VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A ARMA

Quem se arma para se defender não é o mendigo, mas sim alguém que possui alguma coisa de valor, e quer preservar.

Tal qual a Abelha, que usa o ferrão para se defender, o homem também precisa saber defender a si e à sua família.

Certa vez, uma Mosca se encontrava quieta, pousada em um cortina de uma casa de Homem. De repente, uma Abelha, para encurtar a rota, entrou zumbindo na casa e ficou voando em redor da Mosca.

Era um pequeno inseto quase redondo, o corpo colorido de um azul brilhante e húmido, e que não tinha por hábito , jamais, passar por aqueles lugares. Ao vê-la deter-se no seu voo, a Mosca deu uma ligeira volta e foi sentar-se à pequena distância.

Mostrando-se descontraída, com modos de quem queria puxar conversa, mas sem dar muita confiança, a Mosca deu bom dia à Abelha e perguntou-lhe se também era uma Mosca.

Com arrogância, o inseto respondeu que era uma Abelha e vivia das flores. Por isso não poderia jamais ser confundida com uma Mosca.

A Mosca, ressentida com a resposta grosseira, respondeu que se a Abelha fosse uma Mosca igual a ela, não seria desonra. Muito pelo contrário, passando de Abelha a Mosca, ela somente lucraria com a transformação, pois sabia que as abelhas trabalham o dia todo, para sustentar as companheiras que ficam em casa, além de andar armada com um ferrão, para enfrentar as brigas. Enquanto ela, não trabalhava e quando acordava, a comida do dia já estava pronta. Não sustentava ninguém, pois na família das Moscas, cada uma cuida de si. Não andam armadas e diante de um ataque, elas fogem. Por isso, não precisava trabalhar.

A Abelha, com desdém, perguntou à Mosca se era vantagem, ao acordar a comida já estar pronta. Sabia que Isso só ocorria porque a comida de que ela se alimentava era podre, pois o almoço da Mosca é no monturo. A Abelha disse à Mosca que ela tinha o que merecia, pois quem não trabalha vive da podridão.

A Mosca respondeu que não trabalhava para ela, nem se sacrificava pelos outros, ao que a Abelha revidou, dizendo não invejar aquela felicidade. Se ela não prestava favores aos outros, também ninguém os faria a ela, e que a Mosca era bem diferente da Abelha e da Formiga, que sempre ajudam quando alguma delas precisa.

Debochada, a Mosca respondeu que aquilo era o progresso e que a sua espécie era companheira do Homem; vivia na casa dele e é com ele que tem aprendido essas regras de sabedoria.

A Abelha, indignada, respondeu que é por isso mesmo que não queria a companhia do Homem. Quando ele muda o cortiço dela para as proximidades da sua casa, ela fica no mesmo local, mas todos os dias vai para o mato, jardins, chácaras, e vida livre. Disse que não era como a Mosca, que se metia nas casas, pousava no nariz das pessoas, comia sobejos, e ficava na cozinha, rodeando os pratos sujos e a lata do lixo. Finalmente, disse que amava a vida independente e as coisas simples da natureza.

Indignada, a Mosca, que se dizia pacifista, perguntou à Abelha, por que razão, então, se ela levava uma vida tão boa e livre, andava armada com um ferrão.

A Abelha achou graça e respondeu que somente quem não tem o que defender, não se arma. E repetiu que a Mosca, certamente, não andava armada, porque não tinha nada para defender, para guardar nem preservar contra os inimigos.

Perguntou se a Mosca tinha casa, filhos, alguma propriedade, e de que se sustentava. A Mosca respondeu que não tinha casa, e filhos, os que ela paria deixava-os no monturo e ia embora; não tinha nenhuma propriedade. Dormia onde a noite a apanhava e vivia do que encontrava pelo caminho. Sustentava-se daquilo que ninguém queria mais.

Pensativa, a Mosca disse para a Abelha, que, se ela levava uma vida tão feliz, não precisava de um ferrão. E se não queria o que os outros tem de bom, nem ninguém queria o que ela tinha, de nada lhe servia um ferrão.

A resposta da Abelha foi que a arma serve para defender quem possui alguma coisa a preservar. Quem nada tem, não precisa de arma ou ferrão. Quem se arma para a defesa, não é o mendigo, mais sim o o que possui alguma coisa de bom.

Dando de ombros para a Mosca, a Abelha disse-lhe: É por isso que eu ando armada..

Esse é o único ponto em que estão de acordo a sabedoria das Abelhas e a sabedoria das Nações.

E, levantando voo, a Abelha, alegre e ligeira, tomou o caminho do seu cortiço.

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ELAS POR ELAS

Diz o ditado popular que “as aparências enganam.

Décadas atrás, Gasparino, um cidadão bonito e falante, funcionário público aposentado, conquistador barato e puxa-saco de políticos, parecia honesto, mas não era.

Astucioso e calculista, para adquirir a confiança das pessoas, fazia questão de devolver pontualmente tudo o que pedisse emprestado a alguém. Por isso, sem dificuldade, encontrava sempre quem lhe emprestasse dinheiro, mediante juros baixíssimos.

Do dia para a noite, Gasparino se apaixonou por Lisiane, a jovem e bela esposa de Osmar, um rico comerciante e um dos maiores “emprestadores de dinheiro” da cidade.

Julgando que a formosa dama ficaria ancha, por lhe despertar tamanha paixão, não hesitou em lhe enviar um bilhete, declarando os seus sentimentos e lhe propondo um encontro.

Depois de refletir sobre a monotonia do seu casamento e a indiferença com que o marido a tratava, a jovem esposa, após muita hesitação, resolveu aceitar os galanteios de Gasparino. Concordou em se encontrar com ele e entregar-se aos seus desejos, sob a condição de que ele guardasse segredo inviolável e de que lhe arranjasse 200 mil cruzeiros, de que ela naquele momento necessitava.

Gasparino ficou decepcionado com essa exigência, uma vez que a jovem senhora era casada com um homem muito rico. Pouco faltou para que a violenta paixão se transformasse em “fogo de palha” e se diluísse no tempo e no espaço.

Como o homem, pela própria natureza, é caçador, Gasparino não desistiu da investida sobre a bonita senhora e resolveu enfrentá-la, procurando um jeito de ludibriá-la, com uma ideia que lhe viera à cabeça. Mandou dizer-lhe que estava disposto a acatar o seu pedido e lamentava não ser mais rico, para oferecer-lhe uma quantia maior. Bastaria que ela lhe indicasse o dia, a hora e o local em que pudessem se encontrar, que ele lá estaria. Antes disso, lhe entregaria a importância solicitada.

Procurou o costumeiro “agiota”, que sempre quebrava seus galhos, pedindo-lhe um empréstimo de 200 mil cruzeiros, com os juros baixos de sempre. Com prazer, o agiota atendeu-lhe o pedido e Gasparino guardou o dinheiro para dar à sua amada.

