Ia Saulo, centurião romano, de Jerusalém para Damasco, levando ordens do Sumo Sacerdote, para prender e castigar os Cristãos que encontrasse pelo caminho, quando, de repente, se viu cercado por uma intensa claridade que baixava do Céu. O seu cavalo empinou-se espantado, e o atirou ao solo. O soldado de César levantou-se da terra, abriu os olhos e soltou um grito de dor, ao perceber que estava cego.
Esse pagão foi S. Paulo, que, mesmo mergulhado nas trevas, viu a Cristo, e a cegueira o redimiu..
– SAULO! SAULO! Por que me persegues? – gritou-lhe o Senhor.
E Saulo, convertido, foi o mais perfeito soldado de Deus, que, para que o servisse, lhe restituiu os olhos, e lhe deu com eles, o prestígio da fé.
Pois bem. Certa vez, entrando pelo século passado, um jovem soldado cego, acompanhado do seu guia, dirigiu-se ao Quartel General, procurando falar com o Ministro da Guerra. Levava em mãos um ofício da Associação Brasileira de Imprensa.
Em 1930, quando houve o maior conflito nacionalista brasileiro (A Revolução de 1930), e quando o país, de norte a sul, se erguia bêbado de esperança, para renovar o seu panorama político, o jovem Brasil Herói se unira aos que marchavam, e marchou também, rumo à vitória. Mas não foi feliz.
Às vésperas do triunfo, Brasil Herói perdeu a visão dos dois olhos. Um estrondo, uma nuvem de poeira, e, em seguida, a noite, a escuridão. Tateou em torno de si mesmo, procurando apoio. Mãos amigas o seguraram.
Nunca mais viu o sol, e penetrou na noite escura da sua agonia.
Brasil Herói, o soldado cego que a Associação Brasileira de Imprensa mandou apresentar ao sr. Ministro da Guerra, “não vinha a Damasco para combater os Cristãos, mas para aliar-se a eles, no serviço da nova religião.”
Os que marchavam a seu lado traziam todos, ambição e esperança. O que menos pretendia, pretendia uma porção de liberdade. E todos, ou quase todos, conseguiram o que desejavam. Houve quem se contentasse com um cartório, e houve quem se satisfizesse com um pão. E houve, até, quem se sentisse pago da viagem longa, e dos riscos da expedição militar, amarrando o seu cavalo a uma coluna de pedra no coração da Avenida.
Ao término da infeliz marcha, o agora cego, Brasil Herói, não pediu nada à Revolução. Não cobiçou uma pasta de ministro, não pleiteou coisa nenhuma. Não foi candidato a um lugar de tabelião. Não solicitou promoção no exército. Não desejou para si, um cargo, até então, ocupado por outrem.
Brasil Herói queria, apenas, os seus olhos de volta, isto é, as duas moedas que lhe haviam sido arrebatadas e que lhe davam direito a assistir a todos os espetáculos da vida e do mundo! Seus olhos eram o seu maior tesouro.
Desiludido de reavê-los, o jovem soldado da Revolução de 30 foi bater à porta da Associação Brasileira de Imprensa. Não foi pedir que enxergassem por ele, pois sabia, por dedução, que isso seria impossível. .
Tateando o corrimão da vasta escadaria, que levava ao salão da Associação Brasileira de Imprensa, Brasil Herói foi pedir ao seu presidente, simplesmente, que lhe conseguisse, do sr. Ministro da Guerra, uma cama e um prato, no Asilo dos Inválidos da Pátria, a fim de que pudesse assistir, sem fadiga e sem fome, com o auxílio dos ouvidos, ao desenrolar do espetáculo da Revolução, no qual colaborou obscuramente, trabalhando na preparação dos cenários. Operário na “construção de Babel”, perdeu a vista, quando carregava o seu tijolo. Tem direito, pois, de acordo com a lei que regula os acidentes do trabalho, ao amparo por parte do dono da obra.
Brasil Herói foi atendido no seu pedido desesperado, de ter ao menos, uma cama e um prato no Asilo dos Inválidos da Pátria. Nada, porém, consolaria alguém de ter perdido totalmente a visão, passando a viver nas trevas, sem sol, sem lua e sem estrelas.
Diz a História, que os revolucionários brasileiros tem uma infinidade de defeitos, mas lembram, principalmente, os civis, e particularmente os do Rio Grande do Sul. O que lhes falta, às vezes, em tato político, sobra-lhes em bom coração.
Levam surras tremendas, mas não se vão, mesmo recebendo compressas de vinagre nas equimoses. Abrem-lhes feridas com espada e, ensanguentados, aceitam o bálsamo que as cicatrize.
A capacidade de sofrer, do ser humano, é imensa.
