
Darcy Ribeiro da Silveira nasceu em Montes Claros, MG, em 26/10/1922. Antropólogo, sociólogo, museólogo, educador. administrador, político e escritor. Foi um dos mais brilhantes pensadores (e fazedores) brasileiros destacado em diversas áreas. Passou a vida repensando o Brasil e suas mazelas; sua riqueza natural e cultural a partir da miscigenação entre brancos, negros e índios. Sua trajetória de vida daria belo documentário da história do Brasil durante a segunda metade do século XX.
Filho de “Dona Fininha” (Josefina Augusta da Silveira), professora que nomeia uma avenida da cidade, e Reginaldo Ribeiro dos Santos, falecido quando ele tinha 3 anos. Sem pai, virou moleque traquino e curioso. Na farmácia do tio, ouviu falar que a quantidade de “azul de metileno” que lá havia daria para pintar o oceano Atlântico. Ficou intrigado com a informação e despejou um pacote na caixa d’água da cidade. A água azul saiu em todas as torneiras, causando pânico na cidade. Aos 17 aos foi estudar medicina em Belo Horizonte, mas sem vocação para isso largou o curso no 4º ano. Em contato com o sociólogo Donald Pierson, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ganhou uma bolsa de estudos e aí foi estudar, em 1944, graduando-se em antropologia, em 1946. No ano seguinte foi trabalhar no SPI-Serviço de Proteção ao Índio e conheceu Rondon e os irmãos Villas-Boas. A partir daí passou a viver 10 anos, alternadamente, entre os índios e no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro –Religião da mitologia Kaiwéu – foi publicado em 1950, e lhe valeu o Prêmio Fábio Prado. Em 1953 criou o Museu do Índio. Mas, logo os irmãos Villas-Boas viram que, além do museu, os índios precisavam de um local para viver seguramente e idealizaram o Parque Indígena do Xingu, cujo projeto foi realizado por Darcy e inaugurado em 1961. Por essa época era um antropólogo completo: organizou o 1º curso de pós-graduação em antropologia (1955) e presidiu a Associação Brasileira de Antropologia (1959)
O Parque é a maior reserva indígena do mundo, onde vivem hoje cerca de 5.500 índios de 14 etnias. Afirma-se que sua criação evitou um grande genocídio no Brasil. Sua dedicação à estes povos, levou-o a elaborar para a Unesco um estudo sobre o impacto da civilização sobre os índios e, em 1954, trabalhou na OIT-Organização Internacional do Trabalho na edição de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. No ano seguinte, com a eleição de Juscelino Kubitschek, foi convidado a participar da elaboração do plano educacional do novo governo, junto com Anísio Teixeira, seu chefe e “guru”. Anísio, vendo que o rapaz prometia, entregou-lhe a Divisão de Estudos Sociais do CBPE-Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. O “cabra” tornou-se um educador obstinado e produtivo. Em seguida, JK pede à Darcy e Anísio para planejarem a Universidade de Brasília-UnB, em 1959. Reuniram um seleto grupo de professores nacionais e alguns estrangeiros e a UnB foi inaugurada em 1962, com Darcy na Reitoria, tendo Anísio como vice. Pouco depois foi conduzido ao MEC-Ministério da Educação e deixou a reitoria com Anísio. O País passa por transformações profundas na Política com o governo de João Goulart e seu envolvimento vai se alargando. Em 1963 convidado pelo presidente para exercer a “eminência parda” do governo e assume a chefia da Casa Civil. Neste cargo, passou a coordenar as reformas estruturais à serem implantadas no Pais.
Com o Golpe Militar de 1964, articulou uma resistência armada, mas não encontrou apoio suficiente e foi obrigado a fugir em direção ao exilio no Uruguai. Em 4 de abril o deputado Rubens Paiva conseguiu um pequeno avião Cessna e um acordo com o pessoal da torre de controle do aeroporto de Brasília. Levou Darcy e Waldir Pires até a cabeceira da pista e ficaram agachados num capinzal aguardando a chegada do avião. O piloto não sabia quem eram e foi orientado apenas a recolher os dois passageiros e levantar voo. Alguém na torre percebeu o rápido embarque e passou uma ordem pelo radio para retornar. O piloto quis obedecer, mas uma contra ordem incisiva de Darcy fez com que o voo prosseguisse até uma fazenda de Mato Grosso, e daí noutro voo até Montevideo.
