O grande poeta cantador João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)
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Muitas cenas são revistas Na hora crepuscular O bico de um peito cheio Proíbe um pagão chorar A casca do fruto racha A voz do silêncio é baixa Mas dá pra Deus escutar.
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É bonito o matuto se firmar Num galão carregando duas latas Um cachorro sentar nas duas patas Convidando o seu dono pra caçar Uma gata na boca carregar Um filhote que nasceu sem a visão Quando a boca se cansa põe no chão Mas o dente não fere a sua cria Deus pintou o sertão de poesia Meu orgulho é ser filho do sertão.
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Branca, preta, pobre e rica, toda mãe pra Deus é bela; acho que a mãe merecia dois corações dentro dela: um pra sofrer pelos filhos; outro pra bater por ela.
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Ao passar em Afogados diga a minha esposa bela que derramei duas lágrimas sentindo saudades dela tive sede, bebi uma e a outra guardei pra ela.
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O sol diminui os raios Depois que a tarde se fecha O vento carrega a folha Da galha de um pé de ameixa Sai dando tabefe nela Depois se aborrece e deixa.
Quando esbalda o nevoeiro, rasga-se a nuvem, a água rola, um sapo vomita espuma; onde o boi passa se atola, e a fartura esconde o saco que a fome pedia esmola.
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O menino e o rapaz, estando juntos na sala, um fala porém não ri, o outro ri mas não fala; um tem na mão um brinquedo, tem o outro uma bengala.
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Linda é a baixa de arroz quando está amarelando; uma vara em pé no meio com um molambo balançando, pros passarinhos pensarem que tem gente tocaiando.
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A cabra abana as orelhas para espantar o mosquito, e se acocora lambendo os cabelos do cabrito, depois vai olhar de longe pra ver se ficou bonito!
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Não fale mal de Zefinha, Que nunca foi amor seu, A mulher que fez da sua Honra um presente e me deu. Sonhou beijando um poeta, Quando acordou era eu.
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Lenelson Piancó
Extremista maluco do Hamas Esperando ganhar rios de mel Desafia o poder de Israel Decepando a cabeça dos rivais Entre os dois é difícil encontrar paz Quando a face do ódio se levanta Cessar fogo também não adianta Pra quem sente prazer em mutilar Um milagre de Deus pode acabar Com quem faz o terror da guerra santa!
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Otacílio Batista
Um caboclo na cabana Deitado em sua palhoça Olhando o verde da roça Diz sorrindo prá serrana: Bote um traguinho de cana Bebe, tempera a garganta Almoça , pensa na janta Faz um cigarro de fumo Abre a porta e sai no rumo Da sombra de qualquer planta.
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O poeta e o passarinho São ricos de inteligência Simples como a natureza Eternos como a ciência Estrelas da liberdade Peregrinos da inocência.
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Diniz Vitorino
Nós temos por certa a morte, mas ninguém deseja tê-la… Quando morre uma criança, o pai lamenta em perdê-la, mas Jesus, todo de branco, abre o céu pra recebê-la.
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Meu colega, você vive da fama que teve outrora, e esses versos bem bolados que o povo escuta e decora, você faz de ano em ano e eu faço de hora em hora!
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Joaquim Vitorino
Tenho enorme inteligência Poeta não me dá vaia Sou vento rumorejando Nos coqueiros de uma praia Sou mesmo, que Rui Barbosa Na conferência de Haia.
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Zé de Vidal
O coveiro é um vivente De pequena autoridade; De baixo nível e salário, Porém na realidade, Preso que coveiro prende Nunca mais tem liberdade!
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José Lucas de Barros
Quando menino, eu queria Ser homem com rapidez, Depois, contabilizando Tudo que o tempo me fez, Hoje morro de vontade De ser menino outra vez.
PELEJA DE DOIS POETAS FALANDO DE VIOLÊNCIA – Pedro Paulo Paulino
No sítio Bandeira Branca Numa noite de viola, Dois famosos repentistas Puxaram pela cachola, Pra falar da violência Que o nosso Brasil assola.
