DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

VIOLANTE PIMENTEL – NATAL-RN

Bom dia, Luiz Berto!

Segue o comprovante da doação.

Bom final de semana.

Grande abraço.

R. Sua generosa doação já está na conta desta gazeta escrota.

A secretária Chupicleide ficou se rindo-se de dentes arreganhados, pois sabe que o décimo terceiro está garantido.

Ela e o jumento Polodoro, nosso mascote, relincharam de alegria, sabendo que vai ter dinheiro pra comprar cachaça e capim de boa qualidade.

Brigadão mesmo, minha querida amiga e colunista fubânica!

Aproveito a oportunidade para também agradecer as doações dos leitores Luiz Leoncio, Paulo Ferreira, Eduardo Antonio, Marcia Maria e Esdras Serrano.

Vocês são a força que mantém esta gazeta escrota nos ares e que cobrem as despesas com hospedagem e manutenção técnica feita pela empresa Bartolomeu Silva.

Vai voltar tudo em dobro na forma de paz, saúde, tranquilidade, harmonia e longa vida!!!

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MAURÍCIO ASSUERO – RECIFE-PE

Prezado Editodos,

infelizmente tivemos um probleminha na agenda do nosso convidado de hoje, João Lover, para o Cabaré do Berto.

Ele havia confirmado e depois me mandou um e-mail informando que esquecera de outro compromisso.

Assim, diante do fato de estar viajando, comunico que não teremos reunião do Cabaré hoje a noite.

Obrigado

R. Uma pena. Uma pena mesmo.

Este animado cabaré já está incorporado às nossas noites de sextas-feiras.

Depois de tanto tempo, esta é a primeira vez que não teremos a animada reunião semanal, que agrega a comunidade fubânica e que você gerencia com tanta competência.

Infelizmente o João Lover, meu conterrâneo de Palmares, nos deu o bolo.

Vou denunciá-lo ao Procom da nossa cidade!!!

Semana que vem a gente se reencontra.

DEU NO X

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A PADROEIRA DO POVO

Santo Antônio foi o primeiro padroeiro do Recife. O Santo das raparigas, assim o chamava Fernando Pessoa. Santo Antoninho para as senhoritas de Lisboa, onde nasceu. Depois viveu vida aventureira, pregou aos sarracenos do Marrocos, foi eremita em Monte Paolo (Florença) e fez milagres muitos – como aquele em que, com um só sermão, converteu vinte ladrões. Pena que não ande, hoje, em Brasília e arredores, onde há tantos pecadores que se apresentam como Santos (o que não são). Já velhinho, e sofrendo de hidropisia (barriga d’água), disse às portas de Pádua “estou vendo o meu Senhor”; e as crianças gritaram pelas ruas “morreu o Santo, morreu o Santo”.

Para a Igreja, é o Santo Lutador. Desde quando enfrentou demônios que marcavam seu corpo com dentadas, chifradas e unhadas, até que um clarão os pôs a correr. Ao ver Cristo, falou “Por que não estavas aqui desde o começo, para me socorrer?” Respondendo, o Senhor, “Eu preferi vê-lo combater. Como lutou bem, tornarei seu nome célebre”. Tornou mesmo. Tanto que, na guerra da Restauração (1640-1669), foi nomeado praça por dom Pedro II, O Pacífico. O Pedro II português, bem entendido – que nosso Pedro II, filho de Pedro IV, O Rei Soldado (o Pedro I brasileiro) e da arquiduquesa dona Maria Leopoldina, não foi nunca Rei em Portugal. Depois, por tão patriótico serviço, acabou dito Santo Antônio elevado a Capitão de Regimento.

No Brasil é (ainda hoje) vereador em Igarassu (que tenta, na justiça, se livrar dos encargos financeiros que isso representa). E fez carreira militar, recebendo patente de Soldado na Paraíba e no Espírito Santo; Tenente, em Pernambuco; Capitão no Rio, em Goiás e na Bahia; Coronel, em São Paulo; até que, finalmente, acabou General do Exército brasileiro. Nomeado, em 1890, por ordem expressa do Marechal Deodoro da Fonseca. Passando, em seguida, à reserva remunerada.

Aqui reinou sozinho, como único padroeiro desta cidade a que primeiro chamaram Santo Antônio do Recife, até 1918. Quando o papa Bento XV nomeou, co-padroeira da cidade, Nossa Senhora do Carmo. Uma Nossa Senhora que começou a ser venerada na Palestina. Quando (segundo textos antigos) o deus dos judeus, Javé, enviou fogo do céu para queimar os altares do Monte Carmelo. Depois, em 1251, acabou aparecendo numa visão a São Simão Stok. 16 de julho é o dia dessa Senhora Nossa. Aquele em que, mais ainda que nos outros, deve ser louvada.

