LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

RODRIGO CONSTANTINO

O UÍSQUE DE MEIO MILHÃO DE VORCARO E A CONFUSÃO ETERNA DO PT

Ligações perigosas Lula

Mensagens e áudio aproximam o presidente do banqueiro Daniel Vorcaro

A revista Veja publicou, nesta quinta-feira, mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Nelas, o banqueiro pede a um funcionário, em 29 de outubro de 2024, que localize uma garrafa de Macallan 1945 – uísque raro cujo ano coincide com o nascimento de Lula. “Preciso dar pro Lula”, escreveu. “É pra presente.” O funcionário encontrou uma unidade por cerca de 80 mil euros (aproximadamente R$ 500 mil na cotação da época). Vorcaro autorizou: “Tá ótimo.” A garrafa viria de Dubai.

O contexto importa. Vorcaro buscava aproximação com o governo federal enquanto o Banco Master enfrentava dificuldades e tentava negócios com fundos de pensão e instituições públicas. Em 4 de dezembro de 2024, foi recebido por Lula no Planalto, fora da agenda oficial, em encontro intermediado por Guido Mantega. Semanas depois, em janeiro de 2025, o advogado Walfrido Warde (que atuava para Vorcaro) enviou mensagem dizendo que o presidente havia agradecido novamente o uísque e mandado um abraço. Lula, em entrevista, respondeu com a frase que se tornou clássica: “Não sei se deu, mas se deu, já bebi.”

A legislação brasileira é clara. O Código de Conduta da Alta Administração Federal (art. 9º) veda à autoridade pública a aceitação de presentes, salvo de autoridades estrangeiras em casos protocolares com reciprocidade. Brindes de baixo valor (até R$ 100, ou sem valor comercial e de distribuição generalizada) são a exceção. A Lei 8.112/90 (art. 117, XII) proíbe servidores de receberem presente ou vantagem em razão de suas atribuições. A Lei 12.813/2013, sobre conflito de interesses, e o Decreto 10.889/2021 reforçam a vedação quando o ofertante tem interesse em decisão do agente público.

Um uísque de R$ 500 mil oferecido por um banqueiro com negócios em trâmite no governo não é brinde. É presente proibido. Isso não é novidade no histórico de Lula. Em março de 2016, após depor na Lava Jato, ele declarou: “Vocês sabem o que é alguém sair da Presidência com 11 contêineres de acervo sem ter onde pôr? … Porque se somar todos os presidentes da história desse país, desde Floriano Peixoto, eu fui o que mais ganhei presente. Porque viajei mais, porque trabalhei mais, porque viajei o mundo, eu tenho até trono da África”.

O acervo incluía milhares de itens recebidos nos dois primeiros mandatos. Posteriormente, o TCU determinou a incorporação de presentes oficiais ao patrimônio da União, e a maior parte foi devolvida ou indenizada. O ponto não é se houve “roubo” formal na época – o regramento mudou –, mas a naturalidade com que o volume de presentes era tratado como patrimônio pessoal ou do “acervo” do presidente, pago em parte por empresas (como a OAS, que custeou a armazenagem).

O padrão se repete. Presentes caros de quem tem interesse em decisão do governo, encontros fora da agenda, agradecimentos por lobistas, e a reação de “se deu, já bebi” ou “ganho muita coisa, lembranças”. Não se trata de uma garrafa isolada. Trata-se da dificuldade histórica do PT em distinguir o que é público do que é privado, o partido do governo, o governo do Estado. O Planalto não é o escritório do partido, o presidente não é o destinatário pessoal de cortesias de banqueiros em busca de regulação ou recursos públicos, e o Estado não existe para viabilizar negócios de quem se aproxima com Macallan de 1945.

