PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RECEITA DE ANO NOVO – Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG (1902-1987)

DEU NO X

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

FELIZ NATALzheimer!

O Alzheimer de Papai em par com os seus oitenta e quatro anos tem lhe tirado os prazeres da vida.

Já não joga futebol, craque de bola que foi; nem desfila pelas ruas do nosso Acary com o seu trombone de vara, ou marcando o compasso na tuba ou, ainda, por último atendendo as ordens médicas estalando os pratos, presente lá atrás na bateria da filarmônica; tampouco grita mais os leilões em benefício da padroeira de sua devoção; não “canta” mais um bingo, esperando entregar a melhor premiação para alguém mais necessitado…

Na verdade Papai tem esquecido o meu nome frequentemente, e aquele prazer de nos sentarmos à calçada para prosearmos sobre o passado tem ficado cada vez mais raro de memórias.

À medida que Papai vai saindo do nosso mundo, eu escolhi ir entrando no dele.

O dele!

Cada vez mais restrito de emoções, e se recheando dos vácuos em suas lembranças.

Puro paradoxo.

Papai vai virando garoto na mesma pressa e proporção que eu vou envelhecendo augurando ser para os meus aquilo que ele sempre foi para mim: um exemplo.

De uma coisa, no entanto, Papai não esquece: do seu “pão italiano” como sempre chamou panetone.

Nas nossas despedidas, quando eu lhe peço a bênção para voltar à capital Natal, tantas vezes ele não lembra o meu nome. Não esquece, porém, de pedir:

– Quando vier de novo, traga meu pão italiano – e completa – o amarelo!

Querendo dizer Bauducco.

Dessa vez eu trouxe o maior dos pães italianos amarelos para ele.

A sua alegria em abrir o pacotão (“ô, pacotão!”), seu sorriso infantil denunciando a felicidade, seu olhar de menino recebendo o presente esperado… Ah! Não tem dinheiro que pague.

E eu fico pensando que não há Alzheimer conseguindo separar o mundo de Papai do meu, ligados que são pelo sangue e por esse prazer que ele chama simplesmente “pão italiano amarelo” e eu sei na verdade se chamar divinamente Panetone Bauducco.

Feliz Natal? Eu tive!

Vivido na alegria de Papai.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

TEM QUE TER UM MACHO AO LADO

O Talibã anunciou neste domingo, 26, mais uma medida arbitrária contra as mulheres do país.

A partir de agora, elas não podem mais viajar sozinhas – sem a companhia de um homem de sua família – por mais de 72 quilômetros.

A determinação foi divulgada pelo Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, um dos órgãos estatais diretamente encarregados de reprimir as liberdades civis no Afeganistão.

O governo do Talibã também recomenda aos motoristas que aceitem mulheres em seus veículos apenas se elas usarem o “véu islâmico”.

* * *

Interessante: as fêmeas podem ir sozinhas se viajarem até 72 quilômetros.

A partir daí, terão que ter um macho acompanhando.

Fiquei curioso pra saber quais os critérios usados pelos chefões talibitas para chegaram a esta extensão, 72 quilômetros.

E tô mais curioso ainda pra saber o que as militantes dos movimentos femeeiros daqui de Banânia irão fazer diante desta notícia.

Aguardemos.

E, pra fechar a postagem, vamos repetir o nome do órgão: Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

PENINHA - DICA MUSICAL