No Uruguai foi bem recebido e logo foi nomeado professor de antropologia da Universidad de la Republica. Ficou, também, encarregado de presidir um seminário de reformas na universidade, com base no trabalho feito na UnB. Aí tem inicio sua função de “sapateiro remendão” de universidades na Am. Latina, como ele mesmo definia. Com passaporte uruguaio pode viajar pela Europa, Rússia e Cuba, onde manteve encontros com Fidel Casto e Che Guevara em longas conversas. “Sempre me lembrarei dessa conversa com Che. Ele suave e duro como ninguém. Eu me desmanchando, palavroso, em argumentações”, disse mais tarde em suas Confissões (1997). Por essa época começou a escrever seus “Estudos de antropologia da civilização em 5 volumes: O processo civilizatório (1968), As américas e a civilização (1970), O dilema da América Latina (1978), Os brasileiros (1972), Os índios e a civilização(1970). Publicou também A universidade necessária (1970), sintetizando sua experiência em reformas universitárias e, para “espairecer”, fez o primeiro esboço do romance Maíra (1976), com o qual se fez romancista.
Em Montevideo participou da vida cultural junto com Angel Rama e Eduardo Galeano entre outros; escreveu artigos para a revista “Marcha” e participou da edição da Enciclopedia de la Cultura Uruguaia, vendida em capítulos em bancas de jornal. Em meados de 1968, os processos que lhe eram movidos foram anulados pelo STF-Supremo Tribunal Federal. Após 4 anos de exílio e sabendo da “Marcha dos Cem Mil” (26/6/1968) no Rio de Janeiro, se animou a voltar achando que a anulação dos processos lhe favorecia. Mesmo advertido por Jango e Brizola, pediu ao seu advogado Wilson Mirza que avisasse o governo brasileiro que estaria voltando em tal avião, dia tal, no aeroporto do Galeão. Ao chegar foi avisado, ainda no aeroporto, que deveria se apresentar no DOPS-Departamento da Ordem Política e Social. Lá respondeu um longo questionário e foi liberado. Como era o primeiro cassado e exilado que voltava, a imprensa não deu sossego. Passou 3 meses se esbaldando em jantares com os amigos e falando, “pelos cotovelos”, bem do governo deposto e mal da ditadura em diversas entrevistas. Foi advertido pelos amigos: “Isso não se faz na ditadura, Darcy. Ninguém fez isso aqui”. Não demorou para que a polícia batesse na sua porta; mas não o levaram com a promessa de se apresentar ao Superior Tribunal Militar. A ordem era para prender, mas seu advogado apelou para o STF e continuou livre, porém vigiado de perto pelos agentes do DOPS. Até que em 13/12/1968 veio o AI-5 e foi aconselhado a fugir. Mas não admitiu “voltar com minhas próprias pernas para o exílio”. Foi preso no dia seguinte e levado para o batalhão blindado do Rio, numa cadeia que logo ficou lotada de “subversivos”. A prisão durou 9 meses.
Ali passou 3 dias e foi levado para o clube dos cabos. A acomodação melhorou bastante, tanto que deu para fazer a 2ª versão de Maíra. Depois levaram-no para a Fortaleza de Santa Cruz, onde havia muitos estudantes presos e podia conversar com eles no “banho de sol”. Mas isso durou pouco, um oficial do dia proibiu a conversa. Às vezes a proibição não era cumprida e foi advertido: “Se o senhor continuar a falar com os presos, eu tiro o banho de sol deles”. Em seguida foi transferido para a Ilha das Cobras, sob os cuidados da Marinha. Ao chegar foi avisado que devido ao fato de ter sido agraciado com a ordem do mérito naval em grau de grã-cavalheiro, teria direito a prisão de almirante. Aí ficou alguns meses bem melhor instalado. Na Marinha, o pessoal era mais educado e com o tempo passaram a respeitá-lo pelo fato de ter convivido com os índios e ser discípulo de Rondon, herói das forças armadas. Assim, passou a receber visitas semanais de sua esposa Berta e de alguns amigos. Foi convencido pela esposa e amigos a escrever uma carta ao presidente Costa e Silva, pedindo-lhe um passaporte para deixar o País, quando saísse da cadeia, pois havia um convite da Universidade de Columbia, para dar aulas como professor visitante. Concluiu a carta com “Saudações republicanas” e recebeu o passaporte.
