Uma ave de rapina
Beliscando uma caveira
Um torreão de poeira
Subindo pela campina
Um pé de palma se inclina
Parecendo uma miragem
O gado sem ter pastagem
Berrando numa gamela
Assim vou pintando a tela
Do quadro da estiagem
Sem ração, o criador
Descasca uma macambira
Voa pra longe a cupira
Se escondendo do calor
Sem mato o agricultor
Não pode fazer silagem
A caatinga sem folhagem
Não tem um pé de favela
Assim vou pintando a tela
Do quadro da estiagem
Um anum já desolado
Canta triste o seu lamento
Com sede cai um jumento
Na sequidão do cercado
Um casebre abandonado
Na beira de uma rodagem
O vaqueiro sem coragem
Abandona a sua sela
Assim vou pintando a tela
Do quadro da estiagem
Um cão com fome latindo
Lambe triste uma bacia
Arde o sol do meio dia
Morre o pé de tamarindo.
Um retirante partindo
Sem ter nada na bagagem
Ao comprar sua passagem
Prende o choro na goela
Assim vou pintando a tela
Do quadro da estiagem
Muito bem retratado o nosso sertão, Grande Poeta Hélio Crisanto!