A Brasil Herói, o desventurado cego, a quem a Associação Brasileira de Imprensa estendeu a mão do seu presidente, restou o consolo de uma cama e um prato no Asilo dos Inválidos da Pátria.
Os homens públicos, como se sabe, não tem tempo para reflexões. O ócio e outros sentimentos rudimentares se transformam em ideias e axiomas, e sobrevivem, comprometendo a ordem pública e a fraternidade humana.
E assim caminha a humanidade, sempre sob o império das paixões.
Que texto maravilhoso. Guardarei para releituras ao longo do que me resta de vida.
Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Jaime!
Bom final de semana! Vida longa, muita saúde, alegria e paz!
Cara e Divina Violante, um excelente texto, um tanto pessimista.
Eu tenho a crença de que o Brasil Herói tem esperança e que breve
veremos a redenção de nossa pátria.
Estarei eu cego também?
Um bom final de semana.,
Obrigada pelo comentário gentil, prezado João Francisco!
Deus queira que você esteja certo.
Mas, vejo o nosso Brasil Herói numa encruzilhada.
Que as forças do mal sejam banidas, para felicidade do povo brasileiro!.
Avante, Brasil!, ,.
Bom final de semana!
Se futebol, política e religião forem servidos à mesa (qualquer mesa) veremos sempre contendas em doses cavalares, como escreveu a Vivi: “E assim caminha a humanidade, sempre sob o império das paixões”.
Zé da Zana (motorista) e Zé Larica (ajudante de caminhão), em viagem recente pelo litoral paulista (região do Guarujá) começaram a papear sobre “de tudo um pouco” até que entraram na pantanoso terreno da política.
Da Zana é bolsonarista e Larica é petista. Resultado: Larica foi parar no pronto socorro com lábio cortado e alguns dentes bambos.
E lá foi Sancho descer a serra para resgatar o Larica, pois Da Zana recusava-se a deixar o cabra seguir viagem no Quixote Terceiro.
Um ótimo final de semana à bolsonarista Vivi, das ensolaradas terras potiguares.
Obrigada pelo comentário gentil, prezado Sancho!
Futebol, política e religião são temas proibidos em reuniões de família e de amigos, salvo quando todos tem o mesmo pensamento. Isso, porque o fanatismo está presente em toda parte, e as brigas por política surgem do nada, às vezes, com sérias consequências..
Olhe aí Zé da Zana (motorista) e Zé Larica (ajudante de caminhão), se engalfinhando por causa de política, em pleno trabalho…
“E lá foi Sancho descer a serra para resgatar o Larica, pois Da Zana recusava-se a deixar o cabra seguir viagem no Quixote Terceiro”. .
Grande abraço e bom final de semana para você também!
Violante,
Parabéns pela crônica que se inicia com a conversão de Saulo e, posteriormente, a história emocionante de Brasil Herói. Confesso que não conhecia essa saga tão bem descrita por sua capacidade de encantar os leitores com descrição perteita e poética de sua inspiração tão conhecida pelos fubânicos.
Aproveito a oportunidade para compartilhar um poema de Bráulio Bessa com a prezada amiga:
FÉ, RELIGIÃO, AMOR E RESPEITO
Respeite mais, julgue menos!
Perdoe mais, condene menos!
Abrace mais, empurre menos!
Faça mais, fale menos!
E se o assunto for religião,
seja razão, seja sua razão.
Mas também seja coração,
aliás, seja plural, seja corações
de todas as crenças,
de todas cores,
de todas as fés,
de todos os povos,
de todas as nações!
Não transforme sua fé
em uma cerca de arames cortantes!
Use ela pra se transformar
em alguém melhor que antes.
Em alguém melhor que ontem!
Se transforme,
transforme alguém,
afinal, do que vale uma prece
se você não vai além?
Se você não praticar o bem?!
Pratique o bem
sem olhar a quem!
Sem se preocupar com a crença de ninguém!
Pois acredite, Deus não tem religião também!
Deus é o próprio bem!
Deixe Deus, ser o Deus de cada um!
Deixe cada um ter o Deus que quiser ter!
Seja você! E deixe o outro ser o que ele quiser ser!
Seja menos preconceito!
Seja mais amor no peito!
Seja amor, seja muito amor!
E se mesmo assim for difícil ser
não precisa ser perfeito.
Se não der pra ser amor
seja pelo menos RESPEITO!
Desejo um final de semana com paz, saúde e felicidade
Aristeu
Obrigada pelo elogioso comentário, prezado Aristeu, e por compartilhar comigo o belo poema FÉ, RELIGIÃO, AMOR E RESPEITO, do grande poeta Bráulio Bessa!:
Gostei imensamente.
Desejo a você também, um final de semana com paz, saúde e felicidade!