PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE JOÃO PARAIBANO

O grande poeta cantador João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

* * *

Muitas cenas são revistas
Na hora crepuscular
O bico de um peito cheio
Proíbe um pagão chorar
A casca do fruto racha
A voz do silêncio é baixa
Mas dá pra Deus escutar.

* * *

É bonito o matuto se firmar
Num galão carregando duas latas
Um cachorro sentar nas duas patas
Convidando o seu dono pra caçar
Uma gata na boca carregar
Um filhote que nasceu sem a visão
Quando a boca se cansa põe no chão
Mas o dente não fere a sua cria
Deus pintou o sertão de poesia
Meu orgulho é ser filho do sertão.

* * *

Branca, preta, pobre e rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

O sol diminui os raios
Depois que a tarde se fecha
O vento carrega a folha
Da galha de um pé de ameixa
Sai dando tabefe nela
Depois se aborrece e deixa.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MESTRES DO IMPROVISO

João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

João Paraibano

Quando esbalda o nevoeiro,
rasga-se a nuvem, a água rola,
um sapo vomita espuma;
onde o boi passa se atola,
e a fartura esconde o saco
que a fome pedia esmola.

*

O menino e o rapaz,
estando juntos na sala,
um fala porém não ri,
o outro ri mas não fala;
um tem na mão um brinquedo,
tem o outro uma bengala.

*

Linda é a baixa de arroz
quando está amarelando;
uma vara em pé no meio
com um molambo balançando,
pros passarinhos pensarem
que tem gente tocaiando.

*

A cabra abana as orelhas
para espantar o mosquito,
e se acocora lambendo
os cabelos do cabrito,
depois vai olhar de longe
pra ver se ficou bonito!

*

Não fale mal de Zefinha,
Que nunca foi amor seu,
A mulher que fez da sua
Honra um presente e me deu.
Sonhou beijando um poeta,
Quando acordou era eu.

* * *

Lenelson Piancó

Extremista maluco do Hamas
Esperando ganhar rios de mel
Desafia o poder de Israel
Decepando a cabeça dos rivais
Entre os dois é difícil encontrar paz
Quando a face do ódio se levanta
Cessar fogo também não adianta
Pra quem sente prazer em mutilar
Um milagre de Deus pode acabar
Com quem faz o terror da guerra santa!

* * *

Otacílio Batista

Um caboclo na cabana
Deitado em sua palhoça
Olhando o verde da roça
Diz sorrindo prá serrana:
Bote um traguinho de cana
Bebe, tempera a garganta
Almoça , pensa na janta
Faz um cigarro de fumo
Abre a porta e sai no rumo
Da sombra de qualquer planta.

*

O poeta e o passarinho
São ricos de inteligência
Simples como a natureza
Eternos como a ciência
Estrelas da liberdade
Peregrinos da inocência.

* * *

Diniz Vitorino

Nós temos por certa a morte,
mas ninguém deseja tê-la…
Quando morre uma criança,
o pai lamenta em perdê-la,
mas Jesus, todo de branco,
abre o céu pra recebê-la.

*

Meu colega, você vive
da fama que teve outrora,
e esses versos bem bolados
que o povo escuta e decora,
você faz de ano em ano
e eu faço de hora em hora!

* * *

Joaquim Vitorino

Tenho enorme inteligência
Poeta não me dá vaia
Sou vento rumorejando
Nos coqueiros de uma praia
Sou mesmo, que Rui Barbosa
Na conferência de Haia.

* * *

Zé de Vidal

O coveiro é um vivente
De pequena autoridade;
De baixo nível e salário,
Porém na realidade,
Preso que coveiro prende
Nunca mais tem liberdade!

* * *

José Lucas de Barros

Quando menino, eu queria
Ser homem com rapidez,
Depois, contabilizando
Tudo que o tempo me fez,
Hoje morro de vontade
De ser menino outra vez.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM CORDEL SOBRE VIOLÊNCIA

PELEJA DE DOIS POETAS FALANDO DE VIOLÊNCIA – Pedro Paulo Paulino

No sítio Bandeira Branca
Numa noite de viola,
Dois famosos repentistas
Puxaram pela cachola,
Pra falar da violência
Que o nosso Brasil assola.

Mangabeira e Curió,
Cada qual o mais batuta,
Para cantar qualquer coisa
Essa dupla não reluta,
Mais ou menos como segue
Foi começada a disputa.

* * *

Mangabeira

Há quem diga que museu
É que vive do passado.
Mas neste mundo moderno,
Cada vez mais avançado,
Vejo o homem mais confuso,
Como um velho parafuso
Por si próprio desgastado.