Em 1969 foi julgado por um tribunal de oficiais da Marinha e foi absolvido. Em liberdade, ficou alojado na casa de seu advogado e no outro dia, soube que o Exército, em desacordo com a sentença da Marinha, ordenara sua volta à prisão. Desesperado, correu para a Embaixada Americana para conseguir um visto de entrada nos EUA. Teve uma conversa ríspida com o Cônsul, que relutava em lhe dar o visto. “Não estou convencido. Não o vejo como mero professor visitante”. Vendo que não conseguiria o visto, retrucou: “Claro. Sou um eminente antropólogo. Fui honrado com um convite para lecionar na Columbia, coisa que nunca sucederia ao senhor”. A troca de farpas se prolongou com o cônsul dizendo que ele estivera em Cuba em conversas com Fidel e Che. “Tenho aqui uma foto sua em viagem para lá. Aliás, seu arquivo é um dos maiores que temos”. Darcy encerrou a a conversa: “Cuide bem dele. Vai ser útil para meus biógrafos”. Na ocasião, seu amigo José Augustin Michelena, sociólogo venezuelano de passagem pelo Rio, foi acionado para lhe conseguir um visto consular para entrar em Caracas. Junto com Berta, foram para o Aeroporto e deixaram um amigo na fila de embarque, enquanto ficaram dispersos entre as pessoas até a chamada do voo.
Em Caracas foi contratado pela UCV-Universidad Central de Venezuela como professor de antropologia, orientador de teses e a direção de um seminário de renovação da UCV. Posteriormente deu aulas também na Universidade de Mérida. Durante um ano conviveu com a intelectualidade local e viajou pelo Caribe. Se deu bem em Caracas, inclusive com uma namorada de 22 anos, filha de um ricaço. O único problema que teve foi com um adido militar do Brasil, que, na condição de amigo do Ministro da Justiça, impedia que lhe dessem o visto permanente. Foi obrigado a obter visto de turista em Curaçao. Na terceira vez que foi renovar o visto, se aborreceu e reclamou numa entrevista de programa de TV. A apresentadora passou a reclamar que o presidente Caldera estava expulsando da Venezuela um dos maiores intelectuais da Am. Latina, professor contratado pela UCV, devido à pressões da ditadura brasileira. A bronca deu certo e o visto permanente saiu no dia seguinte. Tudo ia muito bem, até a vitória de Allende no Chile, em 1970, seu amigo quando vivia em Montevideo.
Em contatos com o Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, mudou-se para Santiago, em 1971, procurou Allende e se colocou à seu serviço. Na condição de assessor especial redigia os discursos do presidente. Foram 2 anos de trabalho em conduzir o país pela via do socialismo em liberdade, com democracia e desenvolvimento da economia nacional. O único país aliado era Cuba, cuja longa presença de Fidel no país acirrava a esquerda radical, desagradava a elite e alimentava o complô que se armava nos EUA. A situação chegou num ponto em que a esquerda declarou: “A economia deu tudo o que podia dar. Cabe agora à ação política abrir caminhos”. O MIR-Movimiento de Izquerda Revolucionária ganhou força e passou a conspirar querendo dar o golpe para “cubanizar” o processo chileno. A elite passou a conspirar; a classe média perdia o emprego; o povo passou a sofrer com filas até para comprar pão. Faltava alimentos em todos os mercados e alguns itens de consumo diário passaram a ser controlados. O caos se instalou a partir de 1973. Nesta ocasião, Luis Echeverria, presidente do México, achando que Darcy corria risco de vida naquela situação diante de um golpe, designou o escritor Juan Rulfo para ir até Santiago, procurá-lo, levá-lo até a Embaixada e trazê-lo para o México. Rulfo passou alguns dias procurando-o e não encontrou. Outro presidente –Velasco Alvarado, do Peru- havia se antecipado, enviando à Santiago Carlos Delgado com um convite à Darcy para “ajudar a pensar revolução peruana”. Diante da situação chilena, o convite foi aceito de imediato.
