PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como “Cego Aderaldo” um dos maiores cantadores da poesia popular nordestina (1878-1967)

* * *

Cego Aderaldo

(atendendo a um pedido do Padre Cícero)

À ordem do meu padrinho
Vou colher algumas flores…
Fazer minhas poesias
Cheias de grandes louvores
Saudando, primeiramente,
A Santa Virgem das Dores.

O nome do santo Padre
Anda pelo mundo inteiro,
A cidade está crescendo
Com este povo romeiro,
Devido às grandes virtudes
Do santo de Juazeiro.

Nossa Senhora das Dores
É que nos dá proteção,
Ordena ao nosso bom Padre,
E ele cumpre a Missão,
Ensinando a todo mundo
O ponto da salvação.

Deixo aqui no Juazeiro
Todos os sentidos meus
Juntamente ao meu Padrinho
Que me limpou com os seus,
Vou correr por este mundo
Levando a bênção de Deus.

* * *

Louro Branco

Cantador como eu ninguém num fez
Deus deixou pra mandar muito depois
Que se cabra for grande eu dou em dois
E se o cabra for médio eu dou em três
E se for bem pequeno eu dou em seis
Que a minha riqueza é bem total
Cantador como eu não nasce igual
Que ou nasçe mais baixo sou mais estreito
Repentista só canta do meu jeito
Se for fora de série ou genial.

* * *

Otacílio Batista Patriota

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora,
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

João Paraibano

Vê-se a serra cachimbando…
Na teia, a aranha borda;
O xexéu canta um poema;
Depois que o dia se acorda,
Deus coloca um batom roxo
Na flor do feijão de corda.

*

Do nevoeiro pra o chão
a nuvem faz passarela;
o sapo pinota n’água,
entra na lama e se mela;
faz uma cama de espuma
pra cantar em cima dela.

*

Sempre vejo a mão divina
no botão de flor se abrindo,
no berço em que uma criança
sonha com Jesus sorrindo;
a mão caçando a chupeta
que a boca perdeu dormindo.

* * *

Roberto Queiroz

Admiro o Zé Ferreira
Um cantador estupendo
Se a roupa se suja, lava
Se rasga, bota remendo
Gasta menos do que ganha
Que é pra não ficar devendo.

* * *

Luciano Carneiro

Eu não tive vocação
Pra diácono nem vigário
Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário
Mas sou com muita alegria
No campo da poesia
Um verdadeiro operário.

* * *

Leonardo Bastião

Ontem vi uma coruja,
Sentada numa cancela,
Demorei trinta segundos,
Olhando a feiura dela,
Quando me vi no espelho,
Tava mais feio do que ela.

*

Admiro o juazeiro,
Nascido na terra enxuta,
A fruta é pequena e ruim,
A madeira é torta e bruta,
Mas a bondade da sombra,
Cobra a ruindade da fruta.

*

Eu não vou plantar saudade,
Que não estou mais precisando,
A caçamba da saudade,
Toda vez que vai passando,
Ao invés de levar a minha,
Derrama a que vai levando.

* * *

Josué Romano

Eu já suspendi um raio
E já fiz o tempo parar.
Já fiz estrela correr,
Já fiz sol quente esfriar.
Já segurei uma onça
Para um moleque mamar!

DEU NO JORNAL

CPMI ENTERRADA

Impressionaram as intervenções dos ministros de sempre do STF, nesta quinta-feira (26), atacando os que dedicaram meses de suas vidas investigando na CPMI do INSS os suspeitos de roubar de mais de R$ 10 bilhões de aposentados e pensionistas.

Muitos dos suspeitos tinham fortes ligações políticas, como o irmão e um filho de Lula.

O julgamento de ontem fez lembrar os ataques desferidos contra supostos “abusos” da Lava Jato, levando à anulação da operação que lavava a alma do Brasil.

A desconstrução da Lava Jato levou à descondenação até de corruptos confessos e de quem admitiu haver pagado propinas a agentes públicos.

Esperava-se, em um tribunal tão importante, elogios ao fato de a CPMI haver revelado dezenas de ladrões, indiciado 228 e levado 14 à prisão.