A “bela dona” o avisou de que o marido iria viajar brevemente, a negócios, e que demoraria alguns dias para retornar. No mesmo dia ela o receberia em casa.

Alguns dias mais tarde, partiu o comerciante para a viagem a negócios, e a mulher logo mandou um recado ao seu novo apaixonado, dizendo que já poderiam se encontrar, e que ele fosse logo lhe entregar o dinheiro.

Logo pela manhã, Gasparino dirigiu-se à residência da amada, para entregar-lhe o dinheiro combinado. Levou consigo um dos seus amigos e na presença dele falou:

– Aqui estão, minha senhora, 200 mil cruzeiros bem contados, que lhe peço entregar ao seu marido, quando ele voltar da viagem.

Ela os recebeu, sem deslumbrar nas palavras de Gasparino qualquer malícia, senão a de querer evitar que o amigo suspeitasse de alguma coisa comprometedora. Jamais o amigo poderia saber que aquele dinheiro fosse o preço exigido pela bela mulher em troca dos seus favores. E assim, ela respondeu que cumpriria aquela incumbência, no mesmo instante da chegada do seu marido. Conferiu o dinheiro e disse baixinho a Gasparino, que ele voltasse ao cair da tarde, pois estaria sozinha.

No final da tarde, então, estava Gasparino adentrando aos aposentos da bela senhora, por ela conduzido. Passaram a noite juntos e ele não se contentou apenas com esse encontro. Soube convencer a amante de compartilhar com ele o leito, outras vezes, enquanto o marido estivesse viajando.

Quando Osmar, o marido cornudo, retornou da viagem, Gasparino aproveitou o momento em que o comerciante estava em casa com a esposa, para ir visitá-lo. Fez isso na companhia do mesmo amigo que testemunhara a entrega do dinheiro à amante. Depois dos cumprimentos, disse-lhe:

– Amigo, os 200 mil cruzeiros que te pedi emprestados antes da tua viagem, de nada me serviram e por isso, no dia em que viajaste, os devolvi à sua esposa. Dona Lisiane os contou na minha frente e deste amigo aqui presente. Por isso, peço-lhe que dê baixa em seus livros.

Virando-se para a mulher, Osmar perguntou se ela recebera esse dinheiro. Como a avarenta se via diante da testemunha ocular da entrega do dinheiro, nada pôde negar e pediu desculpas ao marido, por ainda não lhe haver entregue.

– Fica sossegado – afirmou o comerciante a Gasparino – hoje mesmo, sem tardar, cancelarei o débito em meu livro.

Ouvindo isto, o golpista se retirou muito contente, por ter assim punido a amante de sua avareza, e por ter tão habilmente gozado seus favores por vários dias, sem ter gasto um “vintém.”

É fácil de imaginar a revolta de Lisiane, diante do golpe sofrido pelo picareta Gasparino, coisa que jamais o marido poderia saber.

E morreu aí a carreira de “chifreira” da avarenta Lisiane.

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O ENXOFRE

Era a hora do jantar. À mesa encontravam-se os anfitriões Silvino e Mara, e seus amigos Hermes e Telmita. Jantavam alegres e descontraídos, saboreando uma deliciosa lasanha, acompanhada de vinho.

De repente, ouviu-se dentro de casa uma voz rouca, chamando: “AFONSO…..”.Imediatamente, o ar foi empestado pelo mau cheiro de enxofre, próprio dos flatos. Em seguida, ouviu-se uma enxurrada de espirros.

Entre eles, não havia ninguém chamado “AFONSO”. Todos se entreolharam, e chegaram a pensar em alma penada.

Mara, visivelmente tensa, disse que a voz e os espirros pareciam ter vindo da rua, pois dentro de casa, além dela, o marido e o casal de amigos, não havia ninguém. Ainda tentou justificar o mau-cheiro de enxofre no ar, dizendo que esse mineral era usado para clarear roupas brancas. E naquele dia, ela havia queimado um pouco de enxofre para vaporizar as roupas brancas estendidas.

Acontece que não era nada disso. A dona da casa, uma mulher jovem e fogosa, tinha um “choro baixo” pelo verdureiro, um rapaz bonito e viçoso, que fazia entregas a domicílio. Nesse dia, o “lanche” com o entregador havia sido demorado, só terminando em virtude da antecipada chegada do dono da casa e o casal de amigos.

O jeito foi empurrar o verdureiro para se esconder no cubículo embaixo da escada, na saleta vizinha.

Tornaram a ouvir a voz cavernosa chamando “AFONSO!” e outros espirros. Aí o bicho pegou. Silvino, que era muito violento, saiu da mesa para caçar o invasor.

Dirigiu-se, exatamente, à saleta, onde estava escondido o verdureiro, no cubículo feito de tábuas, embaixo da escada. Viu, então, ali deitado, um rapaz todo defecado, e emitindo outros sons de “Afonso”, numa descontrolada diarreia.

Ordenou ao “invasor” que saísse dali imediatamente, mas o rapaz continuou deitado, tremendo da cabeça aos pés, sem condições de se levantar. Silvino agarrou-o por uma perna, puxou-o para fora, atingindo-o com um golpe de faca. Mas o amigo Hermes o impediu de consumar o tresloucado ato de matá-lo.

Os gritos de Hermes, para defender o suposto pé de lã das garras de Silvino, atraíram alguns vizinhos, que, vendo o rapaz quase morto, o levaram ao pronto-socorro.

Voltando-se para a esposa, Silvino disse que via agora, por qual motivo ela o havia deixado, juntamente com o casal amigo, tanto tempo esperando para abrir a porta.

Sem respeitar a presença do casal, disse, aos gritos, que esse procedimento da mulher merecia uma “recompensa, que ela jamais esqueceria.

Sob os insultos do marido, Mara saiu da sala, e, sem procurar se justificar, pôs-se em fuga, para lugar incerto e não sabido.

A fama de corno de Silvino se espalhou pela cidade, além de ser processado por tentativa de homicídio, mesmo “em legítima defesa da honra”.

Mara “caiu na vida” para sobreviver, protestando sempre que não seria ela a primeira nem a última mulher a colocar chifres no marido, pois como diz a música do compositor Rossini Pinto, interpretada por Núbia Lafayette (1972), “não é só casa e comida que faz a mulher feliz”.

Núbia Lafayette – Casa e Comida

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LEI DE TALIÃO

O Código de Hamurabi foi o primeiro código de leis escrito da história e se baseava na Lei de Talião, que determinava que a punição do criminoso fosse semelhante ao delito cometido, ou seja, “olho por olho, dente por dente”. Vigorou na Mesopotâmia, quando Hamurabi governou o primeiro império babilônico, entre 1792 e 1750 a.C. Esse código era constituído por 281 preceitos, gravados em uma pedra negra e cilíndrica de diorito. Atualmente, essa pedra está exposta no Museu do Louvre, em Paris (França).