Curió

Com a ciência a seu lado
E a tecnologia,
Descobertas importantes
A gente vê todo dia,
Mas o homem não supera
Dentro dele a besta-fera
Do crime e da covardia.

Mangabeira

Com tanta sabedoria,
Com toda a sua potência,
O homem não se supera
Nessa brutal violência
Que de maneira infeliz
Domina todo o país,
Com a total resistência.

Curió

O crime e sua influência
Em nossa sociedade
É matéria tão comum
Que virou banalidade.
Perante a situação,
Hoje em dia o cidadão
É quem vive atrás da grade.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

Pinto do Monteiro:

Quando é de manhãzinha,
Se apagam os pirilampos,
O homem vai para os campos,
A mulher vai pra cozinha;
Sacode milho à galinha,
Se, por acaso, ela cria!
Canta o galo, o pinto pia,
Salta o bode no terreiro,
Se despede o violeiro,
Dando adeus, até um dia.

Recordo perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai abria a cova,
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade…
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

Em dezembro, começa a trovoada,
Em janeiro, o inverno principia,
Dão início a pegar a vacaria:
Haja leite, haja queijo, haja coalhada!
Em setembro, começa a vaquejada:
É aboio, é carreira, é queda, é grito!
Berra o bode, a cabra e o cabrito;
A galinha ciscando no quintal,
O vaqueiro aboiando no curral;
Nunca vi um cinema tão bonito!

* * *

Oliveira de Panelas:

Na mulher toda têmpera se envolve
Seu ciúme é cuidado impertinente
Seu desejo é fornalha incandescente
Quando pode, é perigo, o que devolve,
Quando está duvidosa só resolve
Pelo fio da ânsia propulsora,
Quando assume o papel de genitora
Aurifica seu corpo fecundante,
Pra tornar-se a maior representante
Dessa lei biológica criadora.

No namoro é centelha de ilusão
No noivado é a fonte de esperança
Sendo esposa é profunda a aliança
E faz unir coração com coração,
Como mãe é suprema adoração!
Sendo sogra é as vezes tempestade
Quando amiga, é amiga de verdade,
Sendo amante é volúpia no segredo,
Porém sendo inimiga causa medo
Ao mais forte machão da humanidade.

* * *

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

Diniz Vitorino Ferreira, Monteiro-PB (1940-2010)

Diniz Vitorino:

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

Manoel Xudu Sobrinho:

Os astros louros do céu encantador
Quando um nasce brilhando, outro se some
E cada astro brilhante tem um nome
Um tamanho, uma forma, brilho e cor
Lacrimosos vertendo resplendor
Como corpos de pérolas enfeitados
Entre tronos de plumas bem sentados
Vigiando as fortunas majestosas
Que Deus guarda nas torres luminosas
Que flutuam nos paramos azulados.

Lourival Batista Patriota:

Entre o gosto e o desgosto,
o quadro é bem diferente,
ser moço é ser um sol nascente,
ser velho é ser um sol posto,
pelas rugas do meu rosto,
o que fui hoje não sou,
ontem estive, hoje não estou,
que o sol ao nascer fulgura,
mas ao se pôr deixa escura
a parte que iluminou.

* * *

Um cientista profundo
me perguntou certa vez:
se eu conhecia os três
desmantelos deste mundo.
Eu respondi num segundo
e  dei mais a explicação:
Doido, Mulher e Ladrão:
Doido não tem paciência,
Ladrão não tem consciência,
Mulher não tem coração.

* * *

O cantador repentista
em todo ponto de vista,
precisa ser um artista
de fina imaginação,
para dar capricho à arte
e ter nome em toda parte,
honrando o grande estandarte
dos oito pés de quadrão!

* * *

Dimas Batista Patriota:

Deus vê do céu bem visíveis
Nossos íntimos dilemas
Pra Ele não tem problemas
De soluções impossíveis
Desde que são infalíveis
Os atos do grande Ser
Todos têm que obedecer
Rico, pobre, bom ou mau
Não cai a folha de um pau
Sem nosso Deus não querer.

* * *

Fraqueza da humanidade
Alguém dirá, mas não é
Diz a tradição até
Jesus chorou de saudade
Seu coração de bondade
Da Virgem se despedia
Chorava olhando a Maria
Do Horto da Oliveira
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

* * *

Os carinhos de mãe estremecida
Os brinquedos do tempo de criança
O sorriso fugaz de uma esperança
A primeira ilusão de nossa vida
Um adeus que se dá por despedida
O desprezo que a gente não merece
O delírios da lágrima que desce
Nos momentos de angústia e de desgraça
Passa tudo na vida tudo passa
Mas nem tudo que a gente passa, esquece.