No Peru trabalhou junto ao gabinete da Presidência na construção do Centro de Estudos da Participação Popular, com ajuda de Oscar Varsavsky, matemático argentino, inventor da simulação computacional. O Centro resultava de uma parceria com o PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e contava com ajuda da OIT-Organização Internacional do Trabalho. A partir de uma grande base de dados projetou-se um sistema de informações para implementar políticas sociais, que Darcy chamou de “socialismo cibernético”, pois “não se fundava em nenhuma ideologia, mas num jogo de números dentro do computador”. Suas ideias combinavam a implantação de uma modernidade tecnológica com o renascimento da cultura incaica. Porém encontrou resistências entre a intelectualidade peruana, que relutava em admitir um estrangeiro na formulação do novo Peru. Percebeu também que não havia interesse da área acadêmica em estudar o quéchua como uma língua nacional, uma de suas propostas. Mesmo assim, conseguiu a edição de um dicionário geral da língua nativa.
Neste ambiente apreensivo, aproveitou para tirar férias e viajou para Portugal. Lá manteve encontros com amigos lusitanos e o ex-deputado Marcio Moreira Alves, proferindo palestras em Coimbra e Porto. Certa noite acordou mal com muita tosse e expelindo sangue. Ficou assustado; procurou o médico; fizeram exames e pela cara do médico viu que era câncer, mas o médico negou. Encaminhou-o à um oncologista, que também negou: “trata-se de uma tuberculose antiga que voltou”. Darcy não acreditou e Marcio levou-o à Paris para fazer exames no “Cretuil”, o melhor hospital de câncer da Europa. Era um câncer pulmonar. “O senhor tem uma bomba no peito, pode explodir a qualquer momento”, disse-lhe o médico. A cirurgia tinha que ser marcada para os próximos dias. Foi um abalo e tanto; passou por uns perrengues revisando a vida passada e refletindo sobre o que fazer diante do pouco tempo de vida que restava. “Envelheci mais nesses últimos dois meses do que nas últimas duas décadas”, confessou. Recebeu uma oferta para fazer a cirurgia nos EUA e recusou. Para espanto dos médicos franceses, recusou também fazê-la em Paris, dizendo que ia fazê-la no Rio de Janeiro. Fez do câncer seu “cavalo de Tróia” para poder voltar ao Brasil em dezembro de 1974. (Continua)
* * *
No próximo domingo concluiremos a biografia concisa de Darcy Ribeiro com sua volta ao Brasil; seu retorno à política como vice-governador do Rio de Janeiro; como senador; sua luta contra o câncer e seu papel na configuração de uma identidade nacional e latino-americana do Brasil.
O candidato a presidente pelo PT fugiu de dois debates com seu rival Jair Bolsonaro, no SBT e na Record, para alívio dos aliados petistas.
Avaliam que Lula sempre se sai muito mal no enfrentamento com Bolsonaro.
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Neste caso específico, debate entre um Capitão e um Ladrão, o bem sempre vence o mal.
E a verdade vence sempre a mentira.
O ex-presidiário sabe disso muito bem.
E foge dos debates se cagando de medo.
Para grande alívio de sua assessoria, cansada de passar vergonha.
Comentário sobre a postagem ENCONTRO COM MEUS CONTERRÂNEOS
Xico Bizerra:
É na Quarta, Vinte e Seis
Que a Besta vai pelos ares
As rainhas e os Reis
Vão estar lá em Palmares
Aplaudindo Luiz Berto
Nada além do que é certo
Palmas pra ele e seus pares
Luciano Trigo

Faca usada no atentado contra Bolsonaro em 2018, em Juiz de Fora
Está cada vez mais complicado escrever tendo que medir as palavras, coisa que nunca pensei que fosse precisar fazer como jornalista vivendo em uma democracia. Mas vamos lá.
Salvo engano, esta é a primeira vez desde o fim da ditadura militar que um filme é censurado pela Justiça. O documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, da Brasil Paralelo, teve sua exibição proibida pelo TSE até o dia 31 de outubro, dia seguinte ao segundo turno da eleição para presidente.
Além disso, o canal da produtora no Youtube foi desmonetizado. Segundo foi noticiado, a proibição atendeu a um pedido do PT – Partido dos Trabalhadores.