Pois bem. Décadas atrás, quando se supunha que houvesse mais pudor e compostura, Lazarine não perdoava a indiferença sexual de Plínio, com quem se casara há um ano. Continuava virgem e não tinha coragem de revelar aos pais nem a ninguém.

Seu marido era um homem riquíssimo, conhecido como amante dos prazeres, mas suspeito de não gostar dos prazeres oferecidos pelas mulheres.

Para afastar essa fama, resolveu se casar com essa linda jovem, 20 anos, alta, elegante, olhos verdes e ruiva, um tipo físico que atraía qualquer homem.

Infelizmente, para decepção da jovem, seu marido não procurou cumprir a obrigação natural do matrimônio, nem na noite de núpcias. Seus gostos e sua inclinação o afastavam das mulheres. Dormia com a esposa o menos que podia, e assim mesmo como se fossem irmãos.

Era público e notório que seus gostos nada tinham a ver com o sexo feminino. Seu modo de agir decepcionou a jovem esposa, uma mulher normal, na flor da idade e com os hormônios fervendo.

Lazarine percebeu que o marido tinha aversão ao aconchego na cama, e repulsa ao seu corpo. Como era bem dotado e cheio de vigor, as suspeitas de que ele tivesse alguma perversão fora de casa, passaram a incomodá-la.

Sentindo-se rejeitada sexualmente, a primeira ideia que lhe acorreu, foi dar-lhe o troco, com indiferença total e talvez uma traição.

Com o tempo, as indiretas ao marido começaram a fluir da sua boca, com censuras, insultos e injúrias. Não houve jeito dele se tocar e procurar contornar a situação. Sua frieza era gritante e a mulher não suportava mais.

Sentindo-se sozinha e sem ânimo para se separar desse homem tão rico e respeitado, numa época em que a mulher era apenas um objeto de uso pessoal, Lazarine procurou fazer amizade e se aconselhar com uma beata conhecida na cidade, que, na realidade, era uma cafetina.

Estava disposta a se vingar do marido, procurando sentir os prazeres com que sonhava e dos quais ele a privava.

Tinha entrado no casamento com um bom dote e só o aceitou como esposo por pensar que ele fosse um homem normal, que gostasse do que os outros homens gostam e devem gostar. Se ela soubesse que ele tinha aversão ao sexo feminino, jamais com ele teria se casado. Preferia mil vezes ter continuado solteira..

Jamais o perdoaria por tê-la usado, para tapar a boca do povo. Se ela quisesse renunciar aos prazeres do mundo, teria ingressado num convento para ser freira. Mas já que não renunciou, não era justo estar sendo privada desses prazeres, enquanto o marido ficava na rua até altas horas da noite, fazendo só Deus sabia o que.

Ao conversar com a beata e contar o drama por que estava passando, ouviu da experiente mulher que não abrisse mão da sua mocidade, nem renunciasse aos prazeres do seu corpo e da sua vida, pois, quando a frescura de sua pele tiver cedido lugar às rugas da velhice, ela não encontrará mais nenhum homem que a queira. Como diz o antigo ditado: “Às moças, o bom-bocado; às velhas, o rebotalho.”

E a beata disse à jovem que iria lhe arranjar os amantes que ela escolhesse. Era só dizer os nomes, ou os tipos que ela quisesse e deixar o resto por conta dela. O único favor que pediu foi que Lazarine a ajudasse sempre, pois era uma pobre mulher necessitada.

Lazarine disse à beata o tipo e características de um rapaz que sempre passava por seu bairro e pelo qual ela tinha grande simpatia. Mandou que sondasse se ele era aproveitador de mulheres ou se era decente.

A mulher não tardou em levar o rapaz à sua presença. Alguns dias depois, arranjou-lhe o segundo, e mais tarde um terceiro, e ainda outros em seguida, de acordo com a fantasia da jovem dama, que, por instinto de vingança, queria sempre novas emoções para a sua “galeria do amor”. Apesar de tudo, não se cansava de tomar precauções, para evitar que o marido soubesse do seu novo gênero de vida, por maiores que fossem as culpas que ele tivesse para com ela.

Como era dotada de bom apetite, a jovem esposa multiplicava e prolongava tanto quanto podia as visitas dos galãs por ela escolhidos, um de cada vez, a fim de aproveitar o tempo, seguindo o bom conselho da beata alcoviteira.

Um dia em que seu marido fora convidado para cear em casa de um amigo, Lazarine aproveitou a oportunidade para induzir a beata a levar à sua presença um dos mais belos rapazes da cidade, um verdadeiro galã, sendo atendida prontamente. Ronaldo era o nome dele.

Só deu tempo mesmo da dama e o novo amante se sentarem à mesa para cear, Plínio, o marido, bateu à porta, inesperadamente, pedindo aos gritos que a abrissem. Ouvindo aquela voz, a quem não esperava antes de amanhecer o dia, Lazarine julgou-se perdida. Mesmo assim, achou-se no dever de ocultar o rapaz “visitante”, que tampouco imaginava o que seria feito dele.

Sem tempo para raciocinar, sua primeira ideia foi escondê-lo numa espécie de galeria, contígua à sala onde ceavam, e debaixo de um cesto de colocar galinhas, coberto com um saco de estopa. Nesse meio tempo, a criada, que era conivente com a patroa, guardou o que se encontrava sobre a mesa, e correu a abrir a porta ao patrão.

Lazarine, ao ver o marido chegar, mostrou-se surpresa por ele ter voltado tão cedo da casa do amigo. Plínio esclareceu que tinha havido um imprevisto e o jantar fora cancelado.

Não esquecendo do galã escondido debaixo do cesto das galinhas, Lazarine disse ao marido que ele devia ir deitar-se logo. Mas ele queria cear. A mulher mandou que a criada repusesse a mesa e servisse a ceia. Disse ao marido que, na verdade, não costumava se banquetear quando ele não estava.

Na manhã seguinte, os rendeiros de Plínio, logo cedo, lhe trouxeram os produtos de uma de suas fazendas e colocaram os burros, sem lhes dar de beber, numa pequena estribaria, ao lado da galeria onde o rapaz se encontrava escondido no cesto.

