Era dia de Eleição, décadas atrás, entrando pelo século passado (50/60), Nova Cruz estava em festa. Caminhões carregados de eleitores, vindos da zona rural e lugarejos vizinhos chegavam a toda hora. Os candidatos pela UDN e PSD ofereciam mesa farta aos votantes famintos, coisa que sempre ocorria nas eleições. Comidas pesadas como feijoada, buchada de bode, rabada, cozido e sarapatel, à vontade. A fartura era grande e os eleitores comiam até se empanturrar.
Antigamente, as cabines de votação eram fechadas.
Pois bem. Nessas referidas eleições, aconteceu um caso constrangedor e ao mesmo tempo hilário.
Um eleitor que votaria pela primeira vez, muito nervoso, ao entrar na cabine de votação foi acometido de uma enorme cólica intestinal, a chamada dor de barriga “de chicote”. Essa que chega traiçoeiramente, e não há reza forte que a faça recuar. Não há santo que a segure, e as tripas fervem e gritam:
“Ó abre alas, que eu quero passar!!!”
O eleitor tinha comido muita buchada de bode e outras comidas pesadas, na mesa farta oferecida pelo seu candidato a Prefeito.
Sem outra solução, acocorou-se perto da cabine de votação, num canto de parede, e não teve tempo de raciocinar. Não houve santo nem arcanjo que ouvisse os seus apelos. De tão nervoso e “apertado” que estava, defecou ali mesmo, sem saber que estava homenageando a todos os corruptos, assaltantes do erário público.
Suando frio e apavorado com o que lhe pudesse acontecer, o eleitor ” debutante” limpou-se com a chapa de votação oficial, que lhe fora entregue pelo mesário, e também com a “cola” que trouxera e todos os “santinhos” que guardava nos bolsos, todos com a cara dos candidatos.
O fato é que o eleitor ultrapassou o tempo de permanência na cabine de votação, o que chamou a atenção dos fiscais.
O mesário bateu à porta da cabine, chamou o nome do eleitor e disse-lhe que o seu tempo de votação havia se esgotado. Depois de alguns segundos, uma voz cansada respondeu: “Tem gente!” E o eleitor não saiu.
A ênfase do mesário aumentou:
– Senhor José Apolinário da Silva, seu tempo de votação terminou!
Transtornado, o eleitor estreante, ao ouvir alguém chamar seu nome, vestiu-se de qualquer jeito, e saiu da cabine como um raio, deixando-a um horror de fezes e mau-cheiro. Sentiu-se como se estivesse saindo do inferno e como se fosse a pessoa mais infeliz do mundo.
Retornou à sua casa na zona rural traumatizado, e a lembrança desse dia fatídico nunca saiu da sua mente. Quando escuta a palavra “eleição”, se benze três vezes e faz figa.
Ia Saulo, centurião romano, de Jerusalém para Damasco, levando ordens do Sumo Sacerdote, para prender e castigar os Cristãos que encontrasse pelo caminho, quando, de repente, se viu cercado por uma intensa claridade que baixava do Céu. O seu cavalo empinou-se espantado, e o atirou ao solo. O soldado de César levantou-se da terra, abriu os olhos e soltou um grito de dor, ao perceber que estava cego.
Esse pagão foi S. Paulo, que, mesmo mergulhado nas trevas, viu a Cristo, e a cegueira o redimiu..
– SAULO! SAULO! Por que me persegues? – gritou-lhe o Senhor.
E Saulo, convertido, foi o mais perfeito soldado de Deus, que, para que o servisse, lhe restituiu os olhos, e lhe deu com eles, o prestígio da fé.
Pois bem. Certa vez, entrando pelo século passado, um jovem soldado cego, acompanhado do seu guia, dirigiu-se ao Quartel General, procurando falar com o Ministro da Guerra. Levava em mãos um ofício da Associação Brasileira de Imprensa.
Em 1930, quando houve o maior conflito nacionalista brasileiro (A Revolução de 1930), e quando o país, de norte a sul, se erguia bêbado de esperança, para renovar o seu panorama político, o jovem Brasil Herói se unira aos que marchavam, e marchou também, rumo à vitória. Mas não foi feliz.
Às vésperas do triunfo, Brasil Herói perdeu a visão dos dois olhos. Um estrondo, uma nuvem de poeira, e, em seguida, a noite, a escuridão. Tateou em torno de si mesmo, procurando apoio. Mãos amigas o seguraram.
Nunca mais viu o sol, e penetrou na noite escura da sua agonia.
