João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982), foi poeta
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MEU LUGAREJO
Meu recanto pequenino De planalto e de baixio Onde eu brincava em menino Pelos barrancos do rio Gigantescos braunais, Meus soberbos taquarais Cheios de viço e vigor Belas roseiras nevadas Diariamente abanadas Das asas do beija-flor
A terra da catingueira Criada na penedia Onde a ave prazenteira Canta a chegada do dia Planalto, ribeiro, prado Onde até o próprio gado Parece ter mais prazer Terreno das andorinhas Onde arrulham mil rolinhas Quando começa a chover
A borboleta ligeira Que desce do verde monte Passa voando maneira Roçando as águas da fonte As aragens dos campestres Pelas florzinhas silvestres Atravessam sem alarde Quando o sol se debruça A Natureza soluça Nas sombras do véu da tarde
Terreno em que os sabiás Cantam com mais queixumes Belas noites de cristais Cravadas de vaga-lumes Meus mangueirais magníficos Por onde os ventos pacíficos Atravessam mansamente Verdes matas perfumadas Nas lindas tardes toldadas Das cinzas do sol poente
Se eu chegar no Recife aperreado Eu acabo com todas as fortalezas Vou no Palácio do Campo das Princesas Paro todo movimento do Estado Na Assembleia não deixo um deputado Na zona não fica uma mulher Acabo as forças armadas que houver Tranco banco, instituto, inspetoria Fecho hospitais, detenções, secretarias Só funciona o Recife se eu quiser.
Prendo guarda civil, cabo, soldado, Comandante, Chefe do Estado-Maior Prendo tenente, capitão, prendo major Paro todo movimento do Estado. Prendo telégrafo, imprensa, consulado Emissora não deixo uma sequer, Prendo a Lloyd, a Costeira e a Panair Paro o trânsito, não passa mais ninguém Da estação central não sai um trem Só funciona o Recife se eu quiser.
Mas isso foi um sonho muito pesado Que eu sonhei certa vez quando dormia Um povo no ouvido me dizia Paro todo movimento do Estado. Acordei tristemente atribulado Vi que era uma coisa sem mister Não encontrei uma pessoa sequer Que me dissesse o que tinha acontecido E uma voz me dizendo no ouvido Só funciona o Recife se eu quiser!
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Da bobina para o distribuidor Há um cabo que passa uma centelha clara. Meto o pé no arranco, ele dispara. Toda vez que acelero meu motor, O combustível entra no carburador, A entrada de ar transforma o gás, Com a compressão que ele faz, Forma o jato, o êmbolo vai subindo Vai queimar na cabeça do cilindo, A fumaça da gasolina sai por trás.
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Na vida ninguém confia Em nada sem ter certeza São obras da natureza Tudo que a terra cria: Gente, ave, bicharia, Tudo começou assim. O homem é quem é ruim Nada bom ele planeja Por muito forte que ele seja A morte pega e dá fim.
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Naquele tempo odiento e obscuro Em que a ciência era tragada em um vaso Todo o mundo imerso no atraso Eu olhei na janela do futuro: O panorama da vida é muito duro E o destino do homem vem traçado. Eu, pra ver se obtinha resultado, Do além e de coisas mais incríveis, Penetrei no setor dos invisíveis, Vi o mundo sorrir do outro lado.
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Minha carne só é nervo e cabelouro O espinho de juá bate e não fura Minha saliva salva qualquer mordidura Se a jibóia morder por desaforo Tiro o veneno da bicha faço soro E dou vida a qualquer um ser vivente. Seja qual for a qualidade da serpente Estando mesmo quieta ou assanhada Por acaso ela me dando uma picada É capaz de ficar sem nenhum dente…
João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952 / 2014)
João Paraibano
Branca, preta, pobre e rica, toda mãe pra Deus é bela; acho que a mãe merecia dois corações dentro dela: um pra sofrer pelos filhos; outro pra bater por ela.
Faço da minha esperança Arma pra sobreviver Até desengano eu planto Pensando que vai nascer E rego com as próprias lágrimas Pra ilusão não morrer.
Toda a noite quando deito Um pesadelo me abraça Meu cabelo que era preto Está da cor de fumaça Ficou branco após os trinta Eu não quis gastar com tinta O tempo pintou de graça.
