XICO COM X, BIZERRA COM I

NETFLIX E BOLA DE MEIA

Passei toda a infância e adolescência sem Wi-Fi, Facebook e Netflix. Não me fizeram falta. Twitter, sequer tinha notícias do que se tratava, tampouco esse tal de Youtube. E cheguei à idade que hoje tenho, sem traumas, complexos e, mais importante, feliz da vida. Talvez porque tinha (e tenho) amigos de verdade e não virtuais, filhos e netos que moram muito próximos para valorizarmos a relação familiar, independentemente do Instagram. Não tenho do que reclamar. Criança, ligava pra minha avó, de um orelhão da esquina de minha casa. Isso quando tinha fichas. À época, tecnologia de ponta. Logo depois, instalaram uma linha telefônica em minha casa e eu passei a fazer uso daquele aparelho preto e grande que ficava sobre a mesinha. Era bom. Não tenho mais avó e não mais existem os orelhões. Nem os ‘monstrengos’ pretos que ficavam sobre a mesinha. Hoje minha paciência está indisponível, fora de área de cobertura. É muita ‘modernagem’ para meu HD incapaz. Melhor quando eu era menino. Depois da escola, fazíamos o dever de casa – que hoje chamam de tarefa, e depois saíamos para brincar. Costumávamos criar nossos próprios brinquedos e brincar com eles. Jogar bola de meia com amigos reais era muito mais divertido que jogar os joguinhos que os meninos jogam com amigos virtuais da internet. Vou parar por aqui. Preciso mandar uns WattSapp para amigos, escrever uma croniqueta no meu Laptop, comprar uma bateria nova para o meu Smartphone e dar uma passadinha no Facebook. Volto semana que vem. Qualquer coisa, mandem MSG.

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DA SÉRIE ‘DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO BOBOS QUE SÃO’

DECÁLOGO 5: MÉDICOS, LOUCOS E AFINS

1. TOOTH BRIDGE, na juventude, esteve em dúvida entre engenharia e odontologia: optou por ser dentista, especializando-se em Pontes.

2. FRANKLIN DELGADO se encantava muito mais com o interior que com as aparências: era considerado um excelente endoscopista.

3. ANTOINE YEUX, oftalmologista, recomendou um colírio diet ao seu cliente que tinha olho gordo. Desacreditado, ninguém levava em conta seus pontos de vista.

4. ANNE STOPLING TONGUETIET, fonoaudióloga e ativista política, tinha a língua presa. Tivesse-a solta, ela é que estaria presa.

5. TEREZA LOMBARD, fisioterapeuta, ficava feliz quando alguém massageava-lhe o ego …

6. ARISTIDES DUNLOP seguiu a tradição familiar, vocacionada para a área de pneus: O irmão, dono de uma borracharia; ele, pneumologista.

7. JOSEH CADÁ VER CHIOL, Legista: não gostava do trabalho, mas tinha que, pela sobrevivência, carregar os ossos do ofício.

8. SEPOR STENT, Cardiologista, nunca se apaixonou. Era um homem sem coração …

9. FERDINAND MORFIN, Anestesista mal sucedido, incapaz de curar a dor que a namorada sentiu ao final do namoro.

10. ANDREAS DECEIVE COLLINS, Médico intensivista, nunca enganou um desenganado. Contava-lhes sempre a verdade …

MAIS 4, DE LAMBUJA:

11. O’REIL GARGANT, Otorrino, avesso aos banhos, nunca deu ouvidos aos mestres e tornou-se um médico mal falado e mal cheiroso.

12. RESWELL SIGMUND foi um psiquiatra fracassado: impaciente, não tinha paciência com seus pacientes.

13. MANCH NAPELL, dermatologista, contagiou-se com a alergia de uma cliente e sentiu na própria pele as agruras da micose.

14. MARIE LEGUM VERDUR, endocrinologista: quando casou ficou na dúvida sobre qual regime de casamento assumir.

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SEM ASSUNTO

Eis que surge à minha frente, desafiadora, a síndrome da página em branco, fato que assalta os escritores, grandes e pequenos como eu, que, por obrigação temporal assumida, escrevem seus textos para blogs ou jornais. Se de todas as bobagens eu já falei, falar de quê? Se também já abordei coisas boas e sérias, como amor, amizade, saudade, netos, de que falarei?