Brasil Herói, o soldado cego que a Associação Brasileira de Imprensa mandou apresentar ao sr. Ministro da Guerra, “não vinha a Damasco para combater os Cristãos, mas para aliar-se a eles, no serviço da nova religião.”
Os que marchavam a seu lado traziam todos, ambição e esperança. O que menos pretendia, pretendia uma porção de liberdade. E todos, ou quase todos, conseguiram o que desejavam. Houve quem se contentasse com um cartório, e houve quem se satisfizesse com um pão. E houve, até, quem se sentisse pago da viagem longa, e dos riscos da expedição militar, amarrando o seu cavalo a uma coluna de pedra no coração da Avenida.
Ao término da infeliz marcha, o agora cego, Brasil Herói, não pediu nada à Revolução. Não cobiçou uma pasta de ministro, não pleiteou coisa nenhuma. Não foi candidato a um lugar de tabelião. Não solicitou promoção no exército. Não desejou para si, um cargo, até então, ocupado por outrem.
Brasil Herói queria, apenas, os seus olhos de volta, isto é, as duas moedas que lhe haviam sido arrebatadas e que lhe davam direito a assistir a todos os espetáculos da vida e do mundo! Seus olhos eram o seu maior tesouro.
Desiludido de reavê-los, o jovem soldado da Revolução de 30 foi bater à porta da Associação Brasileira de Imprensa. Não foi pedir que enxergassem por ele, pois sabia, por dedução, que isso seria impossível. .
Tateando o corrimão da vasta escadaria, que levava ao salão da Associação Brasileira de Imprensa, Brasil Herói foi pedir ao seu presidente, simplesmente, que lhe conseguisse, do sr. Ministro da Guerra, uma cama e um prato, no Asilo dos Inválidos da Pátria, a fim de que pudesse assistir, sem fadiga e sem fome, com o auxílio dos ouvidos, ao desenrolar do espetáculo da Revolução, no qual colaborou obscuramente, trabalhando na preparação dos cenários. Operário na “construção de Babel”, perdeu a vista, quando carregava o seu tijolo. Tem direito, pois, de acordo com a lei que regula os acidentes do trabalho, ao amparo por parte do dono da obra.
Brasil Herói foi atendido no seu pedido desesperado, de ter ao menos, uma cama e um prato no Asilo dos Inválidos da Pátria. Nada, porém, consolaria alguém de ter perdido totalmente a visão, passando a viver nas trevas, sem sol, sem lua e sem estrelas.
Diz a História, que os revolucionários brasileiros tem uma infinidade de defeitos, mas lembram, principalmente, os civis, e particularmente os do Rio Grande do Sul. O que lhes falta, às vezes, em tato político, sobra-lhes em bom coração.
Levam surras tremendas, mas não se vão, mesmo recebendo compressas de vinagre nas equimoses. Abrem-lhes feridas com espada e, ensanguentados, aceitam o bálsamo que as cicatrize.
A capacidade de sofrer, do ser humano, é imensa.
A Brasil Herói, o desventurado cego, a quem a Associação Brasileira de Imprensa estendeu a mão do seu presidente, restou o consolo de uma cama e um prato no Asilo dos Inválidos da Pátria.
Os homens públicos, como se sabe, não tem tempo para reflexões. O ócio e outros sentimentos rudimentares se transformam em ideias e axiomas, e sobrevivem, comprometendo a ordem pública e a fraternidade humana.
E assim caminha a humanidade, sempre sob o império das paixões.
Décadas atrás, Zé da Silva passou muitos anos morando em Niterói e viajava diariamente nas barcas da Cantareira. Depois de aposentado do serviço público, voltou para a sua terra natal, no Nordeste, conforme prometera aos pais.
Nunca esqueceu seu estresse de ter que acordar de madrugada, para pegar a barca e ir trabalhar no Rio. Depois de aposentado, passou a sonhar todas as noites, que estava na barca da Cantareira. Eram pesadelos tremendos. Passava a noite dando voltas na cama e fazia de conta que estava passando pela “borboleta.” Dormindo, era tão inquieto na cama e fazia tantas voltas em sonho, que chegava a chutar o que houvesse por perto e a derrubar o ventilador que ficava na sua mesinha de cabeceira.
Na ausência de Freud, ou de qualquer dos seus seguidores nacionais, Zé da Silva procurou, ele mesmo, decifrar o seu sonho. Vivia lendo notícias horríveis, de violência e crimes de toda espécie.
Lia sempre os noticiários dos jornais e ficou sabendo da greve da Cantareira Fluminense.
Com atraso, leu também a petição de uma mulher, pedindo a recomposição do corpo de sua própria mãe, decapitada e esquartejada pelos rapazes da Faculdade de Medicina do Estado do Rio. A velha dama falecera num hospital público de Niterói.
Informada do óbito de sua mãe, a filha se deslocou ao hospital, para providenciar o sepultamento. Tencionava fazer a inumação piedosa e conveniente, de acordo com os preceitos cristãos. Mas, chegou atrasada. O cadáver da sua mãe já havia sido encaminhado pelo Diretor da Faculdade de Medicina, ao anfiteatro da sua escola, estando disponível aos estudos de Anatomia dos seus discípulos. Não se sabe o resultado dessa “operação”. A luta do pobre contra o rico não deve ter dado em nada, apesar da torpeza do assunto.
Um dos grandes heróis da Grécia Antiga, o poeta, profeta e músico, Orfeu, foi assassinado, tendo o corpo despedaçado pelas “Mênades”, mulheres apaixonadas e furiosas, que não estudavam medicina, nem tinham compromisso com a Ciência. Cansadas de serem menosprezadas, as Mênades, cortaram o corpo de Orfeu em pedaços e lançaram sua cabeça no Rio Hebrus.
Já nesse hospital de Niterói, uma veneranda e pobre senhora pagou o ultrajante tributo à Ciência, ao ir a óbito, e cair, em seguida, sob o bisturi de algumas centenas de jovens, que andam a pesquisar nos domínios da Morte os profundos e eternos segredos da Vida.
Seu cadáver foi usado, como se fosse um “cadáver desconhecido”, nas aulas de Anatomia, da Faculdade de Medicina. Enquanto isso, desesperada, a filha aguardava o reconhecimento e liberação do corpo da mãe, para o sepultamento Cristão.
Esse caso impressionou Zé da Silva, e entrou como complemento nos seus pesadelos.
Com as pálpebras querendo fechar e sinais de “sono à vista”, logo cedo, ele adormecia. Pouco tempo depois, começavam os sonhos, verdadeiros pesadelos.
Via-se passando na “borboleta” da barca de Niterói e, no sonho, acabava de sentar-se em um dos bancos, próximo à caldeira. De repente, alguém tocou-lhe o ombro. Era o temível Dr. Lauro Amaral, Diretor da Faculdade de Medicina, que também estava a atravessar aquele mar.
Os dois começaram a palestrar.
Palestra de barca tem tempo certo para acabar. É feita sob medida e se escolhe o tamanho do assunto, de acordo com o tempo que falta para a barca atracar.
– O senhor não imagina, como estou preocupado com a falta de cadáveres na faculdade, para as aulas de Anatomia. – Falou o médico.
Zé da Silva perguntou:
– O Dr. está falando em falta de defunto? Pra que? Credo em Cruz!!! Vejo falar em falta de dinheiro no bolso do povo brasileiro! Mas de defunto, não! O Doutor anda sendo perseguido pelos cadáveres?
Não, senhor! – Pelo contrário! Os cadáveres é que andam sendo perseguidos por mim!
E o doutor continuou:
– A Medicina é a Ciência que atrai o maior número de alunos no Brasil. A cada ano saem das escolas superiores do país milhares de brasileiros jovens, autorizados a exercer o seu apostolado, na pele, na carne, no osso e no tutano do próximo. E a cada ano, entram para os lugares que eles deixaram nos bancos das Faculdades, novas centenas de candidatos. Como consequência, começaram a faltar corpos humanos para os estudos. A procura valorizou o produto. E de tal modo, que é mais fácil, hoje, um cadáver encontrar um estudante, do que um estudante encontrar um cadáver. Em Niterói, principalmente, um defunto está, agora, pela hora da morte!
Não morre ninguém?
– Morrer, morre. Mas, a questão, é que o defunto que vai para a Faculdade, servir de campo de pesquisas ao estudante, é unicamente o pobre, que passa pelo necrotério. É preciso que o sujeito tenha sido assassinado, e não tenha parente que o sepulte.
– O Doutor já experimentou mandar matar alguém? – Perguntou Zé da Silva.
– Já. Os rapazes da Faculdade tem animado alguns valentões a enfiar a faca no bucho alheio. E o resultado tem sido nulo. Duas ou três mortes, e acabou-se. Que são, porém, dois ou três defuntos para mais de oitocentos rapazes armados de bisturi? Nada! Quando aparece um cadáver no anfiteatro da nossa Faculdade, é tanta gente em cima dele que vem logo a lembrança da afluência dos pintos lá nas casas do interior, quando se atirava uma casca de banana no quintal!
