JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Eu tenho quarenta e nove anos de idade. Aos seis comecei a ter contato com o cinema.

Meu Tio Lolô era o porteiro do velho Cine São José, em Acary do Seridó Potiguar, interior de onde Natal está distante duzentos e dez quilômetros.

Nesses quarenta e três anos – de uma quase veneração pela arte de representar – já me vi emocionado ante tantas e tantas cenas que enumerá-las seria impossível.

Seja mesmo com atores desconhecidos no palco de um teatro amador, quiçá no tablado de um circo, na tela pequena das TV’s, ou na telona dos cinemas.

Ou, até, na declamação de uma poesia motivada na simples encenação de quem nasceu com o dom de decorar o belo.

Já chorei muito vendo atores se entregando no mais extraordinário exercício da transformação de um personagem, doando-se à cena com a fome e a sede pela busca da perfeição naquela chamada acima por mim de “a arte de representar”.

Eu poderia citar inúmeras.

Porém, em todas as oportunidades já me dadas de falar após o término da primeira parte da novela Velho Chico, quando cabe dizer uma cena me arrebatando pela capacidade do ator se separar da sua alma própria e assumir inteiramente a identidade do personagem, eu citei a fantástica cena na qual Belmiro dos Anjos encontra as águas do Rio São Francisco.

Que perfeição do ator em sua arte de representar!

A fotografia, o som da Oração de São Francisco tocando por trás do rosto do personagem e a interpretação ímpar do ator Chico Díaz.

Ali, naquela cena, por sua admirável vocação, digo, dele, do ator, por seu extraordinário talento e impecável representação, eu pude perceber todas as agonias do Sertão de todos nós.

Das nossas lutas e anseios, sonhos e esperanças, fé e gratidão.

Para mim, que nada tenho e nada sou, a cena que eu passei a chamar de “o encontro da água” é a mais perfeita interpretação que esses meus olhos sertanejos já puderam assistir até hoje, dentro de toda dramaturgia universal.

Daquela cena nasceram meus versos seguindo abaixo:

BOM CHICO, INESQUECÍVEL BELMIRO

Era um Chico e um Belmiro
Dois anjos num homem só
Um de verdade, outro não
Formando um belo rondó
Duas angústias unidas
Por duas almas, duas vidas
Dois homens que davam dó.

E na garganta um nó
Dois espasmos de emoção
Olhos de fé e esperança
Lábios tremendo, oração
Chico em Belmiro encarnado
Com as águas admirado
Dois em uma gratidão.

Era apenas um Sertão
Por eles vivenciado
Na saga do anjo Belmiro
Por Chico representado
Ante um rio de bonança
Renovando a esperança
De todo um povo cansado.

Da nação sertaneja por suas vivências.

* * *

5 pensou em “O ENCONTRO DA ÁGUA

  1. Amigo, você é um artista nato. Não relembro a cena, mas a forma que você a descreveu eu acredito que assisti, até porque acompanhei 90% dessa novela pelo fato dela ter como tema o Nordeste Brasileiro. Parabéns pela poesia! Um abraço!

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