Pouca gente sabe que os atuais campeões mundiais de futebol também são os fundadores da ciência econômica. Estou falando da Espanha, claro, mais especificamente dos chamados Escolásticos de Salamanca. Em um mundo onde o governo se esforça para que ninguém entenda a economia, é normal que eles sejam desconhecidos. Vamos conhecê-los?
Salamanca é uma cidade distante 240 km de Madrid, próxima à fronteira com Portugal, na parte sul do que um dia foi o reino de León. Tem hoje 145.000 habitantes e é sede de uma das mais antigas universidades do mundo ocidental, fundada em 1218. Foi a primeira universidade da Europa a ter uma mulher como professora, Luisa de Medrano.
Entre os séculos 16 e 17, a universidade de Salamanca viveu um período de grande produção intelectual, com obras importantes nos campos da filosofia, teologia e direito, e também em um campo que ainda não tinha nome, mas que viria a ser chamado de economia. Em outras palavras, podemos dizer que os primeiros fundamentos da ciência econômica surgiram em Salamanca.
Diego de Covarrúbias escreveu sobre a subjetividade do valor, conceito que seria fundamental séculos depois para a chamada Escola Austríaca, e fez um estudo sobre a evolução dos preços e a perda de valor da moeda da época, o maravedi, incluindo dados estatísticos; pode-se dizer que foi a primeira obra a tratar da inflação, ainda que não a chame por esse nome.
“O valor de uma coisa não depende de sua natureza objetiva, mas da opinião subjetiva dos homens, mesmo que tal opinião seja tola”
Jerônimo Castillo de Bovadilla analisou a importância da liberdade de mercado para a formação dos preços, e disse:
“Os preços dos produtos baixarão com a abundância e a concorrência dos vendedores”
Juan de Lugo e Juan de Salas estudaram a possibilidade de se determinar um “preço justo” para as mercadorias e concluíram que isso é impossível, devido à enorme quantidade de circunstâncias específicas que existem em cada transação de compra e venda.
Martín de Azpilcueta Navarro observou que a abundância de ouro e prata vindos da América havia feito os preços subirem na Espanha, e elaborou as primeiras teorias relacionando valor e escassez. Navarro resumiu magistralmente o fenômeno da inflação:
“Em países onde há mais dinheiro, tudo é mais caro”
Mas o meu autor preferido da Escola de Salamanca é Juan de Mariana. Em 1598, ele publicou De rege et regis institutione (Sobre o rei e a instituição real), onde analisa a contraposição entre os direitos dos cidadãos e os direitos dos governantes. De acordo com Mariana, qualquer cidadão pode justificadamente matar um rei que crie impostos sem o consentimento das pessoas, confisque a propriedade dos indivíduos ou impeça a reunião de um parlamento democrático. A idéia é que roubar é errado, e quem rouba dos outros não deixa de ser ladrão só porque é rei.
Mariana também escreveu De monetae mutatione (Sobre a alteração da moeda). Nesse livro, Mariana questiona se o rei é dono da propriedade de seus vassalos ou cidadãos, e chega à conclusão de que ele não é. Partindo disso, Mariana deduz que o rei não pode cobrar impostos sem o consentimento da população, já que impostos são simplesmente uma apropriação de parte da riqueza de um indivíduo. Para que tal apropriação seja legítima, ambas as partes têm que estar de acordo. Da mesma maneira, o rei também não pode criar monopólios estatais, já que eles seriam simplesmente um meio disfarçado de se coletar impostos.
O ponto central do livro, como indica o título, é sobre a inflação, ou alteração da moeda. Na época, o dinheiro era metálico, e era prática comum os governantes derreterem as moedas de ouro ou prata, acrescentar outros metais como cobre ou zinco, e com o volume aumentado cunhar novas moedas em quantidade maior (hoje os governos fazem a mesma coisa simplesmente imprimindo mais cédulas de papel). Mariana constata que ao fazer o dinheiro que está em posse das pessoas valer menos do que valia, a inflação equivale a um imposto, e acusa:
“… esse novo tributo resultante de um metal desvalorizado [..] é algo ilícito e maléfico”
O livro também traz conselhos que poderiam ser diretamente aplicados aos nossos dias:
“não há reino no mundo com tantos prêmios, comissões, pensões, benefícios e cargos; se eles todos fossem distribuídos de maneira ordeira, haveria uma necessidade menor de se retirar recursos adicionais do tesouro público ou de outros impostos.”
A opinião dos poderosos da época sobre a obra de Juan de Mariana foi a mesma dos poderosos de hoje, e ele foi preso por um ano e meio logo após a publicação do livro.
Embora estudiosos modernos tenham resgatado os ensinamentos dos escolásticos, adaptando-os para o mundo moderno, a triste verdade é que políticos do mundo inteiro preferem ignorar a ciência econômica e ao invés disso propagar dogmas que só servem para glorificar os governos grandes e justificar impostos cada vez mais altos.