* * *

CPMI morta e enterrada.

O careca do INSS e seus comparsas já estão na espera de futuras “descondenações”.

Isso é cagado e cuspido o retrato da republiqueta banânica da atualidade.

Que os céus se apiedem desse devastado país.

DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A SABEDORIA DA FÁBULA

A fábula é uma antiga narração com intuitos morais. Segundo a literatura, elas já eram usadas nos livros sagrados, onde apareciam sob a forma de parábolas. As mais célebres são as escritas por um escravo chamado Esopo, que nasceu em Amorium, pequena aldeia de Phrygia, em 620, e morreu em 560 A.C.
Esopo foi escravo de dois filósofos, Xanto e Idmo; este último emancipou-o.

Esopo adotou um método para as suas narrativas, mais claro e mais simples que o dos filósofos: fez falar os animais e as coisas inanimadas, para dar lições aos homens.

Segundo conta a história, Creso, rei de Lydia, chamou Esopo à sua corte e encheu-o de benefícios. Esopo chegou a viajar pelo Egito e Pérsia, e estava em Athenas, quando Pisistrato a avassalava. Ao ver o que os athenienses sofriam sob o jugo d’aquele tirano, Esopo compôs a fabula das rãs descontentes que pediam um rei.

De volta à corte de Creso, este o mandou-o a Delphos para fazer um sacrifício a Apolo. Aos seus habitantes, desagradou a fábula que ele lhes compôs, sobre as aparências flutuantes sobre a água, que de longe parecem alguma coisa e de perto nada são. Por isso, atiraram-no do alto de uma rocha. Toda a Grécia lastimou a morte de Esopo. Em Athenas erigiram-lhe uma estátua.

Uma das famosas fábulas de Esopo: O BURRO VESTIDO COM PELE DE LEÃO:

Um certo burro vestiu uma pele de leão que encontrou no caminho e encheu de susto todos os animais, que fugiam ao vê-lo. O asno felicitava a si mesmo, por se ver tão temido e respeitado. Até seu amo, que o andava procurando por o julgar perdido, se atemorizou quando o viu de longe; mas depois, reparando numa das suas grandes orelhas que aparecia por debaixo da pele do leão, tirou-lhe o disfarce, deu-lhe uma sova, pôs-lhe a albarda, e montou nele.

Moral:

“SE O IGNORANTE PRETENDE MOSTRAR-SE SÁBIO, A ORELHA O DESCOBRIRÁ, COMO ACONTECEU COM O BURRO DA FÁBULA.”

DEU NO X

RODRIGO CONSTANTINO

O BOLSONARISMO AINDA VIVE

Jair Bolsonaro

O ministro Barroso estava num convescote dos comunistas da UNE quando disse: “Nós derrotamos o bolsonarismo”. Não só era a confissão de um crime, já que ministros supremos precisam ser apartidários e imparciais, como era um anúncio muito precoce. O bolsonarismo, ao que tudo indica, segue não apenas vivo, mas forte.

Como mostra uma reportagem da Folha de SP, a uma semana do fim da janela partidária, o PL já alcançou a marca de 105 deputados federais. É a maior bancada de um partido na Câmara dos últimos 25 anos. E isso não se deve aos lindos olhos azuis de Valdemar, com certeza. É fruto de um movimento que ainda respira e atrai multidões, mesmo com seu líder preso.

Não resta dúvida de que há inúmeros parlamentares sem convicção ideológica ali. O PL, afinal, agrega uma ala do tal centrão fisiológico também. Mas é inegável que o crescimento do partido se deu a partir da chegada de Jair Bolsonaro, e que o ex-presidente continua sendo o principal cabo eleitoral da direita.

Isso tem ligação com méritos do próprio Jair, como um governo sem escândalos de corrupção, o despertar da esperança patriótica no povo e ministérios técnicos, como também deriva da própria perseguição sofrida pelo ex-presidente e seu entorno. A tentativa de destruir o bolsonarismo por meio do abuso de poder supremo teve um efeito bumerangue: o povo percebeu a injustiça e reagiu.

