CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM CABRITO NA ESTRADA DO MAJOR

Na varanda do Restaurante do Presta, Riacho Doce: Vladimir Palmeira, Guilherme Palmeira, este colunista, Betuca Lima, Quico Ramalho e Lelé Lima

A eleição para governador em 1960 foi uma das mais disputadas na história das Alagoas. O candidato, Major Luís Cavalcante perdeu para Silvestre Péricles na capital e perdeu também para Abraão Moura no interior. Porém, no cômputo geral, foi eleito governador.

Major Luís, como era carinhosamente chamado pelo povo o General Luís Cavalcante foi um governador de hábitos simples, austeros e carismáticos. Capaz de atos inusitados, beirando a demagógicos, como pedir uma bicicleta emprestada a um menino e dar uma volta pela Praça dos Martírios ou chupar rolete de cana na rua, daí seu apelido de Lula Rolete.

Quando escolheu o primeiro escalão de sua equipe de governo, causou um rebuliço no meio político. Convidou uma boa turma de jovens técnicos para seus auxiliares. Seu secretariado foi apelidado de Jardim da Infância do Major Luís. Realizou um governo próspero, estruturou a administração estadual, governo sério.

Para nós jovens, a grande obra do Major foi a construção da estrada do litoral norte. Incentivado pelo Secretário de Obras, Engenheiro Vinicius Maia Nobre, a bela estrada foi construída rasgando os coqueirais à beira-mar do litoral norte do Estado e margeando as belíssimas praias de Garça Torta, Guaxuma, Riacho Doce, Pratagy, Ipioca, entre outras. Nos arrecifes da praia de Pratagy foi colocada a majestosa escultura de uma sereia, e a partir daí tornou-se conhecida como Praia da Sereia.

A boa programação da época era dar um passeio pela estrada nova, apreciando as praias, tomar um banho de mar e no retorno comer uma macarronada com cerveja e cachaça no Restaurante do Presta. Na praia de Riacho Doce um gordo italiano, Luigi Presta, montou um restaurante rústico à beira da estrada. Cerveja mais gelada não havia. Ótimo, o tira-gosto do italiano, a macarronada uma delícia, além de uma vista maravilhosa na varanda do restaurante. Era o programa novidade e imperdível da moçada.

Ainda hoje é um bom programa passear naquela estrada, cheia de coqueirais e um marzão bonito com lindas praias.

O escritor romancista José Lins do Rego, quando morou nas Alagoas, escreveu um de seus melhores romances, “Riacho Doce”. A história de uma loura sueca, casada com um engenheiro, que se apaixonou por um pescador. O roteiro do livro se passa na Praia de Riacho Doce.

Certo sábado, passamos a tarde no Restaurante do Presta, tomando cerveja, bons tira-gostos e uma cachacinha inconfundível, a Azuladinha. Já era boca da noite quando retornamos para casa, hora de dar um descanso para prolongar a noitada.

A Rural engolia a estrada maravilhosamente no caminho da volta, quando, de repente, Leopoldo Fragoso deu um baita freio. Pensei numa batida. Ele parou e imediatamente deu ré. E com aquele seu jeito peculiar, debochado, irreverente, apontou com o dedo indicador.

– Olha ali, meu irmão!

Era um cabrito amarrado num coqueiro à beira da estrada. Em ato contínuo dois amigos saltaram rapidamente e de repente senti uma pancada, era o cabrito jogado em cima de meu colo. Disparamos rumo à cidade.

No domingo, os amigos foram almoçar o cabrito assado em minha casa, com a conivência e cumplicidade da Dona Zeca que se divertia com as presepadas dos filhos e amigos. Com muita cerveja comemos o cabrito na enorme varanda de minha casa, junto ao bucólico quintal. Que delícia o cabrito da estrada do Major!