Mangabeira e Curió, Cada qual o mais batuta, Para cantar qualquer coisa Essa dupla não reluta, Mais ou menos como segue Foi começada a disputa.
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Mangabeira
Há quem diga que museu É que vive do passado. Mas neste mundo moderno, Cada vez mais avançado, Vejo o homem mais confuso, Como um velho parafuso Por si próprio desgastado.
Curió
Com a ciência a seu lado E a tecnologia, Descobertas importantes A gente vê todo dia, Mas o homem não supera Dentro dele a besta-fera Do crime e da covardia.
Mangabeira
Com tanta sabedoria, Com toda a sua potência, O homem não se supera Nessa brutal violência Que de maneira infeliz Domina todo o país, Com a total resistência.
Curió
O crime e sua influência Em nossa sociedade É matéria tão comum Que virou banalidade. Perante a situação, Hoje em dia o cidadão É quem vive atrás da grade.
O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)
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Pinto do Monteiro:
Quando é de manhãzinha, Se apagam os pirilampos, O homem vai para os campos, A mulher vai pra cozinha; Sacode milho à galinha, Se, por acaso, ela cria! Canta o galo, o pinto pia, Salta o bode no terreiro, Se despede o violeiro, Dando adeus, até um dia.
Recordo perfeitamente, Quando em minha idade nova, O meu pai abria a cova, E eu plantava a semente. Eu atrás, ele na frente, Por ter força e mais idade… Olhando a fertilidade Da vastidão da campina, Aquela chuvinha fina Me faz chorar de saudade.
Em dezembro, começa a trovoada, Em janeiro, o inverno principia, Dão início a pegar a vacaria: Haja leite, haja queijo, haja coalhada! Em setembro, começa a vaquejada: É aboio, é carreira, é queda, é grito! Berra o bode, a cabra e o cabrito; A galinha ciscando no quintal, O vaqueiro aboiando no curral; Nunca vi um cinema tão bonito!
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Oliveira de Panelas:
Na mulher toda têmpera se envolve Seu ciúme é cuidado impertinente Seu desejo é fornalha incandescente Quando pode, é perigo, o que devolve, Quando está duvidosa só resolve Pelo fio da ânsia propulsora, Quando assume o papel de genitora Aurifica seu corpo fecundante, Pra tornar-se a maior representante Dessa lei biológica criadora.
No namoro é centelha de ilusão No noivado é a fonte de esperança Sendo esposa é profunda a aliança E faz unir coração com coração, Como mãe é suprema adoração! Sendo sogra é as vezes tempestade Quando amiga, é amiga de verdade, Sendo amante é volúpia no segredo, Porém sendo inimiga causa medo Ao mais forte machão da humanidade.
Vemos a lua, princesa sideral Nos deixar encantados e perplexos Inundando os céus brancos de reflexos Como um disco dourado de cristal Face cálida, altiva, lirial Inspirando canções tenras de amor Jovem virgem de corpo sedutor Bem vestida num “robe” embranquecido De mãos postas num templo colorido Escutando os sermões do Criador.
Manoel Xudu Sobrinho:
Os astros louros do céu encantador Quando um nasce brilhando, outro se some E cada astro brilhante tem um nome Um tamanho, uma forma, brilho e cor Lacrimosos vertendo resplendor Como corpos de pérolas enfeitados Entre tronos de plumas bem sentados Vigiando as fortunas majestosas Que Deus guarda nas torres luminosas Que flutuam nos paramos azulados.
Lourival Batista Patriota:
Entre o gosto e o desgosto, o quadro é bem diferente, ser moço é ser um sol nascente, ser velho é ser um sol posto, pelas rugas do meu rosto, o que fui hoje não sou, ontem estive, hoje não estou, que o sol ao nascer fulgura, mas ao se pôr deixa escura a parte que iluminou.
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Um cientista profundo me perguntou certa vez: se eu conhecia os três desmantelos deste mundo. Eu respondi num segundo e dei mais a explicação: Doido, Mulher e Ladrão: Doido não tem paciência, Ladrão não tem consciência, Mulher não tem coração.
