DEU NO JORNAL

JUSTIÇA NO ESPORTE FEMININO

Editorial Gazeta do Povo

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Maratona feminina dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024: a partir de Los Angeles, apenas mulheres biológicas poderão competir nas categorias femininas

O Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou, nesta quinta-feira, uma decisão que encerra, ao menos por enquanto, uma controvérsia que já dura longos anos a respeito da participação de mulheres transgênero (ou seja, que nasceram homens) em competições femininas. A partir dos jogos de Los Angeles, em 2028, apenas mulheres biológicas poderão competir na categoria feminina, e a elegibilidade dependerá de um teste genético que só precisará ser feito uma vez na vida e detecta a presença de um gene ligado ao cromossomo Y, que os homens têm, mas as mulheres não.

A decisão representa uma guinada completa na política do órgão que regula o esporte olímpico. As regras publicadas em 2015 permitiam a participação, nas competições femininas, de transgêneros com níveis de testosterona (hormônio que, entre outras características, está associado à força física, influenciando a aquisição de massa muscular e o fortalecimento dos ossos) de até 10 nanomoles por litro de plasma sanguíneo. Mulheres biológicas, no entanto, produzem no máximo um quarto desse valor; se essa taxa de testosterona fosse encontrada em seu corpo, elas poderiam ser banidas do esporte por uso de doping. Foi com base nas regras de 2015 que Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, competiu no levantamento de peso nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Em novembro de 2021, o COI reviu seu regulamento e deixou as decisões para as federações internacionais de cada esporte – algumas delas já haviam se antecipado, com atletismo e ciclismo impondo limites (ainda altos) de 5 nmol/L, e o rugby vetando completamente a participação de transgêneros. Em 2022, a federação internacional de esportes aquáticos, pressionada por casos como o de Lia Thomas, proibiu transgêneros que tivessem feito a transição depois da puberdade e cujos níveis de testosterona fossem superiores a 2,5 nmol/L. Com o anúncio desta quinta-feira, as regras voltam a ser unificadas.

A presidente do COI, Kirsty Coventry (multimedalhista olímpica na natação entre 2000 e 2008), defendeu a decisão afirmando que ela está “baseada na ciência e foi desenvolvida por especialistas médicos”. De fato, sobram evidências científicas a respeito da vantagem atlética obtida pelo mero fato de alguém ter passado pela puberdade masculina – vantagem que não desaparece depois de uma transição com terapia hormonal, como afirma um estudo do Instituto Karolinska, de Estocolmo (Suécia). O Grupo Científico que embasou a decisão de 2022 da entidade que regula a natação afirmou que, “se a transição de gênero masculino-para-feminino consistente com os padrões médicos ocorrer depois do início da puberdade, ela eliminará alguns, mas não todos os efeitos da testosterona na estrutura corporal, função muscular e outras determinantes de performance, mas haverá efeitos persistentes que darão a atletas transgênero ‘masculino-para-feminino’ (mulheres transgênero) uma vantagem competitiva relativa sobre mulheres biológicas”, acrescentando que uma mulher biológica não conseguiria reduzir ou eliminar essa vantagem nem com dieta, nem com treinamento, mas apenas com o uso de testosterona como doping.

A esse respeito, os números falam por si. Pesquisadores também compararam recordes mundiais de atletismo e mostraram que, em várias provas de atletismo, as marcas de categorias juvenis são melhores que as melhores marcas obtidas por mulheres. Em 2025, um japonês de 16 anos correu os 100 metros rasos em 10 segundos, quase meio segundo abaixo da recordista mundial absoluta, a norte-americana Florence Griffith-Joyner. Nos 1.500 metros, a melhor marca juvenil, obtida em 2023 por um australiano de 17 anos, é 15 segundos mais rápida que a da queniana Faith Kipyegon. Lançando um peso de 5 quilos, um neozelandês de 16 anos superou em quase dois metros o recorde da soviética Natalya Lisovskaya – ressalte-se que as mulheres usam pesos de 4 quilos. Mesmo garotos de 14 e 15 anos têm superado recordes mundiais femininos.