Aconteceu que um dos animais, impelido pela sede, libertou-se da corda e saiu da estribaria, farejando aqui e ali à procura de água. Correndo assim de um lado para o outro, passou junto do cesto sob o qual se achava o jovem amoroso, e pisou-lhe os dedos, que estavam um pouco para fora. O pobre diabo, por causa da forma do cesto, viu-se forçado a manter-se curvado sobre o ventre, e pousar as mãos em terra, para sustentar-se melhor. A dor que sentiu o fez soltar um grito de pavor. Plínio ouviu-o, e ficou muito espantado, compreendendo que aquele grito não poderia ter partido senão da sua casa. Saiu da sala, e como o rapaz escondido continuasse a lastimar-se, porque o burro conservava sempre as patas sobre os seus dedos, Plínio gritou, indagando quem ali estava, ao mesmo tempo em que se encaminhava diretamente para o cesto de galinhas.

Levantou-o e encontrou o “pássaro”, que tremia com todos os membros, de medo que o marido irado lhe fizesse passar um mau-bocado. Plínio, que o reconheceu por já lhe ter feito a corte durante longo tempo, mas inutilmente, limitou-se a perguntar-lhe o que viera fazer em sua casa. A única resposta que obteve foi a sua súplica de que não lhe fizesse nenhum mal.

Plínio mandou que o rapaz se levantasse e disse-lhe que nada temesse, mas sob a condição de lhe informar como e por que estava ali.

Enquanto Lazarine sentia-se triste e aflita, temendo que ali ocorresse uma tragédia, seu marido mostrava-se exultante, com a presença do seu “Adonis” em sua casa. Tomou o rapaz pela mão e o levou até ela, que se achava num estado de pavor e sobressalto indescritíveis.

Irônico e irado, Plínio perguntou a Lazarine como justificar aquela situação. Calada e trêmula, a mulher não olhou nos olhos do marido. Ele esbravejou que queria que o diabo levasse todas as mulheres para queimá-las no fogo do inferno, sem exceção, pois eram todas iguais e infiéis.

Ao ver que o marido apenas a estava maltratando com palavras, e calculando que ficaria quites com ele por muito menos do que acreditara, não duvidou de que ele estivesse muito satisfeito por ter em sua casa um rapaz tão bonito.

Esta ideia a reanimou e ela respondeu-lhe, sem parecer perturbada, que o fato dele ter desejado que o diabo levasse todas as mulheres para o inferno não a surpreendia, haja vista que era público e notório que ele detestava o sexo feminino. Porém, graças a Deus não seria assim, pois, afinal de contas, ele podia se queixar da infidelidade dela, mas havia uma gritante diferença entre ela e outras mulheres que se fingiam de santas, e mesmo tendo o amor e o respeito dos maridos, eram descaradamente infiéis. Disse-lhe que, no seu caso, ela não sabia o que era ser amada e desejada pelo marido. Com ele, só tinha conhecido a solidão do leito conjugal e a indiferença. Reconhecia que, em matéria de vestuários e ornamentos, nada lhe faltava. Entretanto, ao invés disso, preferia mil vezes receber dele amor e carinho, coisas que ele não lhe dava. Disse-lhe que é uma mulher normal, e na idade em que se encontrava tinha seus desejos e paixões. Como ele a desprezava, nada a impedia de procurar em outros braços o que ele não lhe dava. Finalmente, disse-lhe que suas escolhas eram seletivas, como o belo rapaz que ali se encontrava, fino e educado.

Plínio, já cansado de tanto “bla-bla-bla”, interrompeu a mulher, dizendo:

– Deixa, mulher, não falemos mais nisso. Hás de ficar contente comigo em relação a esta história. Sabes que sou um bom marido, e assim, nada mais de censuras, de parte a parte. Tudo quanto te peço é uma ceia, pois me parece que este gentil cavalheiro também está com fome. Em seguida, disporei as coisas, de maneira que não tenhas do que reclamar.

A boa dama ordenou, imediatamente, que pusessem de novo a toalha na mesa e servissem as iguarias que ela mandara preparar. E ceou, tranquilamente, com o infame cornudo e o belo mancebo.

O que se passou entre esses três personagens depois da refeição, não é difícil de imaginar. O cornudo, a esposa e o amante se entenderam muito bem.

No dia seguinte, os “novidadeiros” da praça espalharam aos quatro cantos da cidade, cada qual a sua versão. O difícil era dizer quem tinha aproveitado melhor a noite: o marido, a mulher ou o amante.

Diz a voz da sabedoria, que a quem nos prega uma peça, devemos pregar-lhe outra, ou como diz o ditado, “olho por olho, dente por dente.” Se não for possível no mesmo instante, não faltará ocasião.

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OLHA PRO CÉU

De acordo com os historiadores, as festas juninas (Santo Antônio (13/6), São João (24/6) e São Pedro (29/6) tiveram origem no culto aos deuses pagãos, mas depois sofreram influências do catolicismo.

Celebradas no Brasil desde o século XVII, as Festas Juninas ou Joaninas constituem a segunda maior comemoração realizada pelos brasileiros, perdendo apenas para o Carnaval.

Com a chegada dos portugueses ao Brasil, as festas que já existiam na Europa também aqui desembarcaram. Aos poucos, houve uma fusão dos costumes trazidos pelos portugueses com as tradições sertanejas e elementos próprios do interior do nosso País.

Comidas típicas, danças e enfeites, utilizados nas festas juninas, são hoje uma junção de partes da cultura africana, europeia e indígena.

O mês de junho representa a “safra” dos sanfoneiros e dos trios de forró “pé-de-serra” (sanfona, triângulo e zabumba).

Não existe forró eletrizado que supere o forró “pé- de- serra”. Principalmente, para as festas juninas.

Barulho é uma coisa e a boa música é outra.

Sem estourar os ouvidos de ninguém, como, geralmente, faz o forró eletrizado, o forró “pé de serra” faz o povo delirar, principalmente, com o lirismo das músicas do saudoso compositor e cantor brasileiro Luiz Gonzaga do Nascimento (13.12.1912 – 02.08.1989), imortalizado como o Rei do Baião.

Tocando e cantando o verdadeiro forró, com letras cheias de lirismo e encanto, como na música “Olha pro Céu”, o grande compositor Luiz Gonzaga continua vivo, eternizado pelas suas belas músicas, algumas feitas em parceria com Zé Dantas, Humberto Teixeira, João Silva e outros grandes compositores.

As músicas de Luiz Gonzaga são insuperáveis. O lirismo das suas marchinhas e quadrilhas juninas é marcante e encantador.

As quadrilhas tradicionais, com seus trajes matutos, e ao som de músicas próprias para as festas juninas, eram um delírio.

As atuais quadrilhas estilizadas são um fracasso. Irritantes, e com trajes “chocados” de uma só vez. Os trajes são todos iguais, e mais parecem escola de samba.

“Olha Pro Céu” (Luiz Gonzaga – José Fernandes) é um poema lindíssimo e por isso se perpetuou através do tempo.

