CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Um semblante na minha memória (Getty Imagens)

O cabaré Chantecler, situado no antigo bairro boêmio do porto, ficará para sempre na memória dos dançarinos da capital de Pernambuco. Notadamente pelos furos que a gente levava nos Cartões de Frequência, para ter o direito de dançar com belas moças.

Um local de fino trato, onde ninguém se recusava a rodopiar no salão, cujo piso era de taco e bem encerado, tendo Inaldo Vilarim por maestro de ótima orquestra e extraordinário repertório romântico.

Ficou fechado durante mais de 30 anos até que a iniciativa privada resolveu apresentar um projeto para ali construir um shopping. Mas ainda hoje permanece como obra parada. Um esqueleto marcado por alegres lembranças dos anos 40/50.

O Chantecler é apenas um símbolo na paisagem da zona boêmia da cidade. Marca forte saudade nas minhas lembranças de solteirice. Com meu tio Sebastião Carvalho, também bancário, solteirão e boêmio, compareci certa noite para conhecer o ambiente.

Subimos uma escada longa, bem lustrada. Ao chegar, graciosa recepcionista nos cumprimentou entregando um “cartão perfurável”, todo cheio de quadradinhos; coisa que não entendi bem para que servia.

No verso, algumas regras de comportamento. Era a forma de registrar quantas vezes os participantes dançavam, a fim de se proceder à cobrança, ao sair. Exigia-se paletó e gravata e não se podia levar companhia. Havia cerca de 20 moças disponíveis distribuídas nas mesas ainda vazias. Estreiante, comecei a indagar:

– E se faltar dançarinas?

– Eles mandam buscar as melhores damas do Puteiro de Zulmira!…

Prédio do antigo Chantecler, Av. Marques de Olinda, Recife

No balcão, o gerente Maricel, com quem fiz amizade, empunhava um pequenino alicate niquelado, e após cada parada da música, as dançarinas iam ao balcão para ele fazer funcionar o furador de cartões.

Meu companheiro explicou detalhes. Quanto mais dançássemos maior seria a conta, além das bebidas que ingeríssemos. Sentamo-nos para nos ambientar.

Ele pediu um conhaque, bebida forte, ara “ativar os nervos” e eu, um guaraná Fratelli Vita, que era delicioso mas não ativava coisa nenhuma. Estava explicado como seria a minha participação como estreiante, pois ele sabia de tudo, por ser habitué.

As dançarinas postas à disposição, nas mesas enquanto vazias. Eram educadas, bem vestidas e não tinham aparência de prostitutas.Ficavam sentadas em local visível como se fossem “de amostra”. Tudo com muita classe. Após a primeira dose de guaraná, algumas perguntas e respostas, me animei.

– De onde eles trazem tantas moças?

– Do “estabelecimento” de “Mari Good”, de Natal.

A sorte, de imediato me bafejara. Uma delas, bem jovem, alva, nascida na Suíça Pernambucana, me fitou com certo olhar de “seca pimenta”. Não resisti. Fui arrastar os cambitos. Já atuando no jornalismo fiz breve entrevista, sem intimidades.

– Costuma vir de dançar aqui?

– Sim; além de apreciar músicas gosto de ambiente alegre. É um bom emprego. Qual é sua ocupação?

– Sou jornalista iniciante. Foca, como chamamos. Mas estou de folga. Também trabalho num Banco americano, aqui perto.

Decorrido breve tempo, embalado por emocionante tango de Gardel, notei que os metais da orquestra deram uma paradinha, permanecendo na cena apenas os ritmistas e o som do piano dedilhado por Isnar Mariano. Ela me pediu licença e indagou se eu continuaria na pista com ela.

– Claro que sim!

Naquele momento eu já havia resolvido dançar até não poder mais. Só pra não perder a dançarina e ter que pegar outra qualquer, se desejasse dançar. Naquele instante em que se afastou com a maior classe, notei o discreto gingado. Fora à Recepção. Precisava perfurar meu cartão. Cumpriria a norma. Tudo certo.

Fiquei por ali um tempo semelhante a um décimo de átomo. Meio largado, mas disfarçando o temporário abandono. Mais ansioso do que cadela no cio.

No balcão vi o semblante do Meireles, sorridente, atendendo à furação de cartões, apresentados num relance, por cada uma das jovens, que deixavam seus pares, para “faturar”.

Ao retornar, breves palavras reconfortantes e começamos a dançar o maior sucesso de Bienvenido Granda: “Perfume de Gardênia”. Um bolero de lascar. Ai nossos rostos já se encostavam em certa intimidade. E nada de conversa para evitar que o coração fraquejasse. Mas, na verdade, aquele órgão das sensações estava querendo pular do peito.

