XICO COM X, BIZERRA COM I

O BURRINHO AZUL DE CECÍLIA

O menino, finalmente, encontrou o burrinho azul com que tanto sonhara. Do jeitinho que ele queria: um animalzinho manso, que nunca aprendeu a correr ou a pular e, como que engasgado com uma matraca, conversador que só. O bichinho pequeno e belo sabia tudo, como tudo se chamava e ensinou ao menino o nome dos rios, dos pássaros e das flores … Não bastasse tanto, na hora de dormir o burrinho azul contava histórias bonitas e o menino sonhava com anjos também azuis bebendo água em taças de paz. E no jardim longo e florido em que se transformou sua estrada, o menino, agora também azul, contava aos quatro cantos do mundo a alegria de ter encontrado aquele amigo com quem Cecília Meireles um dia sonhou, azulzinho ora da cor do céu, ora da cor do mar. Ele existe, sim. Basta sonhar e todos os burrinhos se tornam azuis, todas as estradas se enchem de flores e todas os homens bebem água em taças de paz. E não faltarão histórias bonitas na hora de dormir. Ainda bem que existiram Cecília e seu burrinho.

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Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

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OS “ÓCIOS” DO OFÍCIO ou IL DOLCE FAR NIENTE

Alguém já disse que os ócios são a maior e mais bela conquista do homem. E eu concordo. A doce arte do nada fazer me proporciona prazer. Meu ofício hoje é escrever, quando sobra tempo, quando o ócio permite. Hoje sei o quanto é prazeroso ter muito o que fazer e fazer nada. Pergunto-me: qual o prazer do não apenas ter nada o que fazer? Nenhum. Bom mesmo é ter muito o que fazer e praticar o nada fazer. Ou sempre deixar para depois de amanhã o que deveria ter sido feito antes de ontem. Uma forma consciente de relaxar e apreciar a vida, assim entendo. Por muito tempo fizemos hoje o que poderíamos ter deixado para amanhã. Hoje, por responsabilidade (ou irresponsabilidade) assumida, além da babação aos netos, ocupo-me tão-somente de escrever semanalmente minhas baboseiras e besteiragens nas páginas virtuais das redes sociais (FACEBOOK), no Jornal da Besta Fubana, no O PODER e em um blog de funcionários aposentados do Banco Central. Eventualmente lanço um livro, infantil ou não. Alimento a vã e remota esperança de que leiam. Nem sempre o fazem, bem sei, mas il dolce far niente basta-me. Hoje, economizo no tamanho do meu texto, pois sei que quanto maior seja, maior será a preguiça de alguém lê-lo. Fico grato a todos que me acolhem e dão receptividade às minhas modestas letras. São os ócios prazerosos do meu ofício atual.

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MEU BRINQUEDO É O VERBO

Alguém a quem prezo e respeito disse-me um dia que eu brinco com as palavras. Tomei como elogio. Muito diferente de quando, engravatado e de paletó, vivia procurando malfeitos nos Bancos, Consórcios e Cooperativas de Crédito, a serviço do Banco Central do Brasil. Brinco, sim, de calção e camiseta, sem gravata a apertar-me pescoço, pés livres e descalços. E gosto de brincar inventando palavras novas. Chamam isso de neologismo. Eu chamo de invencionice. Ontem mesmo inventei a palavra ‘manoelbandeirar’, que significa viver em Poesia, se alimentar de versos, bebericar rimas. A meu projeto musical dei o nome de Forroboxote, que quer dizer absolutamente coisa alguma. Nada mais doce que gracejar com um verbo, adular um adjetivo, acariciar um pronome, com tudo que de substantivo há. Brincar com as palavras, pula-pular no vernáculo, escorregar em conjunções, enfim. Se soubesse disso antes, não teria perdido tempo nos balcões burocráticos da vida à caça de malfeitores do alheio. Quase 30 anos sem esse ‘belezolhar’ que hoje cultivo. Um dia, quem sabe, eu invente um verbo intransitivo tão bonito como Teadorar? Claro que seria pretensão fazer o que Bandeira fez … mas tentar, como brincar, é humano!

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MEUS BREVES CONTOS – 4

BORBOLETA AZUL

A borboleta azul, menina-cigana que veio ler as linhas de minha mão, não sabia ler. Faltou a todas as aulas de Português. Analfabeta, talvez por isso, tenha me enganado na leitura dizendo que eu seria um médico conceituado lá no meu Interior. Ah, borboleta bonita: no meu interior restou apenas um pretenso poeta.

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MINHA ÚNICA FACE

Bondes, já não há,
nem amigos, nem pernas,
sequer um anjo torto …
Atrás do bigode e dos óculos, eu,
triste, por Deus abandonado.
Menos mal que um conhaque e uma lua
tornam minha tarde azul
ainda que em meio a tantos desejos.
O mundo seria tão bom
se eu me chamasse Drummond:
rima e solução
para alegrar minha única face,
felizar meu coração …

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COPA AMÉRICA JÁ ERA!

