CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DEFUNTO LAVADO

Banco do Brasil, onde trabalharam várias “vítimas” de apelidos. Foto Fritz

Por mais que eu queira não consigo aqui me impor como historiador ou biografista, linhas da literatura que profissionalmente adotei há muitos anos.
Eis que aqui, nesta infame gazeta, sempre recebo gentis comentários; todavia, apenas quando me refiro às “safadezas históricas”. Assim, o jeito é permanecer comentando fatos pitorescos.

APIBA – No BB, já nos anos 50, funcionava a “CIA” – Comissão Interna dos Apelidos”, presidida pelo mais safado dos colegas: João de Deus da Silva Carrapateira, sendo Vice-presidente, Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa, ali conhecido como “Apiba”, que era o apelido do apelido “Capiba”.

CARRAPATEIRA – Alguns apelidos, com o tempo, se tornaram as próprias identidades de suas “vítimas”, de tão expressivos que eram. Um deles aquele destinado a João de Deus.

MANÉ PREGUIÇA – Manuel se tornou conhecido após o episódio de um cochilo em serviço, quando trabalhava à noite, ainda no tempo da II Guerra Mundial. Nunca mais foi referido pelo nome de batismo.

Evoluiu, fez Curso de Teologia e ao diplomar-se foi ao Gerente mostrar o “canudo”. Discretamente, aproveitou para insinuar que se divulgasse, diante de seu novo degrau na vida, que os colegas evitassem a zoeira de chama-lo de “Mané Preguiça”, o que ocorria até nas hostes evangelicais.

PASTOR ALEMÃO – Convocado, João Carrapateira, Presidente da “CIA”, compareceu à Gerência, e ouve de Seu Saul Ildefonso de Azevedo, a sugestão de pelo menos criar um novo apelido, que não fosse tão degradante. Sendo Manuel, Presbítero de sua Igreja, logo se espalhou sua nova identidade: “Pastor Alemão”. Foi pior a emenda, como se diz.

DEFUNTO LAVADO – Era um chefe muito educado e cuidadoso. Parecia ter vivido na atual fase de pandemia. Entrava no prédio com uma pasta de couro, contendo xícara, pires, colherinha, guardanapo, saboneteira, sabonete, toalha e álcool; apetrechos para evitar a contaminação.

Sendo chefão, recebia clientes ilustres, mas evitava apertar a mão. Fazia verdadeira ginástica corporal para se esquivar. Quando não conseguia escapar, após o visitante dar as costas, logo se dirigia – inclusive com a pasta – ao wc, para passar álcool nas mãos.

JECA TATU – Aos mais próximos, “Defunto Lavado” deixou escapar que era desportista. Pertencia ao grupo de elite dos atiradores de certo clube dos Aflitos. Nunca podemos imaginar como se comportava pegando em armas, munição e exercitando a modalidade de Tiro aos Pratos, que é dificílima.

Até hoje não se soube como o infeliz apelido de “Defunto Lavado” chegou até as hostes alvi-rubras. Porém, não vingou.

Sabendo-se que era popular o apelido famoso de “Zezé Rato Podre”, velho remador; sendo “Defunto Lavado” muito magro, de fisionomia pálida, houve novo batismo. No Deticapesca, para a turma da pesada, ele virou “Jeca Tatu”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PUTEIRO FLUTUANTE

Restaurante Flutuante, mais conhecido como “O Puteiro de Arlindo”, monstrengo atracado, ao lado da Ponte Maurício de Nassau, no Recife (Foto do Diário da Noite, 1950)

Em 1953 o Recife ainda era meio bucólico. Mas já se projetava em invenções e inovações de alguns modelos de vida. Os bondes começavam a sentir a concorrência dos primeiros ônibus importados da América: os Super-White Marmon Herington, da Pernambuco Autoviária Ltda.

Depois vieram os elétricos. Surgiu a Sudene, com forte influência no crescimento populacional, gente desprovida de condições, motivando o aparecimento das favelas e ampliando as áreas de prostituição.

Mas a cidade transformar-se-ia em Metrópole do Nordeste. A raparigagem, porém, se ampliou, como nos tempos da II Guerra Mundial. As Zonas se espalharam pelo bairro do Sargento Pina, mas o foco principal permaneceu na área circunvizinha ao porto de mar.

João de Morais Moreira, comerciante muito à frente do seu tempo, teve a singular ideia: criar um restaurante que funcionasse sob as águas do Capibaribe. Um restaurante flutuante.