Assim são as músicas de Luiz Gonzaga, como: Polca Fogueteira, Lascando o Cano, Pagode Russo, Fogueiras de São João, São João na Roça, Fogo sem Fuzil, Quero Chá, Matuto de Opinião, Assum Preto, Asa Branca, Vem Morena, Choromingô, e outras.

Na etimologia popular, a origem da palavra “forró” está associada à expressão da língua inglesa “for all” (para todos). Para essa versão, conta-se que no início do século XX, os engenheiros britânicos, instalados em Pernambuco, para construir a ferrovia Great Western, sempre promoviam bailes abertos ao público, ou seja “para todos”. O termo passou a ser pronunciado “forró” pelos nordestinos.

Outra versão da mesma história substitui os ingleses pelos americanos fixados em Natal, no período da Segunda Guerra Mundial, quando uma base militar foi instalada em Parnamirim (RN). As festas na base aérea eram constantes e os americanos disponibilizavam ônibus para levar as moças da sociedade natalense para os bailes que promoviam. Daí surgiram namoros e muitos casamentos de jovens potiguares com soldados americanos.

Atualmente, o forró é a dança mais popular do Nordeste brasileiro e a que provoca maior animação entre as pessoas jovens. As tradicionais festas juninas só são autênticas, quando abrilhantadas por conjunto de forró pé-de´serra, com sanfona, triângulo e zabumba.

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O VIRA-LATA

O cachorro de rua, chamado “vira-lata”, é o mais fiel que existe, quando arranja um dono que se propõe a tratá-lo com dedicação e carinho. Durante décadas, esse tipo de cachorro sem raça, nascido e criado na rua, foi alvo de preconceito.
O dramaturgo Nelson Rodrigues, de saudosa memória, popularizou a expressão “complexo de vira-lata”, numa demonstração gritante de discriminação.

Dona Lia, minha saudosa Mãe, dizia que o cachorro de olhar mais terno que existe é o vira-lata. E é também o mais amigo do dono.

Convém salientar que as ruas nivelam as pessoas. Elas acolhem o bem e o mal, o Céu e o Inferno. As ruas desconhecem a erudição. Aceitam palavras de baixo calão e chulas, que terminam inseridas nos dicionários.

O vira-lata é um cão de rua, sem coleira e sem patrão. Dorme na sarjeta e quando escuta corneta, corre atrás do batalhão ou da banda.

O Escritor Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 – 1923) conta no seu poema intitulado “O Fiel”, a emocionante história de um cachorro que vivia e sobrevivia nas ruas.

Para sobreviver, garimpava sobejos nas lixeiras dos bares e restaurantes. Era acostumado ao vento e ao frio. Durante as chuvas fortes, abrigava-se nos portais e vestíbulos, mas era sempre enxotado a pedradas e pontapés. Mesmo assim, ele era incapaz de morder alguém. Olhava para as pessoas como quem pedia desculpas por existir.

Certo dia, um pintor boêmio e solitário deparou-se com esse cachorro de rua, de olhar triste, e se identificou com ele. Levou-o para casa e se propôs a cuidar dele, em troca da companhia. Passou a chamá-lo de Fiel.

E falou para si mesmo: Eu sou igual a este cachorro. Sem família e sem amigos. Agora vou ser amigo dele e ele vai ser meu amigo.

Depois de alguns anos passados juntos, dividindo por igual privações e dores, o pintor, por obra do destino, foi contemplado com a glória, que o libertou da miséria. Livres dos aperreios financeiros, ele e Fiel passaram a desfrutar de uma vida tranquila e alimentação farta.

O cão dormia em confortável tapete à borda do leito do pintor. Ao despertar, de manhã cedo, cuidava de acariciar festivamente o seu amo.

Mas o pintor, inebriado com a riqueza, enveredou pelos caminhos da luxúria, das paixões e da esbórnia, circunstância que o afastava cada vez mais do seu leal rafeiro, de quem, aliás, já não tolerava a presença.

A indiferença do pintor entristecia cada vez mais o olhar do cachorro. Os animais sentem quando são rejeitados. E os olhos tristes do animal denotavam que ele entendia perfeitamente o desprezo que o seu dono passara a sentir por ele. Velho e desprezado, o cachorro muitas vezes chegou a ser castigado pelos criados, sem ter feito nada de certo ou errado. Levava pontapés, e foi preterido de acompanhar o dono nos seus passeios pelas ruas. Os pelos começaram a cair e tornou-se rabugento, por falta de trato..

Certo dia, chegando em casa embriagado, tarde da noite, e encontrando o cachorro dormindo no seu quarto, o pintor se voltou contra ele, irado:

– Que fazes aqui, animal lazarento? Hei de pôr fim à tua teimosia agora mesmo!!!

Mas, fingindo calma, continuou:

– Ó meu querido amigo fiel, de tantos anos, tão velho e doente, vamos passear!

E na escuridão da noite, seguiram os dois em direção ao cais. O comportamento do pintor assustou o cachorro, que se recusou a andar, mas foi forçado pelo dono. O cachorro pressentia que alguma coisa funesta o esperava. Repetia-se, no fiel animal, a cena do beijo de Judas em Jesus Nazareno.

Bruscamente, o pintor arremessou o cão às águas profundas e geladas, mas junto se foi o gorro de memoráveis lembranças, do qual ele tanto se orgulhava.

De volta à casa, o pintor exclamava indignado:

“Por causa desse cão lazarento, perdi o meu gorro de estimação, que me trazia tão boas recordações! Eu devia tê-lo envenenado!!!, Pagarei uma grande recompensa a quem conseguir encontrar meu gorro!!!

Deitou-se, mas, não conseguiu dormir, contrariado por ter perdido o gorro. Ao amanhecer o dia, sentiu bater a porta; ergueu-se e foi abrir. Recuou, cheio de espanto e horror. Era o amigo fiel, a quem ele traíra miseravelmente.. Era o cão que voltava arquejante, encharcado, a tremer e a uivar no último estertor. E o cão tombou fulminante, deixando cair da boca o gorro do diabólico pintor.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

NOITE SEM ESTRELAS

Num passado remoto, chegava ao Estado de São Paulo, de navio, um amontoado de retirantes nordestinos, flagelados pela seca, com destino à lavoura do Café.

Entre eles, havia um sexagenário cego, Genaro, que não conseguia ver nem ser visto, por ser do tipo de gente que a gente não vê, “porque é quase nada”. Sua dolorosa e indesejável deficiência visual o tornava um “eu sozinho”. As pessoas pobres de espírito se afastavam dele, como se a cegueira pegasse.

A bem da verdade, a deficiência visual do cego o tornava totalmente incapaz para o trabalho na lavoura. Por isso, sua inclusão entre os retirantes era inadmissível.

De um modo geral, os retirantes não gozavam de tratamento digno por parte dos funcionários em serviço. Eram vistos por eles como carga indesejável e mal cheirosa, que lotava o navio.