Mas é bom lembrar, também, a imaculada Nossa Senhora da Conceição. Reverenciada, no Candomblé, como Oxum. O nome vem de concepção – por ter sido, segundo dogma papal de 1854, “concebida sem pecado”. No Recife é mãe sobretudo das pessoas simples que, em ato de fé, sobem nossos morros todo 8 de dezembro – como nessa quarta. Seu culto nos veio como herança do colonizador português. Desde quando foi convertida por el-rei Dom João IV, O Restaurador, padroeira do Reino de Portugal. Hoje, por lá, são três padroeiros: São Vicente, Santo António e Nossa Senhora da Conceição. Para nossos irmãos portugueses um é pouco, dois é bom, três é ainda melhor. Deveria ser também assim, conosco. Faltando só, para que tenhamos três padroeiros, que Francisco imite aquele Bento e converta Conceição, oficialmente, em mais uma padroeira do Recife.

DEU NO JORNAL

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ENTENDENDO O CÂMBIO

Introdução

Diz uma velha piada que o dinheiro foi uma invenção errada, porque desde que foi criado ele sempre está faltando. Falando sério, entender o papel do dinheiro é fundamental para entendermos o mundo onde vivemos.

Em teoria, o dinheiro poderia ser um só para o mundo todo. Na prática, já foi quase assim, na época em que dinheiro significava ouro ou prata. Mas já fazem muitos séculos que os governos de todo o mundo tentam ser os “donos” do dinheiro, para ter controle sobre ele. Assim, chegamos à situação de hoje, onde cada país tem o seu dinheiro, que é fabricado e controlado pelo dinheiro. A existência de tantos “dinheiros” diferentes faz surgir uma área específica na ciência econômica, que é estudar as relações entre estes dinheiros. Este setor da economia é chamado de câmbio, e estuda o preço relativo entre moedas diferentes: quando dizemos “o real desvalorizou em relação ao dólar” ou “a Suíça tem moeda forte”, estamos falando de câmbio.

Realimentação

Antes de prosseguir, é interessante conhecer um conceito chamado realimentação. É quando as causas de um fenômeno são afetadas pelos resultados deste mesmo fenômeno. Em outras palavras, quando uma coisa alimenta a si mesma.

A realimentação pode ser positiva ou negativa. No mercado, a realimentação negativa (também chamada “mão invisível”) é quem determina o preço de tudo. Sempre que algo fica mais caro, menos gente quer comprar, os estoques aumentam e o preço pára de aumentar. Se uma seca, por exemplo, diminui a quantidade disponível de determinado produto, o preço sobe e as vendas diminuem, até alcançar o equilíbrio com a oferta menor. Em resumo: uma variação no preço ou na oferta causa uma pressão no sentido oposto.

Já em áreas como a bolsa de valores, por exemplo, ocorrem realimentações positivas: se uma ação começa a cair, todo mundo corre para vender, e quanto mais gente vendendo, mais o preço cai. No sentido oposto, se um ativo qualquer (ações, imóveis, commodities) começa a valorizar, todo mundo corre para comprar, e isso faz o preço subir mais ainda, até que uma notícia qualquer inverta o movimento.

Podemos resumir tudo com duas frases que qualquer estudante de engenharia conhece de cor:

– Realimentações negativas aumentam a estabilidade.

– Realimentações positivas tendem a causar oscilações.

Câmbio Flutuante

No regime de câmbio flutuante, o governo não interfere no valor da moeda: ela oscila livremente o tempo todo, o que significa que pessoas ou empresas podem negociar a troca desta moeda por outras por qualquer valor que seja aceito pelas duas partes (a que compra e a que vende).

A idéia do câmbio flutuante é que o valor da moeda é um preço como qualquer outro, e deve flutuar ao sabor do mercado. O que manteria a situação estável é a realimentação negativa: se a moeda de um país se valorizar demais, por exemplo, os produtos importados ficarão mais baratos. As pessoas vão comprar mais produtos importados. Para comprar produtos importados, é necessário trocar a moeda nacional por moeda estrangeira. Esta troca reduz a demanda pela moeda nacional, o que causa sua desvalorização. Em outras palavras, o valor da moeda se estabiliza da mesma forma que o preço do tomate – pelo menos em teoria.

