CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ ROBERTO – SÃO PAULO-SP

Veja a chegada do suplente de senador Chiquinho Feitosa, pelo Ceará (o titular Tasso Jereissati pediu licença), à cidade de Itaitinga, região metropolitana de Fortaleza.

Sem o vídeo seria impossível imaginar não ser piada.

Republiqueta igual às dos filmes da seção da tarde.

Absurdo sem tamanho

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AO CRISTO – Vespasiano Ramos

Ó Luz Celeste! Essência! Ó Bondade!
Soberano de todos os soberanos;
esperança dos míseros humanos,
Jesus, – Misericórdia e Caridade!

Cristo-Amor! Cristo-Luz! Cristo-Piedade!
Divino apagador dos desenganos;
Tu que foste há quase dois mil anos,
sacrificado pela Humanidade,

prometeste voltar! Não voltes, Cristo!
Serás preso, de novo, às horas mudas,
depois de novos e divinos atos,

porque, na Terra, deu-se, apenas isto:
– Multiplicou-se o número de Judas
e vai crescendo a prole de Pilatos!…

Joaquim Vespasiano Ramos, Caxias-MA (1884-1916)

DEU NO X

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

CARTA DE ESPERANÇA 2022

Reverenciando a eternização do arcebispo Desmond Tutu, ontem chamado pelo Pai, recebi carta de Raimundo de Oliveira, um leitor muito atento. Sem delongas, reparto-a com os amigos, caminheiros queridos:

“Caro amigo nordestino, assim como Martin Luther King, eu também tive um sonho… Sonhei que o presidente Binden, diante da pandemia mundial que anda afetando gregos e troianos, convocava uma coletiva e dizia mais ou menos o seguinte:

‘Vivemos um momento da maior gravidade. Nosso País foi atingido brutalmente. São milhares de mortos e milhões de contaminados. Nossa Pátria, estarrecida, aguarda uma resposta pra valer. Pensei muito! Como responder à brutalidade do ato, em que um virus vem causando a morte de milhões, destruindo bens e esperanças? Como entender o que houve? De onde vem a raiz de tal virose? É com enorme dificuldade que anuncio que não é à toa que tal pandemia se acumulou contra nosso planeta. O mundo ficou pequeno pelas telecomunicações. Os fatos ficaram acessíveis a todos, num piscar de olhos. Os avanços tecnológicos estão garantindo ao ser humano uma capacidade de realização impensável há alguns anos. Entretanto, todo esse avanço não tem servido para acabar com a miséria, a fome e as doenças. Vamos à Lua, construímos um novo telescópio e aumenta a população sem casa para morar. Produzimos computadores cada vez mais rápidos e cresce o número absoluto de analfabetos no mundo. Desenvolvemos a engenharia genética, desvendamos o genoma humano e, aos milhões, morre-se por falta de saneamento. Num mundo de muita desesperança, apresentamos uma insultante opulência, vivendo na sociedade do desperdício: cada americano produz 3kg de lixo por dia; temos 200 milhões de carros com ar-condicionado bebendo gasolina e poluindo a atmosfera; consumimos mais de 25% do petróleo produzido em todo o mundo; não assinamos tratados de correções, para proteger mais nossas indústrias poluidoras, que ameaçam a sobrevivência do ser humano, como espécie; cada americano gasta 1.600 litros de água por dia, enquanto o europeu gasta 200 e o habitante de Madagascar somente 5 litros por dia; somos causadores direto de ¼ de todo efeito estufa, que ameaça a vida em nosso planeta; o nosso consumo médio energético corresponde ao de 4 suíços, 6 italianos, 260 tanzanianos ou 1.800 ruandenses; e, apesar de nossa competência tecnológica, não temos tido respeito pelo planeta, sendo um país de baixa eficiência energética. Fomos nós que criamos Saddam Hussein e treinamos os Talibãs. É nossa a responsabilidade por ditaduras sanguinárias como as do Pinochet, Trujilo, Somoza, Mobutu e tantos outros. Mais de 600.000 crianças morreram no Iraque pelo cerco comandado por nós e o criminoso bloqueio à Ilha de Cuba já dura décadas. É a nossa política, com nossos aliados, que tem feito crescer o ódio entre judeus e palestinos. São primos e somente a convivência pacífica e respeitosa entre eles trará paz à região. A crise dos últimos dias me fez abrir os olhos. O terrorismo não é aceitável! Nem o terror individual, nem o terror de Estado que temos praticado sistematicamente. É mais que hora de mudar! Estou, neste momento, convocando todos os dirigentes das grandes nações, responsáveis, como nós, pela sucessão de erros apontados, para uma reunião semana que vem, quando iremos detalhar as medidas capazes de reverter a situação de injustiça deste nosso mundo. Convoco as nações mais ricas para assumirem conosco as dívidas do Terceiro Mundo, entendendo que devemos, historicamente, muito mais a eles que eles a nós’.

