XICO COM X, BIZERRA COM I

OS “ÓCIOS” DO OFÍCIO ou IL DOLCE FAR NIENTE

Alguém já disse que os ócios são a maior e mais bela conquista do homem. E eu concordo. A doce arte do nada fazer me proporciona prazer. Meu ofício hoje é escrever, quando sobra tempo, quando o ócio permite. Hoje sei o quanto é prazeroso ter muito o que fazer e fazer nada. Pergunto-me: qual o prazer do não apenas ter nada o que fazer? Nenhum. Bom mesmo é ter muito o que fazer e praticar o nada fazer. Ou sempre deixar para depois de amanhã o que deveria ter sido feito antes de ontem. Uma forma consciente de relaxar e apreciar a vida, assim entendo. Por muito tempo fizemos hoje o que poderíamos ter deixado para amanhã. Hoje, por responsabilidade (ou irresponsabilidade) assumida, além da babação aos netos, ocupo-me tão-somente de escrever semanalmente minhas baboseiras e besteiragens nas páginas virtuais das redes sociais (FACEBOOK), no Jornal da Besta Fubana, no O PODER e em um blog de funcionários aposentados do Banco Central. Eventualmente lanço um livro, infantil ou não. Alimento a vã e remota esperança de que leiam. Nem sempre o fazem, bem sei, mas il dolce far niente basta-me. Hoje, economizo no tamanho do meu texto, pois sei que quanto maior seja, maior será a preguiça de alguém lê-lo. Fico grato a todos que me acolhem e dão receptividade às minhas modestas letras. São os ócios prazerosos do meu ofício atual.

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Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

Nossos CDs estão nas plataformas virtuais e, em formato físico, na Loja Passadisco do Recife.

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MEU BRINQUEDO É O VERBO

Alguém a quem prezo e respeito disse-me um dia que eu brinco com as palavras. Tomei como elogio. Muito diferente de quando, engravatado e de paletó, vivia procurando malfeitos nos Bancos, Consórcios e Cooperativas de Crédito, a serviço do Banco Central do Brasil. Brinco, sim, de calção e camiseta, sem gravata a apertar-me pescoço, pés livres e descalços. E gosto de brincar inventando palavras novas. Chamam isso de neologismo. Eu chamo de invencionice. Ontem mesmo inventei a palavra ‘manoelbandeirar’, que significa viver em Poesia, se alimentar de versos, bebericar rimas. A meu projeto musical dei o nome de Forroboxote, que quer dizer absolutamente coisa alguma. Nada mais doce que gracejar com um verbo, adular um adjetivo, acariciar um pronome, com tudo que de substantivo há. Brincar com as palavras, pula-pular no vernáculo, escorregar em conjunções, enfim. Se soubesse disso antes, não teria perdido tempo nos balcões burocráticos da vida à caça de malfeitores do alheio. Quase 30 anos sem esse ‘belezolhar’ que hoje cultivo. Um dia, quem sabe, eu invente um verbo intransitivo tão bonito como Teadorar? Claro que seria pretensão fazer o que Bandeira fez … mas tentar, como brincar, é humano!

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MEUS BREVES CONTOS – 4

BORBOLETA AZUL

A borboleta azul, menina-cigana que veio ler as linhas de minha mão, não sabia ler. Faltou a todas as aulas de Português. Analfabeta, talvez por isso, tenha me enganado na leitura dizendo que eu seria um médico conceituado lá no meu Interior. Ah, borboleta bonita: no meu interior restou apenas um pretenso poeta.

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MINHA ÚNICA FACE

Bondes, já não há,
nem amigos, nem pernas,
sequer um anjo torto …
Atrás do bigode e dos óculos, eu,
triste, por Deus abandonado.
Menos mal que um conhaque e uma lua
tornam minha tarde azul
ainda que em meio a tantos desejos.
O mundo seria tão bom
se eu me chamasse Drummond:
rima e solução
para alegrar minha única face,
felizar meu coração …

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COPA AMÉRICA JÁ ERA!

Nao devemos reclamar. Os meninos estavam cansadinhos. Ou você acha acha que não cansa ficar 4 horas no cabelereiro pra deixar barba e cabelo na régua antes de um jogo? Escolher a chuteira mais colorida também é cansativo. Você deve entender o sofrimento de um dia inteiro fechando um braço com uma tatto top pra aparecer na frente das câmeras … Só se sabe reclamar de nossos super craques. Já reparou como Garrincha era feio e Pelé desarrumado , ambos sem uma tatuagem sequer? Hoje, nossos craques são lindos e milionários. Pena que não saibam jogar futebol. Culpa de quem os convoca? Afinal, Paquetás, Aranas, Danilos, Joões Gomes, Marquinhos e outros estão aos montes por aí nas segundas e terceiras divisões do futebol brasileiro. Interesses estranhos definem as convocações. Mas a diferença maior é que nossos ‘craques’ estão acostumados à vida abastada, frequentam as melhores boates de Barcelona, Madri ou Paris e pilotam seus autobólidos na companhia de belíssimas mulheres. Acabou aquela época de jogador brasileiro que morava no Brasil e jogava em times brasileiros. Além do que, mais vale uma Champions League que una pobre Libertadores. Quem sabe, no século vindouro…

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MEUS CENTO E TANTOS ANOS

Em 2080 completarei cento e tantos anos e darei uma festa. Espero todos lá.