De certo modo, poderia ser um ponto de atração da mulherada, pois distante da chamada Zona do Meretrício, antes de subir a ponte lá estava a atração chamativa.

Mas Moreira pra economizar, criou um estabelecimento comercial improvisado Praticamente um “arranjo” de carpinteiro “meia boca”. Teve o propósito, subliminar de criar um ponto de atração turística da putaria.

Pretendia aproveitar a grande movimentação da “Zona”, onde a “quengagem” explícita funcionava à todo o vapor pelas adjacências.

O Restaurante Flutuante ficava ancorado no Capibaribe, ao pé da Ponte Maurício de Nassau. Por alguns anos passou a fazer parte do roteiro de atrações da “Zona”. Teve sua sorte menos significativa, mas ficaria, igualmente, na História.

Sua construção não contou com uma arquitetura bem definida. Fora montado num tablado em cima de vários tonéis, possuindo uma parte de cobertura sem teto, como se fosse o terraço de uma embarcação.

Possuía mastros com bandeiras. Tudo encantava o passante. Atraia pela singularidade. O freguês podia jantar rodeado pelas águas do Capibaribe. Era uma emoção! Parecia um vapor atracado num porto do Capibaribe.

Nos primeiros anos notava-se o esmero. Em pequeno palco, apresentava-se o pianista George Baltazar. Mesas alinhadas, com toalhas de linho, funcionários bem trajados, corteses e pratos internacionais. Havia pequena pista de dança.

Anos depois, diante de críticas de ferrenhos historiadores e jornalistas, o Flutuante foi perdendo certa classe e passou a enfrentar problemas, a partir de 1959. Transformara-se, de fato, numa agência de prostituição.

Findado o glamour inicial que as novidades despertam o proprietário não acompanhou o modelo dos primeiros anos. Os clientes foram se afastando, havia a presença de muitas “prostitutas pé de chinelo” fazendo ponto pela redondeza. Tornou-se antro de raparigagem, contravenções e brigas, até que foi interditado.

Sempre que passo por perto da Livraria Ramiro Costa fico a recordar aquele tempo, vendo parte do Flutuante perdida num tempo de certo glamour. Ali, resta apenas um pedaço de piso enterrado no mangue, como se a peça permanecesse, marcando o tempo histórico que representou, na atmosfera boêmia do Recife.

Inegavelmente fora uma ação de pioneirismo de Seu Moreira. Mas, tempos depois, quando negociado por um Araque de Polícia de nome Arlindo, se manteve caindo aos pedaços, funcionando, mesmo interditado pela Prefeitura.

Tornou-se o único puteiro flutuante da região.

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CHANTECLER – CABARÉ DAS ILUSÕES

Um semblante na minha memória (Getty Imagens)

O cabaré Chantecler, situado no antigo bairro boêmio do porto, ficará para sempre na memória dos dançarinos da capital de Pernambuco. Notadamente pelos furos que a gente levava nos Cartões de Frequência, para ter o direito de dançar com belas moças.

Um local de fino trato, onde ninguém se recusava a rodopiar no salão, cujo piso era de taco e bem encerado, tendo Inaldo Vilarim por maestro de ótima orquestra e extraordinário repertório romântico.

Ficou fechado durante mais de 30 anos até que a iniciativa privada resolveu apresentar um projeto para ali construir um shopping. Mas ainda hoje permanece como obra parada. Um esqueleto marcado por alegres lembranças dos anos 40/50.

O Chantecler é apenas um símbolo na paisagem da zona boêmia da cidade. Marca forte saudade nas minhas lembranças de solteirice. Com meu tio Sebastião Carvalho, também bancário, solteirão e boêmio, compareci certa noite para conhecer o ambiente.

Subimos uma escada longa, bem lustrada. Ao chegar, graciosa recepcionista nos cumprimentou entregando um “cartão perfurável”, todo cheio de quadradinhos; coisa que não entendi bem para que servia.

No verso, algumas regras de comportamento. Era a forma de registrar quantas vezes os participantes dançavam, a fim de se proceder à cobrança, ao sair. Exigia-se paletó e gravata e não se podia levar companhia. Havia cerca de 20 moças disponíveis distribuídas nas mesas ainda vazias. Estreiante, comecei a indagar:

– E se faltar dançarinas?