De todos os lados ecoaram prolongados aplausos. Que me fizeram acordar. E me lembrar do querido dom Hélder Câmara, nunca esquecido arcebispo metropolitano de Olinda e Recife. Peço a Deus que nós, brasileiros, nunca sepultemos o ideário do Dom, por um mundo sem fome.”

Obrigadíssimo, Raimundo. Continuemos helderistas, jamais simplesmente helderetes. Um 2022 pleno de militância consciente, com eleições democráticas que removam os incultos, negativistas e sectários da vida política de todas as nações.

DEU NO X

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MINHA CANETA PARKER E MEU CADERNO AVANTE

Todo dia era assim. Do início do ano de 1953, até o fim do ano 1957, chovesse ou fizesse sol, a rotina era a mesma: acordar e levantar, tomar café com nada (o pão era levado para a merenda na escola), vestir a roupa e caminhar 8 km na ida, e mais 8 km na volta.

Às vezes precisava andar muito rápido e, noutras vezes, uma corridinha se fazia necessária – tudo para não chegar atrasado, pois o portão de entrada era fechado quando a oração terminasse e todos entrassem para as salas de aulas.

Grupo Municipal São Gerardo. Curso Primário de quatro anos, hoje denominado Fundamental ou Básico. O quinto ano, às vezes desnecessário, era denominado Curso de Admissão. Admissão à quem pretendia cursar o ginasial e científico, hoje chamado de ensino médio. Era tudo quase que a mesma coisa.

“Quase”, eu escrevi. Havia uma diferença: as professoras sabiam o que ensinavam, e tinham ascendência moral e intelectual para cobrar a atenção dos alunos. Se não cobrassem, a direção da escola cobraria (inclusive, delas). Era diferente de hoje, ou não?

O acesso ao pátio da escola era uma vitória diária. Dava até para escutar os toques rítmicos das trombetas, anunciando que mais um dia de aulas estava sendo iniciado.

Reunidos no pátio, todos com os cadernos Avante às mãos, era cantado do início ao fim, o Hino Nacional Brasileiro. Ao fim, a oração de agradecimento e pedidos de desejos de saúde, ali e em meio à família.

Era, com certeza, uma escola onde se ensinava e se aprendia. Sem frescuras, sem viadagens ou despertar da curiosidade a caminho da homossexualidade masculina ou feminina. Era, repito, uma escola.

Leitura de livros em alto e bom som. De pé. Os erros nas pronúncias das palavras ou quaisquer outros, eram corrigidos na hora pelas professoras.

– José, levante! Abra o livro na página 38, e leia. Ordenava a professora Mundica.

– Durval, levante, e leia a partir de onde José parou!

Era assim. E todos liam e mostravam o que estavam estudando e aprendendo.

Dois períodos letivos durante o ano. Ao fim de cada um, provas. No final do ano, as provas finais. Provas escritas de todas as matérias lecionadas na grade curricular.

Havia reprovação, sim. Diferente de hoje, que os professores aprovam alunos que não aprenderam nada (na maioria das vezes por culpa dos próprios professores – que não dominam as matérias e, às vezes, sabem menos que alguns alunos, mas possuem “doutorado”). Mas, havia também a aprovação e o reconhecimento da escola e das professoras.

Ao final do ano de 1956, tirei o primeiro lugar da classe. Recebi um calhamaço com as provas, amarradas com fitas verde, amarela e azul. Primeiro lugar, com apenas uma nota 8,5 em Canto Orfeônico. Nas demais matérias, nota 10,0.

De presente, da direção da escola, ganhei uma caneta Parker, que conservo até os dias de hoje. Já se vão 65 anos!

Dona Mundica, a Professora – mais pobre que eu, mas que me preparou no Curso de Admissão ao ginásio, me presenteou com um tinteiro da tinta apropriada para usar na caneta. Parker Quink azul!

Eu amava Dona Mundica – e gostava de vê-la cuspindo o fumo de rolo que mascava. Mas, ela era a minha Professora! E sempre soube mais que eu. Por isso, ensinava.

* * *

AMIGOS: Estou cansado.

Que eu saiba, não estou doente. Apenas cansado. Tenho tarefas mais urgentes, que viraram problemas, e exigem de mim uma breve solução.

ASSIM, RESOLVI ENTRAR DE FÉRIAS, HOJE.

Não sei se volto, nem quando.

Agradeço a atenção e o respeito de todos que, acho, foram espontâneos e fiz por merecer.

Feliz Natal!

Próspero Ano Novo!

Saúde e Paz!

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Eneida de Moraes

Eneida de Villas Boas Costa de Moraes nasceu em Belém, PA, em 23/10/1904. Escritora, poeta, jornalista, tradutora, pesquisadora, política e carnavalesca. Autora do primeiro livro sobre o carnaval: História do carnaval carioca (1958), que definiu os conceitos de cordão, corso, ranchos, entrudo etc., além de participar diretamente nas lutas contra a ditadura de Vargas no período do “Estado Novo”. Brincou com os brasileiros e lutou pelo Brasil numa combinação bem-sucedida.

