JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MEUS DOIDOS

Uns ricos e outros pobres
Acary e seus doidelos
Uns sem ter onde morar
Outros morando em castelos
Mas, ninguém pode negar
Que os doidos do meu lugar
São do Brasil os mais belos!

Com eles tenho mil elos
De prazer, de gratidão,
De alegria genuína,
De tanto aperto de mão
Em cada doido, um amigo,
Em cada doido, um abrigo,
Que abriga o meu coração.

E eu não vivo sem a lembrança deles.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

IRMÃOS DO SOL E DA LUA

Quem ao homem deu o direito
À estrada da intolerância
Com destino à ignorância
No vale do preconceito?
Qual livro traz o preceito
Dizendo que a pele escura
Faz menor a criatura
Ante uma pele mais clara?
É a estupidez que separa
E causa essa fratura.

Pele com outra pintura
Independente do tom
Não faz do homem um ser bom
Se ele não traz a alma pura
E lhe faltando a ternura
Com qualquer um semelhante
Esse homem no instante
É simplesmente uma fera
Indomável, vil, megera,
De espírito horripilante.

Todo homem é apavorante
Quando se enxerga melhor,
Mais capaz, e bem maior
E do ódio é praticante.
A humanidade é errante
Nessa vida passageira
E a ideia verdadeira
Prega vivamos em paz
No Cosmos somos iguais
Não passamos de poeira.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

RAÍZES

Inspirado por foto do terreiro da casa da Fazenda Carnaubinha, de Jácio Mamede

Para cá dessa porteira
Plantei meu resto de vida
Fincando meu coração
Pondo em minh’alma uma brida
Fiz do futuro um mourão
Do meu corpo um matulão
P’ra guardar qualquer saída.

E não saio mais de mim!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

NOVE ME FAZEM SORRIR

Tenho aprendido da vida
Retendo sempre a lição
De não olhar para o mal
Jamais lhe dar atenção
Ouvindo a voz do que é certo
Seguindo sempre de perto
Quem tem paz no coração.

Que não devo abrir mão
Do bem sempre dividir
Cultivando amizades
Nunca cansar de servir
E jamais me impressionar
Pois, se um me faz chorar
Nove me fazem sorrir.

E são a esses que eu devo abraçar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DESIGUALDADE SOCIAL

O jornalista e eu

Ele:

– Vamos falar de afastamento social.

Eu:

– Vamos falar de distanciamento social?

Ele:

– … Pode ser… Mas… Se…

Eu:

– Agora ou esperamos mais dois anos?

Silêncio dele.

Eu:

A cada dia passando
Mais eu tenho consciência
Que o mundo vai caminhando
Para um quadro de demência:
O rico com mais riqueza
O pobre com mais pobreza
E a “humanidade” em falência.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ORAÇÃO

Escrevi às 06:51h de um hoje triste pela imagem angustiante que acabo de ver na Internet. A foto não diz do seu autor, mas sei captada numa avenida no Rio de Janeiro.

Senhor, tem misericórdia
Da nossa brutalidade
Da nossa falta de fé
Da falta de caridade
Da nossa falta de amor
Das nossas falhas, Senhor
Da nossa pouca bondade.

Da nossa leviandade
Da nossa vil ambição
Dessa hipocrisia torpe
Da falta de compaixão
Dos nossos olhos fechados
Para os desesperados
Nos estendendo uma mão.

Lhes falta a alimentação
Sobrando em nossas mesas
Se alimentam da fé
Faltando em nossa riqueza
E nós, pobres, coitados
Somos mais necessitados
Do que a própria pobreza.

Porque nos falta amor. Amor ao próximo.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

REINADO DE TRISTEZA

O Brasil foi muito negligente com o vírus, quando continuou com o carnaval.

O mundo já sinalizava o desmantelo.

Foram quatro dias de “alegria” que durarão muito tempo de “tristeza”.

Hoje é quarta-feira de cinzas eterna para muitos.

Agora choram as viúvas
De negro fantasiadas
Lágrimas inconsoláveis
Herança das gargalhadas
Pelas ruas e avenidas,
Nas negligências geridas
Por quatro noites danadas.

Se calaram as batucadas
O samba em luto entrará
O Mestre Sala, coitado,
De triste não dançará
E até a Porta-Bandeira
Antes tão linda e faceira
O estandarte fechará.

E a morte continuará
Cuíca e surdo calando
A Colombina em prantos
Com o Pierrot vai chorando
E o pobre do Arlequim
Empunhando o tamborim
Marcha fúnebre vai tocando.

E Momo antes reinando
Por quatro eternos dias
Com tanto luxo e riqueza
Nas mais lindas fantasias
Já vê seu vivo reinado
Em tristeza transformado
Sem prazer, sem alegrias.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ALCEU VALENÇA

Cante mais de girassóis
Das ruas todas andadas
Do amor de cem mil cães
Por cem mil onças pintadas
Fale da anunciação
De Inês com seu coração
Das tropicanas chupadas.

Quero ouvir das alvoradas
Da lua e da solidão
Daquele cavalo doido
Feito de pau e paixão
Boa Viagem, aquarela
Da tarde com sua bela
Pois, vem chegando o verão.

Me fale da procissão
Por qualquer uma senhora
Que seja novilha rara
De Olinda ou lá de fora
Fale de Belle de Jour
E seus beijos de uruçu
Que o tempo sempre melhora.

Diga sem muita demora
Desse seu peito atrevido
Encourado, cavalheiro,
Andante e destemido
Vaqueiro de mil canções
Curandeiro de emoções
Sentinela do sentido.