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João Santana
Eu cantando contemplo as maravilhas Dos oásis, vulcões e nebulosas Me acalento em repouso entre as rosas Cruzo o mar desvendando as virgens ilhas Nos mistérios das matas rompo as trilhas Rasgo o céu de ocidente a oriente Intimido o leão, domo a serpente Saboreio as maçãs do paraíso Mas se for pra brigar de improviso Eu arranco seu couro no Repente.
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Manoel Bentevi
Naquele tempo odiento e obscuro Em que a ciência era tragada em um vaso Todo o mundo imerso no atraso Eu olhei na janela do futuro: O panorama da vida é muito duro E o destino do homem vem traçado. Eu, pra ver se obtinha resultado, Do além e de coisas mais incríveis, Penetrei no setor dos invisíveis, Vi o mundo sorrir do outro lado.
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Lourival Batista Patriota
Entre o gosto e o desgosto, O quadro é bem diferente, Ser moço é ser um sol nascente, Ser velho é ser um sol posto, Pelas rugas do meu rosto, O que fui hoje não sou, Ontem estive, hoje não estou, Que o sol ao nascer fulgura, Mas ao se pôr deixa escura A parte que iluminou.
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Manoel Filomeno de Menezes (Manoel Filó)
Nas residências do mato Depois que o sol vai embora Num recanto do quintal A galinha se acocora Fazendo rancho das penas Pra não dormir pinto fora.
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ABC PARA LEMBRAR RAULZITO E GONZAGÃO – Rouxinol do Rinaré
Amigos que apreciam Meus cordéis, peço atenção Pois vou falar de dois mitos Saudosos dessa nação No ABC pra lembrar Raulzito e Gonzagão.
Baião é ritmo dançante Do nordeste brasileiro Se originou da toada Do popular violeiro E imortalizou Luiz Nosso maior sanfoneiro.
Cantando, Luiz Gonzaga, Resgatou nosso nordeste Tocou baião, polca e xote, Com o baião passou no teste Engrandeceu nosso chão Como um bom “cabra da peste”.
Declarou Luiz Gonzaga: – Após a minha partida Eu quero enfim ser lembrado Como quem cantou a lida Do sertanejo e amou Toda essa gente sofrida.
Aderaldo Ferreira de Araújo, o “Cego Aderaldo”, Crato-CE (1878-1967)
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Aderaldo Ferreira de Araujo (Cego Aderaldo)
(atendendo a um pedido do Padre Cícero)
À ordem do meu padrinho Vou colher algumas flores… Fazer minhas poesias Cheias de grandes louvores Saudando, primeiramente, A Santa Virgem das Dores.
O nome do santo Padre Anda pelo mundo inteiro, A cidade está crescendo Com este povo romeiro, Devido às grandes virtudes Do santo de Juazeiro.
Nossa Senhora das Dores É que nos dá proteção, Ordena ao nosso bom Padre, E ele cumpre a Missão, Ensinando a todo mundo O ponto da salvação.
Deixo aqui no Juazeiro Todos os sentidos meus Juntamente ao meu Padrinho Que me limpou com os seus, Vou correr por este mundo Levando a bênção de Deus.
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Dimas Batista
Na vida material cumpriu sagrado destino o Filho de Deus, divino, nos deu gloria espiritual. Deu o bem, tirou o mal, livrando-nos da má sorte. Padeceu suplicio forte, como o maior dos heróis. Morreu pra dar vida a nós: A vida venceu a morte.
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Diomedes Mariano
Na escola da vida todos vão, Procurando aprender devagarinho, É preciso saber com atenção, Separar a roseira do espinho, Quem semeia o que é bom, só colhe o bem, Ninguém pode tentar pisar ninguém, Que se julga mais fraco ou que se esconde, Pra galgarmos sucesso nessa vida, Humildade é o ponto de partida, Só consegue o que quer, quem faz por onde.
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João Paraibano
Dorme uma galinha choca Sentindo as sombras das telhas Um cão balança as orelhas Mordidas de muriçoca Se deita numa barroca Sem conforto na dormida Passa a língua na ferida Enquanto chega o xerém Todo mundo canta bem Nas madrugadas da vida.
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Pedro Bandeira
Pra quem tem educação A fama se estabelece, Toda pessoa merece Que você dê atenção, Cada história é uma instrução Pra quem souber reparar, E quem quiser aceitar Aceite como cultura, Cada uma criatura Tem história pra contar.
