PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

Otacílio Batista Patriota (1923-2003)

* * *

Otacílio Batista

Minha mãe me criou dentro do mar
Com o leite do peito de baleia
Me casei no oceano com a sereia
Que me fez repentista popular
Canto as noites famosas de luar
E linguagem das brisas tropicais
Entre abraços e beijos sensuais
Nos embalos das ondas seculares
Conquistei a rainha mãe dos mares
E o que é que me falta fazer mais?

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Francisco Ferreira

O amor é força bruta
O estrondo do trovão,
Quando ele chega domina
As forças do coração,
É a claridez do relâmpago
Clareando a escuridão.

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Luís Campos

Esse negócio de chifre
É coisa muito comum
Já levei chifre de noite
De manhã e em jejum
O remédio é paciência
Pitu e cinquenta e um.

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Sebastião da Silva

No outono, verão e no inverno
Eu vivi trabalhando no roçado
Aboiando feliz atrás do gado
E vendo mato mudar seu próprio terno
Mas, com ordem do Santo Pai Eterno
Eu comprei a viola, o meu piano,
Nela ganho meu pão cotidiano,
É amiga, divina e predileta,
Obrigado meu Deus por ser poeta
Nos dez pés de martelo alagoano.

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Dimas Batista

Ali na cabana de alguns pescadores
Fitando a beleza do mar, do arrebol,
Bonitas morenas queimadas de sol,
Alegres ouviram cantar meus amores.
O vento soprava com leves rumores,
O pinho a gemer, depois a chorar.
Aquelas morenas à luz do luar
Me davam impressão que fossem sereias,
Alegres, risonhas, sentadas nas areias,
Ouvindo meus versos na beira do mar.

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João Paraibano

Cai a chuva no telhado,
a dona pega e coloca
uma lata na goteira,
onde a água faz barroca:
cada pingo é um baião
que o fundo da lata toca.

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Poeta Anízio

A saudade é sentimento
Que amarga e dá prazer
Mas faz parte do viver
Do amor é o fermento
Se é parte do tormento
Ver as lágrimas derramando
Mesmo triste vou cantando
Não posso ficar fingindo
Saudade é chorar sorrindo
Com o coração chorando.

* * *

Onésimo Maia

Eu sou tão analfabeto,
Que nem sei dizer o tanto;
Vendo um lápis, tenho medo;
Vendo um caderno, me espanto,
Mas, quando um jumento rincha,
Eu penso um poema e canto.

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O CEGO NO CINEMA – José Soares

Um mudo disse a um mouco
Que lembra quando nasceu.
O mouco disse também
Que um aleijado correu.
O cego disse que viu
Quando um defunto morreu.

O mudo, cego e o mouco,
Cada um com seu problema.
Os três então se uniram
Pra resolver o dilema.
E depois se encaminharam
A uma sessão de cinema.

Foram ao cinema Glória
Que não fica muito além,
E quando chegou a vez
Do cego pagar também,
Ele disse: – Eu vou pagar
Com uma nota de cem!

Quando a moça demorou
Para trocar o dinheiro
O cego abriu o bocão
E disse pro companheiro:
– Uma velha parideira
Pare muito mais ligeiro!

Pareciam três babacas
Cego, o mudo e o mouco,
Três figuras impolutas
Dois otários e um baiôco.
Ouvindo a conversa deles
Eu me ri que fiquei rouco.

O cego entrou no cinema
Com uma varinha na mão.
Tentou sentar na poltrona,
Arreganhou-se no chão.
Ficou ali, esperando
A hora da projeção.

O filme, naquele dia,
Era impróprio para 18.
O cego todo metido
Numa jaqueta V-8,
Além de ser malcriado,
Ainda era um cego afoito.

Quando começou o filme,
Ia tudo muito bem.
Mas, um trovão de risada,
Partindo não sei de quem,
Fez o povo dar risada,
E o cego sorrir também.

