Risquei paredes, areias, papéis Pintando poesia em todos os traços E em cada traço deixei mil abraços Escritos com lápis, canetas, pincéis. A vida deixei nesses meus painéis Buscando encontrar a felicidade Falei de esperança, amor, caridade Ensinei e aprendi sobre tudo um pouco Porém, ao final, me vi como um louco Sem nada entender além da saudade.
Os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito eu.
Eu já cantava na minha quase distante juventude que “aqui embaixo as leis são diferentes”. Eco para o resto daqueles dias, em ondas sonoras captadas das vozes dos meus ídolos. Seus discursos com compassos, tons e sons já contam três décadas e ainda são atuais, embora fora de moda pelos ritmos e rimas, frase feitas e perfeitas, embalando os nossos sonhos naquelas manhãs de esperanças frias e embotadas.
Minha geração – a parte aberta e não “cartilhada” – até hoje parece enxergar inclusive no escuro, de olhos fechados e coração aberto. Sempre foi assim conosco, pois somos marranos da educação artística com musicalidade e aprendemos sobre a vida pelas chibatas sociais contra as quais lutávamos naquelas tardes de liberdade morna e sem a mordacidade em seu estado mais malicioso. Nossos corações sempre aquecidos na corrida pelo que era bom.
Éramos uma multidão siamesa curiosamente saída da liquefação entre o criador e a criatura. Fomos produtos de nós mesmos, guiados pela busca do equilíbrio, da igualdade e, acima de tudo, orientados pelo senso comum presente em todos nós da coisa sendo bem praticada, senão em tudo, no que nos fosse possível fazê-la responsavelmente dentro dos nossos direitos, com amor, fé e determinação.
Daquelas noites de batalhas frias para cá o status quo não mudou tanto assim. Infelizmente as lições repassadas e aprendidas em nossa juventude, hoje são definidas como reacionárias, em um conceito requentado por muitos ouvintes das mesmas coisas ouvidas por nós, parceiros na mesma guerra, porém, eles, desertores dos princípios sociais norteando as nossas brigas antigas, travadas no calor daqueles dias idos.
Assim, uns muitos de quem nós saímos, outros tantos que de nós nasceram, têm hoje olhos abertos na luz do meio dia e, infelizmente, não conseguem enxergar o óbvio.
Embora hoje soframos também porque nos apresentam uma nova possibilidade – não obstante montada sobre alicerces tremendamente pavorosos – vamos sendo insultados por descobrirmos não tardiamente que os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito nós. Já não temos mais razão alguma e o eco dos dias atuais são captados das ondas sonoras saídas dos ensaios elaborados entre quatro paredes de salas ricamente atapetadas, onde artistas de outro círculo fazem marketing e se divertem sozinhos. Nada cantam. Escrevem apenas atos de uma peça histórica temida por seu possível desfecho.
Os ídolos do meu tempo escreviam mais, cantavam melhor e morriam mais cedo.
A juventude deles eternamente em nós, os que ficamos para envelhecer contrariando, ainda, as coisas julgadas medonhas.
A cara, o gosto, o cheiro e o toque de minhas melhores lembranças da Praça Thásia Luanna, no tempo que era apenas Pracinha dos Estudantes, lá no meu Acary do Seridó.
Eu ainda quase um menino, com minhas mãos enfiadas nos chinelos que serviam de baquetas batendo contra o banco de concreto – usado como bateria – no qual sentados, eu e o meu velho e eterno amigo, saudoso e caro, Silvano da Palhoça cantávamos sem a pretensão do sucesso, sem nos preocuparmos com futuro qualquer. Minhas chinelas no compasso de sua mão canhota fazendo vibrar as cordas de nylon do violão de Onavlis, nome artístico usado apenas pelos mais chegados, para tratar com carinho a figura de Pilpano.
Pilpano… Onavlis…
Ambos sendo o mesmo Silvano da Palhoça, risonho, afinado, amigo leal, desprendido do querer possuir e apegado apenas a uma verdade: ser feliz com um violão “embaixo do suvaco esquerdo”, colado ao peito que pulsa, para o som sair mais legal do coração.
“Hoje em sua casa eu não vou mais…”
Hoje tudo é tão diferente. No fundo tudo aquilo passou e aquele tempo, às vezes, é somente “a primeira lágrima” ao final de cada tarde.
Minha meninice é vista apenas nos meus meninos. Que nem tão meninos são mais!
Mudaram a praça, arrancaram os bancos, nos mudamos de cidade…
Cadê Silvano? Onavlis, onde você está? Pilpano? Não lhe vejo mais.
Partiu para tocar naquela praça onde todos nós sentaremos um dia, para cantar por uma eternidade toda.
E eu vou ficando por aqui, vendo-me menino vestido de chinelas nas mãos, ao lado de Silvano da Palhoça, nosso Onavlis, nosso Pilpano.
