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A DELAÇÃO DO FIM DO MUNDO

Roberto Motta

Uma delação completa, feita pelo banqueiro do Master, tem potencial de elevar a temperatura política a níveis insuportáveis, mesmo para aqueles que hoje detêm enorme poder

O assunto da semana foi a possível delação do banqueiro do Master. A mídia e os analistas não falaram sobre outra coisa. A expectativa de muita gente é que a delação sacuda os alicerces da república, provocando o fim do atual estado de coisas e trazendo tempos melhores para o país.

A delação seria um “ponto de não retorno”, no dizer de um colega. Se o banqueiro contar tudo o que sabe – “e ele não tem alternativa”, segundo outro colega –, a situação de muitas figuras importantes, incluindo ministros da suprema corte, ficaria complicada.

Uma vida inteira de Brasil me ensinou a ser cético. É preciso respeitar os fatos, e fazer uma análise das possibilidades futuras levando em consideração as restrições impostas pela realidade.

Imaginemos, como hipótese de partida, que o banqueiro faça a delação mais completa da história. Imaginemos ainda que essa delação inclua um ou mais ministros da mais alta corte do país, e que as denúncias sejam fundamentadas em evidências irrefutáveis – comprovantes de depósito, fotografias, gravações de vídeo e documentos legítimos.

Se uma delação como essa for feita, o que acontece depois?

Vamos examinar cinco cenários possíveis.

O primeiro cenário é puramente jurídico. Nesse cenário, a Procuradoria Geral da República (PGR), diante da delação e das evidências apresentadas, oferece uma denúncia penal contra os ministros. Essa denúncia é oferecida na corte suprema, por se tratar de acusações de crimes comuns e não de crimes de responsabilidade. Se a denúncia for aceita pela corte, ela então julgará os ministros denunciados. Se os ministros forem considerados culpados, eles podem – na teoria – ser condenados a penas de prisão e a devolver valores recebidos ilicitamente. Esse cenário apresenta no mínimo três pontos críticos: a PGR precisa oferecer a denúncia, a denúncia precisa ser aceita e precisa haver disposição dos outros ministros de condenar seus pares.

No segundo cenário, a PGR, mesmo com a delação e sólidas evidências, decide não apresentar uma denúncia. Reagindo a esse fato, o Senado inicia um processo de impeachment do procurador-geral, o que poderia levá-lo a mudar de posição. O ponto crítico nesse caso é a existência de disposição e coragem política no Senado.

O terceiro cenário é político. Diante da delação, a presidência do Senado decide dar andamento aos pedidos de impeachment de ministros que se encontram pendentes. Os senadores entenderiam que a situação chegou a um ponto insustentável e a necessidade de agir se torna maior que o receio de represálias. Um detalhe importante desse cenário é que o afastamento político-administrativo pelo impeachment não equivale a uma condenação penal ou civil. Portanto, se não houver processo judicial após o impeachment, os ex-ministros estariam livres para aproveitar o patrimônio acumulado e trabalhar nas empresas da família – quem sabe até advogando junto à suprema corte.

No quarto cenário, o próprio tribunal poderia aplicar aos ministros uma punição disciplinar, segundo o que determina a Lei Orgânica da Magistratura (Loman). Isso seria uma medida inédita, já que a aplicação da Loman a ministros da suprema corte envolve sensibilidade institucional. Nesse caso, a punição provavelmente seria aposentadoria compulsória.

O quinto cenário é aquele no qual muitos cidadãos apostam: a delação não produz nenhum resultado prático.

As informações já divulgadas, conectando autoridades com o escândalo do Master, parecem ser gravíssimas e é difícil imaginar que elas possam ser totalmente ignoradas. Uma delação completa, feita pelo banqueiro, tem potencial de elevar a temperatura política a níveis insuportáveis, mesmo para aqueles que hoje detêm enorme poder. Mas é importante ressaltar que o fator novo é político, e não jurídico ou institucional.

Essas são as principais possibilidades, considerando a constituição, as leis e os movimentos políticos. Qualquer análise sobre o impacto da delação precisa se ater à realidade, sob pena de ser apenas expressão de desejos.