Mais detalhes no vídeo abaixo, postado pela Brasil Paralelo na forma de um comunicado aos seus assinantes:
A justificativa da sentença que determinou a censura foi a seguinte: evitar que “tema reiteradamente explorado pelo candidato Jair Bolsonaro em sua campanha receba exponencial alcance, sob a roupagem de documentário que foi objeto de estratégia publicitária custeada com substanciais recursos da pessoa jurídica Brasil Paralelo”. O tema, no caso, é o atentado a faca sofrido por Bolsonaro, na cidade de Juiz de Fora, em 2018.
Eu nem acho que a facada seja um tema reiteradamente explorado pela campanha do presidente. Mas, ainda que fosse, por que diabos a Justiça Eleitoral deveria agir para evitar que um tema explorado na campanha de um candidato recebesse exponencial alcance? Pelo fato de ser objeto de estratégia publicitária? Pela presunção antecipada de que o documentário contém fake news? Não seria recomendável assistir antes de proibir?
E que relevância tem o fato de o documentário ter sido custeado com substanciais recursos da pessoa jurídica Brasil Paralelo para embasar uma decisão tão grave e, repito, inédita desde a redemocratização do país?
Que legislação proíbe que se produza um documentário com substanciais recursos (privados, diga-se de passagem)? E que legislação se sobrepõe à liberdade de expressão garantida pela Constituição, impondo censura prévia a um filme que ninguém viu?
O estranho voto da ministra
Por tudo isso, parece que estamos diante de uma interferência que, primeiro, fere a liberdade de expressão; segundo, prejudica um candidato e beneficia outro; terceiro, sinaliza para o cidadão comum parcialidade por parte do órgão que deveria ser o fiador da neutralidade do processo eleitoral.
“Ah, mas o documentário é baseado em uma teoria da conspiração que contraria a investigação da Polícia Federal”, argumenta quem defende a censura.
Não importa. Ainda que o documentário afirmasse que quem mandou matar Bolsonaro foi o Papa Francisco ou a Beyoncé, seria justificável censurá-lo previamente? O problema é que sequer saberemos qual é a tese do filme até depois de fechadas as urnas – pelo simples fato de que ele está proibido.
Ninguém sabe, porque ninguém viu. Proibir depois de ver já seria algo controverso, no mínimo: o que dizer de proibir sem ver?
Curiosamente, outro documentário sobre o mesmo tema, “Bolsonaro e Adélio – Uma fakeada no coração do Brasil”, sugere que a facada no então candidato Bolsonaro foi uma armação. Isso não é divulgar fake news? Mas esse documentário circula livremente em plataformas de streaming, sem que a Justiça Eleitoral demonstre qualquer incômodo ou preocupação.
Veja bem, leitor, é justo e certo que o documentário que afirma ter sido a facada uma farsa circule livremente, mesmo que a tese que ele defende soe absurda – e também contrarie, aliás, a investigação da Polícia Federal. O que não parece certo nem justo é a liberdade de expressão só valer para um lado, muito menos o órgão responsável pela lisura do processo eleitoral passar a imagem de parcialidade.
Pois bem, em seu voto ratificando a proibição do documentário, a ministra Carmen Lúcia declarou o seguinte:
“O caso é extremamente grave. Não se pode permitir a volta de censura sob qualquer argumento no Brasil. Esse é um caso específico. Estamos na iminência de ter o segundo turno das eleições. A proposta é a inibição até o dia 31 de outubro, dia subsequente ao segundo turno, para que não haja o comprometimento da lisura, higidez e segurança do processo eleitoral e dos direitos dos eleitores”.
Mas de que forma a livre circulação de um documentário comprometeria a lisura, higidez e segurança do processo eleitoral? Não fica claro no voto da ministra. Se ainda é permitido ter opinião, a mim parece que o que pode comprometer a lisura da eleição é proibir a exibição de um documentário até que se realize o segundo turno.
E, se não se pode permitir a volta da censura sob qualquer argumento no Brasil, por que a ministra votou a favor da proibição? Não parece uma contradição? Qual é o nexo lógico entre as palavras (“Não se pode permitir a volta da censura”) e o voto (a favor da censura)? Sintoma de uma época em que as narrativas perderam totalmente a conexão com a realidade…
E por que o fato de a “inibição” ter prazo de validade determinado pelo calendário eleitoral tornaria a censura menos censura? Ora, ou bem o documentário viola alguma lei, e a proibição neste caso deve ser permanente, ou ele não viola lei alguma – e portanto não deve ser proibido em momento algum.
