VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Décadas atrás, Zé da Silva passou muitos anos morando em Niterói e viajava diariamente nas barcas da Cantareira. Depois de aposentado do serviço público, voltou para a sua terra natal, no Nordeste, conforme prometera aos pais.

Nunca esqueceu seu estresse de ter que acordar de madrugada, para pegar a barca e ir trabalhar no Rio. Depois de aposentado, passou a sonhar todas as noites, que estava na barca da Cantareira. Eram pesadelos tremendos. Passava a noite dando voltas na cama e fazia de conta que estava passando pela “borboleta.” Dormindo, era tão inquieto na cama e fazia tantas voltas em sonho, que chegava a chutar o que houvesse por perto e a derrubar o ventilador que ficava na sua mesinha de cabeceira.

Na ausência de Freud, ou de qualquer dos seus seguidores nacionais, Zé da Silva procurou, ele mesmo, decifrar o seu sonho. Vivia lendo notícias horríveis, de violência e crimes de toda espécie.

Lia sempre os noticiários dos jornais e ficou sabendo da greve da Cantareira Fluminense.

Com atraso, leu também a petição de uma mulher, pedindo a recomposição do corpo de sua própria mãe, decapitada e esquartejada pelos rapazes da Faculdade de Medicina do Estado do Rio. A velha dama falecera num hospital público de Niterói.

Informada do óbito de sua mãe, a filha se deslocou ao hospital, para providenciar o sepultamento. Tencionava fazer a inumação piedosa e conveniente, de acordo com os preceitos cristãos. Mas, chegou atrasada. O cadáver da sua mãe já havia sido encaminhado pelo Diretor da Faculdade de Medicina, ao anfiteatro da sua escola, estando disponível aos estudos de Anatomia dos seus discípulos. Não se sabe o resultado dessa “operação”. A luta do pobre contra o rico não deve ter dado em nada, apesar da torpeza do assunto.

Um dos grandes heróis da Grécia Antiga, o poeta, profeta e músico, Orfeu, foi assassinado, tendo o corpo despedaçado pelas “Mênades”, mulheres apaixonadas e furiosas, que não estudavam medicina, nem tinham compromisso com a Ciência. Cansadas de serem menosprezadas, as Mênades, cortaram o corpo de Orfeu em pedaços e lançaram sua cabeça no Rio Hebrus.

Já nesse hospital de Niterói, uma veneranda e pobre senhora pagou o ultrajante tributo à Ciência, ao ir a óbito, e cair, em seguida, sob o bisturi de algumas centenas de jovens, que andam a pesquisar nos domínios da Morte os profundos e eternos segredos da Vida.

Seu cadáver foi usado, como se fosse um “cadáver desconhecido”, nas aulas de Anatomia, da Faculdade de Medicina. Enquanto isso, desesperada, a filha aguardava o reconhecimento e liberação do corpo da mãe, para o sepultamento Cristão.

Esse caso impressionou Zé da Silva, e entrou como complemento nos seus pesadelos.

Com as pálpebras querendo fechar e sinais de “sono à vista”, logo cedo, ele adormecia. Pouco tempo depois, começavam os sonhos, verdadeiros pesadelos.

Via-se passando na “borboleta” da barca de Niterói e, no sonho, acabava de sentar-se em um dos bancos, próximo à caldeira. De repente, alguém tocou-lhe o ombro. Era o temível Dr. Lauro Amaral, Diretor da Faculdade de Medicina, que também estava a atravessar aquele mar.

Os dois começaram a palestrar.

Palestra de barca tem tempo certo para acabar. É feita sob medida e se escolhe o tamanho do assunto, de acordo com o tempo que falta para a barca atracar.

– O senhor não imagina, como estou preocupado com a falta de cadáveres na faculdade, para as aulas de Anatomia. – Falou o médico.

Zé da Silva perguntou:

– O Dr. está falando em falta de defunto? Pra que? Credo em Cruz!!! Vejo falar em falta de dinheiro no bolso do povo brasileiro! Mas de defunto, não! O Doutor anda sendo perseguido pelos cadáveres?

Não, senhor! – Pelo contrário! Os cadáveres é que andam sendo perseguidos por mim!

E o doutor continuou:

– A Medicina é a Ciência que atrai o maior número de alunos no Brasil. A cada ano saem das escolas superiores do país milhares de brasileiros jovens, autorizados a exercer o seu apostolado, na pele, na carne, no osso e no tutano do próximo. E a cada ano, entram para os lugares que eles deixaram nos bancos das Faculdades, novas centenas de candidatos. Como consequência, começaram a faltar corpos humanos para os estudos. A procura valorizou o produto. E de tal modo, que é mais fácil, hoje, um cadáver encontrar um estudante, do que um estudante encontrar um cadáver. Em Niterói, principalmente, um defunto está, agora, pela hora da morte!