– Eles mandam buscar as melhores damas do Puteiro de Zulmira!…

Prédio do antigo Chantecler, Av. Marques de Olinda, Recife

No balcão, o gerente Maricel, com quem fiz amizade, empunhava um pequenino alicate niquelado, e após cada parada da música, as dançarinas iam ao balcão para ele fazer funcionar o furador de cartões.

Meu companheiro explicou detalhes. Quanto mais dançássemos maior seria a conta, além das bebidas que ingeríssemos. Sentamo-nos para nos ambientar.

Ele pediu um conhaque, bebida forte, ara “ativar os nervos” e eu, um guaraná Fratelli Vita, que era delicioso mas não ativava coisa nenhuma. Estava explicado como seria a minha participação como estreiante, pois ele sabia de tudo, por ser habitué.

As dançarinas postas à disposição, nas mesas enquanto vazias. Eram educadas, bem vestidas e não tinham aparência de prostitutas.Ficavam sentadas em local visível como se fossem “de amostra”. Tudo com muita classe. Após a primeira dose de guaraná, algumas perguntas e respostas, me animei.

– De onde eles trazem tantas moças?

– Do “estabelecimento” de “Mari Good”, de Natal.

A sorte, de imediato me bafejara. Uma delas, bem jovem, alva, nascida na Suíça Pernambucana, me fitou com certo olhar de “seca pimenta”. Não resisti. Fui arrastar os cambitos. Já atuando no jornalismo fiz breve entrevista, sem intimidades.

– Costuma vir de dançar aqui?

– Sim; além de apreciar músicas gosto de ambiente alegre. É um bom emprego. Qual é sua ocupação?

– Sou jornalista iniciante. Foca, como chamamos. Mas estou de folga. Também trabalho num Banco americano, aqui perto.

Decorrido breve tempo, embalado por emocionante tango de Gardel, notei que os metais da orquestra deram uma paradinha, permanecendo na cena apenas os ritmistas e o som do piano dedilhado por Isnar Mariano. Ela me pediu licença e indagou se eu continuaria na pista com ela.

– Claro que sim!

Naquele momento eu já havia resolvido dançar até não poder mais. Só pra não perder a dançarina e ter que pegar outra qualquer, se desejasse dançar. Naquele instante em que se afastou com a maior classe, notei o discreto gingado. Fora à Recepção. Precisava perfurar meu cartão. Cumpriria a norma. Tudo certo.

Fiquei por ali um tempo semelhante a um décimo de átomo. Meio largado, mas disfarçando o temporário abandono. Mais ansioso do que cadela no cio.

No balcão vi o semblante do Meireles, sorridente, atendendo à furação de cartões, apresentados num relance, por cada uma das jovens, que deixavam seus pares, para “faturar”.

Ao retornar, breves palavras reconfortantes e começamos a dançar o maior sucesso de Bienvenido Granda: “Perfume de Gardênia”. Um bolero de lascar. Ai nossos rostos já se encostavam em certa intimidade. E nada de conversa para evitar que o coração fraquejasse. Mas, na verdade, aquele órgão das sensações estava querendo pular do peito.

Nova parada. Novo furinho no cartão. Aí “deu brabo”… Escutei emocionado o canto de: “Palavras de mujer”, sucesso do portenho Gregório Barrios. Não havia quem aguentasse! Eu já sentia certa “paixonite aguda” me tomando as entranhas do coração. “Tava bebido!”.

Continuei dançando. Mais animado do que pinto no cocô. Era a orquestra parando, ela me largando, Meireles faturando e recomeçando aquele exercício suave de deslizar nas nuvens.

Rosto no rosto, roça não roça, aquele frenesi. Mas, àquelas alturas… quando o salão ficou com luz de buate… aí “deu a muléstia!” Pensei em comprometer minha gratificação de Natal do Banco. Valeria a pena deixar que Meireles completasse o cartão, furando “na doida”, como se diz no vulgo.

Meu cartão viraria um bagaço, pensei. Mas nem liguei. Os rostos colados, aquele roçadinho de coxa muito discreto, quase inocente; o bongô dominando o compasso, o sax dolente recordando Agostin Lara, aqueles dois pauzinhos mágicos emoldurando o compasso dos boleros e o bandoneon chorando na rampa…. Quem resistiria?

Mas a “consciência” do meu bolso, o compromisso de manter meu orçamento no limite para aquela noite… tudo ficou contra meus anseios.

Imaginei a desgraceira se eu dançasse mais algumas vezes. Teria que ir-me, pois meu tio já me olhava preocupado, diante daquela visão do “meu pré-namoro” com a dançarina de Garanhuns, cujo nome nunca perguntei.

Ouço, como se uma punhalada emocional em final de festa, um substituto do grande Nelson interpretar: “Fica comigo esta noite”. Foi o mesmo que me empurrar de escada abaixo. Beijei a mão da moça demonstrando que tinha classe, me despedi, paguei os furos do cartão e sai furado.

A madrugada corria para o amanhecer. Fora aquele o meu primeiro contato com a noite num cabaré alinhado. Dancei um bocado. Saí enamorado. No verso do cartão que guardei por bom tempo, havia uma recomendação: “Nossas dançarinas não têm permissão para sair com os clientes”. Foi um tiro mortal!

O que me lembro, além da moça com quem quase me apaixonei, é que meu cartão ficou mais furado do que uma tábua de pirulitos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RESPOSTAS EM CIMA DA BUCHA

A Rua da Guia, local do Cabaré de Zulmira, maior puteiro do Recife

Fico sempre a matutar com a capacidade que algumas pessoas possuem de dar respostas precisas. Durante algum tempo selecionei algumas, num caderno para mais adiante escrever sobre o assunto.

E, novamente, graças ao Ibope que minhas crônicas têm merecido de generosos leitores, volto ao tema que enfoca respostas na bucha, capacidade rara de alguns.

Nos idos de 1940 as famílias ainda tinham direito a ter Secretárias Domésticas, às quais eram conhecidas por “Empregadas”. Mamãe era rigorosa nas admissões e não lhe escapava a entrevista prévia.

Certa feita se apresentou, sem recomendação, uma sacripanta ainda nova, de uns 20 anos mais ou menos. D. Alice já não gostou da cara da sujeita. Descabelada, de chinela de vaqueiro, bico do peito quase à mostra.

Mas mandou-a sentar-se no terraço e soltou os verbos indagativos.

D. Alice – Minha filha, você ainda é moça?

Judite – Olhe dona, já perdi meu cabaço há tempos!

Continuando o “questionário”, que era exigido pra começo de conversa, mamãe entrou de sola, na segunda fase. Já com um pé atrás.

D. Alice – Moça, você já teve gonorreia?

Judite – Que eu me lembre não!…

Mamãe, muito ladina, desejou fazer um exame superficial na “camarada”. Pediu que levantasse um pouco o vestido a fim de verificar as pernas, pois notara que havia sinais de “pereba recolhida”, várias manchas escuras.

Tais lesões indicavam claramente sinais de alguma “4ª. Venérea”, a doença infernal que fizera o Recife ter a fama de se tornar conhecida como: “Recifilis, a Venérea Brasileira”. Lá veio a pergunta-bomba:

D. Alice – E essas manchas, o que são mesmo?…

Edite – Ah, minha dona, os “home diz” que é “medalha de bom comportamento”.

D. Alice – Quem lhe deu tanta “medalha” minha filha?

Edite – Trabalhando como “quenga”, lá em Zulmira.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RESPOSTAS ENGATILHADAS

É interessante observar que algumas pessoas respondem indagações de forma muito rápida. Espirituosamente devolvem as perguntas, via de regra, com respostas que fazem rir. Parece que estão com as soluções engatilhadas.

Quando fui contratado para a Assessoria de Imprensa do Sport Club do Recife, tive acesso a algumas festas particulares, promovidas por rubro-negros memoráveis, dentre eles: Mílton Bivar, Murilo Paraíso, Marcelino Lopes e outros próceres da década de 60.

Por ocasião do relançamento da revista daquele clube, em maio de 1965, Dr. Gilberto Duque de Souza e sua esposa, D. Nelly, comemoraram o primeiro aniversário de sua gestão como Presidente do clube, e discretamente, o fato de sua filha Telma, haver sido escolhida para ilustrar a capa da revista.

A fim de animar a festa, o empresário do cantor Altemar Dutra, acedeu a uma sugestão de Palmeira, levando o artista para o jantar na residência do Presidente.

Nos finalmente, depois das merecidas saudações a Gilberto e sua família, houve uma série de fotografias com o astro. Mas, eis que um oportunista, desses “puxa sacos de carteirinha”, caiu na besteira de improvisar, anunciando que o cantor faria uma apresentação-surpresa.

Altemar, muito educadamente, se desmanchou em desculpas ao casal recepcionista. Justificou que havia ido ali por questão apenas de prestígio, sem saber que teria que cantar. Por aquela razão não havia levado seu instrumento.

