O presidente Lula e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, criticaram agências reguladoras recentemente
Falei outro dia sobre a briga entre Lula e a Anvisa, aquela agência autônoma que se encarrega de licenciar ou não remédios e vacinas. Lula disse que a Anvisa está demorando para aprovar remédios, e a agência respondeu que está com 120 vagas que o governo não preenche.
Agora é a vez do ministro de Minas e Energia, que está brigando com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que também é autônoma, fiscalizada pelo Congresso e pelo Tribunal de Contas da União. Alexandre Silveira disse que a agência é inerte e tem de deixar quem ganhou a eleição fazer política. A Aneel respondeu que está cumprindo sua obrigação, que também está precisando de gente, e não tem como resolver. A economista Elena Landau – do Massachusetts Institute of Technology, de Boston, e também da PUC-Rio, da geração do pessoal que fez o real – disse que o ministro de Minas e Energia está alinhado aos lobbies do setor. Deve ser uma referência a Joesley e Wesley Batista, em benefício dos quais saiu uma medida provisória do presidente Lula, numa transação de compra de usinas na Amazônia.
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Mais mortes súbitas e males cardíacos entre jovens
Por falar em Anvisa, será que ela ou algum outro órgão está investigando o que há de comum entre todas essas mortes súbitas, repentinas, de jovens, todas de parada cardíaca? Agora mesmo aconteceu em Rio Verde (GO), com uma rainha do rodeio de 24 anos; o coração parou. O zagueiro Juan Izquierdo, do Nacional do Uruguai, 27 anos, teve parada cardíaca durante um jogo, jogou 39 minutos e caiu no Morumbi. Foi levado para o Hospital Albert Einstein, mas já tinha tido parada cardíaca, e a última notícia triste é de que já houve comprometimento do cérebro, porque faltou oxigenação enquanto o coração estava parado. Assim, tudo de repente, com atletas que treinam, eu fico curioso para saber qual é o ponto comum que está causando isso.
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Único mérito de Kamala é não ser Biden nem Trump, diz The Economist
The Economist é uma revista que tem 180 anos, editada na Inglaterra, e é lida por todo mundo que faz negócios. Vejam o que disse a Economist sobre Kamala Harris, candidata democrata à presidência dos Estados Unidos: ela tem “planos raquíticos” na economia e “enevoados”, cobertos de neve, que não dá para ver, na política externa. E não tem pressa para se explicar. Ela se destaca apenas “por não ser o cambaleante Biden nem o presunçoso Trump”. Que análise pesada fez a Economist.
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Terremoto em Portugal: Cruz Vermelha ensina o que fazer quando a terra treme
Estive conversando com brasileiros que sentiram o terremoto em Lisboa na madrugada de segunda-feira. Eles levaram um susto; para alguns, foi a primeira vez que passaram por isso. Eu já passei por três: um em Tóquio, no 40.º andar do hotel New Otani; um na Califórnia, ao pé do Monte Whitney, que é a montanha mais alta dos Estados Unidos fora do Alasca; e outro em Arequipa, no Peru. Recebi de Lisboa a informação que a Cruz Vermelha distribui para todos sobre o que fazer ao ser surpreendido pelo terremoto – ou “terramoto”, como chamam lá; ou “sismo”, como chamam mais ainda – e o que fazer depois.
É importante, por exemplo, não sair para a rua; se for preciso sair, não é bom ficar perto de prédios altos e fios de eletricidade, por causa do vidro. Quem se mantiver dentro de casa não deve ficar ao lado de uma janela, porque o vidro pode estilhaçar; de preferência, é melhor se colocar embaixo do vão da porta, ou junto a uma daquelas paredes principais da casa, as mais grossas, mais firmes. Como prevenção, recomenda-se não colocar coisas pesadas em cima de armários, apenas nas partes mais baixas, e certificar-se de que os lustres e quadros estão bem fixados no teto e nas paredes.
Nunca se sabe quando vai acontecer algo assim; esse terremoto em Portugal foi às 5 e pouco da madrugada. Durou oito segundos, mas segundos viram uma eternidade na hora em que tudo está se mexendo.