Há, ainda, o fator do antipetismo. Cada vez mais gente se dá conta, finalmente, de que o governo Lula é um fiasco total. Ser oposição a esse desgoverno, portanto, é questão de bom senso e pragmatismo político. Dentro do PL, como já disse, existe uma ala que pouco se importa para valores e princípios, mas é crescente o grupo que tem como missão derrubar Lula e restaurar o Estado de Direito no país.

Os deputados mais calcados nesses princípios conservadores são os que mobilizam mais gente, como o caso do jovem Nikolas Ferreira. Pesquisa recente mostra que Nikolas é o deputado com imagem mais positiva, enquanto outra pesquisa mostra que o nível de rejeição a Lula entre os jovens de 16 a 24 anos ultrapassa a impressionante marca de 70%. O futuro não parece muito promissor para a esquerda radical, e a contracultura de hoje é ser conservador.

Tanto é verdade que Bolsonaro ainda assusta o sistema que Alexandre de Moraes decidiu por uma prisão domiciliar inovadora, repleta de cautelares, justamente para afastá-lo das articulações políticas e das campanhas de seus aliados. O STF sabe que o bolsonarismo ainda respira, e que toda a asfixia imposta pelos ministros não foi suficiente para matá-lo ou sequer enfraquecê-lo.

A maior prova disso é a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro crescendo e ultrapassando as intenções de voto em Lula no segundo turno. Tentaram enterrar Bolsonaro e o bolsonarismo vivos, mas não foram capazes. Agora resta tentar “neutralizar” a força conservadora, pressionando e chantageando o PL para que seja mesmo um partido típico do centrão, sem oferecer qualquer ameaça ao sistema podre e carcomido. Espero que fracassem nessa empreitada…

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (50) ‒ MILITARES

Estamos bem perto do fim. Os originais do próximo livro (título da coluna) já foram para a editora Topbooks, no Rio. Agora é tempo de revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico (com todos os nomes citados), definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço. Assim, vamos aproveitar o restinho. Hoje, só com militares e afins.

General ADEODATO MONT’ALVERNE, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Convidou, para uma conversa, os 15 universitários que iriam a um Congresso da UNE em Salvador (1968) – preparatório daquele de Ibiúna, em São Paulo, onde alguns milhares acabaram presos. Conhecida, tal secretaria, como Sorbonne ‒ uma ironia, claro, por não haver lá nenhum intelectual. A sala reservada para esse encontro começava por mesa com quatro cadeiras e, em seguida, um pequeno auditório. Todos os estudantes sentaram no fundo. Fui o último a entrar. O general estava na mesa, com um pacote de fichas em frente. Considerei deselegante ficasse sozinho. Ou ele poderia pensar que estávamos com medo. Então, sentei na cadeira à sua frente. Até que olhando para mim, e com todos esperando pela conversa, ele

– Chamei porque estou precisando da opinião de vocês.

– Às ordens, general.

– É o seguinte. Como estão indo para o Congresso, não sei se prendo todos antes ou depois.

– Aceita sugestão?, general.

– Claro.

– Prenda só depois.

– Então está combinado, vai ser na volta.

Procurou minha ficha e completou

– Vejo que volta dia tal, hora tal, num voo da Varig (disse o número). O senhor eu prendo no aeroporto, certo?

– Combinado, general, e muito obrigado pela deferência.

O engraçado, nessa história, é que ninguém foi preso. Era só uma brincadeira. Nos anos de chumbo, generais gostavam de se divertir.

AUGUSTO GOMES DA COSTA, jornalista responsável pela publicidade no Diário de Lisboa. Já perto do fechamento do jornal, foi informado que havia pequeno espaço em branco numa página. E mandou por, nela, um anúncio qualquer, sem se preocupar com qual seria. Dia seguinte a página era, toda, um longo e importante discurso de Salazar sobre a Liberdade de Imprensa. E, logo embaixo, esse anúncio:

– BONITAS PALAVRAS
NÃO ENGORDAM NINGUÉM.
Usar joias falsas não embeleza. Compre verdadeiras na
Grande Ourivesaria da Moda
257, Rua da Prata (esq. Santa Justa).