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Vinícius Gregório
E se eu nascesse de novo E Deus me desse um menu Onde eu visse o mundo inteiro, Cada canto a olho nu. E mandasse eu escolher Onde eu queria nascer, Com certeza ia dizer: De novo no Pajeú!
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Manoel Xudu
Voei célere aos campos da certeza E com os fluidos da paz banhei a mente Pra falar do Senhor Onipotente Criador da Suprema Natureza Fez do céu reino vasto, onde a beleza Edifica seu magno pedestal Infinita mansão celestial Onde Deus empunhou saber profundo Pra sabermos nas curvas deste mundo Que ele impera no trono divinal.
Diniz Vitorino
Vemos a lua, princesa sideral Nos deixar encantados e perplexos Inundando os céus brancos de reflexos Como um disco dourado de cristal Face cálida, altiva, lirial Inspirando canções tenras de amor Jovem virgem de corpo sedutor Bem vestida num “robe” embranquecido De mãos postas num templo colorido Escutando os sermões do Criador.
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Bráulio Tavares
A baleia é talvez o maior bicho existente na terra ou no mar e que o homem insiste em atacar por maldade, por ódio ou por capricho. Para o alto ela lança um grande esguicho quando emerge de lá da profundeza; mesmo sendo animal de tal grandeza a ninguém ela ataca nem ofende; tanta gente vê isso e não aprende quanto é grande o poder da Natureza.
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Genival Pereira (Gato Novo)
Dei na loba que Rômulo mamou nela Agitei as água do rio Nilo Fiz o mar acalmar, ficar tranquilo E ajudei fazer Eva da costela . Fui na arca quebrei uma janela E ali soltei todos animais Implorei a meu Deus, o Pai dos pais E o dilúvio cessou em um minuto Fiz Noé gargalhar num chão enxuto E que é que me falta fazer mais …
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Manoel Xudu
Os astros louros do céu encantador Quando um nasce brilhando, outro se some E cada astro brilhante tem um nome Um tamanho, uma forma, brilho e cor Lacrimosos vertendo resplendor Como corpos de pérolas enfeitados Entre tronos de plumas bem sentados Vigiando as fortunas majestosas Que Deus guarda nas torres luminosas Que flutuam nos paramos azulados.
Diniz Vitorino
Olho os mares, os vejo revoltados Quando o vento fugaz transtorna as brumas E as ondas raivosas lançam espumas Construindo castelos encantados As sereias se ausentam dos pecados Que nodoam as almas dos humanos E tiram notas das cordas dos pianos Que o bom Deus ocultou nos verdes mares E gorjeiam gravando seus cantares Na paisagem abismal dos oceanos.
Amanhã, ilusão doce e fagueira, Linda rosa molhada pelo orvalho: Amanhã, findarei o meu trabalho, Amanhã, muito cedo, irei à feira.
Desta forma, na vida passageira, Como aquele que vive do baralho, Um espera a melhora no agasalho E outro, a cura feliz de uma cegueira.
Com o belo amanhã que ilude a gente, Cada qual anda alegre e sorridente, Como quem vai atrás de um talismã.
Com o peito repleto de esperança, Porém, nunca nós temos a lembrança De que a morte também chega amanhã.
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HERANÇA
Querida esposa que ouvindo está Roubou-lhe o tempo a jovial beleza, Mas tem o dote da maior nobreza Sua bondade não se acabará.
Morrerei breve, porém Deus lhe dá Força e coragem com a natureza De no semblante não mostrar tristeza Quando sozinha for viver por cá.
Não tenho terra, gado, nem dinheiro, Só tenho o galo dono do terreiro Que a madrugada nunca ele perdeu.
Conserva esposa, minha pobre herança, Seja bem calma, paciente e mansa, Você não chore, que este galo é seu.
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A FESTA DA NATUREZA
Chegando o tempo do inverno, Tudo é amoroso e terno, Sentindo o Pai Eterno Sua bondade sem fim. O nosso sertão amado, Estrumicado e pelado, Fica logo transformado No mais bonito jardim.
Neste quadro de beleza A gente vê com certeza Que a musga da natureza Tem riqueza de incantá. Do campo até na floresta As ave se manifesta Compondo a sagrada orquesta Desta festa naturá.