Não eram considerados passageiros, mas apenas fardos de couro fresco, com carne magra por dentro, provocada pela fome, e pela triste carga do trabalho sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, irmão da “bucha do canhão”.

Ao ser notada a sua deficiência visual, o cego Genaro foi interpelado pelo funcionário responsável pelo setor de imigração e explicou sua presença entre os retirantes como um grande equívoco de despacho. Seu destino seria o “Asilo dos Inválidos da Pátria”, no Rio, mas pregaram nas suas costas a papeleta do “Para a agricultura”, e ele foi “jogado” entre os retirantes destinados ao trabalho na lavoura do café. Como não tinha olhos para se guiar nem olhos alheios que o guiassem, estava vivendo o triste destino dos desvalidos e invisíveis.

– Por que para o Asilo dos Inválidos da Pátria, no Rio? Perguntou-lhe o funcionário. É voluntário da Pátria?

– Sim, respondeu o cego. Fiz cinco anos de campanha no Paraguai e lá apanhei a doença que me pôs a noite nos olhos. Depois que ceguei, caí no desamparo. Um cego não serve para nada.

E a amargura extrapolou do peito do cego, numa chuva de lágrimas.

E reclamou suspirando, falando consigo mesmo e revirando os olhos esbranquiçados:

– Se o meu capitão soubesse da minha situação, viria ao meu socorro…Eu o perdi de vista, mas não o perdi da memória. Não tenho a menor chance de me comunicar com ele. Se o encontrasse, tenho certeza de que até meus olhos voltariam a enxergar…

– Não tem família?- perguntou o funcionário.

– Tenho uma menina, que não conheço.. Quando ela veio ao mundo, nos meus olhos já havia trevas. Daria o que me resta de vida para vê-la, ao menos um instante.

E o cego continuou mergulhado na tristeza infinita da sua noite sem estrelas.

A conversa impressionou o funcionário, que a levou ao conhecimento do Major, Diretor da Imigração.

Ao tomar conhecimento de que o cego Genaro participara da campanha do Paraguai, como soldado de 70, o Diretor interessou-se pelo caso e foi pessoalmente procurá-lo.

– Então, meu velho, é verdade que participaste da campanha do Paraguai?

O cego ergueu a cabeça, tocado pela voz amável.

– Verdade, sim, meu patrão . Vim no 13 e logo depois de chegar ao Império do Lopez (Francisco Solano Lopez) entrei em fogo. Tivemos má sorte. Na batalha de Tuiuti, nosso batalhão foi dizimado como um milharal em tempo de chuva de pedra. Salvamo-nos eu e uma porção de camaradas. Fomos, então, incorporados ao 33 paulista, a fim de preencher os claros, e nele fiz o resto da campanha.

O Major, Diretor da Imigração, também era veterano da guerra do Paraguai, e por coincidência servira no 33. Por isso, interessou-se, pela história do cego, passando a interrogá-lo com veemência:

– Quem era o teu capitão?

– Um homem que, se eu o encontrasse, minha vida tomaria outro rumo e ele faria tudo para que eu recuperasse a visão… Um verdadeiro santo… .

– Como se chamava?

– Capitão Bocaiuva de Sales.

O major, ao ouvir esse nome, sentiu suas carnes trêmulas e um arrepio imenso. Respirou fundo e continuou:

– Conheci seu capitão. Foi meu companheiro de Regimento. Era um homem péssimo e grosseiro para com os soldados.

O cego, até ali vergado em atitude humilde de mendigo, ergueu o busto corajosamente e, com a voz trêmula de indignação, protestou:

– Pare aí! Não blasfeme! Não ofenda um homem santo como o meu capitão. Ele era um pai para os soldados! Perto de mim, ninguém o injuria!!! Convivi com ele durante anos, como sua ordenança e nunca o vi praticar o menor ato de maldade contra ninguém!

O tom firme do cego comoveu o Major. e ele percebeu que nem a miséria conseguira apagar do peito do velho soldado as fibras heroicas da lealdade.

O major se conteve por um momento, mas logo prosseguiu na provocação, para ver até onde iria a lealdade do cego ao seu idolatrado capitão:

– Capitão Bocaiuva de Sales era um covarde!!!…

Num assomo de ira e indignação, as feições do cego Genaro se transformaram. Seus olhos anuviados pela catarata revolveram-se nas órbitas, num terrível esforço para ver a cara do infame detrator. Sua vontade era atacá-lo, como fazem as feras. Mas, por não ser ninguém, procurou se conter.

Pela primeira vez na vida, Genaro sentiu a infinita fragilidade dos cegos. E caiu em si, com a alma esmagada. Sua cólera transformou-se em dor e a dor fez correr dos seus olhos um rio de lágrimas. E chorando, murmurou com a voz embargada:

– Não se insulta assim um cego…

Mal pronunciara estas palavras, sentiu-se apertado nos braços do major, também em lágrimas, que dizia:

– Abraça, amigo, o teu velho capitão! Sou eu o antigo Bocaiuva!

Confuso e desorientado diante do rumo tomado pela conversa, e receoso de uma insídia, o cego vacilou, sem acreditar no que estava ouvindo.

– Dúvidas?!!! – exclamou o Major – Dúvidas de quem te salvou a nado na passagem de Tebiquari?

Ao ouvir aquelas palavras mágicas, os receios do cego Genaro se dissiparam como fumaça. Livre de dúvidas e chorando como uma criança, abraçou-se aos joelhos do Major Bocaiuva de Sales, exclamando, como se estivesse sonhando:

– Achei meu capitão! Achei meu Pai! Minhas desgraças se acabaram!!!…

E realmente, a roda viva do cotidiano carregou a tristeza do cego Genaro pra lá, Sua vida mudou da água para o vinho.

Internado num Hospital às expensas do Major Bocaiuva, seu antigo Capitão, foi submetido à cirurgia de catarata e recuperou 100% a capacidade visual.

Foi à janela e sorriu para a luz que inundava a natureza. Sorriu para as árvores, o céu, os pássaros e as flores!

Sentia-se ressuscitado, pois, antes, estava morto em vida.

Não cansava de repetir:

– Eu não dizia, que se reencontrasse o meu capitão, até a luz dos meus olhos eu teria de volta? Foi Deus quem me reaproximou do capitão!!!

E Genaro, recuperado da cegueira, voltou para o Ceará, nadando de felicidade e repetindo frases do cearense José de Alencar, um dos maiores escritores brasileiros ((1829-1877):

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.”

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OS FANTOCHES

O inferno fica no centro da Terra. Esta era a opinião dos antigos sábios, que nós não somos obrigados a aceitar. Como prova disso, eles citavam a existência de vulcões, como o Vesúvio e o Etna, que desempenhavam o papel de chaminés da cozinha de “monsieur” Satanás.