Mas o fato teria passado sem maiores consequências, a não ser os lamentos femininos. Após o fiasco, um cidadão, caiu na besteira de provocar uma gafe. Pegou
Altemar pelo braço e soltou umas palavrinhas que foram publicadas nos jornais do dia seguinte:

Manuel – Mas Altemar, por que você não trouxe o violão?!…

Altemar Dutra – Porque meu violão não come nem bebe!…

Dr. Pacífico dos Santos, Juiz de Direito, na década de 1940, usava cabeleira cheia, barba longa, costeletas compridas e bigode. Chega a uma barbearia no Largo da Paz, e ao sentar-se, depara-se com uma novidade. Seu cabeleireiro habitual estava de férias. O dono da firma, entretanto, lhe apresenta Manuel, que lhe oferece um largo “Bom Dia”.

Esquecera o chefe de recomendar que aquele ilustre cavalheiro não gostava de conversa mole, porque utilizava o tempo para ler parte do jornal. E puxando conversa preliminar, disse Manuel:

Barbeiro – Doutor, como quer que corte seu cabelo?

Dr. Pacífico – Quero calado!

Visto de fora, pela ótica da clientela, o Banco do Brasil em 1950 representava uma comunidade de funcionários atenciosos, capazes, zelosos e até sisudos. Contudo, longe da trabalheira do expediente, porém, sempre houve entre aqueles senhores, alegria, camaradagem e bom humor.

Retornando de férias quando viveu sua Lua de Mel na Europa, Antônio Victor Pires de Lima Rebelo, se reapresenta para o expediente e começa a discorrer para os colegas as maravilhas da sua excursão. Deixa, porém, uma intimidade para segredar ao seu Chefe, que naturalmente, merecia a melhor notícia.

Ocorre que o Chefe da Carteira Agrícola, era o Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa – nada menos que o irreverente Capiba – conhecido por suas tiradas incomparáveis. Discretamente, Antônio Victor se abaixa e despeja em seus ouvidos que vivera um sonho, passando por lugares muito românticos. E adiantou que guardara a melhor notícia para ele, fraterno amigo.

Antônio Victor – Desconfio que minha mulher está grávida!…

Capiba – Desconfia de quem?…

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CONTATOS NA QUARENTENA

Imagem: Fotoseasch

Selecionei episódios interessantes que envolvem alguns dos meus amigos, nos quais apresento u’a maneira de sobreviver ao Isolamento Social, através de comunicação quase diária com a “velharia”.

Temos um grupo que independente de outros equipamentos, usam o telefone-fixo para conversar à vontade. Prosas de velhos, claro. Mas, tudo na base da zoeira.

O mais descarado, Luiz Carlos, chegou a comentar com minha senhora que não reparasse os seus telefonemas todos os dias, logo cedo, porque era seu hábito “fiscalizar” se todos os velhotes de sua laia estavam bem durante a quarentena. Imagine!…

Tendo ultrapassado os 70 anos de idade, eles procuram notícias, entre si. No caso, como está meu estado de “deteriorização física”. Da mesma forma procedo com eles, embora em dias alternados.

Por isso achei interessante aqui resumir alguns inícios de tais telefonemas e minhas respostas:

Luiz Carlos – Como você tem andado?

Com as pernas; queria que fosse plantando bananeira?

Marco Aurélio – Quem está falando?

É você, claro; eu estou ouvindo!…

Luiz Felipe – Quais são as noticias?

As que estão na mídia; não está lendo?

Sérgio Loureiro –  Não tenho tirado o pé de casa!

E antes, tirava um pé para andar?

Manoel Zé – Tô feito parturiente: de resguardo; e você?

Tô feito o marido; aguardando a quebra do resguardo.

Jair Trindade – Num tais sentindo alguma coisa ruim?

Medo de usar a rede porque não combina com velho.

Telêmaco – Como estais, Carlos Eduardo?

Tô sentado, escrevendo.

Almiro – Num tais misturando os dias da semana, não?

Tô. Agora todos os meus dias são feriados.

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O ELDORADO NA PONTA DO DEDO

Fui apresentado à cinematografia em 1942, quando contava cerca de seis anos. Meu tio Érico Carlos Dantas de Oliveira preparou uma festa para celebrar o aniversário de minha priminha, Lucy, de idade semelhante à minha.

Tia Mariita e seu marido moravam na Torre e tendo a casa amplo terraço lateral, ali se instalou um cinema improvisado. Os convidados se acomodaram em cadeiras e bancos. A criançada sentada e os adultos de pé. Era grande a expectativa dos pequeninos. E muitas indagações.

Aquele meu saudoso tio, para encantar a esposa, os filhos e seus amiguinhos, alugou uma empresa que rodava filmes nas residências. A meca do cinema se tornou uma atração. Mas, só fui conhecer aquele “mundo encantado” depois de adulto.

Mas voltemos à década de 40, quando ocorreu meu primeiro encontro com a Sétima Arte. Naquele dia mágico de minha infância me identifiquei com uma grande tela, onde surgiram os já famosos artistas: Stan Laurel e Oliver Hard, mais conhecidos como “O Gordo e o Magro”, cuja fama já percorria o mundo. A trilha musical era ouvida por acordes de piano, e sendo o filme ainda mudo, os pequenos espectadores tinham que entender o que se passava através dos gestos. Tempos depois, já pré-adolescente, fiquei habituado a ir todos os domingos ao Cinema Eldorado, situado no Largo da Paz.

No início da década de 50 já se exibiam os filmes legendados nos vários cinemas do Recife. Mas nos incomodava muito porque não raro perdíamos detalhes de uma cena, pois tínhamos que soletrar as famosas “legendas de João Branco”.

Quanta diferença tecnológica! Meus filhos ainda chegaram a ver os filmes em “Terceira Dimensão”, que eram apresentados no Cinema Art Palácio. O progresso deu pulos. Em dias atuais já funcionam várias salas oferecendo exibições em 3D, com óculos especiais.

Meus bisnetos, hoje rapazes, podem obter a visão de imagens cinematográficas apenas dispondo de um smartphone. Que maravilha!

Ao simples manejo dos dedos Logan, Lucas, Set e Isabela Telga, podem dispor de filmes notáveis, por livre escolha a custo insignificante.

Ah!… Como teria sido bom se eu tivesse – na época de infância – o Eldorado na ponta dos dedos!…

Na Calçada da Fama, um super-herói meio fajuto. Marca de um tempo

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O DEDÃO DE DR. BRÁULIO

Na Pensão de D. Berta, no Recife, como em várias outras que funcionavam na Boa Vista, eram acolhidos rapazes que vinham do interior de Pernambuco e estados vizinhos para fazer cursos superiores no Recife.

Eram hóspedes, entre outros, nomes que se fizeram notáveis na cena pernambucana. Capiba, Carnera e Ariano Suassuna, que estudavam Direito; João, Marcos e Bráulio Baraúna, cursavam Medicina.

Grande galhofeiro, Carnera sempre zoava dizendo que Bráulio não seria bem sucedido na especialidade de proctologia dado ao avantajado tamanho de seu dedo indicador.

Bráulio diplomou-se e Instalou seu consultório, tornando-se renomado na especialidade. Mas, à boca pequena, se tornou conhecido como o “Terror do Edf. Ouro Branco”, em face das conversas que ouviam pelos corredores e no elevador.

Quando havia alguma questão mal resolvida entre eles, o adversário soltava o impropério; que representava uma praga infernal:

– Que um dia o satanás te dê uma hemorroida tratada por Dr. Bráulio!…

Certa feita fui acompanhar um parente que fizera cirurgia de hemorroida. À medida que as pessoas iam saindo do gabinete e passavam pela Sala de Espera observávamos que as fisionomias estavam carregadas de sofrimento. Como se todas esperassem um sacrifício.

Naqueles anos da década de 50 se medicava os pacientes pôs-operados de hemorroida, com a aplicação de nitrato de prata. Um medicamento terrível. Ardia que só pimenta, quando entrava no ânus, segundo os pacientes.

A temida caixinha do remédio e os bastões que eram introduzidos nos ânus

Na sala de espera, todos estavam circunspectos, calados e apavorados. Era o estágio mais tenebroso da cura das hemorroidas: a aplicação do nitrato de prata. Era muito incômodo: o cirurgião enfiava o dedo indicador levando ao ânus um pouco de pomada e em seguida empurrava o bastão medicinal. Para alguns, algo desmoralizante.

Observei que havia um senhor moreno, bem forte, que estava inquieto e trêmulo, com quem fiz certa camaradagem, mas fiquei surpreso quando ele se dirigiu a um dos pacientes que deixara o gabinete do médico.

– Amigo, perdoe a pergunta, mas… ardeu muito?…

De tão sofrido, o infeliz balançou a cabeça afirmativamente, ainda com os olhos lacrimejando.