Não resta a menor dúvida, portanto, de que atletas transgênero têm uma vantagem sobre mulheres biológicas em quaisquer esportes que envolvam força física, impulsão, explosão muscular ou resistência, vantagem essa que nenhuma mulher biológica é capaz de replicar – ao menos, não se recorrer pesadamente a um doping facilmente identificável. No máximo, seria possível pleitear alguma exceção nos casos de esportes de precisão, como o tiro, mas o COI optou por não criar distinções que, depois, poderiam dar margem a alguma alegação de discriminação. De resto, como afirmou Coventry, é “injusto e em alguns esportes inseguro” – pensemos, por exemplo, em esportes de contato – permitir que transgêneros estejam nas mesmas competições que mulheres biológicas.

O COI ressaltou que as novas normas não se aplicam a programas esportivos de base ou recreativos. De fato, o esporte é para todos, independentemente de qualquer característica, como ferramenta de lazer e incentivo a práticas saudáveis. No entanto, quando se trata do esporte de alto rendimento, competitivo, é preciso “proteger a justiça, a segurança e a integridade na categoria feminina”, como disse Coventry. A controvérsia envolvendo a participação de transgêneros é uma questão em que o princípio da justiça tem de prevalecer sobre o da inclusão. Do contrário, corre-se o risco de descaracterizar o próprio esporte feminino e desestimular a participação de parte significativa da sociedade.

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DUAS CANÇÕES SOBRE A SIMPLICIDADE

Há encontros curiosos na música. Alguns parecem acontecer por acaso. Outros, por afinidade. E há aqueles que parecem nascer de um reconhecimento íntimo, como se uma canção, ao ser ouvida, despertasse outra que já estava esperando para existir.

Tive esse sentimento ao aproximar Simple Man, lançada em 1973 pelo Lynyrd Skynyrd, e Uomini semplici, gravada em 1981 por Edoardo De Crescenzo.

Aliás, quanto à questão temporal, preciso fazer um registro da ordem cronológica em que essas duas canções chegaram ao meu conhecimento: apesar de Simple Man ser anterior a Uomini semplici, ouvi-as pela primeira vez na ordem inversa — ou seja, a mais recente antes da mais antiga.

E isso importa? Para mim, sim. Porque sempre me chamou a atenção o fato de a canção italiana trazer alguns versos em inglês: “simple man, simple man, simple man…” — repete Crescenzo insistentemente no final.

Eu já tinha ouvido versos em inglês na canção italiana C’era Un Ragazzo Che Come Me, de Gianni Morandi, que fez sucesso no Brasil com o título Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones — em dois momentos diferentes: primeiro com os Incríveis, depois com os Engenheiros do Hawaii.

Mas ali o contexto era claro: a história de um jovem americano convocado para a guerra do Vietnã. Logo, fazia sentido introduzir versos como “Stop! Coi Rolling Stones! Stop! Coi Beatles songs!”.

Também conhecia Tu vuò fa’ l’americano, de Renato Carosone, que muita gente no Brasil conhece na versão Pa-Panamericano (quem chegou até aqui e lembra já pode deixar um like!).

Nela, um italiano finge ser um soldado americano, tentando aproveitar sua popularidade com as garotas locais após a Segunda Guerra Mundial — mas não é levado muito a sério:

Tu balli il rock’n’roll (Você dança rock’n’roll)
Tu giochi a baseball (Você joga beisebol)
Ma i soldi per le Camel (Mas o dinheiro para os cigarros Camel)
Chi te li dà? (Quem te dá esse dinheiro?)
La borsetta di mammà (A bolsa da mamãe)
(…)
Tu vuo’ fa’ l’americano, ‘mericano, mericano, ma si’ nato in Italy
(Você finge que é americano, mas nasceu na Itália)

Mas, em Uomini semplici, eu não encontrava o motivo dos versos em inglês. Afinal, nenhum trecho da canção fazia referência ao povo americano, ao seu estilo de vida ou a algum personagem específico. Era um pequeno mistério.

Até o dia em que ouvi Simple Man, com sua mensagem direta e clara, sintetizada no refrão:

And be a simple kind of man (E seja um tipo simples de homem)
Oh, be something you love and understand (Oh, seja algo que você ame e entenda)
Baby, be a simple kind of man (Querido, seja um tipo simples de homem)
Oh, won’t you do this for me, son (Oh, você não fará isso por mim, filho)
If you can? (Se puder?)

A composição atribuída a Ronnie Van Zant e Gary Rossington carrega a simplicidade como método. Uma mãe fala ao filho. Não complica. Não teoriza. Diz apenas o essencial: não corra atrás do ouro dos outros, não se perca no barulho do mundo, seja um homem simples.