Fez-se um silêncio ligeiro, e o médico falou baixinho:
– O senhor não leu o que alguns jornais de Niterói publicaram a seu respeito?
– Não, senhor….
– Pois, olhe: eu, no seu caso, não aguentava! Ia à redação, e metia seis balas no primeiro sujeito que encontrasse lá dentro! Não interessa quem seja!!!
– Mas, em que redação, Doutor? Qual é o jornal?
– Qualquer um. A imprensa é uma só. E o senhor está na obrigação de vingar-se! Não se faça de fraco! Não aguente desaforo!
E disse, ao ouvido de Zé da Silva:
– A Faculdade dá quinhentos mil reis por cada defunto!
– E se eu morrer, Doutor? – perguntou Zé da Silva.
Um sorriso maléfico iluminou o rosto do “bondoso” médico. As suas pupilas se acenderam, numa alegria sinistra.
– Se o senhor morrer?
Correu os olhos sobre Zé da Siva, contemplando as anomalias da sua figura. E com entusiasmo, apertou-lhe a mão, com vivacidade:
– Dou-lhe um conto de reis, hoje!….
Com essa, Zé da Silva despertou do sono, ainda mais perturbado. Mas, se consolou, sabendo que ele, pelo menos em sonho, é um “homem de valor.” Aquele médico, só podia estar louco!!!
O grande poeta Olavo Bilac (1865-1918) escreveu este belo soneto, inspirado nesse tema, que pertence a toda a poesia e que está em todas as línguas:
“TODA HORA FERE E A DERRADEIRA MATA”
Vão-se os dias, semanas, meses, anos E ao findar na terra a fugaz visita, Temendo o êxodo, nossa alma hesita, Deixar o palco dos seus desenganos.
É o tempo senhor dos nossos planos E a última vez que um coração palpita, Um relógio invisível a hora grita, No necrológio triste dos insanos.
Inexoravelmente se consuma A breve história da vida aqui na terra, Pela percepção de quem a capta.
Como a onda do mar por entre a bruma, Ergue-se altiva e depois se encerra, “Toda hora fere e a derradeira mata”.
O tempo é inexorável. É o senhor dos nossos planos. Não para, nem espera por ninguém. E os sonhos ficam sempre inacabados, como uma sinfonia. Quando o tempo diz que é hora, os planos ficam no ar.
Há um antigo provérbio latino, inscrito em antigos relógios de sol, que se refere ao tempo, às horas e à nossa passagem pela vida, que diz:
“Todas ferem e a última mata”.
O provérbio pretende alertar-nos para o efeito que o tempo tem sobre nós. Todas as horas que vivemos, bem ou mal, deixam as suas marcas. Temos, portanto, que vivê-las o melhor possível, para que a sua marca não seja uma ferida fatal, e para que possamos atrasar a última hora.
Não é, pois, de se estranhar que este provérbio apareça, essencialmente, nos relógios, símbolos da passagem do tempo.
Há uma antiga lenda, que conta a história de um jovem frade, que, certa manhã, saiu do seu convento, atraído pelo cântico de um rouxinol e se embrenhou pela floresta. Deslumbrado com tanta beleza ali encontrada, distanciou-se cada vez mais, floresta a dentro, envolvido pela magia da diversidade de pássaros e seus cânticos maravilhosos.
Embevecido com a beleza que estava diante dos seus olhos, o jovem frade se esqueceu do tempo que passava ao seu redor e das pessoas que aguardavam a sua volta. Quando despertou desse enlevo, perdeu a noção de quantas horas permanecera ali, encantado com o cântico dos pássaros.
Apressou-se em voltar ao Convento, mas, em ali chegando, notou que estava tudo diferente. O jovem porteiro havia se transformado em um velho frade, de cabelos brancos e enorme barba.
Não só o irmão porteiro havia envelhecido, como também todos os frades que ainda restavam no Convento. Estavam todos de cabelos brancos e alguns já haviam morrido.
Muitos anos se tinham passado, e entre o recém-chegado moço e o eremitério velho, acontecera o hiato de Deus, a eternidade. Nada tinha mais sentido para o jovem frade.
Essa realidade é sempre esquecida e o tempo é desperdiçado e gasto com brigas, violência e desamor.
A legenda dourada do tempo, que diz que ele está passando, é sempre ignorada, e esquecida pela volúpia com que se deixa que se escoem as horas, estas horas que passam nos ferindo, uma a uma, até o minuto fatal.
