Acordei com o barulho do vizinho reclamando de algo que pousara em frente a sua casa. Era Ícaro na ponta dos dedos de uma criança das redondezas. Seu objeto voante ia alto, como que viajando, estendido ao vento, rumo ao sol. Sem cerol, para que mais leve fosse, levava o menino ao infinito do céu. Seguia agarrada pelo barbante dos sonhos. Aos seus olhos, a pipa passeava alto como se passarinho fosse. E quase era. Apenas não sabia cantar. Nem precisava, tão bela era aquela coisa colorida e voadora. Até que, fantasia interrompida, linha cortada, veio pousar, distraída e lentamente, nas plantas do jardim de meu vizinho chato e implicante … Pior: sequer estava florado o seu pé de manacá em que aquela arraia aterrissou. Recolhi-a, à espera que o seu dono a procure. Jamais permitirei que se imiscua da grosseria e brutalidade adulta esse tão puro sonho infantil.
A boa Música alimenta a alma. Não tem idade. Ela é eternizada pela letra e pela harmonia. Falo da música, cuja essência é pura poesia. A música que acalenta a alma e transmite a paz.
Nem toda música é poesia. Há músicas para a alma e músicas para o corpo, onde o ritmo contagiante traz alegria e vontade de dançar.
Minha vida sempre foi recheada de música, desde que eu nasci, a começar pelo meu nome de Batismo, que lembra um instrumento musical.
Ainda criança, aprendi a cantar as antigas modinhas que minha mãe cantava, acompanhada ao violão pelo meu avô paterno, Seu Bezerra, ou por ela mesma, que também tocava. Uma dessas modinhas nem se conhece mais. Chama-se “O Pajem”, ou “Pesadas Trevas”, cuja autoria não me lembro.
Hoje, o cancioneiro mudou e temos que conviver com ritmos agressivos e letras debochadas.
Mas as pérolas da MPB continuam vivas, como as composições de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, que o tempo jamais apagará.
Evaldo Gouveia de Oliveira (Orós, 8 de agosto de 1928 — Fortaleza, 29 de maio de 2020) foi um músico compositor, cantor e violonista brasileiro, que marcou época e ainda hoje é sucesso em rodas de seresteiros. Era o romantismo em pessoa.
Além de Jair Amorim, Evaldo Gouveia compôs com outros grandes compositores, como o carioca Paulo César Pinheiro.
O talento que Deus lhe deu o fez superar as dificuldades da vida.
Aos seis anos, já cantava num sistema de alto-falantes na praça de sua cidade, Orós, no Ceará. Aos onze, mudou-se para Fortaleza para estudar. Nessa época, trabalhava como feirante e não dispensava o violão nas horas de folga.
Aos dezenove anos, passou a tocar violão num conjunto e acabou conseguindo um contrato numa rádio local. Em 1950, formou o Trio Nagô, com Mário Alves (seu alfaiate) e Epaminondas de Souza (colega de boemia). Após representar o estado do Ceará no programa Cesar de Alencar, na Rádio Nacional, o grupo foi contratado pela Rádio Jornal do Brasil e posteriormente pelas boates Vogue (RJ) e Oásis(SP). Dois anos depois, iniciaram um programa semanal na Rádio Record (SP), que durou cinco anos.
Em 57, Evaldo compôs sua primeira canção, “Deixe que Ela Se Vá” (com Gilberto Ferraz), obtendo sucesso na voz de Nelson Gonçalves.
No mesmo ano, fez “Eu e Deus”, com Pedro Caetano, gravada por Nora Ney. A partir de julho de 1958, quando conheceu o também compositor Jair Amorim na UBC, sua carreira deslanchou.
Logo no primeiro dia de contato, compuseram “Conversa”, gravada inicialmente por Alaíde Costa, em 1959. Essa seria a primeira de uma série de 150 composições da dupla nos dez anos que se seguiram, normalmente sambas-canções abolerados, cujo primeiro sucesso de vendas foi “Alguém Me Disse”, lançada por Anísio Silva em 60. Em 1962, o Trio Nagô se desfez com a saída de Mário Alves, mas Evaldo prosseguiu compondo com Jair Amorim, sucessos como “Poema do Olhar” (gravado por Miltinho) e o bolero “E a Vida Continua” nas vozes de Morgana e Agnaldo Rayol.