Há quem diga que o inferno ocupa, na realidade, a mais bela estrela do firmamento, chamada Vênus e que brilha com um esplendor vivo e puro. Diziam que era dali que Satanás reinava e governava. E dali ele descia à Terra para desempenhar as suas funções de tentador e perturbador da ordem pública.

O diabo é casado com uma poderosa dama, de nome Dinorá.

O mármore, o verso e a tela tem sempre reproduzido uma terrível imagem do “anjo do mal”, como uma espécie de “titan” de rosto tristonho e fatal, com enormes asas de morcego, armadas de agudas garras.

A fisionomia de Satanás apresenta uma expressão mais zombeteira do que sinistra.

Que idade tem “monsieur Satanás?

Esta questão não tem resposta e não pode ser resolvida matematicamente.

O anjo do mal é anterior à criação do mundo.

Quando Adão e Eva se instalaram na terra, já Satanás tinha atingido a idade viril, e a prova que deu foi comprometer a primeira mulher. Já devia ter mil e tantos anos.

Satanás é alto, elegante, orgulhoso, e a magreza lhe realça a distinção.

Seus olhos grandes, negros e espertos lançam olhares ameaçadores às pessoas que o rodeiam e que ele tem como súditos. A boca bonita, apesar de sardônica, mostra num sorriso habitualmente zombeteiro, dentes muito brancos e grandes.

As mãos do demônio não apresentam o menor vestígio de garras. Mas, quando estas mãos agarram uma pessoa, é muito difícil soltar, para não dizer impossível.

Os pés de Satanás são compridos e de peito alto, nada fedidos, e sempre calçados com irrepreensível elegância. Sua Majestade infernal é o primeiro a andar na moda e é quem dá o tom aos elegantes do seu reino.

Isso é fácil, pois o inferno está povoado de alfaiates e sapateiros, – e também de costureiras e modistas.

O diabo usa sempre joias do melhor gosto. Adora estas frioleiras brilhantes e preciosas, talvez por causa do charme que exerce sobre as almas femininas e até masculinas.

Madame Diabo, a formosa diabinha Dinorá, que, segundo alguns descrentes, habita o palácio real do planeta Vênus, tem como secretário o fiel Flor de Enxofre, o mais bonito, o mais espirituoso e talvez o mais pervertido de todos os diabinhos do inferno. Madame Diabo o protegia e sentia por ele uma ternura quase maternal.

Todas as vezes que Madame Diabo tinha seus frequentes acessos de ciúme de Satanás, Flor de Enxofre era encarregado da perigosa e delicada missão de vigiar e seguir os passos do seu marido.

Por mais de uma vez, surpreendido em flagrante delito de espionagem pelo terrível monarca, Flor de Enxofre sofreu severas correções, sem se queixar. Tinha loucura por Madame Diabo.

Certo dia, Madame Diabo puxou o marido pela mão e o conduziu até uma mesa redonda, repleta de figurinhas de madeira, confeccionadas por um artesão com prodigiosa arte. Os bonecos de pau representavam homens e mulheres de todas as idades, vestidos de trajes de todas as profissões e de todos os países do mundo.

O criador deste grande número de bonecos dera prova de ser possuidor de um grande talento. Não eram enormes figurinhas grosseiramente talhadas num pedaço de pau, iluminadas de cores vivas e cruas, mas verdadeiros personagens em miniatura, exprimindo no rosto um sentimento ou uma paixão, e cujos olhos pareciam vivos.

– Olha! – Exclamou o diabo – São fantoches!

– Com toda a certeza – respondeu Madame Diabo. – São fantoches.

– E o que quer fazer com isto, querida esposa? – Perguntou o diabo, ao que a mulher respondeu:

– Sei que você gosta de teatro. Quero lhe dar espetáculos cômicos, para que se alegre sempre. Estes fantoches são os meus atores.

Disse o “monsieur” diabo:

– Mas, minha formosa rainha, os seus espetáculos se parecem com esses divertimentos de feira, em que irreverentemente me põem em cena, com o polichinelo e o comissário!

– Que quer, meu amigo?!!! Não posso dar-lhe a comédia italiana, mas faço o que posso para remediar essa falta.

Satanás olhou para Madame Diabo, a fim de ver se estas palavras não ocultavam alguma traição, mas o rosto risonho da bela esposa exprimia a mais perfeita serenidade.

O diabo retrucou:

– Onde se esconde o seu teatro?

Madame Diabo pediu-lhe que aguardasse e logo iria conhecê-lo. Pediu-lhe também que escolhesse, entre os “atores” daquela companhia, certo número de personagens.

Satanás era um gentil galanteador. Submetia-se aos caprichos da rainha, por mais absurdos que lhe parecessem. Por isso, tirou de cima da mesa muitos comediantes pequeninos, de madeira.

Dinorá meteu-os numa enorme bandeja forrada de cetim.

Na bandeja, foram instalados sucessivamente os seguintes fantoches:

1 – Um janota arrumadinho e pretensioso, totalmente calvo;

2 – o Demônio Ouro, representado pela figura de um sujeito, cujo rosto consistia numa moeda de ouro reluzente e enorme;

3 – um cavalheiro de rosto sombrio;

4 – um sujeito magro, empregado numa agência bancária;

5 – um ancião de bela presença e de cabelos brancos;

6 – um grande número de mulheres muito formosas, de cabelos de todas as cores;

7 – um grande número de homens, pertencentes à alta categoria do janotismo;

8 – o Diabo Amor, conhecido pelas asas, pela aljava e que era carregado nas costas, pendente do ombro e pelas setas tradicionais.

Satanás parou e perguntou a Madame Diabo se o número de fantoches já seria o bastante e ela respondeu que escolhesse mais alguns.

Então, Satanás, tomou, sem os contar, punhados de fantoches e deitou-os na bandeja.

Em seguida, Madame Diabo lhe deu o braço e os dois subiram por uma escada em espiral interminável, que ia dar na grande torre do Palácio. Atrás deles, seguiam o mágico da Corte e o artesão que confeccionara os fantoches. Subiram até o último batente e atingiram a plataforma de uma torre alta como os cumes das mais altas montanhas.

Do cume dessa construção gigantesca, dominava-se o mundo inteiro, e o globo terrestre desenhava-se no espaço, como a lua se desenha para nós no firmamento azul.

– Safa! Exclamou o diabo, ao chegar ao último degrau.

Disse Madame Diabo:

– Agora, você vai ver se os meus pequeninos atores sabem desempenhar, ou não, os seus papeis.

Satanás repetiu a pergunta que já formulara antes de subir à plataforma.

– Onde está, então, o seu teatro?