A Estrada AL-101–Norte foi um marco na implantação do turismo em Alagoas. Há mais de 60 anos foi construído e há muitos anos requer sua duplicação, várias vezes iniciada e nunca acabada como muitas obras nesse Brasil.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

A INGENUIDADE DOS “PAIS DO REAL”

Editorial Gazeta do Povo

Armínio Fraga foi um dos economistas responsáveis pelo Plano Real e que declararam apoio a Lula no segundo turno da eleição presidencial

“Vai apenas congelar a miséria” – era essa a avaliação do candidato Lula em 1994, às vésperas do lançamento do real, etapa final do plano desenhado pela equipe do então ministro Fernando Henrique Cardoso para conter a hiperinflação. O PT foi um poucos partidos que, no Congresso, votaram contra os projetos de lei que instituíam o Plano Real, considerando-o mera ferramenta eleitoreira. Não era: a inflação foi efetivamente debelada, embora o Brasil viesse a sofrer efeitos de choques externos como as crises do México, da Rússia e da Ásia, todas entre 1995 e 1998 – ano em que Lula disputou novamente a Presidência, ainda atacando o Plano Real, chamando-o de “fantasia” e afirmando que Fernando Henrique havia jogado o Brasil em uma “enrascada”. A oposição petista ao real foi apenas um dos vários desserviços prestados pelo partido à nação antes mesmo de chegar ao poder – o PT também votou contra leis como a de Responsabilidade Fiscal e até mesmo contra a redação final da Constituição de 1988, não por considerá-la extensa demais ou desproporcional na concessão de direitos, mas porque desejava um texto bem mais radical à esquerda.

Agora, os pais do real resolveram se abraçar àquele que foi seu crítico mais feroz. Em nota conjunta, os economistas Edmar Bacha, Pedro Malan, Armínio Fraga e Persio Arida declararam voto em Lula neste segundo turno da eleição presidencial. Isoladamente, eles justificam sua decisão alegando o de sempre, os “riscos para a democracia brasileira”. A nota conjunta do quarteto, no entanto, não menciona nenhum tipo de ameaça. “Votaremos em Lula no 2º turno; nossa expectativa é de condução responsável da economia”, diz o brevíssimo texto. Uma expectativa que, no entanto, beira a ingenuidade.

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes não terminaram esses quatro anos se destacando pela responsabilidade fiscal. Descontando-se a explosão de gastos causada pelas medidas de combate aos efeitos econômicos da pandemia – despesas de centenas de bilhões de reais que, no entanto, foram necessárias para evitar uma catástrofe ainda maior que a ocorrida graças ao “fecha tudo” -, este fim de mandato se caracterizou por uma série de gambiarras orçamentárias destinadas a contornar as limitações impostas pelo teto de gastos, como a PEC dos Precatórios e a PEC dos Benefícios. Se conseguir a reeleição, esta é uma das áreas em que Bolsonaro terá de corrigir a rota, retomando urgentemente o rumo do ajuste, até para não sofrer ele mesmo os efeitos das “bombas-relógio fiscais” armadas pelas últimas medidas. Mas ainda assim não há comparação entre o que ocorre agora e o que ocorreu na metade final da passagem petista pelo Planalto, quando a gastança desenfreada da “nova matriz econômica” levou o país à maior recessão de sua história, que não foi superada nem pelo estrago da Covid-19.

Bacha, Malan, Fraga e Arida, ainda por cima, caem na esparrela do “cheque em branco” pedido por Lula, que até agora não divulgou plano de governo, e na verdade não deu nem mesmo algum sinal de que pretenda realizar uma “condução responsável da economia” – todas as suas declarações, especialmente aquelas sobre o teto de gastos, apontam para a direção diametralmente oposta. Impossível que o quarteto de economistas não tenha prestado atenção às palavras de Guilherme Boulos (PSol), que vai para o Congresso como o deputado federal mais votado no estado de São Paulo: “as posições econômicas que o Meirelles [Henrique Meirelles, que também declarou apoio a Lula] defende são contrárias às posições econômicas que estão no plano de governo de Lula. O plano de governo de Lula é a revogação do teto. O Meirelles fez o teto. O plano do Lula é a revogação da reforma trabalhista. O Meirelles fez a reforma trabalhista”, disse o futuro deputado de extrema-esquerda no dia 3, em entrevista.

