Feliz de ver o presidente na sua casa com sua família…muito embora nunca deveria ter sido preso. Agora, inacreditável como a Globo pode invadir a privacidade das pessoas sem nenhum escrúpulo. Imagina se isso fosse feito na casa do Alexandre de Moraes? Entende como tudo pode só… pic.twitter.com/eZ6pqlPeL6
Há encontros curiosos na música. Alguns parecem acontecer por acaso. Outros, por afinidade. E há aqueles que parecem nascer de um reconhecimento íntimo, como se uma canção, ao ser ouvida, despertasse outra que já estava esperando para existir.
Tive esse sentimento ao aproximar Simple Man, lançada em 1973 pelo Lynyrd Skynyrd, e Uomini semplici, gravada em 1981 por Edoardo De Crescenzo.
Aliás, quanto à questão temporal, preciso fazer um registro da ordem cronológica em que essas duas canções chegaram ao meu conhecimento: apesar de Simple Man ser anterior a Uomini semplici, ouvi-as pela primeira vez na ordem inversa — ou seja, a mais recente antes da mais antiga.
E isso importa? Para mim, sim. Porque sempre me chamou a atenção o fato de a canção italiana trazer alguns versos em inglês: “simple man, simple man, simple man…” — repete Crescenzo insistentemente no final.
Eu já tinha ouvido versos em inglês na canção italiana C’era Un Ragazzo Che Come Me, de Gianni Morandi, que fez sucesso no Brasil com o título Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones — em dois momentos diferentes: primeiro com os Incríveis, depois com os Engenheiros do Hawaii.
Mas ali o contexto era claro: a história de um jovem americano convocado para a guerra do Vietnã. Logo, fazia sentido introduzir versos como “Stop! Coi Rolling Stones! Stop! Coi Beatles songs!”.
Também conhecia Tu vuò fa’ l’americano, de Renato Carosone, que muita gente no Brasil conhece na versão Pa-Panamericano (quem chegou até aqui e lembra já pode deixar um like!).
Nela, um italiano finge ser um soldado americano, tentando aproveitar sua popularidade com as garotas locais após a Segunda Guerra Mundial — mas não é levado muito a sério:
Tu balli il rock’n’roll (Você dança rock’n’roll) Tu giochi a baseball (Você joga beisebol) Ma i soldi per le Camel (Mas o dinheiro para os cigarros Camel) Chi te li dà? (Quem te dá esse dinheiro?) La borsetta di mammà (A bolsa da mamãe) (…) Tu vuo’ fa’ l’americano, ‘mericano, mericano, ma si’ nato in Italy (Você finge que é americano, mas nasceu na Itália)
Mas, em Uomini semplici, eu não encontrava o motivo dos versos em inglês. Afinal, nenhum trecho da canção fazia referência ao povo americano, ao seu estilo de vida ou a algum personagem específico. Era um pequeno mistério.
Até o dia em que ouvi Simple Man, com sua mensagem direta e clara, sintetizada no refrão:
And be a simple kind of man (E seja um tipo simples de homem) Oh, be something you love and understand (Oh, seja algo que você ame e entenda) Baby, be a simple kind of man (Querido, seja um tipo simples de homem) Oh, won’t you do this for me, son (Oh, você não fará isso por mim, filho) If you can? (Se puder?)
A composição atribuída a Ronnie Van Zant e Gary Rossington carrega a simplicidade como método. Uma mãe fala ao filho. Não complica. Não teoriza. Diz apenas o essencial: não corra atrás do ouro dos outros, não se perca no barulho do mundo, seja um homem simples.
Depois de conhecê-la, ficou fácil imaginar Crescenzo, alguns anos mais tarde, ouvindo aquela canção americana e pensando, quase num impulso: “Ma certo… ma certo… ce ne sono mille così, nelle strade.” (Claro… claro… há milhares desses por aí, nas ruas.) — o autor da letra de Uomini semplici é Franco Migliacci, mas me parece natural que em nossa memória a canção fique mesmo ligada ao seu principal intérprete.
O fato é que, em Uomini semplici, o conselho dá lugar ao reconhecimento. Os homens simples já estão lá. Passam despercebidos, atravessam o dia, sustentam o mundo sem discurso e sem plateia. Não pedem definição, não reivindicam lugar. Apenas existem:
Gli uomini semplici sono sempre eroi (Os homens simples são sempre heróis) che in silenzio vivono, esistono (que em silêncio vivem, existem) Alberi e nuvole con il vento sbandano (Árvores e nuvens cambaleiam com o vento) loro invece lottano, resistono (eles, ao contrário, lutam, resistem) (…) Sulla terra non ci sono santi (Na terra não há santos) gli uomini semplici sono tanti (os homens simples são muitos) Non li vedi e non li senti (Você não os vê e não os ouve) ma son tutti intorno a te (mas estão todos ao seu redor) Simple man, simple man, simple man
A partir daquele momento, ficou impossível ouvir uma música sem pensar na outra.
Porque, enquanto Simple Man nos convida a ser algo, Uomini semplici nos mostra que esse algo já vive entre nós — quem sabe, até dentro de nós, em algum lugar menos ruidoso.
Quando Crescenzo repete “Simple man, simple man”, não soa como mera citação. Soa como quem encontrou a palavra exata, mas em outra língua.
Há algo de melancólico nisso tudo. Porque, se é verdade que os homens simples existem, também é verdade que o mundo parece cada vez menos interessado neles. Preferimos o extraordinário, o complexo, o ruidoso.