Depois de conhecê-la, ficou fácil imaginar Crescenzo, alguns anos mais tarde, ouvindo aquela canção americana e pensando, quase num impulso: “Ma certo… ma certo… ce ne sono mille così, nelle strade.” (Claro… claro… há milhares desses por aí, nas ruas.) — o autor da letra de Uomini semplici é Franco Migliacci, mas me parece natural que em nossa memória a canção fique mesmo ligada ao seu principal intérprete.

O fato é que, em Uomini semplici, o conselho dá lugar ao reconhecimento. Os homens simples já estão lá. Passam despercebidos, atravessam o dia, sustentam o mundo sem discurso e sem plateia. Não pedem definição, não reivindicam lugar. Apenas existem:

Gli uomini semplici sono sempre eroi (Os homens simples são sempre heróis)
che in silenzio vivono, esistono (que em silêncio vivem, existem)
Alberi e nuvole con il vento sbandano (Árvores e nuvens cambaleiam com o vento)
loro invece lottano, resistono (eles, ao contrário, lutam, resistem)
(…)
Sulla terra non ci sono santi (Na terra não há santos)
gli uomini semplici sono tanti (os homens simples são muitos)
Non li vedi e non li senti (Você não os vê e não os ouve)
ma son tutti intorno a te (mas estão todos ao seu redor)
Simple man, simple man, simple man

A partir daquele momento, ficou impossível ouvir uma música sem pensar na outra.

Porque, enquanto Simple Man nos convida a ser algo, Uomini semplici nos mostra que esse algo já vive entre nós — quem sabe, até dentro de nós, em algum lugar menos ruidoso.

Quando Crescenzo repete “Simple man, simple man”, não soa como mera citação. Soa como quem encontrou a palavra exata, mas em outra língua.

Há algo de melancólico nisso tudo. Porque, se é verdade que os homens simples existem, também é verdade que o mundo parece cada vez menos interessado neles. Preferimos o extraordinário, o complexo, o ruidoso.

Em tempos de redes sociais, superexposição da vida pessoal e sonhos de se tornar um influencer com milhões de seguidores — e dólares —, a vida continua sendo sustentada por gente que não faz alarde. Gente que não está tentando ser nada além do que já é.

No fundo, as duas canções não dizem coisas diferentes. Elas apenas chegam por caminhos distintos ao mesmo ponto. Uma ensina, a outra reconhece.

E entre ensinar e reconhecer há um intervalo sutil, mas decisivo.

Talvez a maior homenagem à simplicidade não seja recomendá-la, mas percebê-la.

Aí não importam as palavras — ou mesmo o idioma — para nos referirmos a ela: simple man; uomini semplici.

P.S.: Revisando o texto, observei que embora a palavra “simples”, em português, seja frequentemente utilizada no sentido de desprovido de complexidade, rudimentar ou singelo, esse não seria o sentido mais adequado ao transmitido pelas palavras “simple” e “semplici”, no contexto das canções que deram ensejo à crônica. Nelas, esses termos exprimem mais um sentido de pessoas que não teriam nada de extraordinário, que se guiam por valores considerados básicos, como família, amigos e trabalho. Ou seja, “simple man” e “uomini semplici”, para nós, brasileiros, talvez tenha um significado mais próximo de “pessoas comuns”, “gente comum”. Isso me remeteu a outra canção italiana, certamente mais conhecida dos brasileiros na voz de Renato Russo. Refiro-me a “Gente”, cujo refrão diz:

Non siamo angeli in volo venuti dal cielo (Não somos anjos voando no céu)
Ma gente comune che ama davvero (Mas pessoas comuns que amam de verdade)
Gente che vuole un mondo più vero (Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro)
La gente che incontri per strada in città (As pessoas que você encontra na rua da cidade)

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

PENA MÁXIMA

Comentário sobre a postagem SAUDADES…

Marcos Pontes:

Se eu desse essa explanação sobre porcentagem na frente de minha mãe, com certeza eu pegaria sua pena máxima:

“Dois dias sem sair de casa e cinco banhos diários, água fria, e sabão pavão”.

Na escola, durante um ditado, escrevi a palavra nascer sem o “s”.

Minha pena foi escrever a palavra nascer cem vezes.

E até hoje, aos 79 anos, quando escrevo qualquer texto e tem a palavra nascer, rio e lembro da Profª. D. Geraldina.

Imaginem a pena da Dilmanta!

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO