CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Eloy Barreto Buarque, o grafotécnico mágico

Para comparecer ao lançamento festivo do livro “Poesia é amor, crônica é vida”, de autoria do cirurgião-geral e Perito da Unimed, Garibaldi Bastos Quirino, recebi em minha residência, o convite com um exemplar, de presente, com atenciosa dedicatória.

Naquele momento fiquei pensando sobre algumas variantes da grafotécnia, ou seja, o autógrafo, os textos escritos à máquina e à mão, e sua confirmação de autenticidade.

Imaginei certa discrepância nos autógrafos que geralmente são grafados durante os lançamentos de livros, quando uma fila de compradores – já de exemplares em punho – se dirigem à mesa onde está “a vítima” e pede seu autógrafo.

Seria uma festa de confraternização se o autor apenas autografasse e não cumprisse uma das regras da modernidade: escrever uma dedicatória, como o faz todos os anos meu amigo João Alberto, com as sucessivas edições do seu “Sociedade Pernambucana”.

“Vítima”, se assim o identifico, é porque participei de vários lançamentos de livros no qual os autores ficam horas escrevendo dedicatórias e assinando. Ou seja, perdendo o melhor das festas, que são a confraternização durante naqueles momentos de glória.

Em tempos presentes as modernidades predominam. Tornou-se usual, além da assinatura do autor, uma dedicatória.

Nos idos de 1940 era bem diferente. Aparecia nos livros à venda – alguns, fora das vitrinas – um detalhe indicativo de preço mais elevado. Eram as edições especiais, porque estavam numerados e com o autógrafo do autor.

Meu pai, bom colecionador, costumava adquirir pelo Correio, da antiga Editora Globo, de Porto Alegre, (que nada tem com o Grupo Roberto Marinho) exemplares desse tipo. Não havia ainda a “festa de lançamento” como atualmente acontece.

Só que nos dias atuais tem havido uma diferença que me encabula. O cidadão compra o livro, entra numa fila enorme e ao chegar ao autor e entregar seu exemplar, recebe uma dedicatória personalizada, como se ele estivesse doando o livro.

Uma coisa meio sem jeito! Mas, brasileiros, costumam criar modelos em tudo. Todavia, não tem sentido o interessado comprar e receber dedicatória como se tivesse sido presenteado. Tem lógica?

Dr. Garibaldi e seus convidados: a jornalista Cynthia Leite, seu marido Antônio Farias (publicitário) e o filho João Antônio

E pensando nisso me vieram algumas lembranças dos tempos em que fui bancário, quando o Governo cobrava impostos através de selos, geralmente para serem creditados à rubrica de “Educação e Saúde”.

Era o chamado Imposto do Selo, quando se exigia um pagamentozinho complicado. Por cada depósito o cliente tinha que pagar no Caixa o valor de Cr$ 2,50 (dois cruzeiros e cinquenta centavos), por qualquer valor a ser creditado.

Trabalhei por anos no setor de “Ordens de Pagamento”, no velho City Bank, tendo como companheiro o saudoso escritor Amílcar Dória Matos.

Quando o cliente se apresentava para receber o dinheiro – como certa feita aconteceu com uma senhora de nome Abigail Izquierdo Ferreira, nada menos que a famosa atriz Bibi Ferreira – passávamos à seguinte rotina.

De acordo com o valor, examinávamos a tabela do percentual referente ao Imposto do Selo e colávamos aqueles minúsculos papeizinhos num recibo que já estava preparado anteriormente.

Até poucos anos quaisquer operações financeiras, excetuando-se a emissão de cheques, tinham que ser efetivadas com os selos de Educação e Saúde. Na foto de um colecionador, um contrato de aluguel de imóvel

O cliente-recebedor tinha que pagar o insignificante valor ou aceitar ser descontado pelo Caixa e firmar sua assinatura por cima dos selos. Mas, viria a outra etapa.

Com o recibo na mão o cliente passava para as proximidades do Caixa, onde D. Eunice Pereira Catunda conferia – pela identidade do cliente – se a assinatura estava correta. Depois botava um carimbinho, rubricava e lançava ao Caixa para proceder ao pagamento.