No ano seguinte, 63, Altemar Dutra fez muito sucesso, com a gravação de um bolero da dupla, “Tudo de Mim”, passando a ser seu intérprete mais constante com sambas-canções/boleros como “Que Queres Tu de Mim”, “Somos Iguais”, “Sentimental Demais”, “Brigas”, “Serenata da Chuva” e as marchas-rancho “O Trovador” e “Bloco da Solidão”. Moacyr Franco também vendeu muitos discos com o bolero “Ninguém Chora por Mim”, em 62, assim como Cauby Peixoto, no ano seguinte, com “Ave Maria dos Namorados”, lançada por Anísio Silva pouco antes.
Outros intérpretes da dupla foram Wilson Simonal, “Garota Moderna”, 1965, Agnaldo Timóteo, “Quem Será”, 1967, Jair Rodrigues, “O Conde”, 1969, a escola de samba Portela, “O Mundo Melhor de Pixinguinha”, 1973, Maysa, “Bloco da Solidão”, 1974, Ângela Maria, “Tango para Teresa” 1975, Jamelão, “Certas Mulheres” 1977, Dalva de Oliveira “E a Vida Continua”, além de Elymar Santos, Chitãozinho e Xororó, Gal Costa, Maria Bethânia, Zizi Possi, Emílio Santiago, Júlio Iglesias, Joanna, Cris Braun, Ana Carolina, Simone, Fafá de Belém, dentre muitas regravações.
Evaldo Gouveia teve uma vida profissional muito ativa e nunca esteve no ostracismo. As vezes em que fez show aqui em Natal, no Teatro Alberto Maranhão, era “casa cheia”. Sucesso garantido!
O grande músico, cantor e compositor cearense Evaldo Gouveia morreu aos 91 anos, em 29.05.2020, vítima do Covid-19.
Suas belíssimas composições, como “Sentimental Demais”, o eternizaram. E a lacuna por ele deixada na Música Popular Brasileira jamais será preenchida.
Maria Carolina Nabuco de Araújo nasceu em 9/2/1890, no Rio de Janeiro, RJ. Escritora, tradutora e biógrafa. Passou a infância em Petrópolis e a adolescência nos Estados Unidos, onde o pai era embaixador do Brasil. Foi vítima de um dos mais famosos plágios da literatura anglo-brasileira, em fins da década de 1930.
Filha de Evelina Torres Ribeiro Nabuco e Joaquim Nabuco, diplomata, deputado geral do Império do Brasil e cofundador da ABL-Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro livro – Joaquim Nabuco -, a biografia de seu pai, publicado em 1928, lhe garantiu o Prêmio de Ensaio da Academia Brasileira de Letras. O segundo – A Sucessora -, publicado em 1934, foi um sucesso de público e causou um problema internacional na história dos plágios de obras literárias.
A Sucessora conta a história de Mariana, jovem recém-casada, que ao mudar-se para a mansão do marido, o milionário Roberto Steen, depara-se com um imponente retrato de sua primeira mulher, falecida poucos meses antes de se conhecerem. A partir daí ela passa por momentos de insegurança e conflitos e o romance prossegue. Animada com o sucesso editorial, ela decide traduzir o livro para o inglês e o enviou para uma agência literária de Nova York, com pedido que fizessem contato, também, com agentes na Inglaterra.
Em 1938 ela teve acesso ao romance Rebeca, de Daphne du Maurier, publicado na Inglaterra, e verificou semelhanças bem visíveis com seu romance A Sucessora. Entrou em contato com seus agentes literários perguntando sobre o contato com os editores ingleses e a resposta foi que não havia encontrado. Pouco depois, o New York Times Book Review publicou um artigo ressaltando as semelhanças entre os dois romances.
Rebeca também foi um sucesso editorial na Inglaterra, motivando uma adaptação para o teatro, em 1939, e para o cinema, em 1940, dirigido por Alfred Hitchcock, abrindo o Festival de Cinema de Berlim e concorrendo em 11 categorias. Conquistou duas estatuetas do Oscar, incluindo a de melhor filme, que foi estrelado por Joan Fontaine e Laurence Olivier. O fato repercutiu no Brasil e quando o filme chegou aqui, a United Artists procurou Carolina para que assinasse uma declaração, mediante uma compensação financeira, concordando que houve uma “coincidência” literária. A oferta não foi aceita.
O sucesso do filme causou grande repercussão aqui e no exterior. Em suas memórias, Carolina conta que a oferta em dinheiro para que reconhecesse a “coincidência” era de valor considerável. No entanto, além de não aceitar, também não processou a editora inglesa. A história toda foi esclarecida no ano 2000 com o livro da escritora Nina Auerbach, da Universidade da Pensilvânia, Daphne du Maurier, haunted heiress (herdeira assombrada), dizendo que Carolina enviou seu livro para um editor inglês, que seria o mesmo da romancista inglesa.
