JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

Jangada improvisada de Dico

Hoje tentarei lhes contar uma pequena estória de Dico, cidadão cearense nascido em Pacajus, mais propriamente no povoado de Guaiúba. Raimundo na pia batismal, que a família transformou em “Dico” tão logo saiu do “gatinho” para o caminhar forte e seguro.

Entre o ver a luz da maternidade dada pela mãe, até o criar cabelos nos peitos e nas partes pudentas, Dico conhecia mesmo era a enxada, a foice – que manuseava com maestria – o machado e o rachar lenha para o consumo diário na cozinha. Tinha extrema habilidade, também, no pescar curumatás, traíras e piaus no Açude Novo.

Cresceu, namorou e “mexeu com o que não devia, antes do tempo” – e isso acabou lhe custando um casamento antes do dia e da hora marcada. Na roça, nos tempos em que os filhos obedeciam aos pais, era assim. Ajoelhou, tinha que rezar.

Certo dia Francisca passou mal. Chamaram a Dodoca rezadeira, e essa quase deixou o pé de arruda em esqueleto, de tantos tirar galhos com folhas – a arruda murchou de tanta reza, mas Francisca não melhorou. Dico foi aconselhado par levar Francisca para a cidade, onde certamente conseguiria resolver aquele problema intempestivo na vida deles.

Numa primeira visita a solução pareceu distante. Seria necessária uma estadia mais prolongada na capital, o que acabou proporcionando a mudança definitiva do casal – com os filhos – para encontrar a facilidade do atendimento médico.

Sem profissão, trabalhador da agricultura na Guaiúba, Dico mudou com família e tralhas para a capital. O dinheiro economizado durante dias, serviria para custear o tratamento e, caso necessário, a compra de medicamentos.

A solução imaginada por Dico para alimentar a família, foi a pesca. Inteligente, Dico improvisou uma jangada e foi ao mar. Foi pescar o dicumê da família.

O homem não conhecia nada do mar – que vira poucas vezes – e acreditou que tudo seria resolvido em poucas horas. Tudo parecia fácil na maré vazante. E, sozinho, Dico foi pescar. A poucos metros da arrebentação, se deixou levar. Não se deu conta que logo estaria distante da orla marítima. Se deixou levar.

Farol que orientou Dico

Dico tinha um sonho: queria pescar o maior “pirarucu” que alguém tivesse pescado algum dia.

As horas foram passando. A noite chegou e nada de Dico conseguir pescar o “pirarucu”, coisa que, inicialmente parecia fácil. Mas não era.

Longe da costa, sem uma lamparina – que não levara por achar que voltaria cedo com o maior pirarucu já pescado – as dificuldades só aumentavam. Nada de peixe. A preocupação, agora, era com a volta para casa.

A escuridão foi – finalmente – importante para que Dico, já desesperado, avistasse um farol que, pela distância sugeria a proximidade da orla marítima.

As luzes do farol acabaram ajudando Dico. Foi avistado por uma equipe de socorristas que, com muito trabalho lhe prestou ajuda e ajudou no resgate.

Um dos socorristas, atônito, perguntou:

– Ei siô, que bom que o encontramos. Fique tranquilo, vamos leva-lo para a orla. Conseguiu pescar muitos peixes?

Agradecido pelo socorro, Dico respondeu:

– Não. Não consegui pescar o meu “pirarucu”!

No que o socorrista, entre incrédulo e ansioso, acrescentou:

– É! “Pirarucu” o senhor jamais pescaria!

Sem entender, Dico perguntou:

– Por que?

Pirarucu, o gigante dos rios amazônicos

Ao que o socorrista respondeu:

– Senhor, vamos pra casa. O senhor queria pescar “pirarucu” no mar?

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