Em tempos de redes sociais, superexposição da vida pessoal e sonhos de se tornar um influencer com milhões de seguidores — e dólares —, a vida continua sendo sustentada por gente que não faz alarde. Gente que não está tentando ser nada além do que já é.
No fundo, as duas canções não dizem coisas diferentes. Elas apenas chegam por caminhos distintos ao mesmo ponto. Uma ensina, a outra reconhece.
E entre ensinar e reconhecer há um intervalo sutil, mas decisivo.
Talvez a maior homenagem à simplicidade não seja recomendá-la, mas percebê-la.
Aí não importam as palavras — ou mesmo o idioma — para nos referirmos a ela: simple man; uomini semplici.
P.S.: Revisando o texto, observei que embora a palavra “simples”, em português, seja frequentemente utilizada no sentido de desprovido de complexidade, rudimentar ou singelo, esse não seria o sentido mais adequado ao transmitido pelas palavras “simple” e “semplici”, no contexto das canções que deram ensejo à crônica. Nelas, esses termos exprimem mais um sentido de pessoas que não teriam nada de extraordinário, que se guiam por valores considerados básicos, como família, amigos e trabalho. Ou seja, “simple man” e “uomini semplici”, para nós, brasileiros, talvez tenha um significado mais próximo de “pessoas comuns”, “gente comum”. Isso me remeteu a outra canção italiana, certamente mais conhecida dos brasileiros na voz de Renato Russo. Refiro-me a “Gente”, cujo refrão diz:
Non siamo angeli in volo venuti dal cielo (Não somos anjos voando no céu) Ma gente comune che ama davvero (Mas pessoas comuns que amam de verdade) Gente che vuole un mondo più vero (Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro) La gente che incontri per strada in città (As pessoas que você encontra na rua da cidade)
Correria na CPMI do INSS, que investiga como 6,5 milhões de idosos foram roubados em R$ 6 bilhões por uma quadrilha para a qual prisão seria pouco. Pena que a correria ocorre porque tudo indica que a CPMI não será prorrogada. A maioria dos ministros do Supremo decidiu que o STF não pode impor uma prorrogação, que isso só pode ser feito se a maioria aprovar. E, como o que mais tem é gente querendo esconder e proteger (os governistas, por exemplo, querem proteger o Lulinha; outros que devem ter levado algo também querem esconder), a ordem é abafar tudo, contrariando o que diz a Constituição, que exige moralidade e publicidade no serviço público. Se o serviço é público, tem de ser público. E o público – você, eu, todo mundo – tem de ficar sabendo o que estão fazendo com o dinheiro dos nossos impostos.
Eu assisti à votação, cheia de ironias interessantes nos votos contrários a essa prorrogação. Os ministros dizem que os poderes são independentes, e que por isso eles não se podem meter no Legislativo. Mas não se metem o tempo todo? Um dia antes fizeram exatamente isso, legalizando penduricalhos. O ministro Flávio Dino chegou a dar um exemplo, dizendo que eles não podem exigir que o Executivo tenha um certo número de ministérios. Mas impedir que o presidente da República nomeie o diretor da Polícia Federal, isso pode? Porque já fizeram isso. Os ministros ainda disseram que não pode haver prorrogação indefinida. Mas sete anos de inquérito do fim do mundo, isso pode? O tamanho de um inquérito normal é de 60 dias, o das fake news está com sete anos. Disseram que é preciso seguir rigorosamente o devido processo legal. E por acaso ele foi seguido nos julgamentos do 8 de janeiro? Tem mais: falaram em “obedecer aos direitos fundamentais”. Foram obedecidos nas condenações coletivas, por atacado, em que nem sabiam o que a pessoa tinha feito? Tem manifestante condenado a 14 anos sem ninguém saber o que fez, sem uma única prova do que a pessoa fez.
E agora? A CPMI pode votar um relatório apressadamente, ou encontrar maioria para prorrogar. O Supremo não impediu a prorrogação, só decidiu que não pode obrigar.
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Carla Zambelli ainda tem mais duas chances de evitar extradição
Os jornais já estão noticiando até que Carla Zambelli agora vai ser presa, que vai voltar para cumprir pena na prisão feminina em Brasília. Calma lá! Ela ainda tem 15 dias para recorrer à Corte de Cassação e, depois disso, quem dá a palavra final é o Poder Executivo, o Ministério da Justiça do governo de Giorgia Meloni. A versão que apurei é que, se Meloni e o ministro da Justiça ficarem em silêncio, não haverá extradição. Eles precisam ordenar que Zambelli seja enviada de volta ao Brasil. Aconteceu aqui com Cesare Battisti: o Supremo autorizou a extradição, mas o governo do PT não deixou. Foi Temer quem assinou a extradição, pouco antes de começar o governo Bolsonaro, mas Battisti fugiu e foi capturado na Bolívia.
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Lula ensaia mais bondades para enganar o povo novamente
Lula está preocupadíssimo com as pesquisas. Viu Flávio Bolsonaro passar à frente dele nas simulações de segundo turno, e sua desaprovação está cada vez maior. Por isso, está inventando mais bondades, mais presentes em troca de votos. Nós criticamos Lula, mas ele é só a consequência. A causa são as pessoas que votam nele. Elas são a causa de não termos picanha, das promessas não cumpridas, de a corrupção e a bandidagem terem voltado com tudo. Os bandidos e os corruptos tinham medo de Bolsonaro; com Lula todo mundo já conhece, já sabe como é. Mas repito, a culpa não é de Lula. Lula é a consequência, e a causa são os que decidiram o voto.