Naquele momento Abílio me disse que estava quase “cagando fino”, de tanto medo. E ainda lhe incomodava a “dor moral” de levar dedo no fiofó. Foi mais além, na confidência. Falou-me que quando saia de casa, “operação” que fez na maior moita, evitando que o assunto de sua cirurgia não viesse cair nos ouvidos da vizinhança, deu-se a merda.

Ao entrar no táxi, apareceu um conhecido, aposentado, daqueles velhotes chatos, que lhe indagou por que estava mancando, ao que Abílio informou ter sido uma má jogada no basquete; um adversário deu uma cotovelada seu ovo.

A Sala de Espera foi se esvaziando. Chegada sua vez, o afro-nordestino mudou de cor. Entrou quase empurrado pela esposa. Lá dentro, demorou um bocado a conversa preliminar com o médico, a fim de acalmar o homem, que transfigurado, tinha os olhos fixos na mão do médico; principalmente no “dedão” direito, segundo me disse a enfermeira.

Depois se ouviu um silêncio aterrador, o que me fez imaginar seu sofrimento suportando o “dedão” do Dr. Bráulio, sem um único gemido. Ao sair e vê-lo suando mais do que tampa de chaleira, fui eu quem indagou muito discretamente:

– Seu Abílio, ardeu mesmo como pimenta?

– Ardeu que só a bexiga; mas suportei porque sou macho!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NO PÉ DO CIPA

No segundo prédio à esquerda ocorreu o fato. Na foto vemos o edifício-sede do Moinho Recife, o Banco do Brasil, os edifícios São Paulo, Socorel, Bandepe, Banco Nacional, o cabaré Chanteclair e a cúpula da Concatedral da Madre de Deus. Foto de Fritz Simons.

Cenário: Elevador lotado.: 22 pessoas. Todos calados e sérios. Fase braba do Regime Militar: 1968. Local: Edf. Capiba, sede do Banco do Brasil. Dentre os muitos passageiros alguns funcionários, dentre eles, as moças Marise e Gerusa, ambas Sonografistas. Estrelas do nosso tema.

Época dos “Gatilhos Salariais”, sistema implantado pelo governo para proteger os trabalhadores contra a inflação.. Era comum os acréscimos mensais de 20 a 30%. A boataria dos reajustes comia no centro. Era um frenesi.

Enaldo Guimarães, ascensorista sempre alegre, anunciou: “Fique no 2!…” Adaptara ele a um jargão que se firmara porque um locutor da Tv Jornal do Commércio recomendava aos ouvintes permanecerem no Canal 2, da emissora de F. Pessoa de Queiroz.

Ao abrir-se a porta do elevador, surge a Sonografista Gerusa. Nessa época o elemento masculino ainda predominava entre o funcionalismo.

Parado o elevador, uma pergunta se ouviu da moça que esperava o ascensor:

– Marise, tem um boato aí que vamos receber 25% este mês!

Logo a resposta imprevisível, que nos deixou estupefatos:

– É boato! Só acredito quando o dinheiro estiver no “pé do cipa”!

E para dar mais teatralidade à afirmativa, Marise bateu com a mão, duas vezes, na região situada entre a pélvis e a coxa. Local anunciado como: “O Pé do Cipa”. O ditado é praxe na linguagem dos menos cuidadosos, quando definem que alguma coisa “está no papo” ou no bolso. Logo, entenda-se que o “pé do cipa” é o mesmo que “coisa garantida”.

Os homens se entreolharam horrorizados com o diálogo e a encenação de u’a moça de tão fino trato e elegância.

O caso se desdobrou. Breno Maciel, sendo um chefe cuidadoso e colega fiel, fez chegar ao pai de Marise, sua preocupação pela expressão vulgar usada por sua filha, que inocentemente a pronunciou, sugerindo orientá-la a respeito. Foi grande o constrangimento, mas fora uma atitude educativa.

O “rolo” subiu no mesmo dia para a Gerência Geral. Manso e cordial Dulcídio foi solicitar ao Gerente Agenor Mendes a transferência de sua filha para outro setor Alegou que na Cobrança trabalhavam muitos rapazes e nem todos rezavam pela cartilha da educação, soltando palavrões, à toda hora, indistintamente. E narrou o fato que acontecera.