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O cantador repentista em todo ponto de vista, precisa ser um artista de fina imaginação, para dar capricho à arte e ter nome em toda parte, honrando o grande estandarte dos oito pés de quadrão!
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Dimas Batista Patriota:
Deus vê do céu bem visíveis Nossos íntimos dilemas Pra Ele não tem problemas De soluções impossíveis Desde que são infalíveis Os atos do grande Ser Todos têm que obedecer Rico, pobre, bom ou mau Não cai a folha de um pau Sem nosso Deus não querer.
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Fraqueza da humanidade Alguém dirá, mas não é Diz a tradição até Jesus chorou de saudade Seu coração de bondade Da Virgem se despedia Chorava olhando a Maria Do Horto da Oliveira A saudade é companheira De quem não tem companhia.
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Os carinhos de mãe estremecida Os brinquedos do tempo de criança O sorriso fugaz de uma esperança A primeira ilusão de nossa vida Um adeus que se dá por despedida O desprezo que a gente não merece O delírios da lágrima que desce Nos momentos de angústia e de desgraça Passa tudo na vida tudo passa Mas nem tudo que a gente passa, esquece.
Pinto de Monteiro:
Se em janeiro não houver trovoada Fevereiro não tem sinal de chuva Não se vê a mudança da saúva Carregando a família da morada Só se ouve do povo é a zuada Pai e mãe, noiva e noivo, genro e nora Homem treme com a fome, o filho chora Se arruma e vão tudo para o Rio O carão que cantava em meu baixio Teve medo da seca e foi embora.
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Se for acocho de amor, aceito e fico contente. Se ela for carinhosa e me arrochar novamente, de nove para dez meses o padre batiza gente!
Quando morre um alguém que a gente adora Nasce um broto de dor no coração.
Quando morre um parente ou um amigo Resta só lamentar, ninguém dá jeito A tristeza se aloja em nosso peito A angústia se apossa do abrigo O seu corpo levado pra o jazigo É seguido por uma multidão Nem compensa apertar na sua mão É inútil dizer não vá agora Quando morre um alguém que a gente adora Nasce um broto de dor no coração.
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Chico Nunes glosando o mote:
A saudade é companheira De quem não tem companhia.
Vivo em eterna agonia Sem saber o resultado Deus já me deu o atestado Pra eu baixar à terra fria. Em volta só vejo o mal Deste meio social, E espero sozinho o dia De minha hora derradeira… A saudade é companheira De quem não tem companhia.
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José Lucas de Barros glosando o mote:
A viola, em silêncio, está chorando, Com saudade da voz do violeiro.
Chico Motta viveu de cantoria, Imitando as graúnas sertanejas, Nos ardores de inúmeras pelejas Que aprendeu a enfrentar com galhardia; Seu programa, nem bem raiava o dia, Acordava o sertão alvissareiro, Mas, depois do seu verso derradeiro, Que inda está, nas quebradas, ecoando, A viola, em silêncio, está chorando, Com saudade da voz do violeiro.
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Pinto do Monteiro glosando o mote:
Aquela chuvinha fina Me faz chorar de saudade.
Me lembro perfeitamente, Quando em minha idade nova, O meu pai cavava a cova E eu plantava a semente. Eu atrás, ele na frente, Por ter força e mais idade, Olhando a fertilidade Da vastidão da campina, Aquela chuvinha fina Me faz chorar de saudade.
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Severino Ferreira glosando o mote:
O Nordeste poético ainda chora Com saudade de Pinto do Monteiro.
Sei que Pinto deixou como recinto A Monteiro que é sua cidade O Nordeste até hoje tem saudade De um poeta pacato e tão distinto Outro galo não faz mais outro pinto Que seja poeta e verdadeiro Se pegar a galinha no terreiro E tentar fabricar o ovo “gora” O Nordeste poético ainda chora Com saudade de Pinto do Monteiro.
