XICO COM X, BIZERRA COM I

SONHO ADORMECIDO

Borboletas na janela
Flores por todos os lados
Amores mil aos bocados
Uma noite de aquarela
Grande festa e alegria
Muita gente que me abrace
Mil beijos em cada face
Carinhos em romaria
Que o sonho nunca acordasse
Era isso que eu queria

Era isso o que eu queria
Que o sonho nunca acordasse
Um forró que não faltasse
Dia e noite, noite e dia
Não queria estar ouvindo
Tanta Anita e Safadão
Faz mal ao meu coração
Os meus ouvidos ferindo
Ante tanta assombração
Deixem meu sonho dormindo

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SANTA FILÓ DOS PRAZERES

O sertão de hoje é diferente do que conheci em Assaraí do Norte. Tudo mudou: suas coisas, suas cores, sua gente. Sem televisão ou celular, havia os que gostavam de caçar e os que gostavam de pescar. Uns que mentiam, ainda que sem maldade, apenas para vangloriar-se; outros que seguiam os conselhos do padre local e só falavam a verdade.

Havia, também, os que não gostavam nem de uma coisa nem de outra, nem de pescar nem de caçar, nem de verdades nem de mentiras. Preferiam passar as tardes no cabaré de Filó ouvindo e contando histórias, bebendo cerveja e falando de vantagens para as mulheres trabalhadoras que ali moravam. Assim eram os moradores daquela cidadezinha do interior. Bendito cabaré, sempre cheio de gente vazia.

Filó dos Prazeres, dona do recinto e preferida da meninada por suas coxas fartas e seios muitos, era a protagonista maior das safadezas juvenis da região e ganhou esse apelido ante as estripulias prazerosas que promovia em seu quartinho de amor, fazendo a alegria da criançada recém-saída da adolescência, recém-entrada na puberdade. Nenhum deles deixou de passar pelas mãos carinhosas de Filó, a inimiga número um dos cabrestos íntegros das redondezas. Aos meninos, permitia todas as carícias e afoitezas com a generosidade que só ela tinha. Assim, foi a iniciante preferida de 10 entre 11 jovens virgens e puros do lugar. Todos passavam pelas ‘aulas’ de iniciação safadística ministradas pela mestra do assunto.

Agora, fico a imaginar Filó no céu, sentada bem juntinho de Nosso Senhor, por ele premiada pelo bem que fez à meninada de um longínquo Sertão, quando ela hojeava o amanhã da meninada, a eles antecipando as doces emoções da vida mundana. Salve Filó, hoje Santa Filó dos Prazeres, pelo merecido céu.

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‘SEU’ OBRIGADO E O AMIGO POR FAVOR

Nos tempos do ‘Seu’ OBRIGADO, o Companheiro POR NADA passeava faceiro pelas praças da cidade, abraçando Dona EDUCAÇÃO e sorrindo pelas ruas junto com o Amigo POR FAVOR. Todo dia se escutava o Menino BOM DIA, ainda que a manhã fosse nublada. O carteiro entregava as cartas sem arrobas ou imeios. Você era Você e não se escrevia Vc. Não se sabia o que era Internet, nem views ou likes e se desconhecia o tal do whattZap. No meu caso, os ‘influencers’ eram reais, meu pai e meu avô, exemplos de conduta ilibada e de vida íntegra, distantes de interesses materiais gananciosos.

A Olivetti azul era a companheira fiel das bobagices e besteiragens que já escrevia. Ia-se aos restaurantes para comer, ou até conversar, mas nunca para ficar calado bisbilhotando a vida alheia pelo celular. Ouvia-se boa música nas radiolas de então. Elis Regina cantava Tom Jobim. Convenhamos: era bem melhor que as atuais Anitas. Sertanejos eram verdadeiros, como Luiz Gonzaga, que conhecia e cantava o Sertão de verdade, das Sabiás e Acauãs. Era uma época em que se lia, existiam livros, livrarias, bibliotecas. E leitores. Ifood era a bodega de seu Júlio, o melhor caldo de cana com pão doce da cidade. E o pagamento era à vista ou anotado na caderneta. Não aceitava PIX. Aliás, ninguém aceitava PIX.