Por que algo seria ilegal até 31 de outubro e passaria a ser legal a partir desta data? Estamos diante de uma inovação na ordem jurídica? Lembrando que a mesma ministra já declarou, em 2016, que “o cala-boca já morreu” e que “não há democracia sem imprensa livre”.
O caso do governador de Alagoas
A titulo de comparação: há pouco menos de duas semanas, a ministra do STJ – Superior Tribunal de Justiça Laurita Vaz determinou o afastamento do cargo do governador de Alagoas, Paulo Dantas, do MDB, que concorre à reeleição.
Aliado do senador Renan Calheiros e do candidato do PT à presidência, Dantas foi afastado em razão de um inquérito que apura um esquema de desvio de R$ 54 milhoes na Assembleia Legislativa do estado. A decisão da juíza, embasada em provas robustas, foi ratificada pelo plenário do STJ.
A ministra Laurita foi acusada por aliados do candidato do PT à presidência de ter agido com motivação política. Ela deveria, argumentaram, ter esperado passar a eleição antes de determinar o afastamento do governador. O argumento até pode fazer algum sentido na percepção do eleitor petista, mas a resposta da ministra é exemplar e cristalina:
“Se eu tivesse me curvado a essa expectativa de retardo, se tivesse, como se diz por aí, ‘sentado em cima dos autos’ em razão das eleições, aí sim estaria agindo com viés político porque estaria esperando fato estranho aos autos de um inquérito em regular andamento para adotar medidas cautelares necessárias e urgentes para conclusão das investigações e ainda, mais ainda, para estancar a sangria desatada do dinheiro dos cofres públicos do Estado de Alagoas”.
Duas visões da Justiça
De certa forma, o encaminhamento dos dois casos – a censura ao documentário e o afastamento do governador de Alagoas – traduz duas visões paralelas da Justiça.
Na primeira visão, a Justiça deve agir de forma preventiva, proibindo a circulação de um filme em função da avaliação de que ele poderia conter fake news e beneficiar a campanha de um candidato. Mas como, rigorosamente, tudo em uma campanha é feito para beneficiar um candidato em detrimento do outro – inclusive pesquisas com 15% de margem de erro, que seguramente influenciaram muitos votos no primeiro turno – essa lógica cai por terra: ou então se abre um precedente para se proibir literalmente qualquer coisa.
Na segunda visão, o comportamento da Justiça não pode ser afetado por elementos estranhos a ela, como a contingência do calendário eleitoral. Inquéritos não devem ser adiados em função do risco de beneficiar um candidato e prejudicar outro – justamente porque esse adiamento, por si só, também beneficiaria um candidato e prejudicaria outro.
E, na prática, a lógica da decisão do TSE ao proibir o filme foi: “Para que esse documentário, que pode conter fake news, não beneficie um candidato, vou proibir sua exibição”.
O problema é que, ao proibir, o orgão beneficia o outro candidato. É este o papel da justiça Eleitoral? Tomar uma medida drástica em função de uma hopótese?
Na segunda visão da Justiça, soa ainda mais absurda a censura com prazo de validade, porque se explicita a conexão entre a censura e a eleição.
Se um filme pode circular depois do dia 31 de outubro, por que não poderia circular antes? Se ele não pode circular antes do dia 31, por que poderá circular depois?
O problema está no conteúdo do documentário ou na possibilidade de influenciar votos? Mas desde quando é proibido um documentário, ou mesmo uma peça de campanha, explorar temas polêmicos em busca de votos? Ou a facada não existiu e tudo não passa de uma alucinação coletiva que deve ser apagada da memória?
Qual das duas visões da Justiça irá prevalecer? A que julga que a liberdade de expressão deve ser condicionada ao calendário eleitoral? A que determina que uma mesma obra artística pode ser proibida antes da eleição e liberada depois? A que aparenta abrir mão do papel de fiadora da isenção para assumir um lado no processo eleitoral? Ou a que age da mesma maneira, com efetiva neutralidade, independentemente do lado beneficiado e do calendário?
Um fantasma ronda a democracia brasileira: o fantasma da censura. É assustador que muitas pessoas achem isso normal ou minimizem a gravidade do episódio do documentário da Brasil Paralelo– ou, pior ainda, que justifiquem a censura como uma forma de defender a democracia.