As duas primeiras linhas se inspiram em conhecido provérbio português, Bonitas palavras não engordam gatos. E a redação inteira teve que se explicar, na PIDE, ante o responsável pela Censura, o coronel Armando Jorge das Neves Larcher. O mesmo que, em 1952, proibiu as revistas do Rato Mickey (Mickey Mouse) em Portugal por serem “prejudiciais à formação intelectual das crianças”; e que, no cartão de visitas, se apresentava como Oficial do Exército, Licenciado em Filosofia e Farmácia.

BIU MOSCOUZINHO, professor de história em Caruaru (e membro atuante do Partidão). Preso num quartel de artilharia da cidade, sofria torturas diárias (história lembrada pelo ex-presidente da UNE Jean Marc von der Weid). Depois de sessão em que apanhou muito, no corredor das celas, um companheiro se preparava para a saudação de praxe

‒ Biu Mos…

Como os tiras não sabiam direito quem era, caso seu apelido se tornasse público estaria perdido. Então interrompeu o amigo de lutas dizendo

‒ De Nova Iorque. Pelo amor de Deus, parceiro, Biu de Nova Iorque.

BRILHANTE USTRA, coronel. Na Comissão Nacional da Verdade, o convidamos a prestar depoimento sobre acusações de torturas e mortes que lhe pesavam nos ombros. Seu advogado nos procurou

– Vim aqui só dizer que ele não vai comparecer.

– O convite se deu apenas por conta da idade avançada que tem seu cliente. E, pelo visto, será como as televisões desejam. Que será intimado e a Polícia Federal virá com ele, algemado, para a audiência.

Pediu para dar um telefonema

– Em consideração aos senhores, meu cliente informa que virá.

E veio. Ser valente, numa Ditadura, era mais fácil.

CELSO FURTADO. Em Santiago do Chile, Adão Pereira Nunes, Fernando Gasparian (que contou essa história), Fernando Henrique Cardoso, Tiago de Mello, entre outros exilados. Alguns já então condenados, outros quase. Darcy Ribeiro contou como, no fim do Governo Jango, se sentiu com “poderes imperiais”. É que o presidente da República voara, para o sul do País, acompanhado pelo chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. O ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, gravemente enfermo estava no hospital. O da Marinha, Pedro Paulo de Araújo Suzano, pediu demissão. Tudo levando a que Darcy, chefe da Casa Civil, fosse o comandante supremo das Forças Armadas. Ao grupo, declarou

‒ Foi quando tive a agradável sensação do poder absoluto.

Celso concluiu:

‒ Está explicado por que estamos aqui.

Dado o Golpe Militar, em 01/04, o bravo Darcy ainda ficou três dias sozinho, no Palácio, preparado para resistir, até ir para casa com o amigo Waldir Pires.

CLÁUDIO GUERRA, executor do Exército nos tempos da Ditadura. Na Comissão Nacional da Verdade, confessou que já não conseguia conviver com o remorso de tantas mortes que lhe atormentavam e pensou dar fim à sua triste vida. Foi quando, na rua, se viu em frente a uma Igreja. Perguntei

– Era a Universal?

– Não, Assembleia de Deus.

Entrou, conversou com Deus (foi o que disse) e se confessou arrependido.

– Pai, peço perdão por todos os meus pecados.

– Não posso, o que você fez foi horroroso.

– O Senhor está todo errado. Meu papel, como cristão, é me arrepender. Estou verdadeiramente arrependido. E seu papel, como Deus, é me perdoar.

– Perdoar não vou, mas darei o roteiro de sua redenção. Conte a todos o que fez, inclusive à imprensa, para que isso nunca mais se repita. Mais tarde, voltaremos a conversar.

Cláudio aceitou a penitência. E começou a contar sua história. Até em livro (Memórias de uma guerra suja, com a colaboração dos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto). Falou isso como se estivesse em paz. E parecia mesmo, verdade se diga, o que não o impediu de ficar recebendo ameaças dos familiares de suas vítimas. Perguntei

– Não tem medo de morrer?