A hora atual nos parece mais vertiginosa e à medida em que envelhecemos, contamo-la por minutos, como as pulsações do coração.
Há homens que se deixam, também, atrair pela música dos pássaros levianos. Caminham, dentro da floresta, de clareira em clareira, esquecidos das horas.
A clepsidra (relógio de água, um dos primeiros sistemas criados pela humanidade para medir o tempo) se esgota, a velhice chega, mas o engano persiste até o momento em que se deparam com o velho muro da morada esquecida, onde se retratam as dores e as decepções.
O milagre não aconteceu. O irmão de cabelos brancos que os espera à porta do Convento é a própria figura do destino, que não abandona aqueles a quem marca e a quem dirige com sua mão vigilante.
Os extremos, como conservadorismo, liberalismo, feminismo, machismo e outros devem ser evitados, pois atentam contra o Estado de Direito.
As fraudes, as corrupções e os subornos constituem, nos dias atuais, as marcas predominantes dos crimes contra o patrimônio público.
Nestes tempos sombrios de uma disputa política acirrada, em que a liberdade de expressão de um partido é cerceada a toda hora, e em contrapartida, as divindades supremas fecham olhos e ouvidos para o que dizem e fazem os componentes do “Cordão Vermelho”, nada melhor do que mergulharmos na história da Roma Antiga, e nos deliciarmos com a inteligência de Cícero, o grande filósofo.
Marco Túlio Cícero, (3 de janeiro do ano 106 A.C), foi um dos mais importantes filósofos da Roma antiga.
Proveniente de uma cidade ao sul de Roma, de nome Arpino, no começo da sua vida, esse fato o discriminava, por não ser um romano tradicional.
A família de Cícero também o ajudou a crescer. Seu pai era um rico equestre, com importantes contatos em Roma.
Sua educação foi baseada nos grandes filósofos, poetas e historiadores gregos.
Desprovido de qualquer interesse pela vida militar, Cícero começou sua carreira como advogado. Mais tarde, mudou-se para a Grécia e ampliou seus estudos de retórica. Através dessa estadia na Grécia, teve contato e passou a admirar calorosamente a obra de Platão. Foi o responsável por introduzir a filosofia grega em Roma, criando um vocabulário filosófico em Latim.
Foi toda a sua eficiência e competência na língua grega, que o levou à condição de intelectual e o colocou entre a elite romana tradicional.
Na década de 60 a.C., Catilina, um militar e senador romano famoso, que também já havia passado por cargos de magistratura, pretendia ser designado Cônsul da República. Mas, seu nome era encarado com desconfiança por seus pares. Muitos viam nele um risco para as instituições republicanas. Em retaliação, Catilina, junto a seus aliados, entre eles o ex-Cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, procurou organizar uma rebelião, ou golpe, contra a República. Esse golpe consistia no assassinato dos dois cônsules e na subjugação do Senado.
Cícero, que era Cônsul, ao tomar conhecimento do planejado golpe, escreveu, então, uma série de quatro discursos célebres contra Catilina, pronunciados em 63 a.C. Esses discursos denominados Catilinárias, posteriormente, se notabilizaram.
Logo de início, destilavam:
“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?
Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os tremores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a tem já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberação foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes fatos, o cônsul tem-nos diante dos olhos: todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no Conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar um a um para a chacina. E nós homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul, contra ti e que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.”
Cícero tornou-se o homem mais importante de Roma, ao lado de Marco Antônio. O primeiro, como porta-voz do Senado e o segundo como Cônsul. Só que os dois nunca tiveram uma relação amigável, o que piorou quando Cícero acusou Marco Antônio de abusar na interpretação das intenções e dos desejos de Júlio César.
Cícero articulou um plano para colocar no poder o herdeiro de César. Mas, seu plano não saiu como desejava. Octaviano aliou-se a Marco Antônio e formaram um triunvirato, juntamente com Marco Emílio Lépido, para governar Roma.
Esse triunvirato elaborou uma lista de pessoas que deveriam ser consideradas inimigas do Estado, na qual Cícero foi incluído. Como o intelectual romano era muito bem visto por grande parte do público, Octaviano se recusou a inseri-lo nessa listagem. Mas, a medida drástica foi inevitável.
Cícero foi capturado no dia 7 de dezembro do ano 43 A.C. , quando tentava fugir para a Macedônia. Seus escravos ainda tentaram escondê-lo, mas os assassinos o encontraram e o mataram. Cícero teve a cabeça cortada e as mãos também, por ordem de Marco Antônio, partes que foram pregadas no Fórum Romano.
Ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, fica-se menos espantado diante dos quadros de corrupção e impunidade dos dias atuais.
Foi na antiga civilização romana que o modelo político da república se desenvolveu.
República, em sentido literal, quer dizer “Coisa Pública”, “Bem Público”, isto é, aquilo que diz respeito à vida em sociedade, à administração dos interesses e necessidades de todos.
Esse modelo político passou a vigorar na antiga Roma, após a queda de Tarquínio, o Soberbo, último rei da dinastia etrusca (dinastia que governou Roma durante 244 anos), no ano de 509 AC.
Com o advento da República, a estrutura monárquica foi abandonada e em seu lugar, novas instituições foram erguidas. Dentre elas, as mais importantes eram a Magistratura (que executava a administração pública) e o Senado (composto pelos cidadãos mais velhos, que eram encarregados da elaboração das leis e do controle da ação dos magistrados).
Dos vários cargos da magistratura, o mais alto era o de Cônsul. Quem estava à frente do poder da República eram dois Cônsules, escolhidos pela Assembleia Curiata, ou Assembléia das Cúrias, organismo legislativo, que existiu durante o período da Monarquia em Roma.
O que Cícero clamava há dois mil anos, pode ter se perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos. Entretanto, a corrupção que ele verberava continua impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade.
Além de um grande filósofo e escritor, Cícero deixou um legado de grande influência à cultura europeia.
Tornou-se uma das principais fontes primárias para o estudo da Roma antiga.
Para onde quer que se olhe, nos dias atuais, a paisagem não está tranquila. Se as árvores estão paradas e as casas mudas e tristes, o seu silêncio é o de estarrecimento, insegurança e torpor.
O povo sofre a crise constitucional que afeta os poderes da Democracia.
Atualmente, a liberdade de expressão é limitada, e o povo assiste, impotente, às injustiças cometidas contra parlamentares, com foro privilegiado.
A fome é uma doença crônica, que somente a comida pode controlar.
É estranho o comportamento de pessoas, portadoras de doenças crônicas como hipertensão arterial e diabetes, que se recusam a procurar tratamento médico. Mesmo sendo doenças crônicas, para o resto da vida, essas doenças podem ser controladas. Para isso, o doente terá que se submeter a uma rotina diária de tomar a medicação prescrita pelo médico.
A doença crônica da fome, se não for tratada diariamente, pode levar o doente a óbito em um mês. E o remédio diário é um farto prato de comida, no mínimo, três vezes ao dia.
Esses pacientes que tem medo de médico devem ser adeptos da filosofia dos avestruzes. Dizem que quando um avestruz avista um leão, enfia a cabeça na areia para não vê-lo.
Acham que ignorando a doença, ela não existe. Ledo engano. O leão existe e está sempre à espreita.
Entretanto, para a doença da fome, o único remédio que existe é a comida, como o feijão com arroz e carne, leite, ovos etc. diariamente.
Há pessoas que brincam com a saúde e dizem ter medo de médicos. “Esquecem” de tomar os remédios por eles prescritos, e adotam a filosofia do avestruz. Acham que médico só faz descobrir doença. E usam o velho ditado popular: “o que os olhos não veem, o coração não sente.”
Acham que escondendo a doença, ela não existe.
Conheço pessoas que evitam ir a médicos, com medo de que eles descubram nelas alguma doença incurável. Fogem do tratamento precoce ou preventivo, como o diabo foge da cruz, e só procuram o médico, quando a doença já avançou.
Acontece que o leão é verdadeiro e vive à procura de caça. Por isso, não adianta o avestruz enfiar a cabeça na areia, para não ver o leão, pois terminará sendo devorado por ele.
Os avestruzes são injustiçados. Seus detratores declaram que aquelas aves são de uma estupidez sem paralelo. Dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia, como quem diz: “se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim, desde que eu continue com a cabeça enfiada na areia.”
Não haveria problema nenhum, se o leão não existisse. Mas o leão existe, é caçador, e termina devorando o avestruz. Entretanto, é estranho que o avestruz, pelo instinto de conservação, não fuja do leão, ao invés de enfiar a cabeça na areia. Mas o que não se admite é que a pessoa humana evite ir ao médico, mesmo com sintomas de uma doença.
“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa)
O mundo é pequeno, mas a maioria dos homens se julga tão grande, que não se pode andar em direção alguma, sem se correr o risco de pisar nos calos de alguém. Se, porém, ficarmos parados, os que tem pressa passarão por cima de nós e pisarão nossos pés.