Tudo é paz, tudo é carinho, Na construção de seus ninho, Canta alegre os passarinho As mais sonora canção. E o camponês prazentero Vai prantá fejão ligero, Pois é o que vinga premero Nas terras do meu sertão.
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MEDO DA MORTE
Cachingando, cego e surdo Sem ver e sem estar ouvindo Pra mim não é absurdo Vou meu caminho seguindo Nunca pensei em morrer Quem morre cumpre um dever Quando chegar o meu fim Eu sei que a terra me come Mas fica vivo o meu nome Para os que gostam de mim.
Minha mãe me criou dentro do mar Com o leite do peito de baleia Me casei no oceano com a sereia Que me fez repentista popular Canto as noites famosas de luar E linguagem das brisas tropicais Entre abraços e beijos sensuais Nos embalos das ondas seculares Conquistei a rainha mãe dos mares E o que é que me falta fazer mais?
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Francisco Ferreira
O amor é força bruta O estrondo do trovão, Quando ele chega domina As forças do coração, É a claridez do relâmpago Clareando a escuridão.
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Luís Campos
Esse negócio de chifre É coisa muito comum Já levei chifre de noite De manhã e em jejum O remédio é paciência Pitu e Cinquenta e Um.
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Sebastião da Silva
No outono, verão e no inverno Eu vivi trabalhando no roçado Aboiando feliz atrás do gado E vendo mato mudar seu próprio terno Mas, com ordem do Santo Pai Eterno Eu comprei a viola, o meu piano, Nela ganho meu pão cotidiano, É amiga, divina e predileta, Obrigado meu Deus por ser poeta Nos dez pés de martelo alagoano.
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Dimas Batista
Ali na cabana de alguns pescadores Fitando a beleza do mar, do arrebol, Bonitas morenas queimadas de sol, Alegres ouviram cantar meus amores. O vento soprava com leves rumores, O pinho a gemer, depois a chorar. Aquelas morenas à luz do luar Me davam impressão que fossem sereias, Alegres, risonhas, sentadas nas areias, Ouvindo meus versos na beira do mar.
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João Paraibano
Cai a chuva no telhado, a dona pega e coloca uma lata na goteira, onde a água faz barroca: cada pingo é um baião que o fundo da lata toca.
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Poeta Anízio
A saudade é sentimento Que amarga e dá prazer Mas faz parte do viver Do amor é o fermento Se é parte do tormento Ver as lágrimas derramando Mesmo triste vou cantando Não posso ficar fingindo Saudade é chorar sorrindo Com o coração chorando.
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Onésimo Maia
Eu sou tão analfabeto, Que nem sei dizer o tanto; Vendo um lápis, tenho medo; Vendo um caderno, me espanto, Mas, quando um jumento rincha, Eu penso um poema e canto.
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O CEGO NO CINEMA – José Soares
Um mudo disse a um mouco Que lembra quando nasceu. O mouco disse também Que um aleijado correu. O cego disse que viu Quando um defunto morreu.
O mudo, cego e o mouco, Cada um com seu problema. Os três então se uniram Pra resolver o dilema. E depois se encaminharam A uma sessão de cinema.
Foram ao cinema Glória Que não fica muito além, E quando chegou a vez Do cego pagar também, Ele disse: – Eu vou pagar Com uma nota de cem!
Quando a moça demorou Para trocar o dinheiro O cego abriu o bocão E disse pro companheiro: – Uma velha parideira Pare muito mais ligeiro!
Pareciam três babacas Cego, o mudo e o mouco, Três figuras impolutas Dois otários e um baiôco. Ouvindo a conversa deles Eu me ri que fiquei rouco.