Apoiar o petismo incondicionalmente esperando que Lula adote a responsabilidade fiscal sem ter prometido nada neste sentido deixará Bacha, Malan, Fraga e Arida fazendo companhia aos personagens Estragon e Vladimir, da célebre peça Esperando Godot. A gastança está na essência do modo petista de administrar; se algo diferente disso ocorrer, será apenas por força das circunstâncias, como fez Lula no início de seu mandato, quando tinha Antônio Palocci como ministro da Fazenda e respeitou o tripé macroeconômico porque era preciso acalmar os mercados. Mas, assim que o petismo se viu em condições de trocar o tripé pela “nova matriz econômica”, o fez sem pestanejar. As lições do passado recente estão frescas demais para serem ignoradas.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AUTÓGRAFOS E SUAS VARIANTES

Eloy Barreto Buarque, o grafotécnico mágico

Para comparecer ao lançamento festivo do livro “Poesia é amor, crônica é vida”, de autoria do cirurgião-geral e Perito da Unimed, Garibaldi Bastos Quirino, recebi em minha residência, o convite com um exemplar, de presente, com atenciosa dedicatória.

Naquele momento fiquei pensando sobre algumas variantes da grafotécnia, ou seja, o autógrafo, os textos escritos à máquina e à mão, e sua confirmação de autenticidade.

Imaginei certa discrepância nos autógrafos que geralmente são grafados durante os lançamentos de livros, quando uma fila de compradores – já de exemplares em punho – se dirigem à mesa onde está “a vítima” e pede seu autógrafo.

Seria uma festa de confraternização se o autor apenas autografasse e não cumprisse uma das regras da modernidade: escrever uma dedicatória, como o faz todos os anos meu amigo João Alberto, com as sucessivas edições do seu “Sociedade Pernambucana”.

“Vítima”, se assim o identifico, é porque participei de vários lançamentos de livros no qual os autores ficam horas escrevendo dedicatórias e assinando. Ou seja, perdendo o melhor das festas, que são a confraternização durante naqueles momentos de glória.

Em tempos presentes as modernidades predominam. Tornou-se usual, além da assinatura do autor, uma dedicatória.

Nos idos de 1940 era bem diferente. Aparecia nos livros à venda – alguns, fora das vitrinas – um detalhe indicativo de preço mais elevado. Eram as edições especiais, porque estavam numerados e com o autógrafo do autor.

Meu pai, bom colecionador, costumava adquirir pelo Correio, da antiga Editora Globo, de Porto Alegre, (que nada tem com o Grupo Roberto Marinho) exemplares desse tipo. Não havia ainda a “festa de lançamento” como atualmente acontece.

Só que nos dias atuais tem havido uma diferença que me encabula. O cidadão compra o livro, entra numa fila enorme e ao chegar ao autor e entregar seu exemplar, recebe uma dedicatória personalizada, como se ele estivesse doando o livro.

Uma coisa meio sem jeito! Mas, brasileiros, costumam criar modelos em tudo. Todavia, não tem sentido o interessado comprar e receber dedicatória como se tivesse sido presenteado. Tem lógica?

Dr. Garibaldi e seus convidados: a jornalista Cynthia Leite, seu marido Antônio Farias (publicitário) e o filho João Antônio

E pensando nisso me vieram algumas lembranças dos tempos em que fui bancário, quando o Governo cobrava impostos através de selos, geralmente para serem creditados à rubrica de “Educação e Saúde”.

Era o chamado Imposto do Selo, quando se exigia um pagamentozinho complicado. Por cada depósito o cliente tinha que pagar no Caixa o valor de Cr$ 2,50 (dois cruzeiros e cinquenta centavos), por qualquer valor a ser creditado.