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Jó Patriota glosando o mote:
A casa que tem criança Deus visita todo dia.
Quando a criança adormece A mãe já fraca do parto Nos quatro cantos do quarto Deus em pessoa aparece. O Santo Espírito desce Distribuindo alegria Aquela rede sombria Tem uma mão que balança A casa que tem criança Deus visita todo dia.
Sebastião da Silva e Moacir Laurentino glosando o mote:
Quem quiser ter saudade do meu tanto Sofra e ame do tanto que eu amei.
Moacir Laurentino:
Numa noite de insônia e de saudade a angustia invadiu meu coração. Eu senti a maior recordação dos amores da minha mocidade lamentei suspirei senti vontade de beijar a mulher com quem sonhei mas sem esse direito eu já fiquei e nem ela possui o mesmo encanto quem quiser ter saudade do meu tanto sofra e ame do tanto que eu amei.
Sebastião da Silva:
Quem me fez padecer tanta ilusão deixou todos meus sonhos destruídos o murmúrio do adeus nos meus ouvidos e a tristeza rasgando o coração. Já tentei esquecer mais foi em vão só eu sei quantas vezes já chorei já gastei todos lenços que comprei ensopados das gotas dos meus prantos quem quiser ter saudade do meu tanto sofra e ame do tanto que eu amei.
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Ivanildo Vilanova e Severino Ferreira glosando o mote:
Vamos ver quem possui capacidade Pra ganhar o Nobel da Cantoria.
Ivanildo Vilanova:
Nobel foi o inventor da dinamite Criador de um prêmio especifico Deu progresso ao projeto cientifico Onde a nossa ciência tem limite Hoje em dia se atende o seu convite Sem os louros da sua academia Mas se o Deus que inspirou barra do dia Não conhece liceu nem faculdade Vamos ver quem possui capacidade Pra ganhar o Nobel da Cantoria.
Severino Ferreira:
Vamos ver quem conhece aonde é O país dos Assírios e Caldeus Jafetanis, Fenícios, Cananeus Descendentes da raça de Noé E qual foi o motivo que José Se tornou o esposo de Maria Ela teve Jesus na estrebaria E não perdeu o valor da virgindade Vamos ver quem possui capacidade Pra ganhar o Nobel da Cantoria.
Ivanildo Vilanova:
Pra ganhar o Nobel só é preciso Conhecer de sentido e odalinfa Ser parente da paz, irmão da ninfa Ser parente do amor, irmão do riso É tirar oito e meio em improviso Tirar nove em métrica e harmonia Nove e meio em repente e teoria Tirar dez na escola da saudade Vamos ver quem possui capacidade Pra ganhar o Nobel da Cantoria.
Severino Ferreira:
Vamos ver quem possui inteligência Pra lembrar Tiradentes, o mineiro Que foi preso no Rio de Janeiro Por um povo de pouca consciência Que D. Pedro gritou: “Independência” Que o mundo esperava e pretendia Qual o mês, a semana, hora e o dia Que a princesa assinou a liberdade Vamos ver quem possui capacidade Pra ganhar o Nobel da Cantoria.
Ivanildo Vilanova:
Vamos ver quem possui perspectiva Pra falar sobre monte, terra e gleba Pra falar sobre a vida de algum peba Arrancando as raízes da maniva E a gata que está receptiva Quer um gato pra sua companhia Quanto mais ela arranha, morde e mia Mas o gato ansioso tem vontade Vamos ver quem possui capacidade Pra ganhar o Nobel da Cantoria.
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Pinto do Monteiro glosando o mote
O cavalo do vaqueiro Nas quebradas do sertão.
Quebra galho de aroeira, De jurema e jiquiri, Rasga beiço e calumbí, Mororó e quixabeira. Quebra-faca e catingueira, Urtiga braba e pinhão; Pau-serrote e pau-caixão, Baraúna e marmeleiro, O cavalo do vaqueiro Nas quebradas do sertão.
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Dedé Monteiro glosando o mote:
É ruim plantar esperança Pra colher desilusão.