Pinto de Monteiro:

Se em janeiro não houver trovoada
Fevereiro não tem sinal de chuva
Não se vê a mudança da saúva
Carregando a família da morada
Só se ouve do povo é a zuada
Pai e mãe, noiva e noivo, genro e nora
Homem treme com a fome, o filho chora
Se arruma e vão tudo para o Rio
O carão que cantava em meu baixio
Teve medo da seca e foi embora.

* * *

Se for acocho de amor,
aceito e fico contente.
Se ela for carinhosa
e me arrochar novamente,
de nove para dez meses
o padre batiza gente!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Valdir Teles (1956-2020)

Waldir Teles glosando o mote:

Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

Quando morre um parente ou um amigo
Resta só lamentar, ninguém dá jeito
A tristeza se aloja em nosso peito
A angústia se apossa do abrigo
O seu corpo levado pra o jazigo
É seguido por uma multidão
Nem compensa apertar na sua mão
É inútil dizer não vá agora
Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

* * *

Chico Nunes glosando o mote:

A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

Vivo em eterna agonia
Sem saber o resultado
Deus já me deu o atestado
Pra eu baixar à terra fria.
Em volta só vejo o mal
Deste meio social,
E espero sozinho o dia
De minha hora derradeira…
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

* * *

José Lucas de Barros glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote:

Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

Me lembro perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai cavava a cova
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade,
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

* * *

Severino Ferreira glosando o mote:

O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

Sei que Pinto deixou como recinto
A Monteiro que é sua cidade
O Nordeste até hoje tem saudade
De um poeta pacato e tão distinto
Outro galo não faz mais outro pinto
Que seja poeta e verdadeiro
Se pegar a galinha no terreiro
E tentar fabricar o ovo “gora”
O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

* * *

Jó Patriota glosando o mote:

A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

Quando a criança adormece
A mãe já fraca do parto
Nos quatro cantos do quarto
Deus em pessoa aparece.
O Santo Espírito desce
Distribuindo alegria
Aquela rede sombria
Tem uma mão que balança
A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Sebastião da Silva e Moacir Laurentino glosando o mote:

Quem quiser ter saudade do meu tanto
Sofra e ame do tanto que eu amei.

Moacir Laurentino:

Numa noite de insônia e de saudade
a angustia invadiu meu coração.
Eu senti a maior recordação
dos amores da minha mocidade
lamentei suspirei senti vontade
de beijar a mulher com quem sonhei
mas sem esse direito eu já fiquei
e nem ela possui o mesmo encanto
quem quiser ter saudade do meu tanto
sofra e ame do tanto que eu amei.

Sebastião da Silva:

Quem me fez padecer tanta ilusão
deixou todos meus sonhos destruídos
o murmúrio do adeus nos meus ouvidos
e a tristeza rasgando o coração.
Já tentei esquecer mais foi em vão
só eu sei quantas vezes já chorei
já gastei todos lenços que comprei
ensopados das gotas dos meus prantos
quem quiser ter saudade do meu tanto
sofra e ame do tanto que eu amei.

* * *

Ivanildo Vilanova e Severino Ferreira glosando o mote:

Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Nobel foi o inventor da dinamite
Criador de um prêmio especifico
Deu progresso ao projeto cientifico
Onde a nossa ciência tem limite
Hoje em dia se atende o seu convite
Sem os louros da sua academia
Mas se o Deus que inspirou barra do dia
Não conhece liceu nem faculdade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Severino Ferreira:

Vamos ver quem conhece aonde é
O país dos Assírios e Caldeus
Jafetanis, Fenícios, Cananeus
Descendentes da raça de Noé
E qual foi o motivo que José
Se tornou o esposo de Maria
Ela teve Jesus na estrebaria
E não perdeu o valor da virgindade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Pra ganhar o Nobel só é preciso
Conhecer de sentido e odalinfa
Ser parente da paz, irmão da ninfa
Ser parente do amor, irmão do riso
É tirar oito e meio em improviso
Tirar nove em métrica e harmonia
Nove e meio em repente e teoria
Tirar dez na escola da saudade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Severino Ferreira:

Vamos ver quem possui inteligência
Pra lembrar Tiradentes, o mineiro
Que foi preso no Rio de Janeiro
Por um povo de pouca consciência
Que D. Pedro gritou: “Independência”
Que o mundo esperava e pretendia
Qual o mês, a semana, hora e o dia
Que a princesa assinou a liberdade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Vamos ver quem possui perspectiva
Pra falar sobre monte, terra e gleba
Pra falar sobre a vida de algum peba
Arrancando as raízes da maniva
E a gata que está receptiva
Quer um gato pra sua companhia
Quanto mais ela arranha, morde e mia
Mas o gato ansioso tem vontade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote

O cavalo do vaqueiro
Nas quebradas do sertão.

