Os extremos, como conservadorismo, liberalismo, feminismo, machismo e outros devem ser evitados, pois atentam contra o Estado de Direito.
As fraudes, as corrupções e os subornos constituem, nos dias atuais, as marcas predominantes dos crimes contra o patrimônio público.
Nestes tempos sombrios de uma disputa política acirrada, em que a liberdade de expressão de um partido é cerceada a toda hora, e em contrapartida, as divindades supremas fecham olhos e ouvidos para o que dizem e fazem os componentes do “Cordão Vermelho”, nada melhor do que mergulharmos na história da Roma Antiga, e nos deliciarmos com a inteligência de Cícero, o grande filósofo.
Marco Túlio Cícero, (3 de janeiro do ano 106 A.C), foi um dos mais importantes filósofos da Roma antiga.
Proveniente de uma cidade ao sul de Roma, de nome Arpino, no começo da sua vida, esse fato o discriminava, por não ser um romano tradicional.
A família de Cícero também o ajudou a crescer. Seu pai era um rico equestre, com importantes contatos em Roma.
Sua educação foi baseada nos grandes filósofos, poetas e historiadores gregos.
Desprovido de qualquer interesse pela vida militar, Cícero começou sua carreira como advogado. Mais tarde, mudou-se para a Grécia e ampliou seus estudos de retórica. Através dessa estadia na Grécia, teve contato e passou a admirar calorosamente a obra de Platão. Foi o responsável por introduzir a filosofia grega em Roma, criando um vocabulário filosófico em Latim.
Foi toda a sua eficiência e competência na língua grega, que o levou à condição de intelectual e o colocou entre a elite romana tradicional.
Na década de 60 a.C., Catilina, um militar e senador romano famoso, que também já havia passado por cargos de magistratura, pretendia ser designado Cônsul da República. Mas, seu nome era encarado com desconfiança por seus pares. Muitos viam nele um risco para as instituições republicanas. Em retaliação, Catilina, junto a seus aliados, entre eles o ex-Cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, procurou organizar uma rebelião, ou golpe, contra a República. Esse golpe consistia no assassinato dos dois cônsules e na subjugação do Senado.
Cícero, que era Cônsul, ao tomar conhecimento do planejado golpe, escreveu, então, uma série de quatro discursos célebres contra Catilina, pronunciados em 63 a.C. Esses discursos denominados Catilinárias, posteriormente, se notabilizaram.
Logo de início, destilavam:
“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?
Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os tremores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a tem já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberação foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes fatos, o cônsul tem-nos diante dos olhos: todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no Conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar um a um para a chacina. E nós homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul, contra ti e que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.”
Cícero tornou-se o homem mais importante de Roma, ao lado de Marco Antônio. O primeiro, como porta-voz do Senado e o segundo como Cônsul. Só que os dois nunca tiveram uma relação amigável, o que piorou quando Cícero acusou Marco Antônio de abusar na interpretação das intenções e dos desejos de Júlio César.
Cícero articulou um plano para colocar no poder o herdeiro de César. Mas, seu plano não saiu como desejava. Octaviano aliou-se a Marco Antônio e formaram um triunvirato, juntamente com Marco Emílio Lépido, para governar Roma.
Esse triunvirato elaborou uma lista de pessoas que deveriam ser consideradas inimigas do Estado, na qual Cícero foi incluído. Como o intelectual romano era muito bem visto por grande parte do público, Octaviano se recusou a inseri-lo nessa listagem. Mas, a medida drástica foi inevitável.
Cícero foi capturado no dia 7 de dezembro do ano 43 A.C. , quando tentava fugir para a Macedônia. Seus escravos ainda tentaram escondê-lo, mas os assassinos o encontraram e o mataram. Cícero teve a cabeça cortada e as mãos também, por ordem de Marco Antônio, partes que foram pregadas no Fórum Romano.
Ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, fica-se menos espantado diante dos quadros de corrupção e impunidade dos dias atuais.
Foi na antiga civilização romana que o modelo político da república se desenvolveu.
República, em sentido literal, quer dizer “Coisa Pública”, “Bem Público”, isto é, aquilo que diz respeito à vida em sociedade, à administração dos interesses e necessidades de todos.
Esse modelo político passou a vigorar na antiga Roma, após a queda de Tarquínio, o Soberbo, último rei da dinastia etrusca (dinastia que governou Roma durante 244 anos), no ano de 509 AC.
Com o advento da República, a estrutura monárquica foi abandonada e em seu lugar, novas instituições foram erguidas. Dentre elas, as mais importantes eram a Magistratura (que executava a administração pública) e o Senado (composto pelos cidadãos mais velhos, que eram encarregados da elaboração das leis e do controle da ação dos magistrados).
Dos vários cargos da magistratura, o mais alto era o de Cônsul. Quem estava à frente do poder da República eram dois Cônsules, escolhidos pela Assembleia Curiata, ou Assembléia das Cúrias, organismo legislativo, que existiu durante o período da Monarquia em Roma.
O que Cícero clamava há dois mil anos, pode ter se perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos. Entretanto, a corrupção que ele verberava continua impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade.
Além de um grande filósofo e escritor, Cícero deixou um legado de grande influência à cultura europeia.
Tornou-se uma das principais fontes primárias para o estudo da Roma antiga.
Para onde quer que se olhe, nos dias atuais, a paisagem não está tranquila. Se as árvores estão paradas e as casas mudas e tristes, o seu silêncio é o de estarrecimento, insegurança e torpor.
O povo sofre a crise constitucional que afeta os poderes da Democracia.
Atualmente, a liberdade de expressão é limitada, e o povo assiste, impotente, às injustiças cometidas contra parlamentares, com foro privilegiado.