Nova parada. Novo furinho no cartão. Aí “deu brabo”… Escutei emocionado o canto de: “Palavras de mujer”, sucesso do portenho Gregório Barrios. Não havia quem aguentasse! Eu já sentia certa “paixonite aguda” me tomando as entranhas do coração. “Tava bebido!”.

Continuei dançando. Mais animado do que pinto no cocô. Era a orquestra parando, ela me largando, Meireles faturando e recomeçando aquele exercício suave de deslizar nas nuvens.

Rosto no rosto, roça não roça, aquele frenesi. Mas, àquelas alturas… quando o salão ficou com luz de buate… aí “deu a muléstia!” Pensei em comprometer minha gratificação de Natal do Banco. Valeria a pena deixar que Meireles completasse o cartão, furando “na doida”, como se diz no vulgo.

Meu cartão viraria um bagaço, pensei. Mas nem liguei. Os rostos colados, aquele roçadinho de coxa muito discreto, quase inocente; o bongô dominando o compasso, o sax dolente recordando Agostin Lara, aqueles dois pauzinhos mágicos emoldurando o compasso dos boleros e o bandoneon chorando na rampa…. Quem resistiria?

Mas a “consciência” do meu bolso, o compromisso de manter meu orçamento no limite para aquela noite… tudo ficou contra meus anseios.

Imaginei a desgraceira se eu dançasse mais algumas vezes. Teria que ir-me, pois meu tio já me olhava preocupado, diante daquela visão do “meu pré-namoro” com a dançarina de Garanhuns, cujo nome nunca perguntei.

Ouço, como se uma punhalada emocional em final de festa, um substituto do grande Nelson interpretar: “Fica comigo esta noite”. Foi o mesmo que me empurrar de escada abaixo. Beijei a mão da moça demonstrando que tinha classe, me despedi, paguei os furos do cartão e sai furado.

A madrugada corria para o amanhecer. Fora aquele o meu primeiro contato com a noite num cabaré alinhado. Dancei um bocado. Saí enamorado. No verso do cartão que guardei por bom tempo, havia uma recomendação: “Nossas dançarinas não têm permissão para sair com os clientes”. Foi um tiro mortal!

O que me lembro, além da moça com quem quase me apaixonei, é que meu cartão ficou mais furado do que uma tábua de pirulitos.

22 pensou em “CHANTECLER – CABARÉ DAS ILUSÕES

  1. Uau…..!!!!!

    Rindo muito ………

    Parece que as histórias do “Chantecler” se assemelham muito as histórias do “Dancing Avenidas” aqui em SP.

    Lembranças de meu cartão, furado “na Doida” e o rombo no meu orçamento que meu irmão de parcerias Carlos ( Nene), teve muita tempo de conversa com seu Argemiro da portaria para que entendesse a paixonite de um estreante e liberasse minha saída, empenhando seu relógio “Mondaine”, com a promessa de completar o pagamento no dia seguinte……

    Que história para se lembrar ……… Rindo muito …….

    Grandes lembranças ….. obrigado por acionar este botão da minha juventude ……

    • Mestre, Ocê “percisava” escrevinhá isso para me encher de nostalgia e recordações?.
      Brigaduuuuuu (como diria Fábio Jr), por acionar este botão da juventude em Atrhur e Sancho.
      Deixei muito frete no decote de tais raparigas. Grandes tempos, belíssimas recordações.
      Señor Carlos Eduardo o que mais gosto em seus textos é que me levam ao passado, muito em conformidade às minhas andanças pelo Brasil em meu velho caminhão. Um beijo em seu coração.
      Até sempre!

    • Só tivemos um tiquinho de classe, depois dessa época, nos clubes fechados do Recife: o Internacional e o Português, além dos “fechados”: Cabanga, AABB e Country. Mas no Chanteclér a classe era indiscutível, Grato por sua leitura e comentário.

  2. Arthur, por ter o nome de meu pai já merece aplausos. Fico feliz em haver despertado suas lembranças e comparar nossas culturas. Hoje os cabarés perderam a classe do “Quitandinha”, de Petrópolis, onde somente fui depois que fechou, mas ficava aberto para turistas apreciarem o interior do prédio. Cabaré meso só nas novelas bem cuidadas. Agora, quer ver um cabaré da mais explícita sacanagem se arvore ao direito de ver uma parte do “BBB”. Meu tio costumava dizer que não gostava de ir às danças de clubes porque ia tirar as moças pra dançar e elas “cortavam” (certamente cortavam as ideias dos cavalheiros) e no Chantecler nenhuma dançarina recusava um cavalheiro. Gato por sua leitura e comentário. Esta é nossa remuneração: as lidas e comentadas peças que escrevemos.