Por que em teoria? Porque ao contrário do tomate, que é um bem escasso e limitado pelas leis da natureza, a moeda é apenas um pedaço de papel impresso, que pode ser produzido pelo governo de acordo com sua conveniência. Então, o sistema de câmbio flutuante depende do juízo dos políticos: em países sérios, funciona, porque o governo não produz dinheiro à toa para cobrir suas despesas. Já em países menos sérios, fabricar dinheiro é um vício quase inevitável. Em consequência, nestes países pouco sérios o câmbio flutuante não flutua; ele afunda.

A fabricação do dinheiro pelo governo é chamada de inflação, e têm consequências boas para o governo e péssimas para o restante da população. Para o governo, inflacionar a moeda é um jeito fácil de gastar dinheiro, porque ninguém pode fazer nada a respeito: o governo é o dono da “maquininha de fazer dinheiro”, que na prática costuma ser o Banco Central. Para o povo, a inflação faz os preços subirem (pela lei da oferta e procura) e o valor da moeda diminuir. Além disso, a inflação causa uma realimentação positiva: quando o valor da moeda começa a cair, investidores e empresas tentam “se livrar” dessa moeda fraca, trocando-a por outra. Quanto mais isso acontece, mais o valor da moeda cai, podendo chegar a causar crises de liquidez no sistema bancário.

Câmbio Fixo

O outro sistema possível é o câmbio fixo. Nesse sistema, o valor da moeda é fixado em relação a algum outro bem, que normalmente é o ouro ou uma moeda estrangeira. Neste conceito, o dinheiro não é considerado uma mercadoria (cujo preço é determinado pelo mercado), mas um meio de troca que deve ter uma definição constante e precisa.

Antigamente, a maioria das moedas tinham seu valor fixado em ouro. Uma libra esterlina era equivalente a 7,322 gramas de ouro, e este valor permaneceu inalterado de 1717 a 1914, ou seja, quase duzentos anos. No final do século 19, várias outras moedas também eram fixadas em ouro, e consequentemente a taxa de câmbio entre elas era fixa: uma libra valia 4,87 dólares, 25,22 francos, 20,43 marcos ou 9,46 rublos. Como consequência da estabilidade da moeda, o índice oficial inglês mostra que o aumento de preços entre 1850 e 1899 foi de 4,8%. (Não é 4,8% ao ano, é 4,8% em cinquenta anos!)

No câmbio fixo de verdade, o governo (ou o Banco Central) deve manter reservas equivalentes ao total de dinheiro existente, e permitir que qualquer pessoa possa trocar o dinheiro quando desejar. O interessante é que a confiança do público causa um aparente paradoxo: se o BC tem o ouro guardado, não precisará usá-lo. Mas basta um boato de que o BC não tem o ouro que devia ter, e todos vão correr para trocar seu dinheiro, e teremos uma crise. Um exemplo disso ocorreu na França em 1720, como contei na minha coluna aqui no JBF em setembro de 2020 (clique aqui para ler)

Caixa de Conversão

A principal vantagem do câmbio fixo é ser “à prova de políticos”. Como é necessário ter reservas (chamadas lastro) suficientes para trocar todo o dinheiro, o governo não pode fabricar dinheiro à vontade (a Argentina tentou fazer isso nos anos 1990 e se estrepou). Para garantir que políticos não tentem inventar algum jeitinho, os economistas aconselham que a guarda das reservas e a emissão do dinheiro fique à cargo de um órgão privado e totalmente independente do governo; alguns sugerem que este órgão seja uma empresa registrada na Suíça, sujeita às leis suíças e portanto totalmente à salvo de ataques do governo.

O nome normalmente usado para este órgão é Caixa de Conversão (em inglês, Currency Board). O que este órgão faz? De um lado, ele guarda o lastro do dinheiro, que pode ser ouro, prata ou uma moeda estrangeira como o dólar ou o euro. De outro lado, ele imprime e distribui o dinheiro do país, em quantidade equivalente às reservas. Se alguém quiser trocar uma nota pelo seu equivalente em ouro ou dólar, a Caixa de Conversão é obrigada a fazer a troca. Na prática, enquanto houver confiança, ninguém precisará fazer isso. Com quantidade constante e protegida dos políticos, a moeda será forte e estável.

Naturalmente, políticos não gostam dessa opção, e só recorrem a ela quando a coisa fica realmente feia. Exemplos de países que adotaram esse sistema são a Alemanha em 1923, a Estônia em 1992 e a Bulgária em 1997, todos após viverem hiperinflação e dívida fora de controle.

Câmbio Controlado

Na prática, muitos países adotam um sistema que finge juntar as vantagens dos outros dois, mas que na verdade é o pior dos três: é o chamado câmbio controlado (ou administrado, ou atrelado). Neste sistema, o governo permite que o câmbio flutue, mas apenas dentro de certos limites, que podem ser estabelecidos de modo formal ou mantidos de forma supostamente sigilosa.