De futebol, não cometerei a insanidade de falar: as mulheres e meus outros 4 ou 5 leitores não gostam e não leriam. Das tragédias no Rio Grande do Sul, também não arriscarei: basta ligar a televisão ou abrir um jornal para saber das agruras por que passa o povo gaúcho. Falar de política, não me apetece. Tudo já está na TV e na imprensa escrita ou virtual, além do que certamente contrariaria amigos que pensam diferentemente de mim. Melhor não correr o risco de perder amizades.

Pensei em falar do conhecido que foi ao médico e lá encontrou sobre a mesa do doutor, além do estetoscópio, um livro de Silas Malafaia. Deveria ter saído sem consulta, mas ali permaneceu (a dor era tanta e, nessas horas, qualquer Dorflex serve). Por imperícia do doutor quase teve que amputar o pé, não o fazendo porque trocou de esculápio a tempo. Mas esse é assunto que só interessa ao quase amputado e a seus amigos. Prefiro não deprimir meus leitores.

Verdade é que me falta assunto. Mas, de tanto me faltar temas, de baboseira em bobagice a falta de assunto foi suficiente para encher a página que estava em branco e inspirar a presente croniqueta, com menos de quatrocentas palavras, como sempre. Que venha inspiração para a próxima semana! Desculpem!

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Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

Nossos CDs estão nas plataformas virtuais e, em formato físico, na Loja Passadisco do Recife.

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UMA PESSOA COMUM, UM INCOMUM PESSOA

Meu cunhado Mané, diz: – Sou apenas uma pessoa comum, bem distante do incomum Pessoa … Suas palavras, faço-as minhas em reverência aos Poetas. Ás vezes me atrevo a fazer versos, mas sempre ciente e atento às minhas imensas limitações. Teimosia pura! Na verdade, incomoda-me ser chamado de Poeta. Num chão em que brotaram Pinto do Monteiro e Louro do Pajeú, para citar apenas dois, faz-me constrangido o tratamento de Poeta que às vezes ousam dispensar-me. Considero-me, na melhor das hipóteses, um escrevinhador, um mero ajustador de palavras, um simples arrumador de pretensas rimas. Poeta é aquele que brinca com as palavras, que sabe fingir dor ou alegria. Ou, no caso dos Poetas do Sertão, aqueles que, ao ser-lhes oferecido um mote, num repente ele glosa, com métrica, rima, ritmo, numa convergência e união de lógica e beleza impossível para os comuns humanos. Fazer o que chamam de Poesia, como eu tento fazer, basta apenas tempo, veleidade, audácia, um lápis e um pedaço de papel. Nada disso me falta, além de dispor de um local com o clima adequado e um computador de última geração, Aurélio e Houaiss por companhia a socorrer-me, sempre. Assim, qualquer um faz o que faço. Muito distante de um Bandeira, por exemplo. Ou de um Drummond. Salve, pois, Patativa do Assaré, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Carlos Penna Filho e alguns outros Poetas incomuns de verdade. Se ao que fizeram Pessoa e Neruda deu-se o nome de Poesia, que nome darei ao que teimo em fazer? Quem souber, diga-me, por favor.

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OFICINA

Recebo com alegria a sempre inteligente e carinhosa ligação de um amigo muito querido. Desta vez comenta as agruras e dissabores que o tempo impõe aos que estão na vida há mais tempo, como nós. Lamurioso, compara-se a um automóvel que vive a requerer visitas frequentes à oficina que lhe possibilite rodar alguns quilômetros além do combinado. Reparo num carburador, troca de velas sujas, desentupimento do escape ou simples consertos de efeitos estéticos e visuais na lanternagem, uma calibragem de pneus, uma limpeza de para-brisas.

Assim tem que ser, depois dos 30. Eu, um velho Studebaker dos anos 50 (ou um Prefect 51 igual ao que meu pai ganhou numa rifa, meados dos 60), agradeço a existência de uma oficina relativamente próxima de casa – RHP fica a pouco mais de 6 km, que me socorre quando o motor começa a falhar. Mas inevitável é já pensar no dia em que entrar na oficina e de lá não mais sair. A finitude há.

Não me conforta crer na existência do céu (para os bons) e do inferno (para os ruins). Fico a pensar: não seria melhor ser ateu e desacreditar nessa vida eterna que nos prometeu os catecismos? Que futuro arriscar se tenho ídolos queridos de um lado e detestáveis inimigos do outro e não sei para que lado serei mandado? Melhor talvez seja orientar ao mecânico da oficina para que, quando não mais jeito houver, encaminhar-me para repouso no ferro-velho mais próximo, num limbo purgatorial também previsto nos mesmos catecismos.

