Uns ricos e outros pobres Acary e seus doidelos Uns sem ter onde morar Outros morando em castelos Mas, ninguém pode negar Que os doidos do meu lugar São do Brasil os mais belos!
Com eles tenho mil elos De prazer, de gratidão, De alegria genuína, De tanto aperto de mão Em cada doido, um amigo, Em cada doido, um abrigo, Que abriga o meu coração.
Quem ao homem deu o direito À estrada da intolerância Com destino à ignorância No vale do preconceito? Qual livro traz o preceito Dizendo que a pele escura Faz menor a criatura Ante uma pele mais clara? É a estupidez que separa E causa essa fratura.
Pele com outra pintura Independente do tom Não faz do homem um ser bom Se ele não traz a alma pura E lhe faltando a ternura Com qualquer um semelhante Esse homem no instante É simplesmente uma fera Indomável, vil, megera, De espírito horripilante.
Todo homem é apavorante Quando se enxerga melhor, Mais capaz, e bem maior E do ódio é praticante. A humanidade é errante Nessa vida passageira E a ideia verdadeira Prega vivamos em paz No Cosmos somos iguais Não passamos de poeira.
Inspirado por foto do terreiro da casa da Fazenda Carnaubinha, de Jácio Mamede
Para cá dessa porteira Plantei meu resto de vida Fincando meu coração Pondo em minh’alma uma brida Fiz do futuro um mourão Do meu corpo um matulão P’ra guardar qualquer saída.
Tenho aprendido da vida Retendo sempre a lição De não olhar para o mal Jamais lhe dar atenção Ouvindo a voz do que é certo Seguindo sempre de perto Quem tem paz no coração.
Que não devo abrir mão Do bem sempre dividir Cultivando amizades Nunca cansar de servir E jamais me impressionar Pois, se um me faz chorar Nove me fazem sorrir.
A cada dia passando Mais eu tenho consciência Que o mundo vai caminhando Para um quadro de demência: O rico com mais riqueza O pobre com mais pobreza E a “humanidade” em falência.
Escrevi às 06:51h de um hoje triste pela imagem angustiante que acabo de ver na Internet. A foto não diz do seu autor, mas sei captada numa avenida no Rio de Janeiro.
Senhor, tem misericórdia Da nossa brutalidade Da nossa falta de fé Da falta de caridade Da nossa falta de amor Das nossas falhas, Senhor Da nossa pouca bondade.
Da nossa leviandade Da nossa vil ambição Dessa hipocrisia torpe Da falta de compaixão Dos nossos olhos fechados Para os desesperados Nos estendendo uma mão.
Lhes falta a alimentação Sobrando em nossas mesas Se alimentam da fé Faltando em nossa riqueza E nós, pobres, coitados Somos mais necessitados Do que a própria pobreza.
O Brasil foi muito negligente com o vírus, quando continuou com o carnaval.
O mundo já sinalizava o desmantelo.
Foram quatro dias de “alegria” que durarão muito tempo de “tristeza”.
Hoje é quarta-feira de cinzas eterna para muitos.
Agora choram as viúvas De negro fantasiadas Lágrimas inconsoláveis Herança das gargalhadas Pelas ruas e avenidas, Nas negligências geridas Por quatro noites danadas.
Se calaram as batucadas O samba em luto entrará O Mestre Sala, coitado, De triste não dançará E até a Porta-Bandeira Antes tão linda e faceira O estandarte fechará.
E a morte continuará Cuíca e surdo calando A Colombina em prantos Com o Pierrot vai chorando E o pobre do Arlequim Empunhando o tamborim Marcha fúnebre vai tocando.
E Momo antes reinando Por quatro eternos dias Com tanto luxo e riqueza Nas mais lindas fantasias Já vê seu vivo reinado Em tristeza transformado Sem prazer, sem alegrias.
Cante mais de girassóis Das ruas todas andadas Do amor de cem mil cães Por cem mil onças pintadas Fale da anunciação De Inês com seu coração Das tropicanas chupadas.
Quero ouvir das alvoradas Da lua e da solidão Daquele cavalo doido Feito de pau e paixão Boa Viagem, aquarela Da tarde com sua bela Pois, vem chegando o verão.
Me fale da procissão Por qualquer uma senhora Que seja novilha rara De Olinda ou lá de fora Fale de Belle de Jour E seus beijos de uruçu Que o tempo sempre melhora.
Diga sem muita demora Desse seu peito atrevido Encourado, cavalheiro, Andante e destemido Vaqueiro de mil canções Curandeiro de emoções Sentinela do sentido.
Violeiro enternecido Agricultor de poesia Diga “sou Alceu Valença! Mago-cantor da magia Prendendo o tempo no vento Ruminando o sentimento Do amor e da alegria.”
O Coronavírus nos trouxe acesso a números que não tínhamos a mínima ideia.