Esse sistema de câmbio quase-flutuante não impede que o governo fabrique dinheiro, embora dê a ilusão de que pode impedir a indesejada desvalorização. Ilusão, porque segurar o câmbio em um valor artificial é tão difícil quanto segurar fogo morro acima ou água morro abaixo. O resultado quase sempre é que além de ver o dinheiro desvalorizar, o governo fica sem reservas, que são gastas em tentativas vãs de “controlar” o câmbio.

Conclusões

O padrão-ouro, que funcionou bem por séculos, foi ferido de morte na Primeira Guerra Mundial, permaneceu moribundo por décadas e acabou morrendo de vez em 1971. O câmbio flutuante passou a ser o padrão, e vem funcionando bem em países sérios e com economias estáveis. Nos países não tão sérios, não dá certo e transforma a economia em uma sucessão de crises. Por outro lado, o sistema de câmbio fixo atrelado a outra moeda, ao invés do ouro, funcionou bem em todos os países em que foi implantado. Seria uma excelente solução para o Brasil, que acumula, apenas nos últimos quarenta anos, uma inflação de 23.748.308.204.564,82% (IPCA-IBGE).

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

NATAL E A SEGUNDA GUERRA

Na Base Aérea de Natal, avião com homenagem a Maria Boa

Quando se fala da reviravolta social que houve em Natal, com a permanência dos americanos durante a II Guerra, abre-se uma fonte inesgotável de narrativas.

No dia 28 de janeiro de 1943, o presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, teve um encontro em Natal com o presidente Getúlio Vargas.

Rafael Fernandes, então governador do Rio Grande do Norte, sem saber das ilustres visitas, foi convidado a comparecer à Base Naval sozinho, e lá chegando, tomou enorme susto, ao ver os dois presidentes.

No encontro, foi confirmada a utilização de Natal como base de conexão para as tropas americanas e discutido plano de prevenção quanto a um possível ataque nazista ao Hemisfério Sul, a partir de Dakar, no Senegal. O motivo da escolha foi o fato de Natal ser a cidade brasileira mais próxima do continente africano (3 horas de voo em jatos de hoje e 8 horas para os aviões de 1943, de Natal a Dakar, no Senegal).

Também foi acertado o envio de tropas brasileiras ao “front”.

De 1943 a 1945, portanto, funcionou em Natal, o principal quartel general dos países aliados no Hemisfério Sul.

Natal recebeu 15 mil soldados americanos. A população parecia ter duplicado.

A Base Aérea e a “pista”, ligando Natal a Parnamirim, foram construídas, em tempo recorde, envolvendo 6 mil trabalhadores. A Base Naval também foi construída nesse período.

Natal era uma “ponte” para todos os voos americanos que levavam militares das três armas, rumo à África ou aos combates do Atlântico Sul.

Em 1943, no auge do conflito, Parnamirim era o aeroporto mais congestionado do mundo, alcançando o número de 800 pousos e decolagens num dia de pico.

As jovens natalenses suspiravam, ao ver as ruas de Natal, diariamente, cheias de soldados americanos, loiros de olhos azuis.

Natal passou a ser a cidade mais badalada do Nordeste.

Os americanos se divertiam e circulavam em Natal, pelas praias, cinemas, lojas, igrejas, cabarés, Lagoa do Bonfim, e paqueravam nas pracinhas.

Minhas saudosas tias Carmen e Gilka, filhas do meu avô materno, Celestino Pimentel, professor catedrático da língua inglesa em Natal, inclusive Tradutor Oficial durante a Segunda Guerra, na época jovens, dominavam o idioma inglês fluentemente, e logo fizeram amizade com vários americanos. Inclusive, depois da Guerra tia GILKA foi convidada para trabalhar nos Estados Unidos, no Consulado Brasileiro e terminou se casando “de papel passado”, com um americano, seu chefe. O casamento durou até o fim da sua vida. Os dois tiveram um casal de filhos, que ainda hoje moram na Califórnia.

Como consta nos registros de historiadores potiguares, houve uma grande interação cultural entre norte-rio-grandenses e americanos.

Natal foi a primeira cidade do país a ter Coca-Cola, ketchup, chicletes, roupas “Jeans” e óculos “Ray-ban.

O modo de vida descontraído, dos americanos em Natal, foi influenciando, cada vez mais, a sociedade potiguar. O hábito dos homens fazerem a barba com frequência e não usarem paletó para entrar nos cinemas, causou um rebuliço nos costumes. Tomavam banho de mar, usando calções curtos de helanca, enquanto os natalenses usavam calções compridos.