    • Noooossa …!!! …. Coincidências ….. !!!!

      Pois meu pai era do Pina no Recife e seu nome era Henrique do A Tavares dos Santos, grande dançarino e grande jogador de sinuca ……..

      Minha mãe diz que meu nome foi homenagem ao obstreta que acompanhou meu parto, que parece ter sido muito, muito difícil…….

      Abraço fraterno….

      • Arthur, sobre esse tema, vou escrever em breve. Meu velho era muito ladino e como fui a primeira barriga de D. Alice, ela começou a fazer uma lista de nomes para escolher o meu. Aí, supondo que ela poderia querer eternizar algum namorado, fez um trato: se for homem eu boto o nome e se for mulher você pode batizar. Assim deixei de ser Luiz Edmundo para me tornar Carlos Eduardo. Né foda?!…

        • Nãããão …… errado …!!!

          Tenho um irmão médico, em Maceió, muito muito querido, que tem o nome de Carlos ,

          portanto “… Carlos, por ter o nome de meu irmão já merece aplausos….”.

  3. ô Carlão
    Essa loira da suiça pernambucana (Garanhuns) pode ter sido minha irmã mais velha. Ela tinha uma pinta no rosto? É que por essa época ela foi passar uns dias no Recife e voltou dizendo que dançou à vontade por lá. E ai comeu ou não?

  4. Como toda Secretária de Puteiro”, nunca dizem seus nomes de fato nem onde nasceram. Mas lhe Garanto – não é ´porque v. é meu amigo, mas Garanhuns nunca foi terra de puta. Pelo contrário, ali se enrraisaram desde os Van der Linden pra cima. Gente que veio de Olanda e Alemanha. Não comi, mas desejei. Lá em “Zulmira”, um “brebôte onde se arrumava mulé”,que tinha no Pina, havia uma sujeita de nome Zefinha, que veio de Arcoverde, que me disse – ao ser indagada sobre a profissão – que era “Secretária de Puteiro”. Pode?

    • Claro que pode …. !!!!
      Se era uma das secretárias, quem era a chefa …… ????
      rsrsrsrsrsrsrsrs……

      PS: Coincidência ….. !!!!
      Tive uma Zefinha na minha infância, aia de mamae em Viçosa – AL, que veio com ela pra São Paulo e ajudou mamae a nos criar …. Uma negrinha arretada que nos deu muitos momentos de felicidade pura e um SARAPATEL inesquecível …..

      Mas ela não foi pra Recife NÃO, tá legal …!!!!! …… rsrsrsrsrsrs ……

      Acompanhei sua vida até o fim, em sua casa, junto com seus filhos, netos e bisnetos em São Caetano do SUL – SP

      Lindas lembranças ela nos deixou, de uma infância inocente e feliz ……

      • Você é inimitável! Abri os dentes de satisfação comigo mesmo.
        Escrever bonito e “humorisadamente” é coisa pra poucos. Você tem esse dom. Por isso dever-se-ia chamar: Dom Arthur.

  5. No meu tempo não era essa facilidade de hoje em dia! Coisa mais difícil era arrumar uma namorada que aceitasse ao menos uma pegadinha (tanto em nós, quanto nelas). Fazer o quê? O negócio era se aliviar na zona mesmo! Na minha terra tinha um cabaré chamado “Maria pouco-dança”! Fui várias vezes e nunca me ocorreu o motivo do tal apelido. Um dia desses, conversando com meu irmão mais velho, mestre e doutor nas putarias zonísticas, tocamos no assunto e ele me esclareceu: Quando algum frequentador novato ia convidar a dona Maria para dançar, ela negava dizendo: “Eu pouco danço!”. Daí veio a alcunha e o nome da casa! Ao lembrar da dona Maria entendi o “pouco-dança”. Tratava-se de uma matrona de meia idade, branquela e com mais de uma dez arrobas de peso!

    • Caro Sérgio,
      O melhor de escrever é constatar que outras pessoas comentam nossos temas. Tenho muita satisfação em constatar que leitores distintos, como você, fazem comentários que afinam com nossos pensamentos, despertando momentos vividos.
      O negócio – como você bem o disse – era se aliviar na Zona mesmo.
      Todavia, deixei de enfocar que a auto-satisfação, a celebérrima punheta, também funcionava sobretudo o sistema era fartamente executado por quem não tinha uma granazinha ou não queria se arriscar a pegar uma Quarta Venéria”.
      Vou retornar ao assunto, porque deu bom IBOPE.Grato por sua atenção.

