PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NASCEMOS PARA AMAR – Bocage

Nascemos para amar; a Humanidade
Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.
Tu és doce atractivo, ó Formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão na alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

O BRASIL ESTÁ CHEIO DE CÚMPLICES DAS MENTIRAS DE ANTHONY FAUCI

anthony fauciAnthony Fauci escondeu efeito colateral grave da vacina que tomou contra a Covid

Esse diário do médico Anthony Fauci teve um efeito explosivo. Ele escreveu tudo em um computador do trabalho, salvou em servidor do governo, e aí foi fácil para as investigações do Senado encontrarem o material. Fauci foi convocado, precisou ir à Comissão de Segurança e Assuntos Governamentais do Senado, ficou em silêncio o tempo todo, mas revelaram tudo o que estava no diário. O que me chamou atenção foi o fato – que ele escondeu, mas estava no diário – de o próprio Fauci ter tido uma trombose pulmonar depois de ter tomado a vacina contra a Covid. O que se diz por aí – eu até procurei, mas não encontrei comprovação – é que, só em 2021 e 2022, as mortes de atletas jovens equivaleram ao registrado nos 50 anos anteriores.

E temos ouvido um barulhento silêncio aqui no Brasil sobre tudo isso. Pelo jeito, muita gente sentiu que também é responsável pelas coisas que Fauci pregou e que não eram necessárias: máscara, distanciamento, isolamento. Aqui no Brasil a Constituição foi totalmente desrespeitada: direito de ir e vir, direito de reunião, liberdade de expressão, vedação à censura, tudo foi ignorado. As pessoas eram censuradas só por falar em certas coisas; eu falava o óbvio, daquilo que eu via. Minha mulher é médica e estava curando; nenhuma paciente dela foi hospitalizada com Covid porque havia (e há) cura, e cura barata. Mas era proibido falar no tratamento, e a Polícia Federal chegou a ir à casa de pesquisadores como Flávio Cadegiani e Ricardo Zimerman, fora tantos outros médicos e médicas que foram calados.

Enquanto isso, toda hora um certo programa de televisão mostra (ou mostrava, não sei mais, faz mais de 20 anos que eu não assisto a televisão) que “descobriram agora uma raiz na Amazônia que cura o câncer”. Era amplamente noticiado, e não havia problema nenhum. Na medicina existe o que se chama de uso off label de medicamentos, quando se descobre um uso que não estava na bula. A ciência é assim: experimenta-se; se não deu certo, esquece; se deu certo, usa-se para salvar vidas.

Depois de tudo o que aconteceu no Senado americano, os estados de Louisiana, Flórida e Alabama estão se unindo para processar Fauci. Mas em 19 de janeiro de 2025, um dia antes de sair da presidência, Joe Biden assinou um perdão amplo e incondicional a Fauci por sua atuação desde 2014 no Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. E, como assessor de saúde do presidente dos Estados Unidos, recebeu um perdão sem que estivesse respondendo a nenhum inquérito. Não sei como a Justiça vai resolver isso.

* * *

Ainda já juízes que sabem o que é imunidade parlamentar

Alexandre de Moraes perdeu uma causa judicial em São Paulo. A mulher dele, Viviane, e os filhos, componentes do escritório de advocacia que teve um contrato de R$ 129 milhões com o Daniel Vorcaro e o Banco Master, estavam processando o senador Alessandro Vieira, relator da CPI do Crime Organizado, pedindo indenização por danos morais. Ele havia dado uma entrevista no SBT na qual falava das ligações entre o Master e o PCC, além de algumas declarações sobre Moraes e Dias Toffoli. O juiz recusou. É óbvio: a Constituição, no artigo 53, diz que “deputados e senadores são invioláveis civil e penalmente por quaisquer palavras”. E Viviane Barci ainda terá de pagar R$ 2 mil em honorários advocatícios para o senador.

DEU NO JORNAL

NORMAL, NORMAL

O senador Jaques Wagner (PT-BA), amigão de Lula (PT), é alvo central da 9ª fase da Op. Compliance Zero, de junho, e passa a ser investigado pelos sinais de enriquecimento.

Intriga quem se interessa pelo tema como o petista carioca chegou na Bahia sem um tostão no bolso, virou sindicalista e na política declara fortuna de R$ 24,5 milhões.

