XICO COM X, BIZERRA COM I

Recebo com alegria a sempre inteligente e carinhosa ligação de um amigo muito querido. Desta vez comenta as agruras e dissabores que o tempo impõe aos que estão na vida há mais tempo, como nós. Lamurioso, compara-se a um automóvel que vive a requerer visitas frequentes à oficina que lhe possibilite rodar alguns quilômetros além do combinado. Reparo num carburador, troca de velas sujas, desentupimento do escape ou simples consertos de efeitos estéticos e visuais na lanternagem, uma calibragem de pneus, uma limpeza de para-brisas.

Assim tem que ser, depois dos 30. Eu, um velho Studebaker dos anos 50 (ou um Prefect 51 igual ao que meu pai ganhou numa rifa, meados dos 60), agradeço a existência de uma oficina relativamente próxima de casa – RHP fica a pouco mais de 6 km, que me socorre quando o motor começa a falhar. Mas inevitável é já pensar no dia em que entrar na oficina e de lá não mais sair. A finitude há.

Não me conforta crer na existência do céu (para os bons) e do inferno (para os ruins). Fico a pensar: não seria melhor ser ateu e desacreditar nessa vida eterna que nos prometeu os catecismos? Que futuro arriscar se tenho ídolos queridos de um lado e detestáveis inimigos do outro e não sei para que lado serei mandado? Melhor talvez seja orientar ao mecânico da oficina para que, quando não mais jeito houver, encaminhar-me para repouso no ferro-velho mais próximo, num limbo purgatorial também previsto nos mesmos catecismos.

Se assim for, sem a certeza de ter o prazer de ficar próximo de gente como Madre Tereza, João Paulo II, Francisco de Assis, Hélder Câmara, num paraíso bom, embora tão monótono quanto um domingo à tarde, sem futebol na TV, não correria o risco de ter que conviver com gente da qualidade de Hitler, Brilhante Ustra, Judas Iscariotes, Augusto Pinchet, milicianos e torturadores, num ambiente calorento e habitado por portadores de tridentes e espetos quentes e afiados. Deus me defenda! Melhor ser ateu.

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2 pensou em “OFICINA

  1. O melhor de tudo é que Xico falou no Studbaker. Tivemos um, verde, 1951, o primeiro carro em que lembro de ter entrado. Só Xico Bizerra para desatar as lembranças. Viva!!!

  2. A propósito do comentário de dr. Zé Paulo:
    Studbaker também faz parte de minhas memórias afetivas, quase na mesma dimensão que Brigite Bardot e Gina Lollobrigida. Aliás, se me permitido fosse, gostaria de ‘estacionar-me’ onde elas estão, seja no paraíso ou nas ‘profundas’, como dizia minha saudosa mãe.

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