PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DOS DEDOS QUE FALAM – Orlando Tejo

Que importa que foguetes cruzem marte
E bombas de hidrogênio acabem tudo,
Se aos meus dedos, teus dedos de veludo
Ensinam que o amor é também arte?

Não desejo mais nada além de amar-te
E em êxtase viver, absorto e mudo,
Sorvendo da ternura o conteúdo
Que antes te buscava em toda parte!

Esses dedos que afago entre meus dedos,
Que acaricio a desvendar segredos
De amor nestes momentos que nos prendem,

Têm qualquer coisa que escraviza e doma,
Porque teus dedos falam num idioma
Que só mesmo meus dedos compreendem!

Orlando Tejo, Campina Grande-PB (1935-2018)

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UM PAÍS DE MENTIRAS

O primeiro artigo da nossa constituição diz que um dos valores da república é a “livre iniciativa”. Todos os outros artigos, bem como as outras leis, decretos, normas, regulamentos, portarias, etc, etc etc, contrariam esse princípio. Na prática, nossa república segue o princípio fascista do “tudo dentro do estado, nada fora do estado, nada contra o estado”.

Os valores que são considerados “direitos fundamentais” do ser humano, basilares para a construção de uma sociedade funcional, aqui são tratados como favores concedidos pelo governo, podendo ser retirados a qualquer momento por conveniências políticas ou eleitorais.

Por exemplo: comemorou-se muito a assinatura, após anos de espera, do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Européia. Mas logo em seguida, ambos os lados começaram os estudos sobre as “exceções” e “salvaguardas”. O apoio popular deixa claro que as pessoas são a favor do livre comércio, desde que esse livre comércio não seja livre.

Alguns políticos (e os fãs desses políticos) gostam de fazer elogios ao livre mercado e ao que eles chamam de “capitalismo”. Mas ao mesmo tempo aproveitam qualquer oportunidade para defender a intervenção e o controle estatal sobre tudo.

Outro exemplo: não é segredo que o mundo inteiro está vivendo uma crise no fornecimento de petróleo. Uma das leis mais básicas da economia é a que relaciona oferta e demanda, e se a oferta torna-se menor que a demanda, isso faz os preços subirem. Tentar lutar contra isso é quase tão inútil quanto lutar contra a gravidade ou contra as leis da termodinâmica, mas isso não impede os políticos de tentar. Recentemente, um deles disse: “O sujeito fica especulando. [..] e o diesel sobe de preço. Ele não tinha motivo [..] mas ele sobe também para ganhar mais. Isso é caso de polícia”. Repetindo: em um país que se diz democrático e favorável à livre iniciativa, um membro do governo acha que um empresário aumentar o preço de seu produto é “caso de polícia”. Sua opinião é compartilhada pelos PROCON´s que se arvoram o direito de emitir multas a empresas que praticam preços “abusivos”, sem que exista nenhuma lei definindo o que é ou não “abusivo”.

Outro princípio fundamental, o do respeito ao direito de propriedade, já nasce morto quando a constituição diz que esse direito está subordinado à “função social” da propriedade, função essa que, mais uma vez, é estabelecida pelo governo ao seu bel-prazer. A constituição estabelece que o dono de um imóvel só pode usá-lo da forma que o “planejamento urbano” da prefeitura determinar. De novo: quando a vida das pessoas deve obedecer ao planejamento governamental, isso não é democracia, é fascismo ou socialismo.

E quanto à liberdade de expressão? A constituição diz que há, mas também diz que não há. Mais uma vez, os brasileiros são a favor, exceto quando são contra. Ou seja, a liberdade é só para dizer o que eles gostam. Se eles não gostam, não pode, porque é ofensa, é injúria, é preconceito, é blasfêmia, é vilipêndio, é machismo, é feminismo, é discurso de ódio, é apologia ao crime, é incitação à violência, é ataque ao estado democrático de direito, é contra a moral e os bons costumes, é antidemocrático, é desrespeito às autoridades constituídas, é inconstitucional, é contrário às normas vigentes, é, enfim, proibido.

Em resumo, existe a realidade e existe o país fictício formado por narrativas, mentiras e muita hipocrisia.

DEU NO JORNAL

RECORDES NUMÉRICOS

Familiares do presidente Lula são citados ao menos 214 vezes no relatório final da CPMI que investigou a gatunagem que lesou mais de 6 milhões de aposentados e pensionistas do INSS.

O robusto documento, com 4.340 páginas, tem o termo “Fábio Luís” registrado por 118 vezes.

É o nome de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente da República, que teve indiciamento pedido pelo relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL).

O termo Lulinha, alcunha do herdeiro petista, aparece 71 vezes.

José Ferreira da Silva, pelegão irmão de Lula, foi citado 13 vezes.

O apelido, Frei Chico, outras 12. Mas escapou do indiciamento.