O patrimônio que cresceu 631% em oito anos, com bens que vão de apartamento do exclusivo Corredor da Vitória, em Salvador, a terrenos de valor milionário.

Wagner é acusado de receber vantagens como apartamento adquirido com dinheiro da corretora Reag, suspeita de elo com o crime organizado.

Lula e seu governo protegeram Wagner, como indica a suspeita de vazamento da 9ª fase da operação Compliance Zero.

O crescimento patrimonial abrupto, bens não declarados e suspeitas de propina reforçam a desconfiança contra conhecidas práticas petistas.

* * *

Não há motivo para espantos.

Tudo dentro dos conformes.

E a expressão “conhecidas práticas petistas”, que fecha essa nota aí de cima, resume tudo.

Isto sem falar da expressão “elo com o crime organizado”…

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SALAMANCA

Pouca gente sabe que os atuais campeões mundiais de futebol também são os fundadores da ciência econômica. Estou falando da Espanha, claro, mais especificamente dos chamados Escolásticos de Salamanca. Em um mundo onde o governo se esforça para que ninguém entenda a economia, é normal que eles sejam desconhecidos. Vamos conhecê-los?

Salamanca é uma cidade distante 240 km de Madrid, próxima à fronteira com Portugal, na parte sul do que um dia foi o reino de León. Tem hoje 145.000 habitantes e é sede de uma das mais antigas universidades do mundo ocidental, fundada em 1218. Foi a primeira universidade da Europa a ter uma mulher como professora, Luisa de Medrano.

Entre os séculos 16 e 17, a universidade de Salamanca viveu um período de grande produção intelectual, com obras importantes nos campos da filosofia, teologia e direito, e também em um campo que ainda não tinha nome, mas que viria a ser chamado de economia. Em outras palavras, podemos dizer que os primeiros fundamentos da ciência econômica surgiram em Salamanca.

Diego de Covarrúbias escreveu sobre a subjetividade do valor, conceito que seria fundamental séculos depois para a chamada Escola Austríaca, e fez um estudo sobre a evolução dos preços e a perda de valor da moeda da época, o maravedi, incluindo dados estatísticos; pode-se dizer que foi a primeira obra a tratar da inflação, ainda que não a chame por esse nome.

“O valor de uma coisa não depende de sua natureza objetiva, mas da opinião subjetiva dos homens, mesmo que tal opinião seja tola”

Jerônimo Castillo de Bovadilla analisou a importância da liberdade de mercado para a formação dos preços, e disse:

“Os preços dos produtos baixarão com a abundância e a concorrência dos vendedores”

Juan de Lugo e Juan de Salas estudaram a possibilidade de se determinar um “preço justo” para as mercadorias e concluíram que isso é impossível, devido à enorme quantidade de circunstâncias específicas que existem em cada transação de compra e venda.

Martín de Azpilcueta Navarro observou que a abundância de ouro e prata vindos da América havia feito os preços subirem na Espanha, e elaborou as primeiras teorias relacionando valor e escassez. Navarro resumiu magistralmente o fenômeno da inflação:

“Em países onde há mais dinheiro, tudo é mais caro”

Mas o meu autor preferido da Escola de Salamanca é Juan de Mariana. Em 1598, ele publicou De rege et regis institutione (Sobre o rei e a instituição real), onde analisa a contraposição entre os direitos dos cidadãos e os direitos dos governantes. De acordo com Mariana, qualquer cidadão pode justificadamente matar um rei que crie impostos sem o consentimento das pessoas, confisque a propriedade dos indivíduos ou impeça a reunião de um parlamento democrático. A idéia é que roubar é errado, e quem rouba dos outros não deixa de ser ladrão só porque é rei.

Mariana também escreveu De monetae mutatione (Sobre a alteração da moeda). Nesse livro, Mariana questiona se o rei é dono da propriedade de seus vassalos ou cidadãos, e chega à conclusão de que ele não é. Partindo disso, Mariana deduz que o rei não pode cobrar impostos sem o consentimento da população, já que impostos são simplesmente uma apropriação de parte da riqueza de um indivíduo. Para que tal apropriação seja legítima, ambas as partes têm que estar de acordo. Da mesma maneira, o rei também não pode criar monopólios estatais, já que eles seriam simplesmente um meio disfarçado de se coletar impostos.