Quebra galho de aroeira,
De jurema e jiquiri,
Rasga beiço e calumbí,
Mororó e quixabeira.
Quebra-faca e catingueira,
Urtiga braba e pinhão;
Pau-serrote e pau-caixão,
Baraúna e marmeleiro,
O cavalo do vaqueiro
Nas quebradas do sertão.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

São Severino dos Ramos
Enriqueceu com promessa.
Dilma promete e tropeça,
Nós, sem tropeçar, penamos.
E a seca, enquanto esperamos,
Vai minando a região
Que inda aguarda a plantação
Da semente da bonança.
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

* * *

Antonio Piancó Sobrinho glosando o mote:

Só partindo é que se sabe
Como era bom ter ficado.

Parte gente todo dia
Para as capitais do sul
Pensando num mundo azul
Repleto de fantasia
Porém a sua alegria
Termina mal tem chegado
Só o serviço pesado
No mundo inteiro lhe cabe
Só partindo é que se sabe
Como era bom ter ficado.

Passa os dias ressentido
Lamentando o seu pesar
Pensando um dia voltar
Para o seu torrão querido
Com o coração partido
E o peito dilacerado
Chorando, desesperado
Pede a Deus que a dor se acabe
Só partindo é que se sabe
Como era bom ter ficado.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

DOIS POEMAS DE CANCÃO

João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982), foi poeta

* * *

MEU LUGAREJO

Meu recanto pequenino
De planalto e de baixio
Onde eu brincava em menino
Pelos barrancos do rio
Gigantescos braunais,
Meus soberbos taquarais
Cheios de viço e vigor
Belas roseiras nevadas
Diariamente abanadas
Das asas do beija-flor

A terra da catingueira
Criada na penedia
Onde a ave prazenteira
Canta a chegada do dia
Planalto, ribeiro, prado
Onde até o próprio gado
Parece ter mais prazer
Terreno das andorinhas
Onde arrulham mil rolinhas
Quando começa a chover

A borboleta ligeira
Que desce do verde monte
Passa voando maneira
Roçando as águas da fonte
As aragens dos campestres
Pelas florzinhas silvestres
Atravessam sem alarde
Quando o sol se debruça
A Natureza soluça
Nas sombras do véu da tarde

Terreno em que os sabiás
Cantam com mais queixumes
Belas noites de cristais
Cravadas de vaga-lumes
Meus mangueirais magníficos
Por onde os ventos pacíficos
Atravessam mansamente
Verdes matas perfumadas
Nas lindas tardes toldadas
Das cinzas do sol poente

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRE DO REPENTE E UM CORDEL DE PARAIBÊS

João Paraibano:

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Onildo Barbosa:

Quando o dia vai embora
A tarde é quem sente a queixa
O portão da noite abre
A porta do dia fecha
A boca da noite engole
Os restos que o dia deixa.

Zé Saldanha:

Fiz versos bonitos e com estilo
Olhando as belezas do vergel;
Na promissão da terra leite e mel
Vi de perto a estátua de Berilo,
Medi as águas que tem no rio Nilo
Estudei muito tempo o hemisfério,
Dei certinho as lições do isotérmico
Estudei tudo do livro herogramático,
Trabalhei muito tempo de astronáutico
Conhecendo o segredo planisférico.

Sebastião Dias:

Quando o chão está molhado
aparecem coisas boas:
se levantam cogumelos
que as capas parecem broas;
os sapos chocam de ruma;
bordam com cachos de espuma
o cenário das lagoas.

Diniz Vitorino:

Na terra paraibana
foi onde eu pus os meus pés.
Caminhei pintando os lírios
dos majestosos painéis,
que formam telas sedosas
nos aromáticos vergéis.

Vi os dias infantis,
cheguei na adolescência,
cantei olhando pra o céu,
bebendo divina essência
dos frutos que Deus espreme
na taça do inocência.

No tempo da mocidade
fui ídolo dos cantadores;
dos cantadores que foram
meus fãs, admiradores,
e hoje me negam bom-dia
pra magoar minhas dores!

Eu sei que não estou seguro
nesta profissão que estou:
sou ferido sem ferir,
chorando pra festa vou,
sofro, mas só deixo o palco
depois que termina o show.