– E o senhor ainda não percebeu que já estou morto?

FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. Contou que em 6/11/1944 desembarcou em Tarquinia (Itália) o glorioso Senta a Pua, primeiro Grupo de Caça da FAB. Ao descer dos caminhões, em uma base aérea americana, entraram em formação. E, enquanto era arriada a bandeira ianque, subia no mastro a do Brasil. Terminada a cantoria em inglês, o General Ariel Nielsen voltou-se para o tenente-coronel Nero Moura, comandante dos brasileiros,

– Coronel, acabamos de ouvir o hino da Força Aérea dos Estados Unidos. E, agora, gostaríamos de escutar o da Força Aérea Brasileira.

Nero ficou paralisado. Que nossa Força, recém instituída, ainda não tinha hino. Perfilado logo atrás estava o sargento Oséas, amazonense, que adiantou-se um passo e segredou

– Coronel, mande a tropa cantar a Jardineira, que os gringos não vão perceber nada.

Nero deu voz de comando

– Atenção, meus senhores. Vamos cantar a Jardineira, em posição de sentido, como se estivéssemos entoando o hino nacional. E ai de quem rebolar.

Assim foi. E, até hoje, a popular marchinha do carnaval de 1939 (escrita por Benedito Lacerda e Humberto Porto) é o hino extra-oficial da Força Aérea Brasileira. Tocada, pelas bandas, em todas as cerimônias.

KARL MARX GUIMARÃES COELHO, dono de uma pequena oficina de reparos. Em 1964, no começo da Redentora, vinha caminhando tranquilo pela Rua do Hospício. Já na calçada do 4º Exército (em frente à Faculdade de Direito do Recife), um militar considerou suspeita sua bolsa e perguntou

‒ O que tem aí dentro?

‒ Nada.

‒ Quero ver.

E encontrou lá uma nota, “comprar fios e bobinas para a bomba”. Perguntou o nome do cidadão

‒ Karl Marx.

Era demais. Com certeza, comunista. E uma bomba, com certeza terrorista. Foi preso. Sem ter tempo de explicar que se tratava da bomba de pressão para um ar-condicionado que estava consertando. Apanhou tanto que passou três meses no hospital. Viva a Democracia brasileira.

PRESOS POLÍTICOS. Na ditadura 18 estudantes presos, que a combatiam, estavam em greve de fome. Já 11 dias haviam se passado. Por cautela foram trazidos para o quartel da PM, no Derby, onde havia um hospital militar. Médicos informaram que até 12 dias não haveria problemas para a saúde. Entre 12 e 18, provavelmente. A partir daí, com certeza. Era preciso encerrar a greve, na proteção dos próprios presos. Fomos negociar com eles. Airton Soares, velho amigo e líder do PT na Câmara dos Deputados (pouco depois ele, o deputado José Eudes e a deputada Beth Mendes seriam expulsos do partido por terem votado em Tancredo), que veio de São Paulo só para isso; e eu, companheiro de tantos na universidade (e amigo próximo de alguns), representando a OAB. Nosso argumento era que o protesto já tinha produzido seus resultados políticos, tanto que os jornais vinham dando a notícia com destaque. Seguir, ante os riscos para a saúde, não fazia sentido. Às dez da noite, alvíssaras, tudo certo. Fomos falar com o comandante da PM, ainda em seu gabinete e rezando para que tivéssemos sucesso. Ocorre que, encerrada essa greve, todos queriam jantar.

– Comandante, por favor providencie.

– Claro.

Pediu para chamar o cozinheiro. Um ajudante

– Doutor, o homem já foi pra casa.

– Veja o que tem na despensa.

– Está fechada, com cadeado, e quem tem a chave é ele. Só amanhã de manhã.

– Onde mora?

– Ninguém sabe.

Sugeri

– Comandante, por favor, vamos comprar ao menos um cacho de bananas.

– Nem pensar. Comida de fora? E se tiverem uma intoxicação?

– O senhor manda um ajudante conosco, providenciamos o dinheiro, ele mesmo escolhe e compra as bananas.