O ponto central do livro, como indica o título, é sobre a inflação, ou alteração da moeda. Na época, o dinheiro era metálico, e era prática comum os governantes derreterem as moedas de ouro ou prata, acrescentar outros metais como cobre ou zinco, e com o volume aumentado cunhar novas moedas em quantidade maior (hoje os governos fazem a mesma coisa simplesmente imprimindo mais cédulas de papel). Mariana constata que ao fazer o dinheiro que está em posse das pessoas valer menos do que valia, a inflação equivale a um imposto, e acusa:

“… esse novo tributo resultante de um metal desvalorizado [..] é algo ilícito e maléfico”

O livro também traz conselhos que poderiam ser diretamente aplicados aos nossos dias:

“não há reino no mundo com tantos prêmios, comissões, pensões, benefícios e cargos; se eles todos fossem distribuídos de maneira ordeira, haveria uma necessidade menor de se retirar recursos adicionais do tesouro público ou de outros impostos.”

A opinião dos poderosos da época sobre a obra de Juan de Mariana foi a mesma dos poderosos de hoje, e ele foi preso por um ano e meio logo após a publicação do livro.

Embora estudiosos modernos tenham resgatado os ensinamentos dos escolásticos, adaptando-os para o mundo moderno, a triste verdade é que políticos do mundo inteiro preferem ignorar a ciência econômica e ao invés disso propagar dogmas que só servem para glorificar os governos grandes e justificar impostos cada vez mais altos.

DEU NO JORNAL

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

ADELINO MOREIRA, O POETA DOS AMORES SUBURBANOS

Capa do LP Encontro com Adelino Moreira (1967)

Nascido em Gondomar, Portugal, em 28 de março de 1918, Adelino Moreira de Castro, nome artístico Adelino Moreira, veio morar no Brasil, Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, com apenas um ano de idade. Foi o maior compositor luso-brasileiro interpretado por Nelson Gonçalves. Entre suas obras-primas destacam-se Última Seresta (a primeira a ser gravada), A Volta do Boêmio, A Deusa do Asfalto (reinterpretada magistralmente por Xangai), Boêmia, Negue, Escultura, Flor do Meu Bairro, Fica Comigo Esta Noite, Devolvi (esta gravada por Núbia Lafayette), Ciclone (interpretada por Carlos Nobre), Cinderela, Beijo Roubado, Êxtase, Última Serenata, e tantas outras excelentes composições de amores suburbanos dramáticos gravadas principalmente por Nélson Gonçalves, seu intérprete maior.

Iniciou sua carreira musical a convite do compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, então diretor artístico da Continental, onde gravou, em 1944, os fados Saudades e Olhos d’alma, de Campos e Morais. Em 1945, começou a tocar violão. Nesse mesmo ano, gravou seu segundo disco com as primeiras composições: o samba Mulato Artilheiro e a marcha Nem Cachopa, Nem Comida!. Esta, uma parceria com Carlos Campos. Em 1946, gravou as canções A Minha Oração e Perdoa, de Moreno e Ferreira e as marchas Num Coração, duas Pátrias, de Renato Batista e O Expresso Continua, de sua autoria com Américo Morais. Em 1948, voltou a Portugal, gravando canções brasileiras. Lá, participou como cantor da revista Os Vareiros. Retornando ao Brasil, no início dos anos 1950, abandonou a carreira de cantor, intensificando sua atividade de compositor.

Em 1952, conheceu o cantor Nelson Gonçalves e iniciaram uma intensa parceria. Em geral Adelino compunha e Nelson gravava, mas em algumas músicas como o bolero Fica Comigo Esta Noite, os dois assinaram em dupla. A primeira canção gravada por Nelson foi Última Seresta (1952), seguida de inúmeras outras que passaram a dominar os discos do cantor – normalmente sambas-canções dramáticos – dos quais se destacam o clássico A Volta do Boêmio (que vendeu a astronômica cifra de um milhão de cópias), Meu Dilema, Meu Vício É Você, Doidivana, Flor do Meu Bairro, entre outras.