Duas figuras avistadas pelos olhos da minha saudade cada vez que eu passo ante aquela praça, hoje desfigurada. Duas figuras magras e até feias; porém, ambas belíssimas de felicidade. Dois amigos cantando entre os canteiros pouco cuidados da Pracinha dos Estudantes.
E assim eu sigo, “fecho os olhos e sinto” todas as saudades daqueles dias.
E a vida com todas as suas agruras ainda não me tirou a vontade de querer aquele “gosto de framboesa”; afinal, mesmo não sendo mais tão moço, continuo não sentindo tanta tristeza.
Alegria! Alegria! Cuidemos da vida!
Texto escrito agora mesmo, sob a emoção, após receber em um grupo de WhatsApp um vídeo com a balada A Irmã do Meu Melhor Amigo entre os áudios de outras tantas baladas do grupo Renato e Seus Blue Caps.
Às vezes não quero acreditar que faço parte dessa humanidade tão carente de bom senso. Tanto quanto de solidariedade.
Mas não tenho a presunção de me dizer um espírito evoluído, ou coisa semelhante, na petulância de me achar melhor que outrem.
Apenas não alimento o ideal humano egocentrista se achando melhor que uma flor, ou maior no valor de um inseto; por exemplos.
O mundo parece balançar entre a incerteza da racionalidade e a piegas demonstração de ser emocional.
Quando na verdade tudo é simplesmente um completar de dias em busca do penúltimo estágio da matéria visível: o pó.
A altura e o cumprimento das coisas, das pessoas e até dos sentimentos dizem muita coisa. Mas não falam tudo.
“Um copo” com um bom vinho ao lado de alguém falando sobre arte, independente da sala e da hora, traz mais satisfação que uma subida na Torre Eifell. Pode acreditar que sim.
Daí, se o vinho não está numa taça? Pouca importância tem.
O toque no paladar da bebida e a boa conversa não necessitarão das etiquetas convencionais na apreciação do momento. Tampouco no sabor da companhia.
São essas elucubrações fazendo eu me sentir sendo um ET, pois não vejo a necessidade humana do aparecimento social em suas superficialidades.
Porque a marca da camisa deve ser mais importante que o lugar onde eu irei, ou mais cuidada que as pessoas do encontro?
Devo arrumar a minha alma, vestindo-a com as etiquetas das melhores virtudes e curtir a melhor viagem: segurar na mão de quem eu amo.
Se eu fechar os olhos nesse instante, poderei me ver onde eu quiser estar. Até ao lado de Deus!
Eu tenho quarenta e nove anos de idade. Aos seis comecei a ter contato com o cinema.
Meu Tio Lolô era o porteiro do velho Cine São José, em Acary do Seridó Potiguar, interior de onde Natal está distante duzentos e dez quilômetros.
Nesses quarenta e três anos – de uma quase veneração pela arte de representar – já me vi emocionado ante tantas e tantas cenas que enumerá-las seria impossível.
Seja mesmo com atores desconhecidos no palco de um teatro amador, quiçá no tablado de um circo, na tela pequena das TV’s, ou na telona dos cinemas.
Ou, até, na declamação de uma poesia motivada na simples encenação de quem nasceu com o dom de decorar o belo.
Já chorei muito vendo atores se entregando no mais extraordinário exercício da transformação de um personagem, doando-se à cena com a fome e a sede pela busca da perfeição naquela chamada acima por mim de “a arte de representar”.
Eu poderia citar inúmeras.
Porém, em todas as oportunidades já me dadas de falar após o término da primeira parte da novela Velho Chico, quando cabe dizer uma cena me arrebatando pela capacidade do ator se separar da sua alma própria e assumir inteiramente a identidade do personagem, eu citei a fantástica cena na qual Belmiro dos Anjos encontra as águas do Rio São Francisco.
Que perfeição do ator em sua arte de representar!
A fotografia, o som da Oração de São Francisco tocando por trás do rosto do personagem e a interpretação ímpar do ator Chico Díaz.
Ali, naquela cena, por sua admirável vocação, digo, dele, do ator, por seu extraordinário talento e impecável representação, eu pude perceber todas as agonias do Sertão de todos nós.
Das nossas lutas e anseios, sonhos e esperanças, fé e gratidão.
Para mim, que nada tenho e nada sou, a cena que eu passei a chamar de “o encontro da água” é a mais perfeita interpretação que esses meus olhos sertanejos já puderam assistir até hoje, dentro de toda dramaturgia universal.
Daquela cena nasceram meus versos seguindo abaixo:
BOM CHICO, INESQUECÍVEL BELMIRO
Era um Chico e um Belmiro Dois anjos num homem só Um de verdade, outro não Formando um belo rondó Duas angústias unidas Por duas almas, duas vidas Dois homens que davam dó.
E na garganta um nó Dois espasmos de emoção Olhos de fé e esperança Lábios tremendo, oração Chico em Belmiro encarnado Com as águas admirado Dois em uma gratidão.