A grande dupla de poetas repentistas Ivanildo Vilanova e Valdir Teles (1956-2020)
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Valdir Teles e Ivanildo Vilanova glosando o mote:
Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Valdir Teles
Logo após ser eleito está mudado, cada um tem direito a secretária, segurança, assessor, estagiária, gabinete com ar condicionado, vai lembrar-se do proletariado, com favela e cortiço pra viver, ou será que não vai se aborrecer, com esgoto, favela, lodo e grude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Ivanildo Vilanova
Pode ser um sujeito agitador, boia-fria, sem terra, piqueteiro, camarada, comuna, companheiro, se um dia tornar-se senador, vindo até se eleger governador, qual será o seu novo proceder, vai mudar, vai mentir ou vai manter as promessas que fez de forma rude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Valdir Teles
No período que um adolescente, quer mudar o planeta e o país, através dos arroubos juvenis, vira líder, orador e dirigente, mas se um dia ele sair presidente, o que foi nunca mais poderá ser, aí diz que o remédio é esquecer as loucuras que fez na juventude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Ivanildo Vilanova
Todo jovem, a princípio é sectário, atuante, grevista, condutor, antagônico, exaltado, pregador, um perfeito revolucionário, cresce, casa e se torna secretário, veja aí o que trata de fazer, leva logo a família a conhecer Disneylândia, Washington e Hollywood. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
Valdir Teles
Quem vivia de luta e de vigília, invasão, pichamento e barricada, através disso aí fez a escada, pra chegar aos tapetes de Brasília, vai pensar no progresso da família, no que faz pra do posto não descer, nunca falta quem queira se vender, sempre acha covarde que lhe ajude. Não conheço esquerdista que não mude, quando pega nas rédeas do poder.
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DISCUSSÃO DE JOÃO FORMIGA COM FRANCISCO PARAFUSO – Severino Borges da Silva
Estava João Formiga Versejando alegremente Nas terras do Ceará Quando chegou de repente Um cantor do Mato Grosso Quase tonto de aguardente
Chegou na sala e saudou A todo o povo primeiro E disse a João Formiga: – Vá sabendo cavalheiro Sou Francisco Parafuso Dou certo em todo tempero
O dono da casa disse: – Pois então, meu camarada Você canta com Formiga Uma discussão pesada Se ganhar leva o dinheiro Se perder não leva nada
– Porém eu vou dar um tema Com estilos naturais Para Formiga dizer Com bases fundamentais Sem errar nem dar um tombo Nem bebo, nem fumo mais
Todos sabem no Brasil Que o idioma é português Assim como lá na França Todos falam o francês Por isso, na Paraíba Falamos PARAIBÊS.
Quem não tem dinheiro é LISO Quem é rico é ESTRIBADO Não ter como cair morto É ser LISO E LASCADO Quem não dá sorte é PÉ FRIO Quem tem sorte é CAGADO.
Axila é SUVACO Cisco no olho é ARGUEIRO Longe é LÁ NA CAIXA PREGO Matuto é BERADEIRO O alcoólatra é PINGUÇO Mas também é CACHACEIRO.
Um mau cheiro é uma CATINGA Também pode ser INHACA Na axila é SUVAQUEIRA Quem fecha um botão ATACA Quem se vai PEGA O BECO Quem entra em casa EMBURACA.
Longe é a BAIXA DA ÉGUA O ali é ACULÁ Devagar é SÓ NA MANHA Correr é DESIMBESTAR O de cima é o de RIBA Botar no chão é ARRIAR.
Mulher bonita é VISTOSA Mulher feia é CANHÃO Quem se zanga DÁ A GOTA Quem dá bronca DÁ CARÃO Menino que anda lento OH… MENINO REMANCHÃO!
Francisco Maia de Queiroz, o Louro Branco (1943-2018)
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Louro Branco
No dia que eu morrer Deixo a mulher sem conforto Roupas em malas guardadas E o chapéu em torno torto E a viola com saudades Dos dedos do dono morto.
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Lindomar Paiva
Uma vez eu amei muito e sofri, A ela eu dediquei o meu carinho, Mesmo assim, ela me deixou sozinho, Sem pensar no quanto eu padeci, Ela nem imagina o que eu perdi, Nem o quanto sozinho eu chorei, Tudo que ela me fez, eu perdoei, Derramei toda lágrima no meu pranto, Quem quiser ter saudades do meu tanto, Sofra e ame do tanto que amei.
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Manoel Filó
Quem numa separação Sofrer contrariedade Reconquiste o que perdeu Pra viver mais à vontade Porque não é de espingarda Que a gente mata a saudade.
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Biu de Crisanto
Não esqueço um só segundo Dos dias da mocidade Mas o tempo me roubou Da vida mais da metade Restando só amargura Tristeza, dor e saudade.
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Antonio Pereira de Moraes
Saudade é um parafuso Que na rosca quando cai, Só entra se for torcendo, Porque batendo num vai E enferrujando dentro Nem distorcendo num sai.
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Saudade tem cinco fios Puxados à eletricidade, Um na alma, outro no peito, Um amor, outro amizade, O derradeiro, a lembrança Dos dias da mocidade.
