a sociedade civil organizada; jornais que até pouco tempo atrás hesitavam (inexplicavelmente) em perceber a necessidade do impeachment começaram a sugerir e a propor essa medida.

A sessão de terça-feira teve o efeito de consolidar, entre os brasileiros que já se questionavam a respeito, o quadro de absoluta desqualificação e degeneração moral de vários dos ministros. Mesmo quem ainda se recusava a perceber o óbvio, diante do show de horrores protagonizado especialmente por Moraes, Dino e Gilmar, não teve como ignorar a realidade de um tribunal disfuncional, que tem entre seus membros pessoas comprometidas não com a justiça, mas com a impunidade e a blindagem mútua. As máscaras caíram a ponto de os questionamentos já não envolverem apenas possíveis crimes comuns cometidos pelos ministros (como corrupção passiva, advocacia administrativa, obstrução de Justiça ou prevaricação), mas também os abusos de autoridade, infinitamente mais graves, porque agridem diretamente a própria governabilidade.

E gostaríamos de acreditar que, nesta terça-feira, alguns dos protagonistas daquela sessão tenham se tornado verdadeiros contraexemplos para muitos jovens, especialmente aqueles interessados em seguir a carreira do Direito. Os que já estão no mundo das leis há um certo tempo se formaram, por exemplo, tendo em Gilmar Mendes um exemplo de constitucionalista respeitado. Mas que jovem estudante, hoje, desejará se espelhar no Gilmar Mendes chicaneiro, grosseiro, autoritário, perseguidor de críticos, desmoralizador da suprema corte? Que nossos acadêmicos e jovens profissionais usem o show de horrores do dia 15 como um incentivo para se tornarem o contraponto do que esses ministros representam.

Também esperamos que o absurdo desta terça tenha aumentado a possibilidade de que os atuais senadores se encham de um pouco de brio para assumir seu papel constitucional de contrapeso ao Supremo. O pusilânime Davi Alcolumbre é o presidente do Senado, mas não é seu dono. Uma maioria incansável e inteligente pode e deve encontrar um caminho para fazer valer sua vontade e dar início a um processo de impeachment contra Alexandre de Moraes (e, talvez, não apenas contra ele). Mas, ainda que isso não ocorra, os olhos de muitos brasileiros hão de se abrir para a enorme responsabilidade de suas escolhas em 4 de outubro.

O próximo presidente da República nomeará ao menos quatro novos ministros para o Supremo – um para ocupar a vaga já aberta com a saída de Luís Roberto Barroso, e mais três que substituirão Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, que chegarão à idade de aposentadoria até o fim de 2030. Dois terços do Senado serão escolhidos em poucos dias – e são os senadores que aprovam as indicações presidenciais, além de poder remover os ministros que já deram razões mais que suficientes para o impeachment. Que brasileiro, em sã consciência, haverá de desejar mais quatro Dinos, mais quatro Gilmares, mais quatro Alexandres na suprema corte?

A renovação do STF passa pela necessidade fortíssima, imperiosa, premente, de elegermos um presidente e sobretudo senadores realmente comprometidos com o retorno ao equilíbrio de poderes, ao respeito à liberdade de expressão e ao devido processo legal. O momento pede determinação e responsabilidade; pede que o brasileiro vote com toda a consciência, procurando informação de qualidade – consultando, por exemplo, o Placar STF ou o próprio levantamento desta Gazeta do Povo, com as posições que todos os candidatos ao Senado de todo o Brasil têm manifestado acerca do impeachment dos atuais ministros. Não erremos o nosso voto. Tenhamos presente que o próximo presidente da República precisará ser alguém disposto a colocar o Brasil nos trilhos e tirar as amarras que atrofiam tanto talento e tanto potencial.

Os brasileiros decentes podem retomar as rédeas deste país. Não é fácil, mas não é impossível, se cada um – do cidadão anônimo à autoridade – fizer o que está ao seu alcance. Só assim poderemos começar de verdade a lutar pelo que mais desejamos: um Brasil rico, decente e seguro, vibrante, cheio de oportunidades para todos os brasileiros, em uma transformação esplêndida para nossa nação.

PENINHA - DICA MUSICAL