Durante uma década (1955-1965) Adelino Moreira foi uma máquina de sucessos, provando que era mais forte do que seus intérpretes. Quando se afastou de Nelson Gonçalves, em 1964, num período conturbado da biografia do cantor, Adelino começou a distribuir composições para outros intérpretes. Um dos maiores sucessos de 1959 foi o samba-canção Ciclone que fez para Carlos Nobre, um dos muitos imitadores de Nelson Gonçalves, com quem reataria a amizade dois anos depois. Adelino alegou, na época, que só deu a música para Carlos Nobre para que Nelson Gonçalves entendesse que não era insubstituível.

Foi uma amizade de ótimos resultados financeiros para Adelino Moreira. O sucesso de Argumento, Meu Desejo, Êxtase, Meu Vício é Você e, sobretudo, A Volta do Boêmio, renderam a Adelino Moreira, em 1960, o suficiente para comprar, à vista, um palacete por seis milhões de cruzeiros na Zona Norte carioca, andar de carro importado e deixar de lado os “bicos” (como aprendiz de teatrólogo, sem muito êxito, e radialista).

Sabia como ninguém a fórmula do sucesso e seus limites. Não aderia a modismos. Suas composições eram basicamente do samba-canção (e marchinhas carnavalescas). Em suas letras pintavam cenários suburbanos, habitados por manicures, mariposas (mulheres atraídas pelas luzes das casas noturnas), cinderela e uma fartura de desencontros amorosos.

Em 1962, no programa de TV, sendo entrevistado pelo cultuado e admirado compositor de Aquarela do Brasil, Ary Barroso, este se queixou a Adelino Moreira de não fazer mais sucesso e perguntou se ele poderia lhe explicar o motivo. Mesmo estando de ante de um mito da música popular brasileira, que morreria dali a dois anos, Adelino Moreira não se deixou por rogado, e fulminou naturalmente: “O senhor começou a compor músicas para meia dúzia de criaturas que o endeusam e colocam o senhor no lugar em que o senhor não se encontra. O senhor se esqueceu completamente daquela massa que o elegeu como o maior compositor brasileiro até dez anos atrás. Se o senhor volta a compor para essa massa popular, voltará a fazer o mesmo sucesso.”

O compositor Fernando César, de grandes sucessos no início dos anos 1960, especialistas em versões (fez, por exemplo, a de Marcianita para Sérgio Murilo), definiu com precisão a música de Adelino Moreira: “O Adelino escreve pra gente que toma traçado (coquetel de cachaça com vermute), frequenta botequins, vai ao enterro de todos os amigos, dá cabeçadas nas vitrinas, usa sapato preto com meia branca, diz ‘com o perdão da palavra’ quando fala em suínos, e ‘Deus te ajude’ quando alguém espirra, ou seja, escreve para a grande maioria.”

Adelino Moreira morreu em 2002, com 84 anos, de um infarto, um óbito que ganhou grande cobertura da imprensa. Àquela altura, sua obra tinha sido reavaliada e ele desfrutava o status de mestre da MPB. Artistas de nichos diferentes o regravaram. Maria Bethânia deu uma interpretação definitiva a Negue, trazendo-a de volta às paradas e ao estrelato merecido em 1983 (no álbum Álibi). Em 2001, Negue foi incluída no CD São Vicente di Longe, de Cesária Évora. A banda mineira Pato Fu gravou A Volta do Boêmio, em 1995, no CD Gol de Quem? Sem contar as interpretações feitas pelo grupo Camisa de Vênus, em 1991, Ney Matogrosso e o genial violonista Rafael Rabelo. Em 1980, Ângela Ro Ro fez uma releitura de ‘Fica Comigo Esta Noite’ – música que foi faixa-título do CD da cantora Simone em 2000 – e, em 1998 as irmãs Alzira e Tete Espíndola reviveram ‘Garota Solitária’.

Adelino Moreira não era bem visto pela crítica high society da burguesia metida a bunda da bossa nova, tanto é que o produtor Valter Silva, conhecido como Pica Pau, recusava-se a apresentar as músicas dele no programa que tinha na Rádio Bandeirantes. Mas o grande compositor de ‘Deusa no Asfalto’ e ‘A Volta do Boêmio’ não perdeu a pouse e a classe e o fulminou nos versos do samba-canção ‘Seresta Moderna’ cantada por Nelson Gonçalves: ‘Um gaiato cantando sem voz/um samba sem graça/desafinado que só vendo/e as meninas de copo na mão/fingindo entender/mas na verdade, nada entendendo’.