Criei um mote e o debulhei sob letras inconformadas e sentimentos de pura resignação:
Cada fio perdido de esperança É um dia a menos nesta vida.
Solidão e vergonha certamente São parceiras do pobre flagelado Pelo mundo egoísta abandonado Já não tem mais futuro, só presente. Sem poder respirar decentemente Vai vivendo à margem, sem saída, Traz nos olhos a expressão tão dolorida Tendo a fome constante por herança Cada fio perdido de esperança É um dia a menos nesta vida.
Na ambição que está nos separando Como um ato pensado esse acinte Na tristeza do olhar de um pedinte Vejo os olhos de Deus nos acusando. E embora Ele siga nos amando Precisamos fechar essa ferida Do egoísmo sendo o grande homicida Provocando com a fome essa matança Cada fio perdido de esperança É um dia a menos nesta vida.
Um enterro de anão Pato dormindo em puleiro Freira entrando em puteiro Ateu fazendo oração. Fazer sexo sem tesão Ave alegre não cantar Jumento não relinchar Surdo numa cantoria Palhaço sem alegria E uma garapa azedar.
O sujeito não peidar Depois de uma buchada Gente rica aperreada Pinto em merda não ciscar. Um doido não endoidar Se lhe disserem o apelido Um velho não ter vivido Seus dias de mocidade Mentiroso amar verdade E um poeta não rimar.
Um cantor pra não cantar Um soldado não prender E se o bandido recorrer A Justiça não soltar. Novela pra não passar Sofrimento do mocinho Amor grande sem carinho Pedinte sem ter sacola Futebol sem trave e bola Estrada sem ser caminho.
Batizado sem padrinho Lua cheia sem beleza Cabaré sem safadeza Xique xique sem espinho. Homem rico andar sozinho Um forró sem sanfoneiro Porco limpo num chiqueiro Banguelo roendo osso Girafa sem ter pescoço Compra à vista sem dinheiro.
Um filho de bodegueiro Que não valorize o pai Sofrimento sem ter ai Segundo sem ter primeiro. Vaquejada sem vaqueiro E vaqueiro sem gibão Fogueira sem ter tição Guerrilheiro sem guerrilha E político em Brasília Cheio de boa intenção.
Crente que não seja irmão Escola sem professor UFC sem lutador Jiu-jitsu sem ter chão. Problema sem solução Embolador sem repente Um dentista sem ter dente Pobre sem verme e lombriga Gente falsa sem intriga E careca andar com pente.
Um Natal sem ter presente Uma Páscoa sem coelho Sol se pondo sem vermelho Um sinal sem um carente. Alegria sem contente Um morto que não viveu Rapariga que não deu Em troca de algum tostão O Irã em união Com todo o povo judeu.
Vencedor que não venceu Orquestra sem instrumento Um instante sem momento Um bebo que não bebeu. Injeção que não doeu Trovão sem relampejar Professor não ensinar Mãe sem amor por seu filho Dente de ouro sem brilho Idoso não resmungar.
Gato novo não miar Sertanejo preguiçoso Menino não buliçoso Curandeiro não rezar. Bebo andando não tombar Um bocado sem um tanto Um milagre sem um santo Um inferno sem ter cão Banheiro sem ter sabão E uma sala sem ter canto.
Uma santa sem um manto Um toureiro sem espada Uma rua sem calçada Um choro pra não ser pranto. Ocultismo sem quebranto Pai-de-santo sem terreiro Obra grande sem pedreiro Cinema sem uma tela Um pintor sem aquarela Um açude sem barreiro.
Inverno sem aguaceiro Verão sem nenhum calor Outono com muita flor Primavera sem ter cheiro. Quem viaja ao estrangeiro Não postar fotografia A noite não virar dia Um fogo que não aqueça Prego novo sem cabeça Neve que não seja fria.
Confusão sem arrelia Junto que não seja perto Um besta sem um esperto Um corrupto que sabia. Medo que não arrepia Uma prisão sem bandido Achado sem ser perdido Time bom não ter ataque Carioca sem sotaque Um tiro sem estampido.
Uma ovelha sem balido Vinte e nove em fevereiro Jangada sem jangadeiro Dono de banco falido. Corno depois de traído Não ficar desconfiado Um baiano arretado Não gostar de capoeira E uma mulher chifreira Sem um amigo viado.
Um bebim aterrissado Na porta de uma igreja Repentistas em peleja Sem um verso malcriado. LP todo arranhado Na agulha não enganchar A solidão não criar Uma saudade danada Uma noite enluarada O poeta não inspirar.
Fofoqueira não passar Um boato para frente Lava que não seja quente Fogo alto não queimar. Quem gosta de estudar Ser preguiçoso pra ler Benzedeira não benzer Quem lhe chega adoentado E um brega bem cantado Não fazer alguém sofrer.