Filha de um comandante de navios, tinha grande afeição pelos rios e pela Amazônia. O gosto pela literatura surgiu cedo. Aos 7 anos se inscreveu num concurso de conto infantil na revista “Tico-Tico”, sem que a família soubesse. Mandou um conto sobre o caboclo amazônida e ganhou o 1º lugar, além de 20 mil réis. Aos 10 anos foi estudar em Petrópolis (RJ) no famoso Colégio Sion, onde teve sólida formação escolar. Nas décadas de 1920 e 1930, colaborou em jornais como o “Estado do Pará” e revistas: “Para Todos”, “Guajarina”, “A Semana’ e “Belém Nova’. Em 1930 recebeu o “Prêmio Muiraquitan”, de um grupo de intelectuais amazonenses, por sua participação no movimento literário de seu Estado. No mesmo ano mudou-se para o Rio de Janeiro e filiou-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro. Na época liderou greves e manifestações políticas.

Envolveu-se diretamente nas revoluções de 1932 e 1935, resultando em 11 prisões durante o Estado Novo, além de sofrer torturas e viver na clandestinidade ou exílio. Na prisão, conhece Graciliano Ramos, que a imortalizou em seu livro Memórias do Cárcere. Na Casa de Detenção do Rio de Janeiro, verificou que uma “vigorosa conversa política ali se desenvolvia […] dominada por um vozeirão de instrutor. Quem seria aquela mulher de fala dura e enérgica? […] Despedi-me de Nise e desci, uma pergunta a verrumar-me, insistente, os miolos: quem seria a criatura feminina de pulmões tão rijos e garganta macha? […] Foi Valdemar Bessa quem me satisfez a curiosidade: a mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma dúzia delas na sala 4. Olga Prestes, Elisa Berger, Carmen Ghioldi, Maria Werneck, Rosa Meireles […]”

Atuou como jornalista profissional em periódicos partidários e da grande imprensa, nas funções de repórter e de cronista, entremeando tais atividades com a publicação de 11 livros e várias traduções. Mas não abriu mão do carnaval, que tanto gostava, e fez uma grande pesquisa, tornando-se a primeira estudiosa na área. Animou o carnaval com a criação do “Baile do Pierrot” no Rio de Janeiro e em Belém. Publicou alguns livros de poesia e de longas crônicas: Promessa em azul e branco (1957), Paris e outros sonhos (1951), Caminhos da terra (1959), Cão da madrugada (1954), Aruanda (1957), Copacabana: história dos subúrbios (1959), Boa noite, professor (1965) e a antologia de poemas Terra verde (1929). São livros esgotados, existentes apenas nos sebos, mas alguns deles foram reeditados pela Secretaria de Cultura do Pará.

Foi homenageada por mais de uma Escola de Samba. Em 1973, a Salgueiro desfilou com o tema “Eneida, amor e fantasia”; a Império do Samba (de Belém) no mesmo ano, saiu com “Eneida sempre amor” e em 2010 a Paraíso do Tuiuti saiu com “Eneida, o Pierrot está de volta”. Foi a primeira madrinha da “Banda de Ipanema”, criada em 1965. Para o poeta João de Jesus Loureiro, foi “uma mulher de sentimento livre, de uma grande inteligência, com uma utopia política de um Brasil justo com forte expressão literária, sendo que tanto no romance, quanto nas crônicas sempre estava presente a memória do Pará, mas sobretudo a expressão de uma mulher escritora que ultrapassou as limitações do seu tempo, sendo pioneira na afirmação da mulher como intelectual independente e com a sua maneira de viver livre e precursora da mentalidade feminina atual”.

O professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade da Amazônia (Unama), José Guilherme Castro, afirma que a escritora sempre rompeu todas as barreiras desde criança. “Eneida é uma mulher de vanguarda que abriu a porta para outras mulheres não só na literatura como na história social”. Ele teve como tema de seu curso de mestrado, as crônicas de Eneida. As obras dela continuam importantes e atuais para entender o mundo. “Quem lê a obra da Eneida está praticamente vendo a atualidade”, destaca. “Ela abre caminho para outras mulheres escreverem na literatura brasileira.

Hoje a Faculdade de Ciências Sociais da UFPA-Universidade Federal do Pará mantém o “Grupo de Estudos Eneida de Moraes” com um considerável acervo de publicações. Em 2004 a professora Eunice Ferreira dos Santos concluiu uma pesquisa, que resultou na tese “Eneida de Moraes: militância e política”, defendida na Faculdade de Letras da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais, enfatizando o lado político, além de trazer uma biografia completa da escritora e jornalista paraense. No largo elenco de atividades culturais e políticas, consta também sua participação na criação da Associação Brasileira de Escritores, em meados da década de 1940 e, pouco antes de falecer -ainda jovem aos 67 anos, em 27/4/1971- na fundação do Museu Paraense da Imagem e do Som.