
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro.
Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.
Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém, pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)
Eu sigo buscando compreender
Veredas do mundo, estradas da vida
Fazendo meu verso de alma ferida
No averso da alma querendo morrer.
Trazendo segredos para entreter
Quem lê, quem escuta e quem se inquieta
Com versos sobrando em obra incompleta
Anseios e medos que já me consomem
Não sei se é o poeta que finge ser homem
Ou se é o homem que se finge poeta.
Cingido em tudo por um grande cinto
Me sinto humano alegre e triste
Se existe a derrota, o sonho persiste
Quando pouco falo, é quando mais minto.
Cada nova linha, é verso distinto
Fúteis entrelinhas, ideia abjeta
Mas, se eu escrever de forma correta
Os versos de avesso me domem e me tomem
Não sei se é o poeta que finge ser homem
Ou se é o homem que se finge poeta.
Poesia inspirada em diálogo ouvido no trailer do filme O Ano da Morte de Ricardo Reis.