Era apenas um Sertão Por eles vivenciado Na saga do anjo Belmiro Por Chico representado Ante um rio de bonança Renovando a esperança De todo um povo cansado.
Partiu seu Hermes Medeiros Pra aboiar no firmamento Juntar gado nas estrelas Nos vales do encantamento Vaqueirando a eternidade Encourado na saudade Tão livre quanto o vento.
Por esse seu chamamento Os céus todos se alegraram Serafins bateram palmas Querubins comemoraram Nas veredas divinais Dos campos celestiais Os santos todos cantaram.
Com a sua chegada.
Vai! Planta um mourão lá no céu, macho bom e arretado, e instala nele uma porteira.
Qualquer dias desses eu abrirei sua tramela.
E espera por nós, bom amigo! Um dia chegaremos por aí também e a prosa continuará no mesmo gosto de sempre.
Ah! E obrigado pelo carinho, pelos conselhos e pelas boas risadas, Seu Hermes.
Inspirado nesta foto, feita pela lente sensível de Chrystian de Saboya
Lá onde o mundo parou Embora haja noite e dia Passa o tempo sem passar No relógio da magia Felicidade é uma bola A vida é só uma escola Ministrando a alegria.
O tempo se faz poesia De versos muito suaves Metrificados em tônicas Como se fossem as chaves Que a liberdade abrirão Para cavarmos o chão Onde varetas são traves.
E os meninos são claves De uma estupenda canção Correm no tempo parado Notas de pura emoção Na música do futebol Depois de um lindo arrebol Com os pés descalços no chão.
Eu rasgo a roupa do corpo Fico nua e enlouquecida Grito coisas desconexas Excomungando a vida Eu fico descabelada Me atiro pela estrada Corro doida e esquecida.
Me chamam “Louca Varrida” Gargalham do meu estado Apontam dedos profanos Não entendem o meu pecado Que foi amar sem poder Desejar e jamais ter O querer do meu amado.
Que quando estava ao meu lado Falava frases ditosas Cantava tantas promessas Sob juras amorosas E eu, coitada, inocente Como fui me tornar crente Em falas tão mentirosas?
Quando a porta fechou e tu partiste E eu fiquei afogada em solidão Ruminando essa tua ingratidão Um punhal com o qual tu me feriste O meu peito era apenas ave triste Sobre um galho de angústia abandonada Sem cantar, sem voar, sem comer nada De tristeza morrendo a toda hora Desde que resolveste e foste embora Na saudade vivendo engaiolada.
Cada cena da gente relembrada Duas águas escorrem em meu rosto Vão salgando os meus lábios de desgosto Vão deixando minha alma ensopada Tu serás pela vida alma penada Que no amor cometeu assassinato Enquanto eu voltarei ao meu recato Pois, perdi pela vida seus encantos E quando eu me cansar de tantos prantos O meu lenço será um pano de prato.
Por que há necessariamente o pensamento e a possibilidade da fuga quando nem sabemos o final da coisa?
Há tantas maneiras de partir sem precisarmos sair do lugar.
Não há cansaço que não passe com um banho, uma lavanda gostosa no corpo, uma cama confortável, uma xícara de chá ou café, e um livro de poesias para ser interpretado.
A janela aberta, ou o ar-condicionado no dezoito.
Viver é fácil.
Ouça mais, fale menos e, se possível, no intervalo de tudo dê vaga em seu pensamento para uma bela canção. A boa música expulsa intenções tolas, tirando a atenção das vontades torpes.
Ora, ora!
Por que essa demasiada necessidade louca de compreender o que existe para não ser entendido?
Eis a presunção humana em sua gênese. O homem nem compreende a si próprio e deseja desvendar os mistérios fora do seu eu.
Viver é fácil.
Implica em estar sempre com frescor no corpo, alma leve, coração em paz, nunca possuir mais que os olhos não possam cobrir e os braços abraçar de uma vez só. Sem almejar o que não se pode segurar nesse abraço.
Viver é fácil.
Envolve buscar tanto o riso quanto o amor em tudo. Isso sim é uma audácia vigorosa na arte de seu feliz.
Jamais esperar para fazer o bem depois, ou gozar apenas amanhã querendo ser dono exclusivo desse prazer.
Emprestar liberdade a tudo, e jamais cobrar a volta dela. Da liberdade.
Prender apenas a respiração quando algo for tão fantasticamente bom para nós, que queiramos eternizar o momento. O instante.
Mas, sempre ciente do amanhã vindo para ser outro dia. Embora mais uma vez seja um hoje. Saiba.
Banhos, perfumes, livros, chás ou café, música e sorrisos.
Um vinho? Quando merecer. Ou havendo a possibilidade de seus lábios beijarem um sorriso.
Isso basta.
Se somados a uma companhia não tratada como propriedade, para gargalhar da nossa gargalhada e podendo ser chamada de amor.