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

A BOMBA DA DÍVIDA PÚBLICA, ENORME E CARA

Editorial Gazeta do Povo

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Dívida pública teve grande crescimento durante o terceiro mandato de Lula, e custo médio é o maior desde 2016

A dívida pública entrou no radar das principais preocupações econômicas e das grandes ameaças à estabilidade monetária e ao controle da inflação, pois ela não apenas bate recorde atrás de recorte – em junho, ela chegou a R$ 10,8 trilhões, ou 81,9% do PIB –, como também está se tornando cada vez mais cara: seu custo médio em junho é o maior registrado para o mês desde 2016, quando o país vivia a grande recessão lulodilmista, resultado de anos de política fiscal completamente irresponsável.

O setor público consolidado é composto pelos entes federativos cuja existência e gastos dependem das receitas de tributos cobrados pela União, estados e municípios. Por sua vez, o montante total dos tributos é uma fração da renda interna nacional gerada no processo produtivo. No geral, a fração dos impostos recolhidos pelo setor público é limitada e, segundo os conhecimentos teóricos da economia mundial, em economias de livre mercado a fração da carga tributária deve se limitar a um máximo de um terço do PIB, pois tributação superior a esse patamar costuma agir contra o crescimento do PIB e contra a geração de empregos.

Tendo em conta essa limitação, muitos países passaram a gastar mais que um terço do PIB e, para pagar os excessos (déficits de caixa), adotaram o recurso de tomar dinheiro emprestado das pessoas, bancos e empresas nacionais, bem como obter financiamentos em bancos e organismos financeiros internacionais. Isso faz com que uma nova despesa surja no orçamento público: os juros da dívida.

Nunca é demais lembrar que a dívida pública total é a soma da dívida pública externa (dívidas para credores internacionais, em moeda estrangeira) mais a dívida pública interna (dívidas para pessoas, empresas e bancos sediados no Brasil, em moeda nacional). O conceito mais usual é a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), ou seja, a dívida de municípios, estados e União e seus órgãos, excluídas as empresas estatais que vivem de venda de seus produtos. A DBGG é o valor total que o governo geral deve, e tudo indica que seguirá aumentando em relação aos atuais 81,9% do PIB.

A respeito do indicador dívida/PIB, é preciso recordar que o governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional (FMI) adotam metodologias diferentes para calcular o total da dívida do setor público consolidado. Segundo o FMI, que inclui os títulos da dívida pública em poder do Banco Central, a dívida brasileira fechará o ano em 96,5% do PIB. No entanto, independentemente das metodologias, existe um segundo problema, bastante grave, que diz respeito ao custo dessa dívida para os cofres públicos.

Como os Estados Unidos têm um PIB encostando nos US$ 30 trilhões e dívida pública superior aos US$ 36 trilhões, representa 120% do PIB, há quem argumente que a situação brasileira não é tão grave. Ocorre que a dívida não deve ser examinada separada de seu custo em termos do total dos juros incidentes sobre seu valor, os prazos de vencimentos e o desembolso anual com o pagamento dos juros; e, enquanto o custo anual de juros sobre a dívida pública nos EUA é de 3,5% do PIB, no Brasil o total de juros anuais equivale a 8,8% do PIB.

Não é preciso um cálculo complicado para concluir que essa é a variável que, se não for modificada, fará a dívida pública explodir em poucos anos até o ponto de se tornar incontrolável, com potencial para lançar o país em uma grave crise. No entanto, é preciso que haja as condições necessárias para uma redução nos juros, o que não ocorre no Brasil de Lula e do PT, onde o governo geral consolidado continua gastando mais do que arrecada antes de contar a despesa com pagamento de juros – registrando, portanto, déficit primário ano após ano. A conjunção entre déficit primário e juros da dívida é combustível para uma crise de grandes proporções.

A história econômica mundial vem mostrando, desde a Primeira Guerra Mundial, que há limite para o endividamento público. Quando esse limite é ultrapassado e a dívida segue crescendo, uma crise é inevitável, lançando o país em trajetória de insolvência do governo, quebra de confiança na moeda nacional, menos crescimento e mais pobreza. A essa altura, um programa de austeridade e de ajustes já não é mais um opção, mas uma obrigação, independentemente de o governo ser de esquerda ou de direita, pois as crises econômicas passam por cima das questões ideológicas e partidárias.