Cara e Divina Violante, nada do que ocorre hoje já não ocorreu no passado. Portanto ignorar a história é repetir os mesmos erros já ocorridos.
Aí é que entra uma discordância entre o que eu penso e o que v. escreveu. Conservadorismo não é um extremo, tampouco é uma corrente política. É a base de um pensamento que valoriza a história e é contrária às grandes revoluções que querem transformar o futuro sem aproveitar a experiência do passado.
O conservadorismo valoriza o indivíduo e sua vida desde a concepção, as liberdades de pensamento e crença, de ir e vir, à propriedade, à auto defesa. A base do conservadorismo é a filosofia e direitos Greco-romano e a moral judaico cristã, que permearam o crescimento da civilização ocidental nos últimos 2000 anos.
Obrigado por esta aula de história que nos proporcionou.
Bom final de semana
Obrigada pelo excelente comentário, caríssimo João Francisco!
Concordo com a sua opinião, ao dizer:
“Conservadorismo não é um extremo, tampouco é uma corrente política. É a base de um pensamento que valoriza a história e é contrária às grandes revoluções que querem transformar o futuro sem aproveitar a experiência do passado”.
Na verdade, o conservadorismo é um pensamento político, que defende a manutenção das instituições sociais tradicionais – como a família, a comunidade local e a religião -, além dos usos, costumes, tradições e convenções.
No meu texto, quando digo: “Os extremos, como conservadorismo, liberalismo, feminismo, machismo e outros devem ser evitados, pois atentam contra o Estado de Direito”, .me refiro aos exageros e fanatismos,
É fato público e notório, que os extremos existem em todos os segmentos políticos, e o conservadorismo extremo esta ameaçando
nossa democracia e a participação plena de todos na sociedade.
Grande abraço e bom final de semana!….
Violante,
Parabéns pela crônica que é uma belíssima palestra sobre história. Cícero patrocinou a ideia de que o homem deve agir sob uma ética cuja principal base é a honestidade, utilizando a sabedoria para controlar seus instintos e demonstrando senso de justiça e caráter sem prejudicar o direito dos demais.
Ao defender o sistema republicano como a melhor forma de governo, Cícero entende que essa República deve ser aquela fundamentada nos valores tradicionais romanos, na reta razão e em valores morais que devem ser seguidos com determinação, a autocontrole e dever.
Podemos aprender com a história para não repetir erros de outras existências.
Desejo um final de semana pleno de paz, saúde, harmonia e alegria
Aristeu
Obrigada, prezado Aristeu, pelo inteligente comentário!
Gostei imensamente da análise que você fez sobre Cícero,(Marco Túlio Cícero), o grande filósofo e cônsul da Roma antiga.
Até os dias atuais, em muitas discussões jurídicas que tratam do abuso do bem público por parte de algum político, é frequente o uso da expressão “Catilinárias”. Essa expressão remete a um conjunto de discursos do orador romano Marco Túlio Cícero, proferidos contra o então senador da República Romana, Lúcio Sérgio Catilina..
Desejo a você também um final de semana pleno de paz, saúde, harmonia e alegria! ,
a melhor leitura que fiz hoje , o tempo passa e o ser humano não muda , a historia sempre se repetindo , mas o tempo passa e os pecados de cada geração são contados por Deus ,tudo de bom para vc Violante grande abraço.
Obrigada pelo comentário,gentil, prezado francisco pereira!
Tudo de bom para você também!
Grande abraço.
A virtude da Síntese:
“Para onde quer que se olhe, nos dias atuais, a paisagem não está tranquila. Se as árvores estão paradas e as casas mudas e tristes, o seu silêncio é o de estarrecimento, insegurança e torpor.”
– A real dimensão, resumida e inteligentemente descrita, neste trecho da postagem da Ilustre Sra… exprime tudo o que está acontecendo. Parabéns pela apurada sensibilidade e pela criação primorosa e assertiva de mais uma peça literária do JBF. Saiba que pessoas como a Sra (e demais Srs) engrandece e nos enche de orgulho e indescritível prazer, cada vez que retornamos a essa Gazeta.
Respeitosamente
Obrigada pelo honroso comentário, prezado Spock Lee!
Um excelente final de semana!
Obrigada, querido cronista Cícero Tavares, pelos elogios ao meu texto!
Fiquei muito feliz com suas palavras.
Essa conexão que você fez entre a biografia do grande filósofo romano Marco Túlio Cícero (160 A.C – 43 A.C.). com a figura de Abraham Lincoln, no filme “Lincoln”, dirigido por Stevem Spielberg, é mais uma prova de que a história se repete.
Um excelente domingo!
Abraçaço para você também!,
O maravilhoso texto aula da dama do JBF, cujo conteúdo não deixa dúvidas quanto a representatividade política de indignação, que é o sentimento de grande parte da população brasileira.
O senado romano poderia ter todas as falhas, menos ser acovardada como é no nosso caso, O senado é o único órgão que poderia por fim as insanidades de um STF promíscuo. Daí, muitos depositarem esperanças nos militares, já que os senadores estão nas mãos dos juízes. O povo apoia e tem fé (eleições) no presidente, mas, no pensamento dos patriotas, contra os desmandos do judiciário ativista, fica latente aquela filosofia: A fé remove montanhas, a dinamite então, nem se fala!
Obrigada pelo honroso comentário, presado Marcos André!
O povo brasileiro, realmente, está indignado, diante do comportamento omisso do Senado, frente ao STF..
Como você disse,
“O senado romano poderia ter todas as falhas, menos ser acovardada como é no nosso caso, O senado é o único órgão que poderia por fim as insanidades de um STF promíscuo”.
A resposta do povo será dada pelas urnas, nas próximas eleições (2/10/22).
Assim seja!
Grande abraço e um excelente domingo! ,