O gestor ouviu com muito respeito a narrativa de um pai ainda trêmulo e logo telefonou solicitando que o chefe da CACEX subisse para falar com ele. Jarbas Loureiro foi à Gerência. Depois de ouvir o grave problema da moça permanecer no setor de Cobrança, o Gerente indagou se ele poderia acomodá-la na Carteira de Comércio Exterior.

Jarbas, engatilhou o “sinal vermelho”:

– Agenor, aceitaremos a moça com muita honra mas certo constrangimento, porque fica a ressalva: na CACEX o vocabulário corrente é de “fela da puta” pra cima!…

Marise foi trabalhar no Gabinete Médico. Fechou-se a cortina!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

OPERAÇÃO CHEVROLET

Na década de 40, quando eu contava uns 12 anos, lembro-me da maior astúcia em que já participei em toda a época de menino. Tudo isso pela estratégia de um dos meus camaradinhas da época – Floriano – que sendo o mais velho e inteligente da cambada, arquitetou uma “jogada” para ganhar um automóvel.

A General Motors do Brasil havia empreendido uma campanha em jornais e na Rádio Clube de Pernambuco, (a única existente no Recife), para lançar um novo modelo de carro. O anúncio aparecera nos jornais com o importante título promocional e na rádio o locutor Abílio de Castro dava ênfase, com seu vozeirão, renovando-se várias vezes por dia uma gravação:

Ganhe um Chevrolet 1947, tipo luxo, de graça!!!…

Lembro-me que o locutor dava ênfase espetacular à necessidade de se comprar um sabonete maravilhoso e já ter a possibilidade de sair da loja com a esperança de se tornar dono de um carro.

Os compradores do “Sabonete Lifebuoy” poderiam ser sorteados através de uma chave que estava dentro de um daqueles produtos. E já se falava que alguém, lá no Amazonas, havia ganho um deles, cuja chave fora encontrada quando o sabonete fora cortado ao meio por um dos sabidões da família.

Nessa época, a título de economia, mamãe costumava comprar uma barra de “sabão-amarelo” para lavar roupas, e cortava uns quadradinhos para a gente lavar as mãos. Sabonete, em nossa casa era artigo de luxo e só usávamos para banhos.

Inteligente, Floriano caiu em campo. Era um dos meus amiguinhos, residentes na Vila dos Remédios. Recrutou os meninos mais tolos – dentre eles – o besta que escreve estas notas.

Imaginou a formação de uma espécie de “força-tarefa”, para uma ação coordenada. Criou uma estratégia, cena quase teatral. Nas antigas “Lojas Brasileiras”, ele compraria um único sabonete e ficaria entretendo a moça do Caixa, enquanto a gente em ação procurava os “Lifebuoy” nas prateleiras.

De nossas mães, quase todas costureiras, surrupiamos agulhas, por empréstimo não autorizado. Chegando às Lojas Brasileiras, no Largo da Paz, Floriano retirou um dos sabonetes, já furado, e foi para o Caixa. Pagou e ficou distraindo a moça com alguma conversa fiada.

A jovem ficou desconfiada com tanta prosa e por haver notado que o sabonete comprado estava com três furinhos, no papel do embrulho, mas Floriano soltou a lábia.

Enquanto isto estava em curso a “Operação Chevrolet”: a proeza de enfiar, em um por um, as agulhas nos sabonetes que estavam na prateleira, para ver se encontrávamos alguma “chave da sorte”. Alguns sabonetes foram caindo pelo chão, dado à pressa com que os furos eram feitos e nosso medo de ser flagrados na “Operação”.

Infelizmente um dos funcionários alertou seu chefe e fomos levados à Gerência, tremendo que só varas verdes. O líder da “operação” foi “convidado” a ir, com o funcionário, buscar D. Lola, sua mãe, que acabou sendo a “sorteada” sim, mas para quebrar o galho, pagando a conta do estrago.

Compareceu aflita, coitada, diante da possibilidade de um vexame. Seu filho poderia ter ido bater na Delegacia, que era bem pertinho da loja. A senhora teve que comprar 26 sabonetes furados. Floriano aguentou o tranco. Deve ter tomado aquele castigo, mas não denunciou ninguém.

Todos escaparam ilesos. Todavia, na semana seguinte a “Operação Chevrolet” vazou e mamãe indagou de dedo em riste:

– Ô Carlos Eduardo, você estava metido naquela história do sabonete?

– Que sabonete, mamãe?

– Da chave do carro?

– Que carro, mamãe?!…

Ela desconversou e entendeu que eu estava mais por fora do que cinturão soldado. E com o subterfúgio, escapei de boa surra.