Entre nós, A Sucessora foi adaptada para a televisão, numa telenovela de Manoel Carlos, exibida 1978, em 126 capítulos e distribuída em cerca de 50 países. Neste ano, Carolina recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra e veio a falecer em 18/8/1981, aos 91 anos. Em 2019 a editora Instante lançou uma nova edição de A Sucessora.
Amanhã, ilusão doce e fagueira, Linda rosa molhada pelo orvalho: Amanhã, findarei o meu trabalho, Amanhã, muito cedo, irei à feira.
Desta forma, na vida passageira, Como aquele que vive do baralho, Um espera a melhora no agasalho E outro, a cura feliz de uma cegueira.
Com o belo amanhã que ilude a gente, Cada qual anda alegre e sorridente, Como quem vai atrás de um talismã.
Com o peito repleto de esperança, Porém, nunca nós temos a lembrança De que a morte também chega amanhã.
* * *
HERANÇA
Querida esposa que ouvindo está Roubou-lhe o tempo a jovial beleza, Mas tem o dote da maior nobreza Sua bondade não se acabará.
Morrerei breve, porém Deus lhe dá Força e coragem com a natureza De no semblante não mostrar tristeza Quando sozinha for viver por cá.
Não tenho terra, gado, nem dinheiro, Só tenho o galo dono do terreiro Que a madrugada nunca ele perdeu.
Conserva esposa, minha pobre herança, Seja bem calma, paciente e mansa, Você não chore, que este galo é seu.
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A FESTA DA NATUREZA
Chegando o tempo do inverno, Tudo é amoroso e terno, Sentindo o Pai Eterno Sua bondade sem fim. O nosso sertão amado, Estrumicado e pelado, Fica logo transformado No mais bonito jardim.
Neste quadro de beleza A gente vê com certeza Que a musga da natureza Tem riqueza de incantá. Do campo até na floresta As ave se manifesta Compondo a sagrada orquesta Desta festa naturá.
Tudo é paz, tudo é carinho, Na construção de seus ninho, Canta alegre os passarinho As mais sonora canção. E o camponês prazentero Vai prantá fejão ligero, Pois é o que vinga premero Nas terras do meu sertão.
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MEDO DA MORTE
Cachingando, cego e surdo Sem ver e sem estar ouvindo Pra mim não é absurdo Vou meu caminho seguindo Nunca pensei em morrer Quem morre cumpre um dever Quando chegar o meu fim Eu sei que a terra me come Mas fica vivo o meu nome Para os que gostam de mim.
Surpresa, para o mestre (José) Ortega y Gasset (A rebelião das massas), “é começar a entender”. E uma das surpresas, no Brasil de hoje, é o fato de haver no Congresso duas Propostas de Emenda Constitucional quase idênticas, uma da Câmara dos Deputados (PEC 28/2024) e outra do Senado (PEC 8/2021) ‒ esta já aprovada e enviada para votação, na Câmara, em dezembro de 2023. É aquela com que o presidente da casa, Artur Lira, revida uma decisão do Supremo que vetou as tais “emendas impositivas”.
Mas de que tratam?, eis a questão. É que, sobretudo no Supremo, vem sendo cada vez mais frequente ver seus ministros, em decisões monocráticas, declarando serem algumas leis inconstitucionais. Entre outros absurdos, perdão por dizer. E por que seria este mais um absurdo?, amigo leitor. Por uma razão claríssima. É que, simplesmente, isso não podem fazer sozinhos, como vem se dando. Basta ver o art. 97 da nossa Constituição:
“Art. 97. Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros… poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei”.
Trata-se, volto a lembrar, do único tribunal do planeta que admite julgamentos por um só juiz. E não são poucos. A partir dos últimos números disponíveis (2020), são 81.356 decisões monocráticas em um total de 99.564 processos julgados. Um escândalo, não pode haver dúvidas, que vem sendo feito por quase todos. Razão pela qual nos vêm três perguntas:
1. Por que fazem, sabendo que não podem fazer?
2. Como os demais ministros (é de se admitir) sabem que não podem fazer, por que todos se calam quando feito por um vizinho de curul (aquela poltrona em que sentam)?
3. Quem controla o órgão que tem o poder de cumprir a Constituição, quando é ele próprio que a descumpre?
Sem respostas decentes para elas, assim creio. Com essas PECs pretendem, Deputados e Senadores, deixar ainda mais explícito o que já está claríssimo na Constituição. Esperemos que funcione. Embora lamente que ainda não esteja, em debate, a única proposta realmente importante ‒ a de converter o Supremo em uma Corte Constitucional, deixando de ser uma instância revisora do terceiro grau (STJ). Atuando apenas em questões sobre nossa Constituição. E sempre em decisões coletivas. Como todas demais Cortes Constitucionais, no mundo.