Trabalhei por anos no setor de “Ordens de Pagamento”, no velho City Bank, tendo como companheiro o saudoso escritor Amílcar Dória Matos.

Quando o cliente se apresentava para receber o dinheiro – como certa feita aconteceu com uma senhora de nome Abigail Izquierdo Ferreira, nada menos que a famosa atriz Bibi Ferreira – passávamos à seguinte rotina.

De acordo com o valor, examinávamos a tabela do percentual referente ao Imposto do Selo e colávamos aqueles minúsculos papeizinhos num recibo que já estava preparado anteriormente.

Até poucos anos quaisquer operações financeiras, excetuando-se a emissão de cheques, tinham que ser efetivadas com os selos de Educação e Saúde. Na foto de um colecionador, um contrato de aluguel de imóvel

O cliente-recebedor tinha que pagar o insignificante valor ou aceitar ser descontado pelo Caixa e firmar sua assinatura por cima dos selos. Mas, viria a outra etapa.

Com o recibo na mão o cliente passava para as proximidades do Caixa, onde D. Eunice Pereira Catunda conferia – pela identidade do cliente – se a assinatura estava correta. Depois botava um carimbinho, rubricava e lançava ao Caixa para proceder ao pagamento.

Nessa época não havia se desenvolvido por aqui a Grafotécnica. Mas D. Catunda era mestra no assunto. Ou seja, conhecia bem a ciência de examinar textos escritos à mão ou à máquina a fim de confirmar sua autenticidade.

Tal ciência veio trazer luzes, sobretudo em casos legais, quando se aciona a Perícia Técnica, para verificar se escritas são falsificadas ou não; se foram produzidas pela mesma pessoa ou máquina.

Apareceu assim, no Recife, a Grafotécnica, através dos serviços do Banco do Brasil, o DESED – Departamento de Seleção e Desenvolvimento do Pessoal, criado em 1965, sistematizando os processos de educação, instrução e treinamento dos funcionários.

O curso foi instituído pelo novo Sistema de Atendimento Direto e Integrado (SADI), que criou o cargo de Caixa-Executivo, segundo notas do Prof. Edson Mendes de Araújo Lima, ex-Superintendente do Banco do Brasil.

Com seu novo núcleo de ensino, o Banco formou seus Grafotécnicos e entre eles me chamava a atenção Eloy Barreto Buarque, pessoa que eu conhecia de perto, pois se tornou meu parente em face do casamento dos nossos filhos Eliane e Carlos Eduardo de Almeida Santos.

Eloy, que além do curso do qual participara sob o estímulo da Direção Geral, passava horas mentalizando as assinaturas dos clientes correntistas, fora do expediente, vendo e revendo centenas de dados arquivados com assinaturas, a fim de mais rapidamente atender à clientela.

Especializou-se com tal esmero que aproveitando a frequência dos inúmeros cheques que chegavam aos Caixas-executivos durante um só dia, conseguiu decorar as assinaturas dos clientes que mais emitiam documentos necessários ao reconhecimento, não necessitando consultar os fichários, reduzindo incrivelmente o tempo de atendimento da clientela.

Lembro-me bem de sua habilidade no reconhecimento de firmas, que às centenas apareciam em seu setor, para serem encaminhados a pagamento. Era um raio! Sobremodo porque já havia mentalizado as principais assinaturas e nem precisava procurar os originais no fichário, como o faziam os demais colegas.

Prendia nos dedos um pequeno carimbo e uma caneta esferográfica e com a outra mão folheava os cheques ou papéis.

Não foram raras as vezes que Eloy foi chamado a colaborar em perícias judiciais. Terminou sua carreira aposentando-se como Gerente da Agência CARE, atual CEASA.

Inegavelmente um mágico no reconhecimento de firmas!

PENINHA - DICA MUSICAL