Não agradamos a ninguém pela nossa brandura, e jamais agradaremos pelo nosso modo ríspido de dizer a verdade. Temos que dizer sim aos mandões, sob pena de ficarmos antipatizados.
Seja qual for a forma de procedermos, teremos sempre inimigos gratuitos. E não são poucos.
A simplicidade dos bons é vista como idiotice por parte dos esnobes, prepotentes e ambiciosos.
O culto ao dinheiro por parte dos invejosos, faz com que eles sofram, com inveja daqueles que são controlados e não gastam mais do que podem.
As “parcelinhas” do cartão de crédito tiram o sono dos irresponsáveis, viciados em dever.
O pior é que muitos acham que quem economizou e fez um pé de meia, deve abrir mão do que tem, para dar cobertura à irresponsabilidade deles, que sempre gastam mais do que podem, optando pelas coisas supérfluas e deixando as necessárias para depois. Estes planejam sempre tirar vantagem do dinheiro alheio, e no vocabulário deles não existe a palavra “escrúpulo”.
A inveja, o olho grande e a ganância fazem do mundo uma competição. Ninguém perdoa o sucesso de ninguém e as boas qualidades de uma pessoa são ignoradas. Enquanto isso, os defeitos são procurados com lente de aumento, ou lupa.
Há pessoas vaidosas e orgulhosas, que parecem certos pasteis de feira. Tem uma casca crocante e estufada, de chamar a atenção. Mas, por dentro, quase não tem recheio. Um verdadeiro engodo.
Isso me faz lembrar um ditado do tempo da minha avó paterna, D. Júlia: “Por cima, muita farofa, e por baixo molambo só”.
Décadas atrás, entrando pelo século passado, a pequena cidade de Nova-Cruz (RN) era paupérrima, “sem água e sem luz” e não dispunha de consultórios médicos, ambulatórios nem hospitais.
A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.
Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.
Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.
Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…
Pois bem. A feira municipal de Nova-Cruz era na 2ª feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.
Do balcão da bodega do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.
A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e quase todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.
Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “MARCA OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.
A precariedade da vida em Nova-Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “Marca Olho”. Era o sinal de que o grau era aquele.
De Nova-Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, os feirantes da zona rural eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.
Também na feira de Nova-Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.
Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira.
No Nordeste brasileiro, ainda hoje se usa uma expressão popular, quando se quer dizer que alguma coisa é muito antiga e ultrapassada:
“Isto é do tempo do Ronca”.
Há quem diga que essa expressão é uma variante do dito popular “do tempo do Onça”.
Na verdade, as duas expressões tem o mesmo sentido.
O “Onça” foi um apelido dado a um governador da capitania do Rio de Janeiro, no sec. XVIII. O mandatário era conhecido por sua honestidade e rigor no cumprimento da lei, o que contrariava os desonestos, acostumados a mamar nas tetas da Nação.
De acordo com o que a mídia nos mostra, quem quiser, nos dias de hoje, encontrar um governante honesto, terá o mesmo trabalho de quem procura encontrar uma agulha num palheiro.
Pois bem. “Onça”, como ficou conhecido o governador do Rio, que cultuava a honestidade e detestava ladrão, colocou ordem no “galinheiro da casa”, e por isso era considerado pelos desonestos, como um homem intolerável, doido e idiota.
O governador “Onça” fez com que os recursos da Coroa fossem gastos de forma eficiente e transparente; fez uma devassa no transporte do ouro de Minas ao Rio; trouxe segurança à população e tomou medidas enérgicas contra todo tipo de malandros, ladrões, desordeiros, arruaceiros e esquerdopatas que infestavam o Rio de Janeiro.
O “Onça” também era implacável com os ladrões de “colarinho branco”. Sua honestidade lhe causou muitos problemas na vida política. Ele acabou com as mamatas e governou de forma honesta e rígida, o que desagradou a elite local, acostumada aos “favores” do governo.
Como ele não apoiava vagabundos e malandros, e era intolerante à desonestidade independente de classe ou posição social, acabou por ganhar esse apelido de “Onça”, o animal mais temido da época.
Os atritos políticos fizeram com que o “Onça” terminasse sendo destituído do cargo de governador.
Como se vê, ser honesto, já no século XVIII, era uma coisa complicada na política nacional. O “Onça” foi um exemplo de como é possível, e ao mesmo tempo difícil, governar com honestidade e probidade, sem usar de medidas extremas de restrição à liberdade de ir e vir. Por isso, “Onça” era admirado pela banda decente da população, mesmo sem escapar da crítica daqueles que consideram idiotas e burras as pessoas honestas.