Não ficam por aí os absurdos, amigo leitor. Semana passada, a Folha de São Paulo deu notícia de áudios em que se constata funcionários do TSE cumprindo ordens de seu então presidente, Alexandre de Moraes, inventando provas. Sejam criativos, assim confessaram ter sido recomendado pelo ministro Alexandre de Moraes. Em palavras de Merval Pereira (O Globo), por tudo estar muito “escancarado, chegam a sugerir inventar um e-mail para que a denúncia pareça vir de um anônimo, e não do próprio Alexandre de Moraes. É claro que aí tem alguma coisa errada”. Tem mesmo.
E tudo num inquérito secreto que já prendeu milhares de brasileiros e censurou outros milhares (sobretudo aqueles que o criticaram), conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes desde 2019. Sem fim. Enquanto viver ou se aposentar, no íntimo sonha. Em si mesmo, outra violação aberta da Constituição; que o Supremo (art. 102) apenas tem o poder de julgar, enquanto fazer inquéritos é atribuição exclusiva do Ministério Público (art. 129).
O ministro responde sustentando que o TSE tem “poder de polícia”. Só pode ser brincadeira. Ou a impunidade lhe subiu à cabeça. Que a jurisprudência pacífica do Tribunal indica se possa usar, esse poder, apenas durante as eleições. E só nos temas que disserem respeito a elas. Basta ver que o ministro Fachin do mesmo TSE, no AI 47738, decidiu assim: “O poder de polícia eleitoral… está relacionado à propaganda eleitoral”. Ponto final.
Engraçado é que as ordens de agora violam não apenas essa reiterada jurisprudência do TSE, como decisão do próprio ministro Alexandre de Moraes quando votou, no AgR‒REspEL nº 22.728, “O poder da polícia para coibir irregularidades no curso da campanha (só durante as campanhas, o ministro antes reconhecia) de modo algum autoriza a atuar na produção de provas para instituir processo judicial futuro ou em curso”. Em resumo, a decisão que tomou antes não vale mais. Por contrariar seus interesses presentes. Trata-se de algo sério? É possível ir tão longe? E todos calados?, quanto a isso.
A OAB Federal deveria liderar campanha contra essas decisões autoritárias do Supremo, e em defesa da Constituição. Só que ela já não é a de Faoro. Mas se Brasília não fala e segue muda em um silêncio cúmplice, nestas e em outras matérias (sobretudo agredindo a Liberdade de Expressão, ao censurar todos que criticam o Supremo ou seus ministros), as OABs dos estados falam por ela.
Como aqui vem se dando, reiteradamente, com nosso presidente Fernando Ribeiro Lins, agora contra (mais uma) invasão de competência do ministro Alexandre de Morais. É dele essa afirmação:
“O Supremo precisa seguir ritos de formalidade que mais na frente não sejam contaminados, reconhecidas suas irregularidades na produção de provas. E não houve a formalização desses atos. Somos (a OAB) uma ordem que… se agiganta em defesa das prerrogativas. E nenhuma delas é mais relevante que ver, em ação, nossa Democracia”. Parabéns, pois.
Esse louvor de independência ocorre, também, nas Minas Gerais. Peço licença, ao amigo leitor, para lembrar discurso de seu presidente, Sérgio Leonardo, na 24ª Conferência Nacional de Advogados, realizada em seu estado. Presente, à mesa do evento, o presidente do Supremo, dando ainda maior importância à sua fala. Disse ele:
“A advocacia merece respeito. E se o que a vida quer da gente é coragem, como dizia Guimarães Rosa, essa advocacia não é profissão de covardes, como pontuava Sobral Pinto. Dizemos respeitosamente, mas alto e bom som, que os excessos que vem sendo praticados por magistrados nos tribunais superiores nos causam indignação e merecem nosso veemente repúdio. Nós somos essa voz e essa voz não pode e não será calada”.
Falou por todos, nós advogados. E pelos brasileiros que respeitam, e querem ver respeitada, nossa Constituição. Por fim, como quem percorre um cordão sem ponta, retomamos à citação de Gasset, no início do texto. Para dizer, com ele, que “tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para um par de pupilas bem abertas”. Como um convite, a todos nós, para abrir os olhos. E esses olhos abertos com que vemos o Brasil de hoje, embora com desalento, são os olhos da Democracia.