Nessa época não havia se desenvolvido por aqui a Grafotécnica. Mas D. Catunda era mestra no assunto. Ou seja, conhecia bem a ciência de examinar textos escritos à mão ou à máquina a fim de confirmar sua autenticidade.

Tal ciência veio trazer luzes, sobretudo em casos legais, quando se aciona a Perícia Técnica, para verificar se escritas são falsificadas ou não; se foram produzidas pela mesma pessoa ou máquina.

Apareceu assim, no Recife, a Grafotécnica, através dos serviços do Banco do Brasil, o DESED – Departamento de Seleção e Desenvolvimento do Pessoal, criado em 1965, sistematizando os processos de educação, instrução e treinamento dos funcionários.

O curso foi instituído pelo novo Sistema de Atendimento Direto e Integrado (SADI), que criou o cargo de Caixa-Executivo, segundo notas do Prof. Edson Mendes de Araújo Lima, ex-Superintendente do Banco do Brasil.

Com seu novo núcleo de ensino, o Banco formou seus Grafotécnicos e entre eles me chamava a atenção Eloy Barreto Buarque, pessoa que eu conhecia de perto, pois se tornou meu parente em face do casamento dos nossos filhos Eliane e Carlos Eduardo de Almeida Santos.

Eloy, que além do curso do qual participara sob o estímulo da Direção Geral, passava horas mentalizando as assinaturas dos clientes correntistas, fora do expediente, vendo e revendo centenas de dados arquivados com assinaturas, a fim de mais rapidamente atender à clientela.

Especializou-se com tal esmero que aproveitando a frequência dos inúmeros cheques que chegavam aos Caixas-executivos durante um só dia, conseguiu decorar as assinaturas dos clientes que mais emitiam documentos necessários ao reconhecimento, não necessitando consultar os fichários, reduzindo incrivelmente o tempo de atendimento da clientela.

Lembro-me bem de sua habilidade no reconhecimento de firmas, que às centenas apareciam em seu setor, para serem encaminhados a pagamento. Era um raio! Sobremodo porque já havia mentalizado as principais assinaturas e nem precisava procurar os originais no fichário, como o faziam os demais colegas.

Prendia nos dedos um pequeno carimbo e uma caneta esferográfica e com a outra mão folheava os cheques ou papéis.

Não foram raras as vezes que Eloy foi chamado a colaborar em perícias judiciais. Terminou sua carreira aposentando-se como Gerente da Agência CARE, atual CEASA.

Inegavelmente um mágico no reconhecimento de firmas!

Um comentário em “AUTÓGRAFOS E SUAS VARIANTES

  1. Estimado Carlos
    Esta sua crônica remeteu-me aos tempos radiosos vividos nas salas de aula da “saudosa” Faculdade de Direito da UFPb, onde mestres de verdadeiro saber nos ensinavam, antes das disciplinas, a ética do Direito e da Ordem, que ele representava.
    Tínhamos, acho que você deve lembrá-la, bem, aquela benemerência que era a figura do “solicitador”, pela qual a correta OAB permitia que ao alcançar o 4º ano, nos tornássemos rábulas oficiais.
    Capacitados até para navegar no estranho mundo das estampilhas e seus valores e significados, que levaram decerto um colega nosso a receber um duro corretivo partido de Juiz de Direito da Comarca em que ele, residente na cidade sede dessa Comarca, rabulava.
    Dado que esse dedicado rábula, não conseguindo estampilhar, na Recebedoria de Rendas do Estado, a Petição Inicial referente ao pagando das custas iniciais de um processo que patrocinava, pois a repartição competente estava com estoque ‘zero’, desses selos, não teve dúvidas. Foi à agência dos Correios e lá pespegou uma carrada de selos postais, cumprindo, assim, a seu ver, a obrigação de selagem do documento.
    Protocolado o documento, logo apresentado do Doutor Juiz, este convocou o operoso assistente, que após receber a devida correição, não teve outra saída, se não a de afirmar: “doutor, a Recebedoria não tinha mais selos, só o Correio tinha. Assim, usei os do Correio e acho que cumpri a obrigação de selar o documento.

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