Tudo mudou. Para melhor? Não sei. Só sei que a Companheira COM LICENÇA faz-me recordar o Rapaz MUITO PRAZER, fazendo-me sentir saudades dos tempos do ‘Seu’ OBRIGADO. Até a Senhora GENTILEZA, que transitava sorridente entre as pessoas, está sumida. Menos mal que a lua continua a brilhar no alto e os rios seguem correndo para o mar. E o jumento das horas todo dia, como antes, continua anunciando que a mesa está posta. Imagino estarem todos pensando que sou saudosista: acertaram! Talvez porque eu tenha mais passado que futuro, embora aceitando e encarando os amanhãs como desafios e conquistas a obter. Mas que era supimpa, ah, isso era!

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OCUPAÇÕES NOBRES

Seu pai pensava vê-lo doutor, da medicina ou da engenharia. Ou do Direito, talvez. Mas ele nunca quis isso, preferindo ser feliz ao seu modo. Ao invés de uma máquina calculadora nas mãos, um estetoscópio nos peitos ou um canudo de advogado na parede, optou por ser pastorador de luas.

Todo dia ficava chateado porque, na madrugada, chegava um sol besta e carregava dona lua não sei pra onde. Pras bandas do Japão, pensou. E aí ele virava ensacador de ventos felizes e interpretador de nuvens difíceis de serem interpretadas. Quando começava essa tarefa, a nuvem já era outra, sem dar-lhe tempo de interpretá-la e os ventos já tinham passado, ligeiros, sem oferecer-lhe permissão para ensacá-los. Entre a fuga do sol e seu novo aparecer, aproveitava o ócio para dedicar-se a ser ensaiador de canário cantador e afinador de cigarras.

Toda a vida assim viveu e aposentou-se sorridente por só ter tido por obrigação apenas ocupações nobres e edificantes. Poucos sabiam fazer tão bem o que ele fazia. Ninguém descascava fumaça como ele; desconhecia-se alguém que enxugasse orvalhos com tanto primor. E assim foi, dormindo vagalumes e acordando arco-íris, ouvindo pirilampos e assobiando borboletas. Felizou-se a vida toda como flanelinha das alegrias de seu povo. E sem nada dessa gente cobrar, sem arranhar nenhum sonho. Seu pai findou por dar-lhe razão ante a felicidade que reluzia naquele olhar. Perdeu um filho Doutor, ganhou um homem de alma plena de Paz.

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Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

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CIGARRAS, GRILOS E PASSARINHOS

Alta madrugada. Todos dormem, menos eu. Uma da manhã e o insistente apitar de um alarme automotivo não me deixa pregar os olhos. O sol repousando, faz tempo, e eu desperto. Bebo um copo d’água e volto à cama. Eis que passa na rua uma dessas motos que o dono tem por prazer alterar o cano de escape para provocar zoadas e acordar os incautos. Certamente esses imbecis não tem pais ou parentes velhos ou doentes. Ou, se os tem, passam em frente às suas casas empurrando a moto, nunca nela montados a perturbar o sono dos que ali moram.

De novo, o buzinar do perverso carro volta a zoadar e antes que volte a fechar os olhos outra vez me aborreço com o barulho, desta feita ocasionado por um caminhão que passa sobre um buraco na rua, provocando um terremoto no prédio onde moro. E olha que moro no 9° andar. Zoada que o mais mouco dos ouvidos ouviria. Maldigo a Prefeitura que não cuida dos buracos da rua e os motoristas que não os enxergam. Sono refeito, um avião – certamente com destino mais silencioso, passa por sobre o prédio. Bem feito: quem mandou morar nas proximidades do aeroporto, em que os aviões ao subirem ou descerem passam baixinho (acho que admirando a beleza da praia de Candeias)?

