XICO COM X, BIZERRA COM I

CORAÇÃO PONTO COM

Configurei meu coração, mas perdi a senha. Não mais posso acessá-lo tampouco me conectar com o mundo à minha volta. Tentei plugar o meu amor. Em vão. Sem a tal da senha nada é possível. Impossibilitado de navegar na rede, recorri ao Google, tentando reencontrar o mundo, mas, mais uma vez, tentativa frustrada. ‘Sem senha, é impossível’, disse-me abusado e em letras garrafais o Note Book. E o mundo lá fora, explodindo, informando tudo sobre tudo e eu aqui, sem senha, sem saber o que se passa. Eu querendo falar on-line e dizer minhas verdades, contar da minha vontade de viver, mas, apenas porque sou distraído e esqueci a senha, sem poder fazê-lo. Tem nada não: vou me vingar quando lembrar da danada da senha. Vou mandar um ZAP para todos os meus amigos desejando Paz e Bem e, on-line, pelo INSTAGRAN, sorrir para mostrar que ainda é possível ser feliz. E quando um dia conseguir, dançando um xote no site da felicidade, vou conversar pelo FACEBOOK com os que quero bem. E aí me vingo jogando na lixeira todos os arquivos de tristeza e dor. E vou prometer a mim mesmo nunca mais esquecer a danada da senha. A propósito, um amigo meu, meio por poesia, meio por consolo, me fez lembrar que Deus também perdeu a senha do universo e, por isso, não consegue mais acessar o coração dos homens … Tomara que ele encontre logo que a coisa ‘tá feia!

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CORONAVAUCHER DE GASOLINA

Minha mania por números foi reforçada pelos 28 anos que passei no Banco Central, dormindo com números, acordando com índices. Viciado, transferi para a vida pessoal esse péssimo costume. Hoje sei, por exemplo, quantas músicas tenho gravadas, quantas vozes cantaram minhas canções e quantos parceiros me deram o prazer de suas parcerias. Coisa de doido, sei, mas sou assim. Na esteira dessa loucura, vi que rodo, em média, 1283 Km por mês. Como meu carro faz 8,1 Km/litro, gasto 158,4 litros de gasolina no mês, que, ao custo unitário de $4,40 consome $697,00 no meu orçamento mensal. De 10.03 a 10.04, rodei apenas 178 km, gastando 22,0 litros de gasolina, ou seja, $97,00. Resumindo: economizei $600, exatamente o valor de um Coronavaucher. Esse é o tipo da economia que eu preferia não fazer.

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SAMBA CANÇÃO E PÉS NO CHÃO-Xico Bizerra

Há mais de 40 dias que só visto cueca e ando descalço. Não saio, não recebo visitas: calças e sapatos para que? Acho que nem sei mais usá-los. Até desaprendi o caminho da padaria, não sei mais onde fica o posto de gasolina e o Banco. Supermercado e farmácia, também não me vê há muito tempo. Andar no calçadão da praia e correr o risco de ir correr no Aníbal Bruno? Não. Pior que mudaram o sentido de minha rua – o que era INDO agora é VOLTANDO e eu já me preocupo de quando for atravessá-la olhar pro lado errado. Por enquanto, deixem-me de cueca e descalço. Não acho que seja justo deixar preso os que se sentem melhor quando soltos, libertos de amarras inventadas pelos homens. Viva a cueca samba-canção! Igual raciocínio se aplica aos pés, que preferem pisar o chão, sem sapatos, livres, descalços. Pode até parecer que, ao escrever esse texto, tenha eu bebido aquela aguazinha que ‘passarim’ não bebe ou fumado aquele ‘cigarrim’ que tartaruga não fuma. Não! Estava na mais perfeita lucidez quando digitei essas mal tecladas linhas. Viva os pés no chão e tudo o mais solto, do jeito que Deus criou. De prisão basta esta imposta pelo Corona.

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BEIJAR E SER BEIJADO

Tempos sombrios. Nossa esperança se infectou e qualquer espirro ou tosse faz-se acompanhar do temor da contaminação. Beijos, as máscaras protetoras impedem; abraços, só de longe, virtuais, ainda assim esterilizados com álcool em gel e sabão. Esse drama de alegrias confinadas, de ausências indesejadas, de distâncias tão cruéis promove o isolamento de encontros, o distanciamento de amigos e de gente querida. Restará como legado a possibilidade de que uma nova era de igualdade e bem-estar social brote no universo ante a insegurança que acompanhou o vírus e a constatação da fragilidade da vida. Que não demore a volta da alegria, do carinho, do poder beijar e ser beijado, que a gente nasceu foi para ser feliz. Por enquanto, parafraseando Manoel Bandeira, só nos resta ouvir um baião matuto saído de uma sanfoninha do sertão e aguardar o bom tempo que está por vir.

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DONA ALZIRA

Retalhos se espalhavam e coloriam toda a extensão da sala, ao redor de sua cadeira e da velha companheira, uma Singer antiga e barulhenta movida pelo pedal em que Dona Alzira assentava o pé para lhe imprimir movimento. Dali saíam blusas, saias e vestidos para as meninas, calças e camisas para os meninos de quase todas as famílias que moravam ali, no entorno da Vila dos Marítimos. Apenas quando Ivan, seu caçula, lhe exigia o peito a casa silenciava e a máquina de costura tinha sossego. Como era bom ver aquele arco-iris bonito colorindo o chão daquela casa humilde, mas nem por isso menos feliz. Ainda existem costureiras? Será que os retalhos ainda colorem suas casas sob o ruído intenso de velhas Singer? Por onde andará Dona Alzira? Por onde andarão meus sonhos de menino encantado com a cor?

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ASAS RECLUSAS

– asas detestam cadeia,
disse-me um passarinho.
mas se o mal está por perto,
recolhe-se ao lugar mais certo,
fica dentro do seu ninho.

E, assim, preso em sua cela,
não abraça, canta apenas,
chora as dores da distância,
soluça com elegância
saudade lhe enfeita as penas.

vai guardando o seu vôo
pra quando puder voar.
e ao raiar desse dia,
porta aberta pra alegria,
Vai beijar e abraçar.

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FESTANÇA MÚLTIPLA

O grande Poeta Bráulio Tavares, do alto de sua inteligência brilhante, propõe que “sendo para adiar festas, deviam era misturar logo Semana Santa, São João e Halloween, fazer tudo em outubro, assando milho e queimando Judas na mesma fogueira rodeada de bruxas e zumbis.” Modestamente, do baixo de minha indiscutível estultícia, entendo que o carnaval deveria também misturar-se a essa festança múltipla de outubro. Mas os governantes, ávidos pela grana do povo, mesmo já sabedores da existência do vírus à época dos festejos de momo, fizeram de conta que estava tudo em ordem, e fez-se a ‘festa’ … do corona. Temiam perder prestígio se cancelassem o evento. O povo? Ah, o Povo: que se exploda! De minha parte vou enfeitar minha árvore de natal com serpentinas, ovos de páscoa e bandeirinhas de São João.

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O DURO OFICIO DE ACORDAR PALAVRAS

Poetas dormem abraçados com as palavras, acariciando-lhes ternamente sob o mesmo manto, embaixo do mesmo lençol. Despertas, essas palavras viram Poemas. Ou Contos. Ou Crônicas, como esta. Às vezes, de tantas, transformam-se em longos Romances. Uns escritos terão a sorte de serem lidos e até admirados. Alguns, pelo azar bafejados, esconder-se-ão nas veredas escuras dos livros nunca abertos. Outros mais, menos sorte que aqueles, sequer terão despertado o interesse de Editores ou Editoras e, anônimas palavras, assim permanecerão, impedidas de provocar emoção em quem as pudesse ler, íntimas, apenas, de quem um dia as juntou com cuidado e carinho. Os que alcançam a ventura de verem suas palavras publicadas terão que se submeter aos ‘donos da verdade literária’ (menos mal que hoje são poucos pela falta de quem os leia). São julgadores que, por ciúme ou inveja, irão hostilizá-los, com críticas infundadas e sem substância cognitiva. E assim vai-se escrevendo até o dia em que a certeza supere a leve impressão de que não vale a pena acordar as palavras. Deixá-las dormindo, penso fazer. Muito em breve.

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DE BACH ÀS LAGARTIXAS

Ouvidos foram feitos para escutar coisa boa. Os meus, para isso Deus os fez. Verdade que Orquestras afinadíssimas executando as mais belas sinfonias de Ludwig van Beethoven ou os prelúdios incomparáveis de Johann Sebastian Bach ajudam e contribuem para que a vida seja mais leve e prazerosa. Mas outros sons também alegram o dia-a-dia da gente. Quem já ouviu trovoadas do mês de Junho, anunciando chuva com relâmpagos clareadores, ou a melodia das águas acompanhando a correnteza de um rio, ou, ainda, o cantar harmonioso de galos tecendo as manhãs, sabe a que me refiro. Alguém que já escutou o barulho poético de lagartixas passeando sobre folhas secas caídas ao chão, o coaxar de sapos em perfeita sintonia com a doce zoada do cricrilar dos grilos por certo concordarão com minha teoria sonora. Alguns que não tiveram a ventura de conhecer esses sons, precisam conhecê-los. Assim poderão entender com mais clareza a beleza sublime da música de Piotr Ilyich Tchaikovsky e saborear com mais prazer Le Quattro Stagioni de Antonio Lucio Vivaldi ou se deleitar com a sanfona tocada por José Domingos de Morais, o Mestre Dominguinhos.

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A PÁSSAROS LARGOS

NENHUMA MENTIRA PARECERÁ VERDADE A VIDA INTEIRA

Caminho a ‘pássaros’ largos para bem longe das gaiolas e arapucas, aprendendo com a vida, a melhor das escolas, como fugir das ciladas, como ficar distante dos alçapões tantos que covardemente nos preparam. Minha floresta-aldeia, bem menor que a menor das cidades, é onde repousa minha felicidade, é onde busco desencontrar a hipocrisia de alguns que às vezes insistem em me assaltar. É um lugar coberto de verdades, é minha cantiga, meu descanso, meu de Barros, meu Buarque e meu Domingos. No meu recôndito refúgio percebo que quando os ‘espertos’ se dão conta de que a ‘esperteza’ foi desmascarada pelo poder da Justiça, que a vigarice restou sem máscara, é chegada a hora de os honestos poderem, enfim, exibir seus exemplos para as gerações futuras. Na minha aldeia prevalece a honestidade e o respeito às normas e às pessoas. A farsa não tem vez. Conforta saber que, na perspectiva do hoje, o amanhã sempre será um novo dia e que ninguém, por mais ardiloso que seja, engana toda a gente pela vida toda.

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