Muita coisa mudará daqui até lá, mas os clipes, os guardanapos e o papel higiênico permanecerão no mesmo formato e com a mesma função que exercem hoje.

Postos de gasolina, assim como cédulas e moedas, não mais haverão, assim como burocratas engravatados em repartições públicas: robôs atenderão às demandas da população.

Filas nos bancos e eles próprios, os bancos, viverão apenas na memória de meus contemporâneos. Livrarias e Bibliotecas estarão desertas de interessados em leitura, como eu me interessava na juventude distante. Onde elas existiam, existirão igrejas evangélicas e farmácias. Não precisarei sair à procura de alfaiates, sapateiros e barbeiros: eles se foram com o tempo.

Ana Maria Braga estará aposentada e ninguém se lembrará do seu Louro José. Terá surgido outro Chico Buarque, em 2080? E Ney Matogrosso, em sua eterna juventude, ainda cantará o Vira-Vira, do tempo longínquo dos Secos e Molhados? Ou prevalecerão, os funks, arrochas e piseiros que hoje invadem o nosso São João. Alguém tocará sanfona como Dominguinhos tocava? Acho que não.

Mas complementado e contrariando o que disse no primeiro parágrafo, pode ser que minha festa não aconteça por ausência contrariada e involuntária do aniversariante. Em compensação e por consolo, sei que restarão por aqui descendentes meus bem melhores que eu, que continuarão a assistir, diariamente, o nascer e o pôr do sol, a brincadeira das ondas do mar e o clarão azulado da lua dançando ciranda com as estrelas. Isto se as alterações climáticas permitirem. Só saberemos em novembro de 2080.

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MEUS BREVES CONTOS – 3

A LAGARTIXA

Na parede da cozinha, azulejos de claros azuis, a lagartixa colhia sobejos. Por instantes cortejou um inseto, imóvel, discreto, no alto, no teto. A princípio platônico, o amor a fez tentar subir. Não conseguiu e na parede lisa escorregou, caiu. Já no chão, vendo que ele sumiu, lamentou o romance não consumado, mais até que a pata fraturada …

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MEUS BREVES CONTOS – 2

O Elefante

A passos pesados e lentos o elefante invadiu a loja de louças quebrando tudo à sua volta. No térreo não escapou uma xícara sequer. Porcelanas raras e taças de cristal nobre, expostas no primeiro andar, escaparam à fúria do animal. O dono da loja, mãos aos céus, agradeceu aos Deuses o fato de os elefantes não saberem subir escadas e serem grandes demais para caberem nos pequenos elevadores.

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MEUS BREVES CONTOS 1

Aos meus Leitores:

Cada dia mais me convenço de que, nesses tempos de Redes Sociais, quanto maior o texto menor é o número de leitores. Assim é que minhas ‘croniquetas’ semanais nunca ultrapassam 400 caracteres. Hoje, vou diminuir mais ainda lançando a série MEUS BREVES CONTOS. Espero que gostem. XB

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A MOSCA

Era diabética, mas não ligava. Nenhum remédio, médico algum. Mais importava a satisfação do paladar. Adorava tudo que doce fosse: o açúcar, todas as guloseimas. Certo dia, na padaria, pousou num pão de mel e, cheia de carboidratos, voou alto adocicando o céu. Sua glicose, nas alturas!

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NETFLIX E BOLA DE MEIA

Passei toda a infância e adolescência sem Wi-Fi, Facebook e Netflix. Não me fizeram falta. Twitter, sequer tinha notícias do que se tratava, tampouco esse tal de Youtube. E cheguei à idade que hoje tenho, sem traumas, complexos e, mais importante, feliz da vida. Talvez porque tinha (e tenho) amigos de verdade e não virtuais, filhos e netos que moram muito próximos para valorizarmos a relação familiar, independentemente do Instagram. Não tenho do que reclamar. Criança, ligava pra minha avó, de um orelhão da esquina de minha casa. Isso quando tinha fichas. À época, tecnologia de ponta. Logo depois, instalaram uma linha telefônica em minha casa e eu passei a fazer uso daquele aparelho preto e grande que ficava sobre a mesinha. Era bom. Não tenho mais avó e não mais existem os orelhões. Nem os ‘monstrengos’ pretos que ficavam sobre a mesinha. Hoje minha paciência está indisponível, fora de área de cobertura. É muita ‘modernagem’ para meu HD incapaz. Melhor quando eu era menino. Depois da escola, fazíamos o dever de casa – que hoje chamam de tarefa, e depois saíamos para brincar. Costumávamos criar nossos próprios brinquedos e brincar com eles. Jogar bola de meia com amigos reais era muito mais divertido que jogar os joguinhos que os meninos jogam com amigos virtuais da internet. Vou parar por aqui. Preciso mandar uns WattSapp para amigos, escrever uma croniqueta no meu Laptop, comprar uma bateria nova para o meu Smartphone e dar uma passadinha no Facebook. Volto semana que vem. Qualquer coisa, mandem MSG.