DEU NO JORNAL

Editorial Gazeta do Povo

Armínio Fraga foi um dos economistas responsáveis pelo Plano Real e que declararam apoio a Lula no segundo turno da eleição presidencial

“Vai apenas congelar a miséria” – era essa a avaliação do candidato Lula em 1994, às vésperas do lançamento do real, etapa final do plano desenhado pela equipe do então ministro Fernando Henrique Cardoso para conter a hiperinflação. O PT foi um poucos partidos que, no Congresso, votaram contra os projetos de lei que instituíam o Plano Real, considerando-o mera ferramenta eleitoreira. Não era: a inflação foi efetivamente debelada, embora o Brasil viesse a sofrer efeitos de choques externos como as crises do México, da Rússia e da Ásia, todas entre 1995 e 1998 – ano em que Lula disputou novamente a Presidência, ainda atacando o Plano Real, chamando-o de “fantasia” e afirmando que Fernando Henrique havia jogado o Brasil em uma “enrascada”. A oposição petista ao real foi apenas um dos vários desserviços prestados pelo partido à nação antes mesmo de chegar ao poder – o PT também votou contra leis como a de Responsabilidade Fiscal e até mesmo contra a redação final da Constituição de 1988, não por considerá-la extensa demais ou desproporcional na concessão de direitos, mas porque desejava um texto bem mais radical à esquerda.

Agora, os pais do real resolveram se abraçar àquele que foi seu crítico mais feroz. Em nota conjunta, os economistas Edmar Bacha, Pedro Malan, Armínio Fraga e Persio Arida declararam voto em Lula neste segundo turno da eleição presidencial. Isoladamente, eles justificam sua decisão alegando o de sempre, os “riscos para a democracia brasileira”. A nota conjunta do quarteto, no entanto, não menciona nenhum tipo de ameaça. “Votaremos em Lula no 2º turno; nossa expectativa é de condução responsável da economia”, diz o brevíssimo texto. Uma expectativa que, no entanto, beira a ingenuidade.

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes não terminaram esses quatro anos se destacando pela responsabilidade fiscal. Descontando-se a explosão de gastos causada pelas medidas de combate aos efeitos econômicos da pandemia – despesas de centenas de bilhões de reais que, no entanto, foram necessárias para evitar uma catástrofe ainda maior que a ocorrida graças ao “fecha tudo” -, este fim de mandato se caracterizou por uma série de gambiarras orçamentárias destinadas a contornar as limitações impostas pelo teto de gastos, como a PEC dos Precatórios e a PEC dos Benefícios. Se conseguir a reeleição, esta é uma das áreas em que Bolsonaro terá de corrigir a rota, retomando urgentemente o rumo do ajuste, até para não sofrer ele mesmo os efeitos das “bombas-relógio fiscais” armadas pelas últimas medidas. Mas ainda assim não há comparação entre o que ocorre agora e o que ocorreu na metade final da passagem petista pelo Planalto, quando a gastança desenfreada da “nova matriz econômica” levou o país à maior recessão de sua história, que não foi superada nem pelo estrago da Covid-19.

Bacha, Malan, Fraga e Arida, ainda por cima, caem na esparrela do “cheque em branco” pedido por Lula, que até agora não divulgou plano de governo, e na verdade não deu nem mesmo algum sinal de que pretenda realizar uma “condução responsável da economia” – todas as suas declarações, especialmente aquelas sobre o teto de gastos, apontam para a direção diametralmente oposta. Impossível que o quarteto de economistas não tenha prestado atenção às palavras de Guilherme Boulos (PSol), que vai para o Congresso como o deputado federal mais votado no estado de São Paulo: “as posições econômicas que o Meirelles [Henrique Meirelles, que também declarou apoio a Lula] defende são contrárias às posições econômicas que estão no plano de governo de Lula. O plano de governo de Lula é a revogação do teto. O Meirelles fez o teto. O plano do Lula é a revogação da reforma trabalhista. O Meirelles fez a reforma trabalhista”, disse o futuro deputado de extrema-esquerda no dia 3, em entrevista.

Apoiar o petismo incondicionalmente esperando que Lula adote a responsabilidade fiscal sem ter prometido nada neste sentido deixará Bacha, Malan, Fraga e Arida fazendo companhia aos personagens Estragon e Vladimir, da célebre peça Esperando Godot. A gastança está na essência do modo petista de administrar; se algo diferente disso ocorrer, será apenas por força das circunstâncias, como fez Lula no início de seu mandato, quando tinha Antônio Palocci como ministro da Fazenda e respeitou o tripé macroeconômico porque era preciso acalmar os mercados. Mas, assim que o petismo se viu em condições de trocar o tripé pela “nova matriz econômica”, o fez sem pestanejar. As lições do passado recente estão frescas demais para serem ignoradas.

Um comentário em “A INGENUIDADE DOS “PAIS DO REAL”

  1. Estes vendilhões da Pátria só pensam em dinheiro, adotando lularápio ele entra, “quebra o país”, aí vem os gananciosos e compram ativos por 10% do preço pois seus recursos ficam lá fora, livres da destruição petista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *