Eu era um “menino véi buchudo” e acompanhava meu pai acompanhando o noticiário sobre a Eleição Indireta para Presidente do Brasil. O ano era 1985.
Quando o repórter anunciou que Tancredo Neves não sofria mais nenhuma possibilidade de derrota, papai pulou da cadeira com os braços para o alto. Eu pulei junto. Gritamos de alegria.
Comemorávamos a vitória do mineiro; de braços dados com a Democracia, filha legítima da Liberdade.
Tínhamos, papai e eu, uma esperança sem igual no futuro que se abria à nossa frente.
Hoje, papai não acompanha mais nada. O Alzheimer não lhe permite entendimento algum, alegria alguma. Só há como um vazio na tristeza dos seus olhos de pálpebras caídas; talvez porque os tempos passados foram apagados para ele na mesma velocidade que se apaga o presente, logo após acontecer. Já não sonha com um futuro de bons augúrios, o meu pai, pobre pai que, anos antes daquela comemoração, havia me ensinado uma música cuja letra previa “esse é um país que vai pra frente”; mas que parece nunca foi. Nem irá?
Aquela esperança de braços levantados sob a égide da alegria, em 1985, foi se definhando em par com as memórias de papai.
Outro dia eu me fiz de doido e, sentado à sua frente, narrei os acontecimentos nacionais do tempo presente para papai. Não me importei se ele compreendia, ou não. Queria me iludir que estava ali a consciência impecável do homem que me serviu de norte moral, sendo o alicerce para os meus princípios políticos. Falei da corrupção, das decisões questionáveis e quando já narrava o terceiro escândalo, dando os nomes e os cargos dos envolvidos, por trás de uma nuvem de contemplação de algo inexistente no espaço entre nós dois, ele disse “sempre foi assim”. Seus olhos estavam parados, como ficam a maior parte do tempo, olhando no vácuo dos anos apagados.
Meu pai já não controla sequer o presente. É um homem sem esperança.
E eu, seu filho, não tenho certeza alguma sobre o futuro do nosso país. Embora ainda haja, em mim, uma réstia dela. Digo. De esperança.
Hoje eu tenho mais idade que papai tinha naquele 1985. E me pego divagando se o nosso futuro, traçado naquele passado, não teria sido mais auspicioso se tivéssemos, papai e eu, chorado a derrota de Tancredo. Quem saberá?
Afinal, o futuro é incerto em todas as direções.
Porém, o passado, que arrima o presente, esse ninguém pode apagar em mim.
Nem o Alzheimer de papai.







