Casa-cadáver
É uma casa que respira. Desde a minha infância, ela está diante do garoto que parece indeciso para entrar em seu quintal. Há árvores frutíferas intactas. Os pássaros e os morcegos a desprezam. Nenhum garoto sobe em seus galhos para recolhê-las, apesar de toda a disponibilidade. Sempre estou diante dela, arfante, sincronizando a nossa respiração, recusando os frutos, atraído pelo odor leve e familiar. Às vezes, tenho a impressão de ver em uma das janelas alguém com quem convivi. Se estou acompanhado, peço ao companheiro que verifique, sem resultado. Ele não vê o imóvel, nem a janela, nem a paisagem em que tudo está reunido, achando que a minha imaginação é responsável pelas visões.
Tenho cinquenta anos, mudei de bairro muitas vezes e, sempre que ponho os pés na rua, a casa está lá. Aumentada, com mais cômodos, novas portas e janelas. Como se estivesse recebendo novos moradores ao longo do tempo, projetando em sua arquitetura eclética os gostos que, em vez de a tornarem bizarra, lhe conferem uma beleza pitoresca. O cheiro mudou. Os materiais também. É perceptível a diferença de texturas sem contradição. No quintal, há um pequeno cão, agora. Dependendo de nossa proximidade do muro, ele parece maior ou menor, feroz ou inofensivo. As árvores estão cuidadas. Alguém colheu seus frutos. Porém, tinha um aspecto mais assustador que na primeira vez em que as vi. E há uma bolha na nova pintura, parecendo um olho que se move por ela quase sem parar.
No nosso último encontro, não resisti e entrei. A ordem do local não importa. Logo estava diante da porta. A bolha parou acima do batente. Era um olho. E havia roupas nas paredes. Colaram, sem método, vários trajes nas paredes, como numa instalação. Descobri um vestido entre as peças e o olho correu até lá, adquiriu aspecto feminino e uma pequena voz cortou o ar como um silvo agudo, começando uma conversa agradável. Procurei uma fresta ou alguém escondido em uma travessura, mas não encontrei ninguém. Deslizei as mãos novamente e parei em um macacão de jardineiro. Em velocidade surpreendente, o olho se deslocou e assumiu a característica equivalente à vestimenta, não sem antes a outra voz se enfraquecer até sumir. Tomou outra forma e o silvo encorpou-se rústico e a conversa cresceu.
Não lembro de nada que ouvi. A minha retirada foi lenta, porque meus sentidos custavam a compreender tudo e podia ser um delírio perigoso. Casa-cadáver? Mas por que suas peculiaridades estão fundidas? Por que todo o resto das particularidades desapareceu? Quando terá começado o monstro? Como fez suas vítimas? Dificilmente surgiria uma resposta. Olhei para o terreno ao lado: havia uma moça também estudando uma residência semelhante, perplexa, entretida em uma conversa mais longa e respeitosa com uma indumentária nobre. Não parecia assustada. Ela saiu do transe, percebendo que estava sendo notada, acenou e sorriu. Simpática. Retribuí o gesto. Quando caminhei para a rua, deixando o lugar, resolvi esperá-la. Pode ser que a convide para um café.