Madame Diabo estendeu a mão para a Terra e disse:

– Ei-lo…

E ao mesmo tempo, pegou um dos fantoches e o atirou através do espaço. A figurinha, em vez de cair como lhe prescreviam as leis físicas, a uma pequena distância da base da torre, voou pelo espaço e desapareceu no fim de alguns segundos.

Todos os demais fantoches tiveram a mesma sorte. Satanás assistia a esta singular experiência e não compreendia nada.

Quando já não havia figurinhas na bandeja, Satanás exclamou:

– Por onde estão os seus atores dispersos?!!! Onde estão, e como você os tornará a encontrar?

– Eles irão entrar em cena imediatamente. Olhe as cenas acontecendo!!! -Respondeu a rainha.

Ao mesmo tempo, Madame Diabo entregou ao marido um dos óculos do mágico. Satanás aproximou-o do olho direito, aprumou-o para os lados da Terra e soltou um grito de surpresa!!! Os pequenos personagens escolhidos por ele e jogados na terra estavam se movendo indistintamente. Atirados para os ares por ele e a esposa, esses personagens já não eram homúnculos ou pigmeus, mas verdadeiros homens e mulheres vivos e reais…E não só os via trabalhar, mas também os via falar e maltratar os mais fracos.

O que o diabo viu e ouviu, foi dele mesmo se arrepiar, diante da capacidade de praticar o mal dos fantoches. A maldade se apoderou deles, e se perpetuou até os dias atuais.

Como os óculos eram de ver ao longe, a vista do diabo alcançou os nossos tempos.

E os fantoches passaram a reinar na terra, praticando o mal e perseguindo as pessoas inocentes.

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GAIOLA DE OURO

São dignas de pena, crianças criadas em apartamentos de luxo, verdadeiras gaiolas de ouro, com janelas obrigatoriamente gradeadas e onde elas não tem o mínimo contato com a natureza. Convivem mais com as babás e creches, do que com os pais.

Conheço crianças que só comem mel em vez de açúcar, alimentos integrais, não comem guloseimas como chocolates, e que são policiadas por mães neuróticas para que não engordem. Crescem pálidas, e raquíticas, sem resistência física, pois as mães as privam das melhores comidas, como se elas fossem doentes.

Junte-se a isso, o fato dessas crianças não terem direito a colocar os pés no chão dentro de casa, e não terem acesso a nenhum quintal, onde possam estar em contato com areia, sol, chuva ou sereno. Não adquirem “anticorpus” e por tudo adoecem.

Essas crianças ricas não conhecem a felicidade de brincar num quintal, correr descalças na terra seca do chão, jogar bola, subir em árvores, colher frutas maduras, tomar banho de chuva, sentar no chão, dar topadas, cair e ralar os joelhos, mesmo arrancando chaboques,

Não veem os passarinhos voando e cantando, ao vivo e a cores, fora da televisão.

Quando, desde cedo, não vão para as luxuosas creches, onde passam o dia todo, os meninos ricos ficam entregues às babás. nem sempre qualificadas. Sentam-se em um quarto atapetado, arrodeado de brinquedos eletrônicos, sem apego a nenhum deles, diante da fartura de opções que tem ao seu dispor.

Não imaginam que, fora daquele mundo artificial de fantasias, existe um mundo natural, onde a natureza coloca fruteiras variadas, pássaros com seus cantos maravilhosos, sol, chuva, e uma terra seca para eles brincarem à vontade.

Quase sempre, usam sapatos ortopédicos, pois a mãe tem medo que seus pés entortem. E só conhecem as árvores, que passam apressadas atrás do vidro do carro do pai.

Certa vez, um menino rico ganhou um belo pássaro importado, que vivia preso em uma gaiola caríssima, e se alimentava do melhor alpiste e água fresca. Ele não entendia porque razão o pássaro vivia triste e não cantava, apesar da gaiola bonita e boa alimentação. Era a falta da liberdade, que Deus deu ao pássaro para voar.

Na inocência do menino rico, o leite vinha das caixinhas da padaria e não das vacas. Tinha muitos brinquedos, bolas coloridas, mas sempre brincava sozinho, dentro do quarto atapetado. Só via a rua através das grades de sua janela. Ouvia na televisão histórias que falavam de assaltos, sequestros, balas perdidas, e ficava com medo do mundo lá de fora.

Na realidade, as “gaiolas de ouro” geram pobres meninos ricos. São meninos tristes e “policiados” pelos pais ou babás 24 horas por dia.

Não tem liberdade nem contato com a natureza. Não comem cuscuz com ovo, a base da alimentação do menino pobre, e que dá sustança. Mas comem granola e outros alimentos sofisticados, da moda.

Enquanto isso, os meninos pobres, sem conforto em casa, não notam que são pobres, pois a maior riqueza que eles tem é a liberdade. Jogam bola, tomam banho de rio, sobem nas árvores e comem frutas frescas. E até acompanham a chamada do palhaço do Circo: “Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor”!

Hoje, o menino pobre cresceu, cheio de sonhos de ganhar muito dinheiro, para comprar toda a felicidade que ele já tinha e não sabia. Trabalhou muito, juntou dinheiro, construiu uma casa, mas teve que colocar grades.

O menino rico cresceu querendo ser livre. Somente depois de homem feito, pôde correr descalço e descobrir que a felicidade estava nas coisas simples.

Vivo hoje a saudade do quintal da casa dos meus pais .e dos meus avós paternos em Nova-Cruz (RN), onde na minha meninice, eu subia nas goiabeiras e pinheiras, e ali mesmo comia goiaba e pinha à vontade.

A modernidade veio para destruir o lirismo dos quintais, das conversas nas calçadas e das esquinas.

Lana Bittencourt – POBRE MENINO RICO – Vargas Júnior-Oscar Bellandi – Ano de 1955

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BALANÇARAM O PÉ DE FAVA

O hábito de se repudiar as flatulências existe desde os antigos egípcios, mas se intensificou na Idade Média, quando as pessoas passaram a relacionar o mau cheiro de enxofre, próprio dos gases, à inhaca que dizem que o diabo tem.

Algumas pessoas supersticiosas acendiam velas para espantar o Demônio, quando sentiam flatos espalhados pelo ar.

Foi aí que começou o famoso costume de se riscar um fósforo, para acabar com o mau cheiro da flatulência..

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico) e enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais desses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, fazendo portanto com que estes gases cheirem ainda pior.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bomba, traque (onomatopeia), entre outros nomes.
.
Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e o povo se dispersou.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Neném Calango, mulher cinquentona, viciada em comício e desbocada, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz de homem respondeu:

–  AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que nunca teve e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação, que levou uma semana para ir embora.

Dona Neném Calango já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném Calango ganhou a fama de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. Sua ideia infeliz de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque ”.

Este caso é Verdade e dou Fé.