Quando as regras de ética pública são tratadas como formalidade dispensável e os limites entre esfera pública e privada se dissolvem no hábito do “presente”, o que resta é a confusão institucional que o PT nunca resolveu – e que, a cada nova revelação, reaparece com outro rótulo e outro preço. “É toma-lá-dá-cá”, explicou Roberta Luchsinger ao pedir um conselho remunerado a Lulinha, em uma empresa com interesses na Petrobras estatal. Lula trata o Estado como propriedade particular, e o nome disso, em linguagem clara, é corrupção.

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COMENTÁRIO DO LEITOR

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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MERCADO APOSTA EM FLÁVIO BOLSONARO PARA ENFRENTAR OS DESAFIOS DE 2027

Alan Ghani

Com inflação persistente, juros altos e contas frágeis, o Brasil caminha para 2027 sob pressão. Sem reforma, o crescimento fica ameaçado.

A classe política brasileira, incluindo os três poderes da República, não se deu conta da encrenca contratada para 2027. Os desafios vêm tanto por fatores internos como pelo cenário externo, exigindo que o país aprove reformas estruturais, não apenas para alcançar o desenvolvimento, mas para sobreviver a um mundo mais turbulento.

No cenário internacional, desde o pós-pandemia, a inflação se tornou mais resiliente (“grudenta”) em diversas partes do globo, principalmente nos EUA. Os efeitos da “economia a gente vê depois” durante a pandemia cobram o seu preço até hoje.

Além da dinâmica inflacionária pós-pandemia, as guerras entre Rússia e Ucrânia e entre EUA e Irã sustentam o preço do petróleo acima de US$ 100, sem perspectiva de ceder no curto prazo, uma vez que esses conflitos estão longe de caminharem para uma resolução final.

Sem a convergência da inflação para a meta, o Banco Central dos EUA (Fed) aumentou a taxa básica de juros, com perspectiva de mais elevações ainda neste ano. Juros mais elevados nos EUA trazem pressão no dólar por aqui, aumentando o risco inflacionário, o que dificulta uma redução mais expressiva da taxa Selic.

Infelizmente, não há perspectiva de queda de juros nas economias desenvolvidas no curto prazo, e não apenas pelo aumento da inflação, mas também pela elevação do risco fiscal. A dívida/PIB de várias nações alcançou patamares insustentáveis (acima de 100% da renda nacional), incorporando prêmio de risco na taxa de juros dos títulos públicos de economias desenvolvidas – algo inimaginável até pouco tempo.

Além de juros mais elevados por conta da inflação e do alto endividamento público de países desenvolvidos, o Brasil tem que lidar com um mundo menos globalizado, ou mais fragmentado, devido à guerra comercial de Trump e aos conflitos geopolíticos que incentivam países a produzirem internamente, reduzindo o comércio internacional. Menos comércio internacional se traduz em elevação do preço de mercadorias e perda de atividade econômica para o país.

Somente esses fatores externos – inflação, endividamento, fragmentação econômica, alta do preço do petróleo – já seriam motivos de preocupação para o Brasil. Somam-se a isso os problemas internos da economia brasileira.

Expectativa de inflação acima da meta (5,2%), 83% de famílias endividadas, recordes de recuperação judicial e inadimplência, Selic em 13,75%, dívida/PIB em 82,9% e economia com sinais claros de desaceleração trazem um cenário muito desafiador para 2027 em termos de crescimento econômico e geração de renda.

A reversão da perda de força da atividade econômica se torna praticamente impossível com fatores limitantes a um corte de juros. Os limitadores de queda da Selic são as altas de juros lá fora e o risco fiscal aqui no Brasil.

Com uma reforma fiscal, seria possível cortar os juros, trazendo crescimento sustentável (aumento do PIB sem gerar inflação), apesar de todas as limitações do cenário externo. É urgente uma reforma fiscal no Brasil. Apesar dessa obviedade, a sua implementação está longe de acontecer, pelo menos com este governo.

O mercado já fez a sua escolha, dando o benefício da dúvida para Flávio Bolsonaro realizar a tão esperada reforma fiscal e colocar novamente o país na rota do desenvolvimento econômico.