* * *

O irmão do Descondenado, chamado de “pelegão” nessa nota aí de cima, aparece com um número bem coerente e sensato: 13.

A dezena que é o símbolo da quadrilha petralha.

Quanto ao resto da notícia, tudo certo, tudo normal.

Dentro dos conformes.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COZINHEIRA DE IPIOCA

– O que é isso Doutor? – Sussurrou Edileuza quando Adolfo beijou de leve seus lábios.

Há mais de dois meses ela foi contratada como cozinheira na casa de Dona Virgínia. Desde a hora que a viu, o patrão teve uma compulsão, atração irresistível a seus lábios carnudos, sensuais. Sentiu imensa vontade de beijar a morena de sorriso branco.

Adolfo desde que se aposentou entregou-se ao lazer, ao ócio. Todos os dias durante a tarde assiste a um filme na televisão ou entra no Facebook. Ler bons livros, tomar um uísque faz parte de suas predileções. Pelo menos uma vez por mês cumpre suas obrigações matrimoniais com Dona Virgínia, vida tranquila, despreocupada, saudável, mas monótona. Ao aparecer a nova empregada deu uma catarse em sua libido, vivia espreitando a jovem, olhando as pernas, o andar e principalmente sonhava com os lábios carnudos da morena.

Certo dia, surpreendeu Edileuza, antes de sair, roubando da geladeira pedaços de carne, frutas e verduras, colocou na bolsa sem perceber que o patrão olhava. Na hora da saída, Adolfo chamou-a mandou abrir a sacola, provas irrefutáveis, o fruto e as frutas do roubo. Ela começou a chorar pedindo por tudo, não dissesse à patroa, era a última vez, devolvia tudo, só tinha aquele emprego para sustentar duas filhas adolescentes, morava num casebre em Ipioca. Chorava, pedindo a Adolfo. Ele se conteve, deu-lhe vontade de abraçá-la. Prometeu não contar se jurasse nunca mais levar um palito da casa! Ela sorriu apertou, alisou a mão do patrão, olhou nos olhos, saiu apressada.

Dia seguinte ao encarar Adolfo, ela piscou o olho, foi um alívio, ficou grata ao patrão, continuou seu trabalho na cozinha. Ela havia percebeu os olhares pidões de Adolfo desde que chegou. Depois do flagrante, quando Dona Virgínia saía Edileuza ficava displicente nos modos de sentar, cruzar pernas, rebolar. Ao falar com o patrão olhava-o nos olhos, provocava-o, ele cada dia mais tentado a fazer uma besteira, o Diabo veste avental.

Numa sexta-feira, Virgínia foi encontrar-se com as amigas, Adolfo chegou da rua alegre, cantando, com fome de anteontem. Ao servir à mesa, uma excelente arabaiana frita, Edileuza abaixou-se mostrando o generoso decote estufado por dois melões morenos, o coroa respirou fundo.

Adolfo foi tomar o cafezinho na cozinha. Edileuza encheu a xícara, açúcar, entregou-a olhando para os olhos da patrão, bem perto um do outro. Adolfo não aguentou, deu um beijo leve em seus lábios. Ela sussurrou com um sorriso maroto – “O que é isso Doutor?” – Ele respondeu com o sangue a ferver, “É só um beijo, apenas um beijo, não se importe fica nisso”. Edileuza deu uma gargalhada contou um segredo – “Minha tia Zefinha costumava dizer: dá certo não com patrão.”

Adolfo deixou a xícara cair, abraçou a morena num ímpeto de jovem abocanhou os lábios mais gostosos, mais sensuais que já havia experimentado em todos os anos de vida. A morena, não se fez de rogada, sabia beijar melhor que qualquer artista de televisão. No chão da cozinha aconteceu a primeira vez. Tia Zefinha tinha razão. Ao terminar, ela despenteada, “o senhor é louco patrão”, cada qual para seu lado como se nada tivesse acontecido, Adolfo entrou no computador, Edileuza continuou a faxina na cozinha. No momento da saída, ele colocou uma nota de R$ 100,00 na bolsa da morena, para o ônibus. Prometeram não fazer mais em casa. Durante a semana num motel é mais apropriado.

Adolfo anda feliz, remoçou, vive de bem, tem maior cuidado, foi um acontecimento em sua vida monótona. Dona Virgínia contagiou-se com o bom humor do marido, anda feliz como nunca. Edileuza continua excelente cozinheira, maior respeito ao patrão, exceto nos momentos de amor numa tarde de folga no motel Star. Adolfo aumentou o salário da jovem em 80%. Acabou-se a vida monótona de todo dia igual aos outros. Espera a tarde de folga na quarta-feira, e passa horas agradáveis com a Cozinheira de Ipioca.

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MEIAS VERDADES

Pantaleão na cadeira de balanço

É mentira, Terta?!