Vendo a plateia sorrindo,
O cego gritava à toa.
Na cadeira, junto ao cego,
Sentou-se uma mulher boa.
O cego disse: -Gostosa!
Eu adoro uma coroa!

Já na metade do filme,
O cego se levantou,
Procurou uma parede,
Mas a mão escorregou
E alcançou um lugar
Que a coroa não gostou.

A coroa levantou-se
E disse: – Você tá cego?
Ele disse: – Não senhora,
Às vezes eu escorrego.
A madame me desculpe,
De outra vez eu não pego!

A coroa, revoltada,
Foi se sentar lá na frente,
Mas um sujeito tarado
Gritou logo: – Passa o pente!
Essa coroa arrochada
Nem parece que é crente!

Aí, catucaram o cego,
E ele se aborreceu.
Ele disse: – Quem quer a feira?
Na tua mãe mando eu.
Eu já deixei uma dona
Porque cutucava eu!

No filme o mocinho disse:
– O bandido desmaiou!
O cego, em cima da bucha
Gritou bem alto: – Matou!
Que o cego não era cego
Todo mundo acreditou.

Antes do filme acabar,
O mouco gritava: – Ei!
Gostasse muito do filme?
O cego disse: – Gostei!
A emoção foi tão grande
Que eu quase me borrei!

Gosto de filme de pau,
Para me rir com a luta.
Mas, quase meti o braço
Numa nega feia e bruta,
Que me chamou de cego
Comedor de araruta…

Eu nunca perco um filme
Quando me dizem que é bom.
Lá, eu entro até usando
Uma sandália Verlon,
Seja no Art-Palácio,
São Luiz e Trianon…

– Assisto briga de galo,
Jogo dama e dominó,
Vejo corrida no prado,
Depois vou dançar forró.
Jogo também de goleiro,
Mas pego uma bola só…

– O Sport, quando joga,
Eu vou para ver Odilon.
Fui ver o treino do Náutico,
Não tinha jogador bom.
Quando o Santa joga, eu vou
Ver o pique de Ramon!

– Fui a urna gafieira
Apreciar um embalo.
Depois, fui em Ouro Preto
Ver uma briga de galo,
E nunca achei atrevido
Que pisasse no meu calo!

Eu tenho uma namorada,
Só vocês vendo a paixão.
É bonita e carinhosa,
Só me chama tremendão.
Quando me encontro com ela,
É muita chumbregação!

– Quando não estou disposto,
Ela me chama de mole.
Parada, é um mexe-mexe,
Quando anda, um bole-bole.
Se eu reclamo ela diz
Que eu sou miado do fole!

– No dia que quer namorar,
Segura na minha mão
E diz: -Meu ceguinho lindo,
To sentindo um comichão.
Se deite aqui do meu lado,
Vem meu cavalo do cão!

Eu vivo triste porque
Só fiquei sabendo agora
Que ela tem um defeito:
Fuma como uma caipora,
E é tão mal feita de corpo,
Que parece uma albacora…

Também meu amigo-urso
Disse que ouviu falar,
Que ela disse a um doido
Que não queria casar,
Que eu, além de ser cego,
Não sabia namorar…

– Ela só gosta de homem
Que é desplanaviado.
Não liga que seja cego,
Mudo, surdo ou aleijado.
Ta certo que eu sou um cego,
Mas não sou cego safado!

– Disseram também que ela
Está carregando um bucho
De não sei quem, mas criar
Filho de outros é luxo.
Do jeito que a coisa vai,
Não aguento esse repuxo!

– Outro dia, viram ela
No beco da malandragem,
Junto com uma baranga
Que gosta de fuleiragem,
E o ceguinho, aqui, não pode
Carregar essa bagagem.

Os que contaram a estória,
Garantem que não mentiram.
Dois aleijados dançaram,
E dois pobres cegos se viram
Os dois mudos que cantaram
E os dois moucos que ouviram

 

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