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Saudade é como a resina, No amor de quem padece, O pau que resina muito Quando não morre adoece. É como quem tem saudade Não morre, mas adoece.
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Adão me deu dez saudades Eu lhe disse: muito bem! Dê nove, fique com uma Que todas não lhe convêm. Mas eu caí na besteira, Não reparti com ninguém.
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No Silêncio da Saudade Quem ama sofre calado, Ausente de seu amor! Tornando-se um sofredor… Porque não ver ao seu lado, Seu coração é magoado!
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Pra viver não tem ação… Seu mundo vira ilusão… A tristeza a mente invade… No silêncio da saudade! Só quem fala é o coração.
* Se a saudade matasse No túmulo eu já vivia Há muito eu já residia Mas continuo no impasse Se o meu amor voltasse Essa saudade morria A mim não perturbaria A vida era um mar de rosa Cantando e falando prosa Na vida eu tinha alegria…
* Quem ama sofre calado Seu peito é tristeza e dor Tornando-se um sofredor… Porque não tem ao seu lado, Seu amor mais desejado Pra viver não tem ação… Seu mundo vira ilusão… A tristeza a mente invade… No silêncio da saudade! Só quem fala é o coração.
Dois ícones da cantoria nordestina de improviso: Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992) e Severino Pinto, o Pinto de Monteiro (1895-1990)
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Uma cantoria de Pinto do Monteiro e Lourival Batista
Pinto do Monteiro
É certo, meu camarada O que você tá dizendo Eu costumo andar assim Sujo e cheio de remendo Mas ninguém diz onde eu passo: “Pinto ficou me devendo.”
Lourival Batista
De ninguém ando correndo Pois não faço maus papéis Não devo, o que compro pago Desde o perfume aos anéis Seja chapéu pra cabeça Ou sapato para os pés.
Pinto do Monteiro
E os duzentos e dez Que tu tomaste a Armando? Por uns quatro ou cinco dias O tempo foi se passando Já faz quatro ou cinco meses Ó ele ali esperando!
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Uma cantoria de Sebastião da Silva e Moacir Laurentino:
Moacir Laurentino
No inverno estou feliz, trabalhando o meu dia, olhando o saguim na mata, que saltita, canta e pia, e o passa-sebo furando a casca da melancia.
Sebastião da Silva
No calor do meio dia, escutar uma peitica, deitado em colchão de folha debaixo da oiticica, quanto mais o sol esquenta mais bonito o sertão fica.
Moacir Laurentino
A água desce na bica quando chove em fevereiro, no terreiro o peru roda, fuça um porco no aceiro, e a água desce do corgo com basculho pra o barreiro.
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Uma cantoria de Silveira e Diniz Vitorino
Silveira
Tu não faz a metade do que faço Quando eu pego um cantor se acaba o nome Nesse dia os cães não passam fome E urubus festejam no espaço Deixo o corpo do pobre num bagaço Exposto ao monturo seu despojo Cantor fraco eu só mato de arrojo E a folia se arrancha na ossada Sai a alma gritando abandonada E o diabo não quer porque tem nojo.
Diniz Vitorino
No momento que eu me aperreio Com o peso esquisito do meu braço Não existe prisão feita de aço Que com o murro eu não parta pelo meio No momento que acabo com o esteio Que alguém pra fazer gasta um ano Tiro telha, quebro ripa, envergo cano De metal ou de aço bem maciço Você morre e não faz este serviço Só faz eu porque sou paraibano.
Silveira
Dei um murro na venta de um poeta Que a cabeça rodou fez piruetas E passando por todos os planetas Foi parar no reinado de um profeta Nisto um santo que viu ficou pateta A cabeça do vate estava um facho Uma alma gritou ô velho macho E são pedro gritou o que é isso? Disso um anjo que estava junto a cristo É silveira zangado lá embaixo.
Diniz Vitorino
Eu ja fui no inferno urgentemente E entrei numa poeta lá por trás E peguei um irmão de satanás E um primo, um irmão e um parente. Pra mostrar que eu sou cabra valente Dei um tapa no diabo carrancudo E peguei outro diabo cabeludo Dei-lhe tanto que o cabra ficou calvo Se você morrer hoje já ta salvo Que o que tinha de diabo eu matei tudo.