A mentira é o mais perigoso meio utilizado pelos humanos para destruir pensamentos, alterar comportamentos humanos e obter vantagens em tempos de guerra ou de paz.

Nos conflitos armados, manifesta-se através da “guerra de informações” públicas, com o fito de iludir adversários, levando-os às decisões erradas.

Na paz, a mentira é disseminada por meio das conversas de rua ou reservadamente praticadas. Mas, em termos de administração pública, sua força está no uso do voto como mercadoria. No caso, a mentira corre solta e veloz, mas nem sempre deixa rastro.

Não aparece como armamento e atua como uma grande força de convencimento, capaz de derrubar pessoas, organizações e agremiações partidárias.

A mentira é a arma para se iludir.

Desde cedo, na casa paterna, há muitos anos, se aprendia que a mentira provocava castigos. Papai dizia que expressar a verdade era uma obrigação, jamais mérito.

Passaram-se os anos e nessa esteira de aprendizados filosóficos ocorreram mudanças e reorganização de comportamentos, notando-se que hoje proliferam nos discursos políticos, nas entrevistas, no comércio e na própria sociedade, as meias-verdades.

Segundo os professores, meias-verdades são declarações que ocultam, no todo ou em parte, os fatos ou informações. Pode-se assim definir como “meias mentiras”, por manipularem a realidade.

Segundo Louis Blanche Bordeaux, elas são perigosas porque utilizam uma base verdadeira para tornar aceitável uma parte falsa, enganando o receptor.

Muitas vezes, são usadas para manipulação ou para evitar a responsabilização completa, sendo piores do que uma mentira absoluta.

Tem mais, não há mentira relativa!

Em nosso país é voz corrente a utilização da “mentirinha carioca”; ou seja, aquela que não ofende, mas salva algumas situações embaraçosas. Porém, algumas vezes, necessita de um elemento de prova, para se consolidar: ou seja aquele que confirma ser a mentira uma realidade.

Vem-me a forte lembrança do saudoso Pantaleão Pereira Peixoto, personagem de Chico Anysio, que conversava com o amigo, interpretado pelo ator e colega Luiz Delfino, criava mentiras do arco-da-velha, recorrendo à esposa, Terta, (Suely May) que funcionava como elemento de prova, não faltando o inimitável Pedro Bó, (José Lester) sempre interrompendo as conversas com perguntas idiotas.

– É mentira, Terta?!

DEU NO JORNAL

ENTERRADA CPMI

Nikolas Ferreira

A decisão do Supremo Tribunal Federal de derrubar, por 8 votos a 2, a prorrogação da CPMI do INSS é mais um episódio revoltante do cenário político recente. Em um caso que envolve denúncias graves e milhões de aposentados prejudicados, o que se viu foi o encerramento precoce de uma investigação que ainda tinha muito a esclarecer, não aos parlamentares da comissão, mas a todos os brasileiros.

Apenas Luiz Fux e André Mendonça votaram a favor da continuidade da comissão. Os demais ministros optaram por encerrar os trabalhos, mesmo diante de indícios e questionamentos ainda em aberto. Para a população, especialmente para os aposentados afetados, a mensagem é clara e desanimadora: não houve interesse real em ir até o fim.

É impossível ignorar o contexto político dessa decisão. Desde o início, houve sinais de que o avanço das investigações nunca foi prioridade para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo contrário, aliados trabalharam para esvaziar a CPMI e agora comemoram, de forma vexatória, o seu encerramento.

Em vez de respostas, o que se entregou foi muita blindagem a investigados, incluindo nomes próximos a Lula, como seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e sua amiga Roberta Luchsinger, que, segundo a imprensa, teria dito que “não cairia sozinha”.

A incoerência institucional também salta aos olhos. Em 2022, o próprio Luís Roberto Barroso defendeu, ao determinar a abertura da CPI da Pandemia, que a investigação parlamentar era um direito da minoria e que a busca pela verdade não poderia se submeter à vontade da maioria. Agora, o discurso parece ter sido convenientemente abandonado.

Outro ponto que causa indignação é a justificativa apresentada por alguns ministros: a de que investigações não podem ser “infinitas”, que precisam ter objeto definido e condutas individualizadas. Curiosamente, esses mesmos critérios não são aplicados ao chamado “Inquérito das Fake News”, conduzido pelo próprio Supremo desde 2019, que segue sem prazo claro e com contornos amplos.

O encerramento da CPMI do INSS, nessas circunstâncias, não representa apenas o fim de uma comissão. Significa, para todos os brasileiros, a sensação de que a verdade foi interrompida, de que interesses políticos falaram mais alto e de que, mais uma vez, aqueles que deveriam responder foram protegidos. Até quando isso tudo será normalizado?

DEU NO X

DEPUTADO ENFIOU TUDINHO NO FURICO DO GAZELA SALTITANTE