O homem tinha por sonho roubar a lua. Egoísta e desvairado, desejava apenas para deleite próprio o brilho e o encanto do luar. Talvez para dividir com sua amada os raios prateados, enternecendo e eternizando seus instantes de amor. Não sei.
Sorrateiramente, num crepúsculo de abril, às escondidas de um sol já escondido, colocou seu plano em ação e, achando pouco a audácia, convidou um amigo para registrar seu delito, fotografando-o. Serviria de comprovação para os que duvidassem de seu ato. Assim, final de tarde, lua recém-surgida e bem cheia como convinha à ocasião, o homem abriu a porta traseira de seu carro, aparentemente grande para comportar um satélite, colocou a lua num carrinho de mão e daí levou-a até seu veículo.
Ele conta a história e quase ninguém acredita. O amigo fotógrafo não concluiu o registro do fato insólito e histórico. Por pouco. Conseguiria, não fosse o porta-malas um pouco menor que a grandeza da lua. Menos mal. Frustrado, o ladrão devolveu a lua a seu habitual habitat. Tivesse logrado êxito em seu intento, hoje estariam os namorados às escuras, sem o luar e com um sol muito chateado por terem-lhe roubado a companheira fiel e solidária.
Talvez até São Jorge o perdoe pela tentativa de tão hediondo crime. Mas, pela gravidade de sua ação, acho que o frustrado ladrão deveria habitar, por bom tempo, uma cela escura, sem qualquer janela que lhe permita contemplar a beleza do luar. O castigo será mais que justo e merecido. Quem já viu querer roubar a lua?