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

CPMI DO INSS E INVESTIGAÇÕES DO MASTER ESTÃO PRORROGADAS

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André Mendonça prorrogou CPMI do INSS e investigação da PF sobre Banco Master

O ministro André Mendonça, relator da investigação sobre o desvio nas contas dos velhinhos da Previdência, atendeu o pedido da chefia da CPMI do INSS, que também investiga o roubo de R$ 6 bilhões dos idosos, para prorrogar a comissão, que se extinguiria no próximo dia 28. Mendonça, que está mostrando ser o melhor e o mais confiável no Supremo – as pesquisas indicam – também já havia prorrogado a investigação sobre o Banco Master por parte da Polícia Federal.

A CPMI vai durar mais quatro meses, terá tempo de apurar muita coisa ainda. Os parlamentares estão examinando até as coisas do Master, naquilo que tem relação com o esquema. Há até uma sala blindada onde se guarda o material, as fotos, os vídeos das festas que Daniel Vorcaro oferecia às sedentas autoridades que queriam se divertir. Está blindado lá, talvez até para não desfazer casamentos, mas os representados – nós, os eleitores – temos todo o direito de saber como se portam os nossos representantes.

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Justiça volta a impedir uso de patrimônio do DF para socorrer BRB

Ainda sobre o Master, a Justiça impediu de novo que o governo do Distrito Federal use, para salvar o BRB, o banco estatal local, imóveis que são patrimônio público – no caso, uma área de proteção ambiental da Terracap, com 716 hectares e avaliada em R$ 2,3 bilhões. O juiz aprovou uma ação movida pela senadora Leila Barros e por parlamentares do Partido Verde. O governador Ibaneis Rocha reclamou da decisão da Justiça, dizendo que é “falta de compromisso com o BRB”. Que incrível! Foi ele quem mobilizou todo mundo para comprar o Master. É esse o “compromisso” dele com o BRB?

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Penduricalhos são parte da triste tradição brasileira de mordomias

Estou há 50 anos em Brasília, e já vi de tudo aqui. As mordomias são uma espécie de moda, assim como as promessas de acabar com elas. Eu lembro que repórteres iam até a Península dos Ministros, onde moravam os ministros, mexer no lixo para ver se encontravam alguma coisa. Um dia, encontraram filé no lixo de Arnaldo Prieto, ministro do Trabalho no governo Ernesto Geisel. O filé estava estragado, foi para o lixo; denunciaram que o ministro estava comendo filé. Depois Collor se elegeu como “caçador de marajás”; Lula perdeu a eleição porque ironizou, falou em “maracujá”. Tivemos mensalão, petrolão, tem de tudo neste país, e não para nunca.

Agora temos a história dos penduricalhos. Juízes, promotores, defensores públicos, advogados públicos se mobilizando para não perder os penduricalhos. Segundo um levantamento, eles custam cerca de R$ 15 bilhões por ano, com remunerações além do limite que está na Constituição brasileira. Imaginem aqueles que trabalham no Judiciário e que não respeitam a Constituição: que moral têm para condenar alguém que está desrespeitando a lei infraconstitucional? É um enorme paradoxo. Mas isso vem de longe, é tradição brasileira. Eu me lembro que Jânio Quadros mandou escrever na porta dos veículos oficiais “uso exclusivo em serviço”: só podiam usar quando estavam trabalhando, e não para transportar família de ministro do Supremo em São Luís, por exemplo.

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Boletim Focus mostra que preocupações com economia estão crescendo

O mais recente Boletim Focus, do Banco Central, mostrou as expectativas do mercado financeiro. A previsão de inflação para este ano está subindo, agora é de 4,17%; a meta é 3%. A estimativa para o PIB está inferior a 2%, é de 1,84%. E, pelo jeito que vão as coisas, pode piorar. Para o fim do ano, a projeção do mercado é Selic de 12,5% e dólar a R$ 5,40.

Há preocupações com o preço do diesel e até com desabastecimento, em relação à colheita em andamento de um grande produto, uma grande commodity agrícola, que é a soja. As colheitadeiras têm motores muito potentes que gastam muito diesel, mas o Brasil produz pouco diesel, depende muito da importação, embora o Brasil exporte petróleo. É uma questão de mercado. E até o fertilizante está mais caro com os problemas de navegação no Estreito de Ormuz.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NOSTALGIA – Florbela Espanca

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as joias que p’las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi…
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

O meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

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