Não morre ninguém?

– Morrer, morre. Mas, a questão, é que o defunto que vai para a Faculdade, servir de campo de pesquisas ao estudante, é unicamente o pobre, que passa pelo necrotério. É preciso que o sujeito tenha sido assassinado, e não tenha parente que o sepulte.

– O Doutor já experimentou mandar matar alguém? – Perguntou Zé da Silva.

– Já. Os rapazes da Faculdade tem animado alguns valentões a enfiar a faca no bucho alheio. E o resultado tem sido nulo. Duas ou três mortes, e acabou-se. Que são, porém, dois ou três defuntos para mais de oitocentos rapazes armados de bisturi? Nada! Quando aparece um cadáver no anfiteatro da nossa Faculdade, é tanta gente em cima dele que vem logo a lembrança da afluência dos pintos lá nas casas do interior, quando se atirava uma casca de banana no quintal!

Fez-se um silêncio ligeiro, e o médico falou baixinho:

– O senhor não leu o que alguns jornais de Niterói publicaram a seu respeito?

– Não, senhor….

– Pois, olhe: eu, no seu caso, não aguentava! Ia à redação, e metia seis balas no primeiro sujeito que encontrasse lá dentro! Não interessa quem seja!!!

– Mas, em que redação, Doutor? Qual é o jornal?

– Qualquer um. A imprensa é uma só. E o senhor está na obrigação de vingar-se! Não se faça de fraco! Não aguente desaforo!

E disse, ao ouvido de Zé da Silva:

– A Faculdade dá quinhentos mil reis por cada defunto!

– E se eu morrer, Doutor? – perguntou Zé da Silva.

Um sorriso maléfico iluminou o rosto do “bondoso” médico. As suas pupilas se acenderam, numa alegria sinistra.

– Se o senhor morrer?

Correu os olhos sobre Zé da Siva, contemplando as anomalias da sua figura. E com entusiasmo, apertou-lhe a mão, com vivacidade:

– Dou-lhe um conto de reis, hoje!….

Com essa, Zé da Silva despertou do sono, ainda mais perturbado. Mas, se consolou, sabendo que ele, pelo menos em sonho, é um “homem de valor.”
Aquele médico, só podia estar louco!!!

12 pensou em “SONHO OU PESADELO

  1. Décadas atrás… A magistral cronista potigua nos embarca, creio, bem antes da existência da Ponte Rio-Niterói, ATÉ ENTÃO, o único serviço de transporte entre Niterói (então capital do estado) e Rio (então capital do Brasil). Barcas que levavam aproximadamente cem mil passageiros por dia, quase metade da população niteroiense de então.

    A majestosa ponte vivia apenas no sonho dos cariocas… Ah, o progresso, Vivi, como faz bem. E suas crônicas também possuem o mesmo dom, além de nos encantar e levar em viagem… Lembro que meinhas primeiras “incursões em território niteroiense” foram no sacolejar ba balsa no ma que banha a antes Cidade maravilhosa, convertida agora apenas no Hell de Janeiro a janeiro…

    Hoje aprendi com o cuzcuzclanista juramentado, sacralizado e fiel Cardeal Maurino, da ICAS e estou, mandando entre abraços e beijos, “Saudações cuzcuzclanistas pra você!!!”

  2. Violante,

    Excelente sua crônica sobre sonhar um sonho ruim. Ter pesadelos de vez em quando é normal, podendo estar associado a estresse ou ansiedade, algum trauma, má higiene do sono ou medicamentos, no entanto, se se tornarem muito frequentes ao ponto de causarem angústia, má qualidade do sono, medo de ir dormir ou mesmo problemas ao longo do dia, podem ser considerados um transtorno.

    os pesadelos são uma maneira de processar experiências e emoções que não somos capazes de compreender direito quando não estamos dormindo. É uma tentativa do nosso cérebro de nos protege de sentimentos que podem ser percebidos como nocivos, deixando-os inacessíveis enquanto estamos acordados.

    O seu texto me fez lembrar de Augusto dos Anjos (1884-1914), que foi um poeta brasileiro, considerado um dos mais críticos de sua época. Foi identificado como o mais importante poeta do pré-modernismo, embora revele em sua poesia, raízes do simbolismo, retratando o gosto pela morte, a angústia e o uso de metáforas. Compartilho um dos mais conhecidos poemas de Augusto dos Anjos com a prezada amiga:

    Budismo Moderno

    Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
    Minha singularíssima pessoa.
    Que importa a mim que a bicharia roa
    Todo o meu coração, depois da morte?!

    Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
    Também, das diatomáceas da lagoa
    A criptógama cápsula se esbroa
    Ao contato de bronca destra forte!

    Dissolva-se, portanto, minha vida
    Igualmente a uma célula caída
    Na aberração de um óvulo infecundo;

    Mas o agregado abstrato das saudades
    Fique batendo nas perpétuas grades
    Do último verso que eu fizer no mundo

    Desejo um final de semana pleno de paz, saúde, harmonia e alegria

    Aristeu

    • Obrigada, prezado Aristeu, pelo generoso comentário, e por compartilhar comigo o belo soneto “Budismo Moderno”, do grande poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja obra é marcada pela amargura e pessimismo..
      Sonhos e pesadelos são problemas adormecidos na nossa mente, e liberados durante o sono..

      Concordo com você, quando diz:
      “os pesadelos são uma maneira de processar experiências e emoções que não somos capazes de compreender direito quando não estamos dormindo. É uma tentativa do nosso cérebro de nos protege de sentimentos que podem ser percebidos como nocivos, deixando-os inacessíveis enquanto estamos acordados”

      Desejo a você também, um final de semana pleno de paz, saúde, e felicidade!
      Grande abraço!..

  3. Obrigada pelo comentário gentil, exímio cronista Sancho Pança!

    Mergulhei na nostalgia. “Só vendo como é que dói…Só vendo mesmo como é que dói… Trabalhar em Madureira, viajar na cantareira e morar em Niterói….”

    Meu irmão Adriano,, o primogênito, hoje aposentado da Petrobrás, continua morando em Niterói, na Praia de Icaraí.. Fazia essa travessia de barca, todos os dias, para ir trabalhar no Rio, isso antes da construção da Ponte Rio/Niterói. Nessa época, estivemos lá diversas vezes, e também fazíamos essa travessia.

    “Saudações cuzcuzclanistas pra você também!!!!”

    Grande abraço!

    • Seu irmão Adriano, primogênito continua morando em Niterói, na Praia de Icaraí..

      Veja como o mundo é pequeno, Vivi… Tia Carmem e primas Solange e Odila, desde que me conheço por gente moram na Lopes Trovão, bem próximas à praia de Icaraí, em Niterói.

      Lá pelas bandas de Hell de Janeiro a janeiro. E abaixe rápido que lá vem bala perdida (infelizmente)… kkkkk.

      O que fizeram com meu Rio de Janeiro, meu Deus?

      I vamu qui vamu…

      • O mundo é mesmo muito pequeno, querido Sancho. Também tive uma tia muito querida chamada Carmen, e tenho duas sobrinhas com este nome. Uma delas é filha de Adriano…
        Com a violência que se vê na mídia, hoje tenho medo do Rio de Janeiro..

        “I vamu qui vamu.”..

        Bom final de semana!..

  4. E estava louco mesmo, querida Violante Vivi! Deusa das Deusas.

    Tive a oportunidade de conhecer uma psiquiatra que desenvolveu esses transtornos de personalidades do Doutor médico que assustava Zé da Silva, de tanta permanência interna no Hospital Psiquiatro.

    Seu semblante era tão frankensteiniano que assustava qualquer pessoa normal que nos finais de semanas ia visitar seus parentes no hospital psiquiatro, onde ele era médico dos pacientes.

    Com o tempo e a falta de concisão da ciência para esses casos, que só tiveram seu auge de desenvolvimento no início do sáculo XX, muitos psiquiatras “endoidaram” e começaram a perseguir os seus pacientes.

    O extraordinário conto “O Alienista” do genial Machado de Assis, perseguia essa teoria: são loucos aqueles que apresentarem um comportamento anormal de acordo com o conhecimento da maioria. Teoria 2: ampliou o território da loucura: “A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades, fora daí, insânia, insânia e só insânia.”

    Xêros e abraçaços, querida cronista, para você e os seus entes queridos, com excelente final de semana para todos.

  5. Obrigada, querido cronista Cícero Tavares, pelo carinho e gentileza do comentário!

    Zé da Silva, ao que parece, depois de aposentado, liberou o estresse acumulado durante os anos em que acordava de madrugada, para ir trabalhar. Custou a se acostumar com o ócio da aposentadoria… . ..
    O transtorno depressivo envolve tristeza, desânimo, mau-humor, alterações de memória,, do sono e do apetite.
    É comum, alguns aposentados,, nos primeiros meses, sofrerem algum transtorno depressivo… Foi o caso de Zé da Silva.
    O médico que lhe perseguia nos pesadelos era o mesmo que comprava cadáveres para as aulas de Anatomia..

    “Xêros e abraçaços” para você também e um excelente final de semana!

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