O “Onça” se chamava Luís Vahia Monteiro. Governou o Rio de Janeiro de 10/05/1725 a 22/04/1732. Também foi apelidado de “virgem no bordel”.
Quase 300 anos depois, ser honesto ainda causa polêmica!
Frase do governador Luís Vahia Monteiro, em carta ao rei D. João V.
“Senhor, nesta terra todos roubam. Só eu não roubo.”
Os jogadores compulsivos agem como os apaixonados e como os alcoólatras, sob o império de uma força irresistível.
Há pessoas tão votadas ao jogo, como votadas ao amor. Cultivam seu vício até o fim da vida.
A paixão pelo jogo também é vista como um ato de destruição do patrimônio e da família, levando, às vezes, o jogador à miséria.
O vício do jogo é uma luta corpo a corpo com o destino. Arrisca-se o dinheiro, na certeza de se ter de volta muito mais do que se jogou. O jogador tem certeza de que vencerá, como se por trás da certeza existisse um pacto com o diabo.
O jogo é alimentado por sonhos. O jogador vê no jogo uma divindade e nos jogadores os devotos. A carta esperada ou a bola que corre, dará, talvez, ao jogador os bens materiais que alimentam seus sonhos, sejam viagens, apartamentos, casas de praia, carros de luxo, jardins, parques, bosques e castelos.
A paixão pelo jogo também é vista como um corvo, que vê de longe o cadáver do jogador.
O mais terrível do jogo é que ele dá o dinheiro e ele mesmo o tira rapidamente. No jogo do bicho, então, há uma piada que diz: o bicho dá e o bicho mesmo come. É mudo, cego e surdo. Não escuta lamentos. Tem os seus devotos e os seus santos.
Quando o jogador perde, acusa a si mesmo pela derrota e jamais se revolta contra o jogo, como se este exercesse um grande feitiço sobre ele.
Há quem tenha adoração por jogo, por tudo o que ele promete, e que, por uma sorte grande um dia poderá dar a alguém. Há também aqueles que consideram o vício do jogo uma das maiores desgraças que penetram na vida do homem pela algibeira, arruínam seu caráter e às vezes sua fortuna. O jogo abrange as cartas, os naipes, os dados e a mesa verde.
Em Nova-Cruz (RN), na época da minha infância, havia dois irmãos, que pareciam dois galãs, por nome Tássio e Tarquino. Eram jogadores de cartas compulsivos. Como perdiam tudo quanto tinham no jogo, chegavam a apostar até a roupa que vestiam. Certa vez, Tássio chegou em casa somente de cuecas, Tinha apostado até o paletó e as calças que vestia. A mãe deles, viúva, sofria muito com isso. Essa família mudou-se para o Recife e não foi mais a Nova Cruz.
Pois bem. Um certo vigário de uma pequena paróquia do interior do Estado, que passava por sérias dificuldades financeiras, inteligente e arguto, aproveitando-se das imunidades morais do seu local de trabalho, mandou colocar na sacristia da sua Igreja quatro mesas, em torno das quais reunia todas as noites, alguns cavalheiros respeitáveis, ricos, católicos e moderados, para jogar “poker”, ou pôquer.
Esse fato foi levado ao conhecimento do Arcebispo, que, imediatamente, mandou chamar o Pároco à capital, para pedir-lhe explicações. Sem qualquer arrodeio, o Pároco confessou:
-A Igreja, Sr. Arcebispo, estava estragadíssima, e eu, com o intuito de repará-la, saí com o pálio do Santíssimo, a pedir esmolas para as obras. Bati de porta em porta e não consegui nada. Toda a gente era viciada em jogo e dizia que o dinheiro era pouco para jogar na vaca, no burro e no macaco, e não sobrava dinheiro para o dízimo. Diante disso, como o templo ameaçasse desmoronar, resolvi tirar partido da situação, sem comprometer a autoridade divina. Desviei os jogadores de um clube da cidade para a Sacristia da nossa Igreja, e aí passei a arrecadar o “dízimo de Deus”, destinado à substituição das traves, pintura do templo, e restauração das imagens. Minha ideia serviu para que a Igreja passasse a ser mais frequentada. As Missas agora são lotadas, e os devotos permanecem na Sacristia jogando, até o dia amanhecer.
O Arcebispo cochichou com o Pároco e não se sabe qual a sua resposta.
O certo é que a Paróquia prosperou muito e as Missas continuaram bem frequentadas.