Se assim for, sem a certeza de ter o prazer de ficar próximo de gente como Madre Tereza, João Paulo II, Francisco de Assis, Hélder Câmara, num paraíso bom, embora tão monótono quanto um domingo à tarde, sem futebol na TV, não correria o risco de ter que conviver com gente da qualidade de Hitler, Brilhante Ustra, Judas Iscariotes, Augusto Pinchet, milicianos e torturadores, num ambiente calorento e habitado por portadores de tridentes e espetos quentes e afiados. Deus me defenda! Melhor ser ateu.

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A PENEIRA, A ÁGUA E O VENTO

Manoel de Barros tem um poema que, não apenas bonito (como tudo que ele pensou e escreveu), é por demais apropriado aos tempos de pouca ternura que vivemos recentemente. Versos que servem para refletir e acarinhar as almas nesses tempos de seca prolongada. Fala de um menino que carregava água na peneira. Eu também carreguei água na peneira, que nem o menino de Manoel.

Sabia, como ele, que era o mesmo que levar um vento roubado no bolso da camisa, mas ainda assim carregava água sabendo que tudo que da peneira escorresse serviria para regar o chão onde viriam a nascer flores. Eram águas sem espinho. Ainda como o menino, cresci e, por gostar mais dos vazios que dos cheios, pelo fato de os vazios serem maiores e até infinitos, comecei a ‘peraltar’ com as palavras crendo que com elas seria possível encher os vazios. E saí a escrever minhas besteiragens e bobagices, tentando arrumar versos e descobrir rimas, ousando fazer música, mas sonhando, sempre.

A peneira, nunca a abandonei e as flores que nasceram são a recompensa por aquele carregar, gesto pouco entendido pelos ‘sábios’ de plantão. O que sei é que valeu a pena carregar água na peneira. Falta a mim, ainda, como aquele menino, roubar um vento, escondê-lo no bolso da camisa. Quem dera um dia eu invente esse vento, saia com ele correndo para ventar o amor no coração dos homens que gostam de guerras. Aproveito e faço uma chuva bem chovida pra chover pés de fulô …

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DA SÉRIE “DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO”

DECÁLOGO 5: ESCRITAS, ESCRITOS, ESCRITORES

1. GUIMARÃES AMADO Tinha um estilo tão pessoal que fez uma carta anônima e todos descobriram quem a tinha escrito;

2. MACHADO DE MATOS, Escritor medíocre, tinha os poucos leitores que merecia. Esgotou-se antes de esgotar-se seu livro de poesia;

3. GRACILIANO DE ASSIS tornou-se imortal, não pela qualidade literária de sua obra, mas porque não tinha onde cair morto;

4. JORGE ROSA, escritor famoso, tinha uma esposa ciumenta. Dele separou-se com ciúmes do Aurélio e do Houaiss … ;

5. LUIZ F LISPECTOR Escrevia crônicas de próprio punho. Ganhou um computador, suspendeu suas mal traçadas linhas e passou a traçar mal tecladas linhas;

6. GREGÓRIO DE ALENCAR, discípulo exagerado da autocrítica, pensava duas vezes antes de escrever nada … ;

7. FRANCISCO RAMOS escrevia romances longos por faltar-lhe tempo de escrevê-los curtos … ;

8. MÁRIO LOBATO, não conseguia viver sem mulheres. Abandonou a literatura e hoje é médico ginecologista;

9. MONTEIRO QUINTANA, garanhão, escreveu um romance autobiográfico em que ele próprio morria, aos 102 anos, assassinado por um marido ciumento; e

10. CLARICE VERÍSSIMO, quando de saco cheio com a vida, relia Vidas Secas.

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MEU NETO CAÇULA

LEONARDO, 2024, 29 de Abril – 3 anos

meu neto caçula,
que corre e pula
que não se encabula,
e vive a cantar …

* * *

‘L’ de Léo, de Leão:
Corajoso, Valente.
Tal qual o da floresta
ele é o rei,
da zoada, da festa,
rei da alegria e dos sonhos meus,
rei da bagunça, presente de Deus.

Chegou devagar e foi se ‘ligeirando’,
sem ter tempo de ser Leonardo
e sendo só Léo, ao léu,
antes, durante e após,
saltando, correndo,
desarrumando e alegrando
a si e a todos nós.

Menino que corre tanto,
que bagunça todos os cantos,
com o encanto de um passo ágil
que meu passo, já lento, não consegue acompanhar.