De repente, as mulheres passaram a usar calças compridas, maiô aberto nas costas, sair com as amigas sem a companhia dos pais, frequentar festas, fumar e beber, principalmente Cuba-Libre. Houve uma verdadeira revolução nos costumes.

A invasão do Jazz, Charleston, Blues e do Fox-trot desbancaram o tango argentino em Natal.

Os americanos não podiam passar sem Coca-Cola. Por isso, logo instalaram em Parnamirim um engarrafamento, o primeiro do Brasil, quarto país do mundo a consumir esse refrigerante, depois dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.

Na cantina do “PIÉCS”, para deleite dos nativos, a Coca-Cola saía de torneiras.

O “PIÉCS” era a grande atração de Parnamirim, pelos preços e novidades. Era uma enorme loja, onde se vendia quase tudo: “gadgets” , como isqueiro químico (ao invés de chama, incandescia uma telinha), fósforos de riscar na sola do sapato, óculos Ray-Ban, relógios, tecidos, blusões de couro, calçados, perfumes, vidros de confeitos, latas de biscoitos etc,

Quanto à vida noturna, Natal nunca foi tão agitada. Os soldados americanos ofereciam festas, semanalmente, na base de Parnamirim, e ainda mandavam ônibus para levar e trazer moças da sociedade natalense, sempre com “chaperones” (acompanhantes mais velhas e casadas, às vezes as próprias mães das jovens). Isso gerou a revolta dos rapazes de Natal, que apelidaram os ônibus de “Marmita”, e os vaiavam constantemente.

Pois bem. Maria de Oliveira Barros veio de Campina Grande para Natal, na década de 40, em plena juventude. Ao chegar, aqui instalou uma requintada casa noturna (Cabaré), no período em que reinava na cidade ampla prosperidade, decorrente do estabelecimento da base militar americana em Parnamirim.

Aproveitando o fluxo de soldados e grandes personalidades políticas, Maria Boa fazia questão de ostentar “glamour” em seu estabelecimento. Tornou-se uma “grande dama”, que respeitava e era respeitada pela sociedade natalense.

Maria de Oliveira Barros, a dona de cabaré Maria Boa

Primava pela boa qualidade dos serviços prestados pela casa; interferia na escolha das “operárias do sexo”, que eram submetidas a rotineiros exames de saúde, e seu gosto predominava na arquitetura do ambiente.

Por trás da “Dama do Cabaré“, estava a figura discreta e íntegra de Maria de Oliveira Barros, grande empresária, que avalizava títulos bancários para alguns figurões locais.

Cabaré era o local de trabalho das damas da noite. Não se confundia com boate, casa de massagens, casa de “strip”, “relax para homens” e outros templos do prazer carnal. Nele, havia uma proprietária, geralmente uma mulher séria e respeitável, conhecedora dos mistérios revelados à meia luz. Essa mulher recebia em sua casa, várias jovens, que, repetindo sua própria história, um dia haviam fugido de casa ou sido colocadas para fora, pelo pai, por terem perdido a virgindade, ou engravidado, sem promessa de casamento.

Natal era influenciada pelos filmes de Hollywood, trazidos pelo próprio exército norte-americano. Maria Boa, em plena juventude, foi fortemente influenciada pela moda e estética dos filmes. Vestia-se com roupas costuradas à mão, usava saltos altos, e copiava os modelos das atrizes de Hollywood.

Seu cabaré tornou-se uma referência turística, e era conhecido no Brasil e internacionalmente, pelo nome de “Casa de Maria Boa”.

O recato e compostura, com que a empresária procurou envolver sua vida e as atividades de seu Cabaré a transformaram num mito. Era considerada uma verdadeira dama. Dona do mais diferenciado cabaré que existiu em Natal, com mulheres selecionadas pela beleza, postura e educação.

O cabaré de “Maria Boa” era frequentado por políticos, empresários, advogados e outras figuras endinheiradas e importantes. Sua fama se eternizou nas telas do cinema, através do filme “For All – O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado de 1997), de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz.

O filme retrata Natal, capital potiguar, em 1943, quando a base americana de Parnamirim Field, a maior base fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.

A personagem central se chama “Maria Buena”.

A chegada dos americanos a Natal gerou perspectivas de progresso material e resultou em muitos namoros e casamentos. Para as jovens casadoiras, eles eram os sonhados “príncipes encantados”.

Depois da guerra, a Base Aérea de Natal homenageou Maria de Oliveira Barros, pintando o nome “Maria Boa” no lado esquerdo da fuselagem do nariz do avião B-25 J 5071.