Nesse momento, um médico do quartel o chamou para conversar. E o comandante

– Perdão, senhores. Mas, antes de se alimentar, eles vão ter que fazer exames médicos e ser avaliados. Até para decidir o que podem ingerir.

– É desumano, comandante.

– Também acho. Mas, infelizmente, vai ter que ser.

E assim ocorreu. Voltaram a se alimentar só no dia seguinte, ao fim da manhã. Chico de Assis (enorme poeta) me confessou, mais tarde,

– Passar 11 dias, dentro de uma greve de fome, não teve nenhum problema. Só que do fim da noite e até a manhã, querendo comer, foi um verdadeiro suplício.

E Alberto Vinícius (Xanha), que estava do seu lado, confirmou

– A vontade que tive foi me suicidar.

RUTH ESCOBAR, atriz. Em 1985, o país se preparava para a posse que seria de Tancredo e acabou de Sarney. O ministro da Justiça da ditadura, Ibrahim Abi-Ackel, tentava ser simpático. Até chamou seu sucessor, Fernando Lyra, de jurista. E Lyra confirmou, todo prosa,

– Sou mesmo e de Caruaru!

Vendo Ruth chegar, quis fazer as pazes com ela

– Dona (Maria) Ruth (dos Santos Escobar), preciso explicar. Nunca lhe deixei representar peças de teatro, nas prisões, pensando na sua segurança.

– Como?

– É que os presos, lhe vendo, iriam ficar com alguma fixação sexual. E nas ruas, daqui a dez anos, poderiam querer lhe estuprar.

– Agora é que não lhe desculpo mesmo, ministro. Pois um estuprozinho, comigo dez anos mais velha, seria bom demais.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

FIM À CPMI

Editorial Gazeta do Povo

A CPMI do INSS completa, no próximo dia 28, os 180 dias descritos em seu requerimento de abertura. Apesar de haver um relatório preliminar com mais de 200 indiciados, seus membros não consideram que o trabalho foi concluído de forma satisfatória – primeiro, porque de fato se trata de um esquema bastante grande, envolvendo várias entidades, e que perdurou por alguns anos, no mínimo; segundo, porque o Supremo Tribunal Federal se encarregou de atrapalhar a apuração ao interpretar equivocadamente o direito à não autoincriminação, simplesmente dispensando vários convocados da obrigação de comparecer diante dos parlamentares. Natural, portanto, que os integrantes da comissão solicitassem uma prorrogação dos trabalhos, e assim o fizeram, escolhendo um prazo de mais 120 dias. O presidente do Senado e do Congresso Nacional, no entanto, escolheu uma inércia vergonhosa, endossada pelo plenário do Supremo.

Diante do silêncio de Davi Alcolumbre quanto à possibilidade de prorrogar a CPMI, os parlamentares recorreram ao STF e o ministro André Mendonça deu 48 horas para que o presidente do Senado adotasse as providências necessárias, já que as exigências legais para a prorrogação tinham sido cumpridas. Mesmo assim, Alcolumbre continuou sem se mexer, e na manhã desta quinta-feira o presidente da CPMI, senador Carlos Viana, declarou a continuação dos trabalhos, já que, de acordo com certidões enviadas pela Controladoria Geral da União (CGU) e pelo STF, o Senado foi notificado da decisão de Mendonça às 10h18 de terça-feira, e portanto o prazo dado por Mendonça já teria expirado. No entanto, na tarde desta quinta-feira, o plenário do STF formou maioria para derrubar a liminar de Mendonça, o que na prática encerra de vez os trabalhos da CPMI.