São Severino dos Ramos Enriqueceu com promessa. Dilma promete e tropeça, Nós, sem tropeçar, penamos. E a seca, enquanto esperamos, Vai minando a região Que inda aguarda a plantação Da semente da bonança. É ruim plantar esperança Pra colher desilusão.
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Antonio Piancó Sobrinho glosando o mote:
Só partindo é que se sabe Como era bom ter ficado.
Parte gente todo dia Para as capitais do sul Pensando num mundo azul Repleto de fantasia Porém a sua alegria Termina mal tem chegado Só o serviço pesado No mundo inteiro lhe cabe Só partindo é que se sabe Como era bom ter ficado.
Passa os dias ressentido Lamentando o seu pesar Pensando um dia voltar Para o seu torrão querido Com o coração partido E o peito dilacerado Chorando, desesperado Pede a Deus que a dor se acabe Só partindo é que se sabe Como era bom ter ficado.
João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982), foi poeta
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MEU LUGAREJO
Meu recanto pequenino De planalto e de baixio Onde eu brincava em menino Pelos barrancos do rio Gigantescos braunais, Meus soberbos taquarais Cheios de viço e vigor Belas roseiras nevadas Diariamente abanadas Das asas do beija-flor
A terra da catingueira Criada na penedia Onde a ave prazenteira Canta a chegada do dia Planalto, ribeiro, prado Onde até o próprio gado Parece ter mais prazer Terreno das andorinhas Onde arrulham mil rolinhas Quando começa a chover
A borboleta ligeira Que desce do verde monte Passa voando maneira Roçando as águas da fonte As aragens dos campestres Pelas florzinhas silvestres Atravessam sem alarde Quando o sol se debruça A Natureza soluça Nas sombras do véu da tarde
Terreno em que os sabiás Cantam com mais queixumes Belas noites de cristais Cravadas de vaga-lumes Meus mangueirais magníficos Por onde os ventos pacíficos Atravessam mansamente Verdes matas perfumadas Nas lindas tardes toldadas Das cinzas do sol poente
Faço da minha esperança Arma pra sobreviver Até desengano eu planto Pensando que vai nascer E rego com as próprias lágrimas Pra ilusão não morrer.
Onildo Barbosa:
Quando o dia vai embora A tarde é quem sente a queixa O portão da noite abre A porta do dia fecha A boca da noite engole Os restos que o dia deixa.
Zé Saldanha:
Fiz versos bonitos e com estilo Olhando as belezas do vergel; Na promissão da terra leite e mel Vi de perto a estátua de Berilo, Medi as águas que tem no rio Nilo Estudei muito tempo o hemisfério, Dei certinho as lições do isotérmico Estudei tudo do livro herogramático, Trabalhei muito tempo de astronáutico Conhecendo o segredo planisférico.
Sebastião Dias:
Quando o chão está molhado aparecem coisas boas: se levantam cogumelos que as capas parecem broas; os sapos chocam de ruma; bordam com cachos de espuma o cenário das lagoas.
Diniz Vitorino:
Na terra paraibana foi onde eu pus os meus pés. Caminhei pintando os lírios dos majestosos painéis, que formam telas sedosas nos aromáticos vergéis.
Vi os dias infantis, cheguei na adolescência, cantei olhando pra o céu, bebendo divina essência dos frutos que Deus espreme na taça do inocência.
No tempo da mocidade fui ídolo dos cantadores; dos cantadores que foram meus fãs, admiradores, e hoje me negam bom-dia pra magoar minhas dores!
Eu sei que não estou seguro nesta profissão que estou: sou ferido sem ferir, chorando pra festa vou, sofro, mas só deixo o palco depois que termina o show.