  6. Mestre, Ocê “percisava” escrevinhá isso para me encher de nostalgia e recordações?.
    Brigaduuuuuu (como diria Fábio Jr), por acionar este botão da juventude em Atrhur e Sancho.
    Deixei muito frete no decote de tais raparigas. Grandes tempos, belíssimas recordações.
    Señor Carlos Eduardo o que mais gosto em seus textos é que me levam ao passado, muito em conformidade às minhas andanças pelo Brasil em meu velho caminhão. Um beijo em seu coração.
    Até sempre!

  7. Como diria Roberto Carlos: “ São Tantas as emoções…O importante é que emoções eu vivi…” Pois é, o brilhante texto me emocionou retrocedendo o tempo para a década de sessenta, quando vivi momentos idênticos nos “cabarés” de minha pequena Juiz de Fora – Minas Gerais. Só não tinham cartões para marcação de danças, mas tinham orquestras ou conjuntos musicais. Era outro tipo de vida, bons e saudosos tempos! JBF

    • Que maravilha! Que texto esplêndido! Eu nunca vi, nem vi uma cena dessas, mas me teletransporto e vivo de uma forma intensa, como se lá estivesse e fosse uma daquelas dançarinas..

    • Deco amigo, mais uma vez agradecido por sua leitura. Fico feliz em haver acionado o disjuntor dos seus tempos juvenis.

      Teria sido melhor que a bola do mundo tivesse mesmo dado uma paradinha, para a gente poder descer e ficar lá por aqueles dias.

      A tecnologia é u’a maravilha mas aqueles tempos não passaram, ficaram para sempre em nossas melhores lembranças.

      Vou voltar ao assunto porque seu comentário estimulou meu IBOPE. Um abração, Feliz São João, e tenha cuidado com os Buscapés. Dizem que eles não podem ver um simples rabo de moça, que disparam…Kkkk.

      • Isso aí DECO ….

        Como disse alguém que não me lembro ,,,,,,,

        “…..Cuidado com as comemorações de São João para não conhecer São Pedro mais cedo… “

  8. Silvânia, sua estréia em meu IBOPE provocou um certo frenesi literário.
    Aquelas dançarinas eram, na verdade, personagens importantes na vida de alguns jovens que desejavam dançar.
    Fui um quase “dançarino”! Frequentei muitos clubes sociais do Recife – Náutico, Sport, Internacional, América e até, afoitamente, o Country. Mas havia u’a complicação dos infernos quando a gente se afoitava a tirar as moças para dançar, na década de 50.
    As mesas cheias de jovens aparentemente “dançáveis”, mas todas com os pais; uns véi de cara trancada; e as mães medindo a gente de cima até o sapato, para ver se tinha grana pra terminar namorando com as filhas delas… As mais feias nunca recusavam.Tornavam-se fenômenos nos salões. Era tiro e queda. a gente podia dançar a noite toda…
    Mas, a maioria, as granfinonas… quem se aventurasse a pedir a mão de uma delas para dançar se arriscava ao “corte”.
    Ou seja um “nãozinho” bastante delicado: “Tô cansada”, “Tô esperando meu noivo” e até uma que me disse: “Ah… me desculpe pois tô naqueles dias, não vim pra dançar, só pra ver”… E outras desculpas quase esfarrapadas. O fato é que estavam ali pra “alinhavar” casamentos e não realmente para dançar.
    No Chanteclér, não, nenhuma moça nos “cortava”. A gente dançava até o dinheiro acabar e quando o cartão já estivesse esburacado na totalidade.
    Por isso é que, se Dr. Gilberto Freyre estivesse vivo, – nosso maior antropólogo e sociólogo – pegaria minha deixa, a fim de traçar um panorama social do Recife daqueles anos e dando o crédito de importância às dançarinas do Chantecler. Tô certo ou tamos errados?!…

    • .
      Tá certo, ou melhor, estamos certo …….”Craro”….

      Eu recebi muitas “táubas” das donzelas nos bailes sociais daquela época, mas, e sempre existe um “mas”, no “Avenida Danças” me acabava de dançar com as moiçolas que me permitem hoje ser considerado nos bailes da saudade desta cidade um bom “pé de valsa”

      Cartões esburacados, e salários destruidos a parte, aquele meu prazer de jovem dançarino, me faz curtir e me acabar hoje, sem cartões perfurados, na mesma paixão da dança que ainda me acompanha…………………

      Grandes lembranças …. , grandes histórias, ……..bons tempos ……

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