Só vendo o vídeo para acreditar. O Partido das tramóias está protegido em todos os lugares. pic.twitter.com/EcxrUvWZU4
— Luciano Giuseppe (@LucianoGiusepp4) October 25, 2022

O que acontece no ambiente familiar pode ser determinante para os rumos da sociedade sob diversos pontos de vista
Há temas mais ou menos dignos em época eleitoral? Em um país com tantos desafios socioeconômicos como o Brasil, o debate entre os candidatos aos principais postos do país precisa ser centrado única e exclusivamente na economia e nas políticas de assistência social? Qual é o papel dos demais temas, especialmente aqueles que se convencionou chamar de “pauta moral” ou de “agenda de costumes”? Seriam preocupações supérfluas, de países que já não têm outros problemas a resolver, ou meios de desviar a discussão daqueles temas que “realmente importariam”?
A pauta moral, infelizmente, tem sido vilipendiada na arena pública – às vezes porque parte dos formadores de opinião tem sua própria opinião a respeito desses temas e vê com desgosto que ela não coincide com os desejos da maioria da população, às vezes porque ela acaba tratada com algum sensacionalismo por um ou mais lados envolvidos na disputa eleitoral. No entanto, por mais que desafios como a miséria, a fome ou o desemprego exijam resposta urgente dos governantes em termos de políticas públicas, seja na forma de programas sociais, seja na construção de marcos regulatórios que facilitem a geração de emprego e renda, não faz sentido afirmar que um brasileiro de estômago vazio não pode se preocupar com o que seus filhos aprendem na escola ou sobre quais comportamentos a sociedade deveria aceitar como certos ou errados, como se tais pessoas não tivessem direito a ter seus sistemas de valores – e a votar de acordo com eles.
Como negar, por exemplo, que o fortalecimento da família é uma meta que todo governo sinceramente preocupado com sua população deveria buscar? A evidência científica que associa a desagregação familiar a um desempenho escolar mais pobre, à maior dificuldade de ascensão social e a comportamentos de risco, como o uso de drogas, é suficientemente robusta para justificar a implantação de políticas públicas que estimulem a coesão daquela que é a célula básica da sociedade. Até por isso, não é descabido trazer para o debate público e eleitoral os esforços tanto para fortalecer quanto para fragilizar e relativizar a família, inclusive com a própria redefinição do seu conceito, para que o eleitor tome ciência do que é proposto por cada força política que pretende chegar ou se manter no poder e possa endossar ou rechaçar tal ideário.
O mesmo vale para assuntos como o acesso ao aborto, as políticas sobre a posse e o uso de drogas, a legislação penal ou o currículo escolar no que diz respeito a temas morais. Independentemente de perfil socioeconômico, o brasileiro percebe a degradação moral a que o país vem sendo submetido ao longo das últimas décadas e sabe que o poder público – e isso inclui todos os três poderes – pode acelerar ou frear este processo. Considerar que tais temas merecem destaque em uma campanha eleitoral nada tem de extravagância ou de preciosismo em uma nação que também tem outros problemas a resolver; trata-se de perceber que há valores morais que são importantes para o cidadão, que por sua vez gostaria de ver suas concepções refletidas na maneira como o país é governado.
Os temas morais, no fim das contas, são um indicador importantíssimo a respeito do tipo de país que desejamos: um país que cuida dos seus membros mais vulneráveis – não apenas os mais pobres, miseráveis e famintos, mas também os inocentes e indefesos – ou que os despreza, deixando-os à própria sorte? Um país que busca unir seus cidadãos, ou que os separa de acordo com categorias as mais diversas para depois colocá-las umas contra as outras? Um país onde comportamentos que degradam o ser humano e reduzem sua capacidade de autonomia são coibidos ou encorajados? Um país onde o bem é recompensado e o mal é coibido, ou onde os violentos e corruptos são acobertados e protegidos? Não querer que tais perguntas sejam feitas no exato momento em que o Brasil elege seus governantes, ou negar que elas sejam importantes, demonstra um paternalismo que reduz tudo ao palpável ou ao econômico, e ignora que os valores de um povo importam.
Policial do BOPE mostra o que significa CPX que estava no boné do Lula quando ele subiu no complexo do alemão. pic.twitter.com/byZBnAu4h2
— Tercio Arnaud Tomaz (@TercioArnaud) October 25, 2022