Siqueira de Amorim:
O chifre pra muita gente Seja linheiro ou com dobra Serve para corrimboque E guarda rapé com sobra E ainda sendo queimado Serve para espantar cobra
Se numa casa qualquer O chifre é dependurado Serve para trazer fortuna E pra tirar mau-olhado Cura também dor de dente Se for chifre de veado
O chifre sendo linheiro Lá pras bandas do sertão Bota-se na prateleira Da bodega ou no balcão Para tirar a coragem Do caboclo valentão
Mas o chifre na cidade É coisa mais diferente Serve para fazer palheta Botões de ceroula e pente E só não dá muito certo Sendo na cabeça de gente.
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DICIONÁRIO PARAIBÊS – Vicente de Campos Filho
Todos sabem no Brasil Que o idioma é português Assim como lá na França Todos falam o francês Por isso, na Paraíba Falamos PARAIBÊS.
Quem não tem dinheiro é LISO Quem é rico é ESTRIBADO NÃO TER COMO CAIR MORTO É ser LISO E LASCADO Quem não dá sorte é PÉ FRIO Quem tem sorte é CAGADO.
Axila é SUVACO Cisco no olho é ARGUEIRO Longe é LÁ NA CAIXA PREGO Matuto é BERADEIRO O alcoólatra é PINGUÇO Mas também é CACHACEIRO.
Um mal cheiro é uma CATINGA Também pode ser INHACA Na axila é SUVAQUEIRA Quem fecha um botão ATACA Quem se vai PEGA O BECO Quem entra em casa EMBURACA.
Dedé Monteiro, o Papa da Poesia, nascido em setembro de 1949, no sitio Barro Branco, município de Tabira, Pernambuco
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Dedé Monteiro glosando o mote
Saltei mas de mil cancelas Na estrada dos desenganos.
Na estrada dos desenganos Contei mais de mil palhoças, Pequenas, pobres, singelas, Passei por mais de mil roças, Saltei mais de mil cancelas, Dormi em mais de mil redes, Saciei mais de mil sedes, Desmanchei mais de mil planos, Fiz mais de mil amizades, Deixei mais de mil saudades, Na estrada dos desenganos.
Passei por mais de mil cruzes, Acendi mais de mil velas, Divisei mais de mil luzes, Saltei mais de mil cancelas, Mais de mil vezes chorei, E o pranto que derramei Valeu por mais de mil anos… Desfiz mil sonhos queridos, Soltei mais de mil gemidos Na estrada dos desenganos.
Ganhei mil cabelos brancos, Fiz mais de mil sentinelas, Venci mais de mil barrancos, Saltei mais de mil cancelas, Escutei mil passarinhos, Pisei mais de mil espinhos, Padeci por mil ciganos, Ganhei mais não do que sim, Deixei mil partes de mim Na estrada dos desenganos.
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Zé Mariano glosando o mote:
Vejo um quadro pintado de saudade. Na parede da minha solidão.
Relembrando meus tempos de criança, Os momentos alegres que passei Na casinha de barro onde morei, Muito simples, mas farta de esperança, O orgulho que tinha a vizinhança Já me vendo um futuro cidadão, Quando lembro a ponteira do pião Enrolando na minha mocidade, Vejo um quadro pintado de saudade Na parede da minha solidão.
Se fingir que dos anos me esqueci, Se por ser vaidoso ou por desgosto, Sem ter traumas, as rugas do meu rosto Vão mostrar que de fato envelheci. Na escola da vida eu consegui Receber o diploma de ancião, E na hora da minha conclusão, No canudo manchado da idade Vi um quadro pintado de saudade Na parede da minha solidão.
Ela foi me dizendo que voltava Eu fiquei aguardando seu regresso Foi-se um ano, dois anos, sem sucesso Nem recado, nem carta ela mandava Quando alguém por capricho perguntava A esquecesse poeta, sim ou não? Respondia com a voz do coração Implorando por sua liberdade Tenho um quadro pintado de saudade Na parede da minha solidão.
Pra poder esquecer quem certo dia Fez morada na sombra do meu peito Resolvi por em prática meu direito De viver como um pássaro em harmonia Dei um laço abraçando a poesia E depois de tomada a decisão Coloquei toda a minha inspiração No lugar de quem era outra metade E nunca mais vi um quadro de saudade Na parede da minha solidão.