Violeiro enternecido
Agricultor de poesia
Diga “sou Alceu Valença!
Mago-cantor da magia
Prendendo o tempo no vento
Ruminando o sentimento
Do amor e da alegria.”

Depois respire fundo e grite: “Ah, hei! Ah, hei!”

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

INCONFORMISMO

Eu ando revoltado com a fome no mundo.

O Coronavírus nos trouxe acesso a números que não tínhamos a mínima ideia.

Criei um mote e o debulhei sob letras inconformadas e sentimentos de pura resignação:

Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Solidão e vergonha certamente
São parceiras do pobre flagelado
Pelo mundo egoísta abandonado
Já não tem mais futuro, só presente.
Sem poder respirar decentemente
Vai vivendo à margem, sem saída,
Traz nos olhos a expressão tão dolorida
Tendo a fome constante por herança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Na ambição que está nos separando
Como um ato pensado esse acinte
Na tristeza do olhar de um pedinte
Vejo os olhos de Deus nos acusando.
E embora Ele siga nos amando
Precisamos fechar essa ferida
Do egoísmo sendo o grande homicida
Provocando com a fome essa matança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

COISAS DIFÍCEIS DE SE VER

Um enterro de anão
Pato dormindo em puleiro
Freira entrando em puteiro
Ateu fazendo oração.
Fazer sexo sem tesão
Ave alegre não cantar
Jumento não relinchar
Surdo numa cantoria
Palhaço sem alegria
E uma garapa azedar.

O sujeito não peidar
Depois de uma buchada
Gente rica aperreada
Pinto em merda não ciscar.
Um doido não endoidar
Se lhe disserem o apelido
Um velho não ter vivido
Seus dias de mocidade
Mentiroso amar verdade
E um poeta não rimar.

Um cantor pra não cantar
Um soldado não prender
E se o bandido recorrer
A Justiça não soltar.
Novela pra não passar
Sofrimento do mocinho
Amor grande sem carinho
Pedinte sem ter sacola
Futebol sem trave e bola
Estrada sem ser caminho.

Batizado sem padrinho
Lua cheia sem beleza
Cabaré sem safadeza
Xique xique sem espinho.
Homem rico andar sozinho
Um forró sem sanfoneiro
Porco limpo num chiqueiro
Banguelo roendo osso
Girafa sem ter pescoço
Compra à vista sem dinheiro.

Um filho de bodegueiro
Que não valorize o pai
Sofrimento sem ter ai
Segundo sem ter primeiro.
Vaquejada sem vaqueiro
E vaqueiro sem gibão
Fogueira sem ter tição
Guerrilheiro sem guerrilha
E político em Brasília
Cheio de boa intenção.

Crente que não seja irmão
Escola sem professor
UFC sem lutador
Jiu-jitsu sem ter chão.
Problema sem solução
Embolador sem repente
Um dentista sem ter dente
Pobre sem verme e lombriga
Gente falsa sem intriga
E careca andar com pente.

Um Natal sem ter presente
Uma Páscoa sem coelho
Sol se pondo sem vermelho
Um sinal sem um carente.
Alegria sem contente
Um morto que não viveu
Rapariga que não deu
Em troca de algum tostão
O Irã em união
Com todo o povo judeu.

Vencedor que não venceu
Orquestra sem instrumento
Um instante sem momento
Um bebo que não bebeu.
Injeção que não doeu
Trovão sem relampejar
Professor não ensinar
Mãe sem amor por seu filho
Dente de ouro sem brilho
Idoso não resmungar.

Gato novo não miar
Sertanejo preguiçoso
Menino não buliçoso
Curandeiro não rezar.
Bebo andando não tombar
Um bocado sem um tanto
Um milagre sem um santo
Um inferno sem ter cão
Banheiro sem ter sabão
E uma sala sem ter canto.

Uma santa sem um manto
Um toureiro sem espada
Uma rua sem calçada
Um choro pra não ser pranto.
Ocultismo sem quebranto
Pai-de-santo sem terreiro
Obra grande sem pedreiro
Cinema sem uma tela
Um pintor sem aquarela
Um açude sem barreiro.

Inverno sem aguaceiro
Verão sem nenhum calor
Outono com muita flor
Primavera sem ter cheiro.
Quem viaja ao estrangeiro
Não postar fotografia
A noite não virar dia
Um fogo que não aqueça
Prego novo sem cabeça
Neve que não seja fria.

Confusão sem arrelia
Junto que não seja perto
Um besta sem um esperto
Um corrupto que sabia.
Medo que não arrepia
Uma prisão sem bandido
Achado sem ser perdido
Time bom não ter ataque
Carioca sem sotaque
Um tiro sem estampido.

Uma ovelha sem balido
Vinte e nove em fevereiro
Jangada sem jangadeiro
Dono de banco falido.
Corno depois de traído
Não ficar desconfiado
Um baiano arretado
Não gostar de capoeira
E uma mulher chifreira
Sem um amigo viado.

Um bebim aterrissado
Na porta de uma igreja
Repentistas em peleja
Sem um verso malcriado.
LP todo arranhado
Na agulha não enganchar
A solidão não criar
Uma saudade danada
Uma noite enluarada
O poeta não inspirar.

Fofoqueira não passar
Um boato para frente
Lava que não seja quente
Fogo alto não queimar.
Quem gosta de estudar
Ser preguiçoso pra ler
Benzedeira não benzer
Quem lhe chega adoentado
E um brega bem cantado
Não fazer alguém sofrer.