Nao devemos reclamar. Os meninos estavam cansadinhos. Ou você acha acha que não cansa ficar 4 horas no cabelereiro pra deixar barba e cabelo na régua antes de um jogo? Escolher a chuteira mais colorida também é cansativo. Você deve entender o sofrimento de um dia inteiro fechando um braço com uma tatto top pra aparecer na frente das câmeras … Só se sabe reclamar de nossos super craques. Já reparou como Garrincha era feio e Pelé desarrumado , ambos sem uma tatuagem sequer? Hoje, nossos craques são lindos e milionários. Pena que não saibam jogar futebol. Culpa de quem os convoca? Afinal, Paquetás, Aranas, Danilos, Joões Gomes, Marquinhos e outros estão aos montes por aí nas segundas e terceiras divisões do futebol brasileiro. Interesses estranhos definem as convocações. Mas a diferença maior é que nossos ‘craques’ estão acostumados à vida abastada, frequentam as melhores boates de Barcelona, Madri ou Paris e pilotam seus autobólidos na companhia de belíssimas mulheres. Acabou aquela época de jogador brasileiro que morava no Brasil e jogava em times brasileiros. Além do que, mais vale uma Champions League que una pobre Libertadores. Quem sabe, no século vindouro…

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MEUS CENTO E TANTOS ANOS

Em 2080 completarei cento e tantos anos e darei uma festa. Espero todos lá.

Muita coisa mudará daqui até lá, mas os clipes, os guardanapos e o papel higiênico permanecerão no mesmo formato e com a mesma função que exercem hoje.

Postos de gasolina, assim como cédulas e moedas, não mais haverão, assim como burocratas engravatados em repartições públicas: robôs atenderão às demandas da população.

Filas nos bancos e eles próprios, os bancos, viverão apenas na memória de meus contemporâneos. Livrarias e Bibliotecas estarão desertas de interessados em leitura, como eu me interessava na juventude distante. Onde elas existiam, existirão igrejas evangélicas e farmácias. Não precisarei sair à procura de alfaiates, sapateiros e barbeiros: eles se foram com o tempo.

Ana Maria Braga estará aposentada e ninguém se lembrará do seu Louro José. Terá surgido outro Chico Buarque, em 2080? E Ney Matogrosso, em sua eterna juventude, ainda cantará o Vira-Vira, do tempo longínquo dos Secos e Molhados? Ou prevalecerão, os funks, arrochas e piseiros que hoje invadem o nosso São João. Alguém tocará sanfona como Dominguinhos tocava? Acho que não.

Mas complementado e contrariando o que disse no primeiro parágrafo, pode ser que minha festa não aconteça por ausência contrariada e involuntária do aniversariante. Em compensação e por consolo, sei que restarão por aqui descendentes meus bem melhores que eu, que continuarão a assistir, diariamente, o nascer e o pôr do sol, a brincadeira das ondas do mar e o clarão azulado da lua dançando ciranda com as estrelas. Isto se as alterações climáticas permitirem. Só saberemos em novembro de 2080.

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MEUS BREVES CONTOS – 3

A LAGARTIXA

Na parede da cozinha, azulejos de claros azuis, a lagartixa colhia sobejos. Por instantes cortejou um inseto, imóvel, discreto, no alto, no teto. A princípio platônico, o amor a fez tentar subir. Não conseguiu e na parede lisa escorregou, caiu. Já no chão, vendo que ele sumiu, lamentou o romance não consumado, mais até que a pata fraturada …

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MEUS BREVES CONTOS – 2

O Elefante

A passos pesados e lentos o elefante invadiu a loja de louças quebrando tudo à sua volta. No térreo não escapou uma xícara sequer. Porcelanas raras e taças de cristal nobre, expostas no primeiro andar, escaparam à fúria do animal. O dono da loja, mãos aos céus, agradeceu aos Deuses o fato de os elefantes não saberem subir escadas e serem grandes demais para caberem nos pequenos elevadores.

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MEUS BREVES CONTOS 1

Aos meus Leitores:

Cada dia mais me convenço de que, nesses tempos de Redes Sociais, quanto maior o texto menor é o número de leitores. Assim é que minhas ‘croniquetas’ semanais nunca ultrapassam 400 caracteres. Hoje, vou diminuir mais ainda lançando a série MEUS BREVES CONTOS. Espero que gostem. XB

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A MOSCA

Era diabética, mas não ligava. Nenhum remédio, médico algum. Mais importava a satisfação do paladar. Adorava tudo que doce fosse: o açúcar, todas as guloseimas. Certo dia, na padaria, pousou num pão de mel e, cheia de carboidratos, voou alto adocicando o céu. Sua glicose, nas alturas!