A inconstitucionalidade da decisão do plenário é flagrante; afinal, como acabamos de afirmar, os membros da CPMI cumpriram todas as exigências, e era o presidente do Senado quem se recusava a cumprir seu papel. Mas, inconstitucionalidades e questões processuais à parte, a grande pergunta que se faz é: o que Alcolumbre viu de tão perigoso na CPMI do INSS para resistir tanto à continuação da investigação? Quem, em sã consciência, seria contrário à prorrogação dos trabalhos para elucidar um esquema que, além de bilionário em suas dimensões gerais, recorreu ao método hediondo de subtrair valores a que milhões de aposentados e pensionistas brasileiros tinham direito como resultado de uma vida inteira de trabalho? Qual a razoabilidade de encerrar pela metade uma investigação sem que alguns dos principais nomes envolvidos – inclusive o de dirigentes de entidades beneficiadas pelo roubo – tenham sido ouvidos, ou sem que dados importantes (como os que poderiam ser coletados em quebras de sigilo aprovadas pela CPMI, mas derrubadas pelo STF) tenham sido analisados? Alcolumbre não tem resposta para essas perguntas, até porque de fato não existe resposta aceitável para elas.

Tampouco o STF as enfrentou no julgamento de quinta-feira. Os ministros que votaram para derrubar a liminar de Mendonça preferiram gastar seu tempo dando broncas nos parlamentares, criticando o que chamaram de “quebras de sigilo em bloco” e, especialmente, os vazamentos de mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro – o decano Gilmar Mendes chegou a apontar para a plateia, onde estavam alguns membros da CPMI, e falar em “prática de crime coletivo”. De forma quase surreal – e certamente hipócrita –, houve ministros que criticaram a mera ideia de prorrogação das investigações. “Não é raro que entre nós, aqui – todos nós já tivemos decisões desse tipo –, tranquemos os inquéritos eternos, as investigações que acabam se alongando no tempo, entendendo que as prorrogações indevidas ou sem critério não rimam com a ideia do devido processo legal”, afirmou Gilmar. Se ele usa esse tipo de raciocínio para impedir que uma CPMI que durou seis meses se prolongue por mais quatro, imagine-se o que ele diria sobre um inquérito no STF que está para entrar em seu oitavo ano…

A desfaçatez é completa. Mesmo quando abandonam a postura de superioridade moral e tentam dar algum verniz jurídico aos seus argumentos para fingir solidez, os ministros cometem erros grotescos, impossíveis de aceitar em um membro do principal tribunal brasileiro. Foi o que fez, por exemplo, Alexandre de Moraes, ao inventar uma clivagem que não existe em lugar algum. “A instauração da CPI é direito da minoria. A prorrogação é direito da maioria (…) Transformar o direito da minoria a sucessivas prorrogações automáticas é ignorar o que é uma CPI”, afirmou. O raciocínio propriamente dito já não faz o menor sentido, pois a CPI como um todo sempre foi entendida constitucionalmente como uma ferramenta para dar voz à minoria. Mas Moraes – o ministro que prorroga inquéritos sozinho, sem perguntar nada à “maioria” do STF – vai além e abusa da falácia. Como se fosse uma maioria de congressistas, e não um único senador, que tivesse resolvido acabar com a CPMI. Como se alguém estivesse falando em “prorrogação automática”, quando na verdade foi seguido todo o trâmite para a prorrogação, com pedidos feitos e não atendidos. Deboche puro – com aparência de discussão jurídica, mas deboche ainda assim.

Certo é que as ramificações do escândalo são muitas, e relevantes. Entre os que receberam a suprema blindagem, por exemplo, está Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula e cujo elo com o “careca do INSS”, personagem central da trama, é a empresária Roberta Luchsinger, cujo sigilo também foi “desquebrado” pelo ministro Flávio Dino. Uma linha da investigação chega ao Banco Master, outro dos megaescândalos do Brasil atual, com o potencial de arrastar consigo ministros do Supremo e, indiretamente, o próprio Alcolumbre. Foi o presidente do Senado quem indicou o (agora ex-) diretor-presidente do fundo de previdência dos servidores do Amapá, que por sua vez teve papel central na decisão de investir R$ 400 milhões da Amprev no Master, apesar de alertas internos. Estariam Alcolumbre e os ministros do STF tentando proteger alguém (ou a si mesmos) ao impedir a prorrogação da CPMI? Neste caso, talvez a “prática de crime coletivo” não esteja exatamente na conduta dos membros da comissão, mas no esforço abjeto para enterrar uma investigação.