Siqueira de Amorim:

O chifre pra muita gente
Seja linheiro ou com dobra
Serve para corrimboque
E guarda rapé com sobra
E ainda sendo queimado
Serve para espantar cobra

Se numa casa qualquer
O chifre é dependurado
Serve para trazer fortuna
E pra tirar mau-olhado
Cura também dor de dente
Se for chifre de veado

O chifre sendo linheiro
Lá pras bandas do sertão
Bota-se na prateleira
Da bodega ou no balcão
Para tirar a coragem
Do caboclo valentão

Mas o chifre na cidade
É coisa mais diferente
Serve para fazer palheta
Botões de ceroula e pente
E só não dá muito certo
Sendo na cabeça de gente.

* * *

DICIONÁRIO PARAIBÊS – Vicente de Campos Filho

Todos sabem no Brasil
Que o idioma é português
Assim como lá na França
Todos falam o francês
Por isso, na Paraíba
Falamos PARAIBÊS.

Quem não tem dinheiro é LISO
Quem é rico é ESTRIBADO
NÃO TER COMO CAIR MORTO
É ser LISO E LASCADO
Quem não dá sorte é PÉ FRIO
Quem tem sorte é CAGADO.

Axila é SUVACO
Cisco no olho é ARGUEIRO
Longe é LÁ NA CAIXA PREGO
Matuto é BERADEIRO
O alcoólatra é PINGUÇO
Mas também é CACHACEIRO.

Um mal cheiro é uma CATINGA
Também pode ser INHACA
Na axila é SUVAQUEIRA
Quem fecha um botão ATACA
Quem se vai PEGA O BECO
Quem entra em casa EMBURACA.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MOTES BEM GLOSADOS

Dedé Monteiro, o Papa da Poesia, nascido em setembro de 1949, no sitio Barro Branco, município de Tabira, Pernambuco

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote

Saltei mas de mil cancelas
Na estrada dos desenganos.

Na estrada dos desenganos
Contei mais de mil palhoças,
Pequenas, pobres, singelas,
Passei por mais de mil roças,
Saltei mais de mil cancelas,
Dormi em mais de mil redes,
Saciei mais de mil sedes,
Desmanchei mais de mil planos,
Fiz mais de mil amizades,
Deixei mais de mil saudades,
Na estrada dos desenganos.

Passei por mais de mil cruzes,
Acendi mais de mil velas,
Divisei mais de mil luzes,
Saltei mais de mil cancelas,
Mais de mil vezes chorei,
E o pranto que derramei
Valeu por mais de mil anos…
Desfiz mil sonhos queridos,
Soltei mais de mil gemidos
Na estrada dos desenganos.

Ganhei mil cabelos brancos,
Fiz mais de mil sentinelas,
Venci mais de mil barrancos,
Saltei mais de mil cancelas,
Escutei mil passarinhos,
Pisei mais de mil espinhos,
Padeci por mil ciganos,
Ganhei mais não do que sim,
Deixei mil partes de mim
Na estrada dos desenganos.

* * *

Zé Mariano glosando o mote:

Vejo um quadro pintado de saudade.
Na parede da minha solidão.

Relembrando meus tempos de criança,
Os momentos alegres que passei
Na casinha de barro onde morei,
Muito simples, mas farta de esperança,
O orgulho que tinha a vizinhança
Já me vendo um futuro cidadão,
Quando lembro a ponteira do pião
Enrolando na minha mocidade,
Vejo um quadro pintado de saudade
Na parede da minha solidão.

Se fingir que dos anos me esqueci,
Se por ser vaidoso ou por desgosto,
Sem ter traumas, as rugas do meu rosto
Vão mostrar que de fato envelheci.
Na escola da vida eu consegui
Receber o diploma de ancião,
E na hora da minha conclusão,
No canudo manchado da idade
Vi um quadro pintado de saudade
Na parede da minha solidão.

Ela foi me dizendo que voltava
Eu fiquei aguardando seu regresso
Foi-se um ano, dois anos, sem sucesso
Nem recado, nem carta ela mandava
Quando alguém por capricho perguntava
A esquecesse poeta, sim ou não?
Respondia com a voz do coração
Implorando por sua liberdade
Tenho um quadro pintado de saudade
Na parede da minha solidão.

Pra poder esquecer quem certo dia
Fez morada na sombra do meu peito
Resolvi por em prática meu direito
De viver como um pássaro em harmonia
Dei um laço abraçando a poesia
E depois de tomada a decisão
Coloquei toda a minha inspiração
No lugar de quem era outra metade
E nunca mais vi um quadro de saudade
Na parede da minha solidão.

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