Já com o sol despontando, acordo, novamente, agora pelo interfone: o porteiro avisando que o alarme do meu carro, insistentemente e sem motivo aparente, acionou-se, misteriosamente, a cada trinta minutos, voltando a silenciar-se após deixar acordado o prédio inteiro. Quem dera pudesse realizar meu sonho de morar num lugar sem sobressaltos, onde se ouça apenas o cantar das cigarras e dos passarinhos, barulhos bons, ou o cri-cri dos grilos, que também me enternecem. Levanto, cansado pela noite mal em claro, para ir à oficina verificar o que está ocorrendo de errado com meu carro inconveniente e seu apitar tão deseducado. Aproveito para comprar um protetor auditivo. Só quero dormir esta noite.

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MEUS BREVES CONTOS – 9

TATUAGEM (João e Maria)

Tatuagens, Maria não queria que João as fizesse. Tantas tinha, já. Teimoso, desobediente, ele fez mais uma. Ela mudou de opinião e sorriu ao ver seu nome tatuado no lado esquerdo do peito do amado, dentro de um coração, sobre um outro, o de verdade. João, tatuado e feliz, ganhou um beijo de Maria, mais feliz ainda.

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QUATRO DE NOVEMBRO

Quantos outubros se foram, quantos novembros virão?
Muitos versos já versados, tantos silêncios em vão
Quantas cantigas cantadas, outras tantas por cantar
Quantos novembros passados, alguns estão por passar …

Todo ano tem um 4 de novembro em minha vida. Somam-se-me dias, como diria Fernando, o Pessoa. Nessa data, agradeço aos Deuses o fato de estar envelhecendo. Meu sábio avô dizia que ‘quem não envelhece morre cedo’. Ouço isso desde sempre. Envelhecer é o único meio de se viver muito tempo. Que assim seja! Verdade que o bom mesmo é ser jovem, tudo fazer sem reclamar de dor, sem precisar fugir das escadas, todas tomar sem se preocupar com taxas de colesterol ou glicose. Hoje, tudo passa a ter um valor dobrado. Por isso, a cada dia digo mais e mais a palavra que demorei a dizer. O verso que hoje sei de cor, recito-o de quando em vez, de vez em quando. Faz-me bem.

Minhas Rugas e Cabelo Brancos

Não me incomodam as artroses, rugas e cabelos brancos: são apenas sinais do tempo. Ainda bem que a alma permanece jovem, desconhece calendários e não sabe contar os dias. Espero continuar envelhecendo por mais um bom tempo, fazendo o que gosto e deixando de fazer, a contragosto, o que o doutor recomenda. Resta-me engraçar, ficar feliz, a cada minuto, com cada abraço, cada sorriso, ao ver brotar a primeira flor do meu pé de manacá.

Um Ser Subversivo, Nunca Um Sub Ser Vivo

As tolices que cometi na juventude me atormentam menos que o não poder voltar a cometê-las – era o que dizia Albert Camus. Comigo também é assim. Afinal, quem sou eu para dele discordar? Hoje sou muito menos subversivo do que fui aos 18, querendo consertar o mundo, mas jamais fui ou serei um sub ser vivo. Ficam as lembranças. E a cada minuto me convenço mais e mais de que quem está com muitas saudades hoje está com menos saudade do que eu. Nem sei ao certo de que, mas que estou, estou. Acho que tem a ver com o envelhecer.

