JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

A cara, o gosto, o cheiro e o toque de minhas melhores lembranças da Praça Thásia Luanna, no tempo que era apenas Pracinha dos Estudantes, lá no meu Acary do Seridó.

Eu ainda quase um menino, com minhas mãos enfiadas nos chinelos que serviam de baquetas batendo contra o banco de concreto – usado como bateria – no qual sentados, eu e o meu velho e eterno amigo, saudoso e caro, Silvano da Palhoça cantávamos sem a pretensão do sucesso, sem nos preocuparmos com futuro qualquer. Minhas chinelas no compasso de sua mão canhota fazendo vibrar as cordas de nylon do violão de Onavlis, nome artístico usado apenas pelos mais chegados, para tratar com carinho a figura de Pilpano.

Pilpano… Onavlis…

Ambos sendo o mesmo Silvano da Palhoça, risonho, afinado, amigo leal, desprendido do querer possuir e apegado apenas a uma verdade: ser feliz com um violão “embaixo do suvaco esquerdo”, colado ao peito que pulsa, para o som sair mais legal do coração.

“Hoje em sua casa eu não vou mais…”

Hoje tudo é tão diferente. No fundo tudo aquilo passou e aquele tempo, às vezes, é somente “a primeira lágrima” ao final de cada tarde.

Minha meninice é vista apenas nos meus meninos. Que nem tão meninos são mais!

Mudaram a praça, arrancaram os bancos, nos mudamos de cidade…

Cadê Silvano? Onavlis, onde você está? Pilpano? Não lhe vejo mais.

Partiu para tocar naquela praça onde todos nós sentaremos um dia, para cantar por uma eternidade toda.

E eu vou ficando por aqui, vendo-me menino vestido de chinelas nas mãos, ao lado de Silvano da Palhoça, nosso Onavlis, nosso Pilpano.

Duas figuras avistadas pelos olhos da minha saudade cada vez que eu passo ante aquela praça, hoje desfigurada. Duas figuras magras e até feias; porém, ambas belíssimas de felicidade. Dois amigos cantando entre os canteiros pouco cuidados da Pracinha dos Estudantes.

E assim eu sigo, “fecho os olhos e sinto” todas as saudades daqueles dias.

E a vida com todas as suas agruras ainda não me tirou a vontade de querer aquele “gosto de framboesa”; afinal, mesmo não sendo mais tão moço, continuo não sentindo tanta tristeza.

Alegria! Alegria! Cuidemos da vida!

Texto escrito agora mesmo, sob a emoção, após receber em um grupo de WhatsApp um vídeo com a balada A Irmã do Meu Melhor Amigo entre os áudios de outras tantas baladas do grupo Renato e Seus Blue Caps.

5 pensou em “BALADAS ENTRE CANTEIROS

  1. “E o poeta se deixar levar por essa magia e um verso vem vindo e vem vindo uma melodia…”. Trecho de uma música chamada O poder da criação, João Nogueira. Dedico a você, nobre poeta.

  2. é sempre inebriante, quase alcoólico deixar-se levar pela “pena” do poeta. Abraço forte e beijão fraterno,poeta dos apóstolos sanchianos.

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