Que continues reinando,
sendo o rei do em tudo mexer,
do em tudo bulir,
do nos encantar, do nos fazer sorrir,
fazendo a gente esquecer
tudo aquilo que é dor,
e fazendo, cada dia, e muito mais,
com seu sorrisinho ‘safado’,
mais feliz o seu avô …

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VASCO, LUIZ E CELESTE

Ano 1524: Vasco morreu e Luiz nasceu. 500 anos se passaram desde então. Um, nascido em Sines, foi e voltou ao fim do mundo, enfrentando marolas e tempestades, frágeis caravelas; o outro, dos Macedo de Santarém, Ana de Sá, sua mãe, dedicou-se à Poesia, escreveu um longo Poema, que todos citam e que poucos leram. No norte da África, dizem, deixou um olho. Coincidência, ambos passaram por Goa, na Índia, onde Vasco foi vice-Rei.

Ano 1974: há 50 anos, num 25 de abril, conta a lenda que uma tal Celeste Caeiro (adoro esses sobrenomes lusos, poéticos por natureza) foi sumariamente demitida do restaurante em que trabalhava ante a iminência de uma revolução que se anunciava. Os cravos que seriam distribuídos à clientela naquele dia foram por ela levados e antes de chegar a seu quarto, no Chiado (também aprecio os nomes dos bairros lisboetas – Alfama, Rossio, Arroios) deparou-se com soldados perfilados na baixa de Lisboa e a eles ofereceu as flores que levava. Ante a graciosidade do gesto, os soldados colocaram os cravos na boca de seus fuzis. Deles, não brotariam balas. Ali batizou-se a queda da ditadura.

Ano 2024: Quem dera pudesse a humilde Celeste, em pleno Mosteiro dos Jerónimos, 50 anos depois, depositar seus cravos vermelhos nos túmulos onde descansam o Poeta e o Navegador. E eu, que já gostava da arte brasileira de Grande Otelo e Caetano Veloso, passei a gostar mais ainda de seus homônimos, Otelo e Caetano portugueses, por terem livrado seu povo dos 48 anos de tirania de uma ditadura fascista e de 13 anos de guerras coloniais. Salve Angola, Moçambique e Guiné Bissau! Vade retro, Salazar!

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A SAGA DOS BRITO’S

Sob um sol causticante de quase quarenta graus, ouvia-se, ao longe, o som de uma balada romântica bem diferente do que por ali costumeiramente se escutava, proveniente das sanfonas que habitavam aquele sertão, tocando xotes e baiões ensinados por Luiz Gonzaga. Guitarras, baixo e bateria ressoavam no lugar. Estávamos nos arredores do pé da serra do Araripe antes de aqueles meninos trelosos, que passavam o dia ensaiando, arrumarem os troços e partirem para Liverpool, em busca de dólar e sucesso. Eram conhecidos como Os Britos e moravam no Sitio Maçã Verde, de Vovô Zuza Brito – daí o nome do conjunto.

Formavam a banda o filho de Zé de Lemos, conhecido por João Lemos, Paulo Macário, sobrinho de Dr. Macário, engenheiro da RFESA, o neto de Hélrisson Relojoeiro, o Jorge de Hélrisson e o Ringo Está (assim chamado porque, em todo fim de tarde os amigos iam na casa dele convidá-lo para o ensaio da banda e gritavam: Ringo está? Como nunca estava, essa pergunta virou apelido). Naquele distante pé de serra poucos – ou quase ninguém, entendia a música que Os Britos tocavam: estranhas, esquisitas, cheias de requififes e por isso eles arribaram e foram morar na Inglaterra. Foi quando conheceram o mar e o sucesso mundial. O final da história todos conhecem. A fama e o sucesso dessa turma é de domínio público.

A prova do relato acima está nos raríssimos registros fotográficos da época em que aparecem meus 4 conterrâneos. Na primeira foto eles estão na Buchadinha de Zé Preá, Subida do Lameiro, no almoço de despedida pouco antes da viagem. Na segunda, num passeio vesperal, dia seguinte do regabofe acima referido. O jumentinho desocupado que aparece na foto é o de Praiano, filho de João da Praia – alguns o chamavam de Braiano, Empresário do grupo, que, na hora da foto, tinha ido num mato próximo se desapertar de uma dor de barriga, cantarolando música em homenagem a sua namorada Desnai, ARRASA, DESNAI, mais tarde transformada em A Hard Day’s Nigth.