74 Bem Vividos

Assim, levemente, cheguei aos 74. Ninguém mais me considera hipocondríaco, embora doam-me costas, joelhos, ombros e, principalmente, panturrilhas, o que me impede de fazer caminhadas longas, maiores que 200 metros. Já não sofro para manter a barriga encolhida. Deixo-a livre, grande e desimpedida. Minha visão não piorará além do que hoje está e as coisas que comprei ontem não terão tempo de ficarem velhas. Meus óculos, hoje são muito mais importantes que aquilo que era importante há 40 anos, no passado. Os segredos que confiei a amigos de infância estão bem guardados: os que continuam vivos, já não lembram quais são. É o ônus da idade. Ainda bem que existem os abonos: uma mulher que me atura há quase 50 anos, filhos criados e felizes e, principalmente, netos que só alegria me dão, apesar da bagunça que promovem em minha casa. Ainda bem que eles são bagunceiros …

Em 2090

Se toda noite, a exemplo do meu primo José, de São Luís, antes de dormir, eu continuar tomando o meu chazinho de entrecasca da catuaba, rico em flavonoides, estarei com menos cansaço e fadiga. Por outro lado, não abandonarei o saudável hábito de degustar o carnudo, saboroso e nutritivo pequi do Crato associado a um inigualável ‘baião de dois’ de feijão de corda, com queijo de coalho. É desse ‘jeitim’ que eu chegarei ao ano 2090 com os mesmos 140 anos que viveu o bíblico e paciente Jó! Até aqui está dando tudo certo! Eu acho que vai dar. Paciência eu tenho de sobra.

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VALENTE E FELINA

Levei meu amigo para ver o treino do PSG, em Recife. Naquele sub-11 prevalecem os meninos – de menina, só ela, Valentina, iluminando o campo, correndo atrás da bola, se desmarcando, cruzando, chutando e fazendo gol, tudo com muita classe, exacerbada categoria. Destaque total. A menina, de cabelos presos, brinquinho na orelha e pernas infantis, além de uma impressionante visão de jogo, deixa os meninos à reboque de seu futebol vistoso e clássico. Ela chega com a disposição de ocupar o lugar que às mulheres foi roubado a vida toda com a certeza de que futebol é também coisa de mulher, sim. Vai Valentina, valente como deve ser, felina como aquela que quer conseguir seu final objetivo. O gol é só o início da vitória no jogo da vida. Ainda bem que ela joga no mesmo time de Bernardo. Vai que é tua, Valentina!

OBS: Meu amigo, Humberto Araújo, arquiteto, artista plástico, olhar apurado e conhecedor, boquiaberto e tão entusiasmado quanto eu com o futebol da menina, fez a ilustração dessa minha croniqueta.

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Nossos CDs estão nas plataformas virtuais e, em formato físico, na Loja Passadisco do Recife.

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ROSA DE OSAKA

Rosa morava num cubículo apelidado de apartamento na praia de Boa Viagem. Modesto lugar, mas nunca deixou que ali faltasse uma flor sobre a penteadeira. Era onde passava o dia, boa parte dele dormindo, a preparar-se para a noitada no velho Recife, num dos cabarés dali.

Menina nova, era, por sua beleza e meiguice, a preferida de muitos dos marinheiros que pelo Recife passavam quando de suas estadas na cidade. Um japonês por ela apaixonou-se loucamente, prometendo-lhe boa vida se a ele se juntasse e fosse morar em Osaka. Ela resistiu o quanto pôde aos apelos orientais até que, convencida de que longe daqui sua vida seria melhor, entregou-se aos apelos do nipônico.

Dele, nunca tive qualquer notícia. Dela, através de um amigo que gozava de sua estima e amizade, soube que é uma ainda jovem senhora num subúrbio de Ozaka, mãe de três japonesinhos, liberta de sua vida anterior e feliz da vida com o destino que lhe foi reservado. O cabaré que ela frequentava hoje não mais existe.

Foi embora sem cor, sem perfume, sem flor, sem nada. Talvez haja uma flor sobre uma penteadeira na distante ilha japonesa de Honshu, onde fica sua casa. Hoje, disse-me seu amigo, Rosa cuida de três crianças de olhos repuxados, muito parecidos com o pai que um belo dia por ela se apaixonou num puteiro do Recife antigo. Sorte dela, as crianças desta Rosa não são mudas, telepáticas, cegas ou inexatas como aquelas outras de Hiroshima que Vinícius um dia poetizou protestando sobre as bombas atômicas ali derramadas.