Arquivo diários:21 de setembro de 2026
DEU NO X
MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS
A ÉTICA E A LEI
Imagine que um sujeito foi contratado como diretor de uma grande empresa privada e resolve mandar reformar seu escritório, instalar uma hidromassagem e um home theater e comprar um carro importado, tudo às custas da empresa. Certamente será demitido ou talvez encaminhado a um hospício.
Mas dentro do governo isso é normal e corriqueiro.
Imagine que em uma empresa privada descubra que um funcionário de alto escalão tem uma esposa que trabalha na empresa concorrente. Certamente será demitido porque é uma situação inconveniente, mesmo que não tenha sido encontrada nenhuma irregularidade concreta.
Mas dentro do governo isso é normal e corriqueiro.
Imagine que em uma empresa privada um funcionário que mexe com grandes quantias de dinheiro começa a ostentar uma riqueza incompatível com seu salário: carro novo, viagens ao exterior, relógios caros. Certamente a empresa não irá esperar por uma longa e minuciosa investigação para afastar o funcionário.
Mas dentro do governo isso é normal e corriqueiro.
Quando a polícia investiga um crime, é comum que seja pedida a prisão preventiva ou temporária de pessoas sem que exista nenhuma prova concreta contra elas: costuma-se alegar “conveniência da instrução criminal”.
Mas isso nunca acontece com quem faz parte do governo.
O fato é que ao longo de muito tempo o governo conseguiu moldar a sociedade para que esta “normalize”, para usar uma palavra da moda, o uso de dois pesos e duas medidas para a moral e a ética: uma para ele mesmo, o governo, outra para os reles mortais. Como isso aconteceu?
Desde o início da humanidade existem conceitos que orientam as pessoas sobre o certo e o errado. As palavras mais usadas para descrever estes conceitos são “moral” e “ética”. Eles não são absolutos, mas em geral cada sociedade e cada cultura tem o seu consenso.
Mas ao longo da história o poder dos governos foi aumentando, e para consolidar e justificar esse poder, os governos substituiram, pouco a pouco, a moral e a ética pelas leis. Na explicação deles, a lei é sempre um reflexo da moral e da ética, e portanto a troca não causa nenhum problema. Mas a explicação deles não é verdadeira.
A lei não é feita para refletir a moral e a ética, pelo contrário: é feita para substituí-la, e para dar aos seus autores o monopólio da decisão sobre o certo e o errado. O povo, despreparado e incauto, abre mão de seu raciocínio e terceiriza a decisão para o governo. Quantas vezes você já viu perguntarem a um político se ele era honesto e ele responder “nunca fui condenado por nenhum crime” ou “nunca provaram nada contra mim”? É essa a idéia: o certo e o errado passam a ser definidos pela burocracia do governo.
Se o povo está preocupado com a corrupção, o governo também está, e a solução do governo é simples: se a corrupção é legalizada, não é corrupção. Assim, chegamos à seguinte situação:
– Não é ilegal um juiz, político ou funcionário público receber presentes caros de uma empresa e depois tratar de assuntos que interessam a essa mesma empresa.
– Não é ilegal um governo conceder vantagens, incluíndo benefícios financeiros, a uma empresa, se forem seguidos os procedimentos burocráticos e providenciados todos os carimbos necessários. (Como disse um jornalista, “Licitação é o processo pelo qual os políticos repassam o dinheiro público para seus amigos e parentes de forma legal e transparente.”)
– Não é ilegal um juiz tratar de um caso onde sua esposa é advogada de uma das partes.
– Não é ilegal um político fazer leis que beneficiem uma parcela da sociedade da qual ele mesmo faz parte.
– Não é ilegal ter regras diferentes para julgar uma mesma situação quando ela ocorre dentro ou fora do governo.
– Não é ilegal o governo conceder para seus membros vantagens e privilégios, e quando questionado ele mesmo julgar a legalidade destas vantagens e privilégios.
É claro que tudo isso é imoral e não deveria ser aceito por uma sociedade formada por seres pensantes. Mas o governo, o jornalismo, o sistema escolar, o cinema, as novelas da TV e vários etc trabalham incessantemente para que as pessoas deixem de ser seres pensantes e passem a ser seres que “obedecem à lei”.
PENINHA - DICA MUSICAL