Os funcionários e aposentados dos Correios certamente não têm boas lembranças do período em que Dilma Rousseff esteve no poder. Foi exatamente entre 2011 e 2016 que a administração do Postalis, o fundo de pensão da estatal, fez evaporar o dinheiro recolhido a duras penas pelos funcionários da empresa para terem uma aposentadoria tranquila. O prejuízo acumulado no período foi de R$ 4,7 bilhões em valores da época – R$ 9,1 bilhões em valores atuais. Um rombo tão grande que, para ajudar a tapá-lo, os trabalhadores da ativa e os pensionistas começaram a sofrer descontos no contracheque – em alguns casos, a mordida chegava a 37%.
A lista de investimentos desastrosos realizados entre 2011 e 2016 inclui a compra de títulos da dívida da Argentina kirchnerista e da Venezuela bolivariana; de ações de empresas do Grupo X, de Eike Batista; de debêntures de um grupo educacional que faliu em 2016; e de títulos de bancos liquidados, como o Cruzeiro do Sul e o BVA. Em 2016, a Operação Greenfield ainda descobriu que os fundos de pensão vinculados a estatais pagavam preços superiores aos de mercado em Fundos de Investimento em Participações (FIPs), beneficiando empresas encrencadas na Lava Jato e “campeões nacionais” escolhidos a dedo durante a primeira passagem do petismo pelo Planalto.
Ainda que estivéssemos diante de uma grande coincidência, já bastaria para que os gestores fossem imediatamente defenestrados por seu talento para escolher sempre as piores opções de investimento. Mas não era coincidência: todo esse portfólio poderia ser resumido a uma palavra: camaradagem, seja com governos ideologicamente alinhados com o petismo, seja com os “amigos do rei” dentro do Brasil. O escândalo foi tamanho que rendeu investigações e intervenção no Postalis.
Mesmo com o desconto no contracheque dos funcionários da ativa e dos pensionistas dos Correios, a dívida não parou de crescer, e agora a estatal assinou um acordo em que se compromete a cobrir metade do rombo total, que é hoje de R$ 15 bilhões. Não é que os Correios estejam com a saúde financeira em dia: a estatal acumula prejuízos na casa das centenas de milhões de reais desde 2022, depois de uma sequência de cinco anos de lucros, entre 2017 e 2021 (quando a estatal teve resultado recorde, lucrando R$ 3,1 bilhões). Em outras palavras, a estatal, que já fechou o primeiro trimestre deste ano com um buraco de R$ 800 milhões, ainda terá de fazer muitos desembolsos para cobrir o desastre dilmista.
Além disso, existe um outro interesse por trás do saneamento do Postalis. O presidente Lula chamou ao Planalto, na semana passada, os presidentes dos quatro grandes fundos de pensão de estatais – além do Postalis, o Petros (da Petrobras), a Previ (do Banco do Brasil) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal) – e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir um possível afrouxamento dos critérios que os fundos usam para selecionar seus investimentos. Só Postalis, Petros, Previ e Funcef têm na carteira R$ 500 bilhões, que Lula gostaria de ver, ao menos em parte, bancando obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), muitas das quais estão paradas ou nem começaram a sair do papel, apesar de toda a fanfarra governamental no relançamento do programa.
Que fundos de pensão sejam ator importante no mercado financeiro, ou como financiadores de empresas e de infraestrutura é legítimo – é o que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo. Mas as escolhas de investimentos têm de ser feitas sempre tendo em mente o interesse dos cotistas, os funcionários e os aposentados, e não de um terceiro (no caso, o governo). Muito pior é que essa intromissão de um terceiro tenha o aval ou até o apoio do órgão que deveria garantir que os fundos sejam bem administrados. A ideia de “flexibilizar” os critérios de investimento dos fundos veio da Previc, órgão do Ministério da Previdência que supervisiona planos de previdência complementar; um ofício obtido pelo jornal O Globo diz que o fato de os fundos não poderem investir em debêntures de infraestrutura atualmente atrapalha “a formação de funding necessário para execução do referido programa de investimentos do governo federal (Novo PAC)”, e que as medidas sugeridas têm o objetivo de “cumprir os compromissos e as metas em favor da sociedade” e “do desenvolvimento do país”. Que ninguém se surpreenda se os trabalhadores da ativa e os aposentados das estatais terminarem como os grandes prejudicados, mais uma vez.